Capitulo 6 - Sangue, Suor e Terra
A tensão entre as duas era um fio de alta voltagem prestes a arrebentar quando um som gutural e desesperado cortou o ar, vindo dos currais próximos à casa. Não era um mugido comum; era um grito de dor animal que fez Cassidy congelar, os dedos ainda apertando os pulsos de Eleanor.
- Droga! - Cassidy soltou Eleanor bruscamente, a raiva pessoal sendo substituída instantaneamente pelo instinto de sobrevivência do rancho. - É a 704.
Sem dar explicações, ela correu para a porta. Eleanor, massageando os pulsos e ainda com a respiração errática, hesitou por apenas um segundo antes de segui-la. Se Cassidy achava que ela era apenas uma "boneca de plástico", ela estava prestes a ver do que uma mulher que sobreviveu a mais de quarenta anos na indústria cinematográfica era feita quando o caos se instalava.
Lá fora, a lama era uma armadilha. Sob a luz de uma lanterna potente que Cassidy pegara na varanda, Eleanor viu a cena: uma novilha jovem estava caída de lado, presa em uma vala que a enxurrada da tempestade abrira sob a cerca de arame. O animal lutava freneticamente, enterrando-se ainda mais no barro, com uma das patas traseiras presa de forma feia no arame farpado.
- Ela vai quebrar a perna se não parar de lutar! - Cassidy gritou sobre o som do vento que voltava a ganhar força. - Eu preciso levantar a cabeça dela e cortar esse arame, mas não consigo fazer as duas coisas sozinha no meio dessa lama!
Cassidy tentou segurar o animal, mas a novilha, em pânico, deu uma cabeçada que quase jogou a rancheira no chão, jogando alicate longe.
- Me deixe ajudar! - Eleanor gritou, aproximando-se e pegando o alicate do chão, sem se importar com o fato de que suas botas de camurça - e a própria camisa de Cassidy - estavam sendo arruinadas.
- Fique longe, Wilson! Você vai se machucar!
- Cale a boca e me diga o que fazer! - Eleanor ajoelhou-se na lama, a poucos centímetros dos cascos perigosos. - Eu seguro a cabeça. Você corta o arame. Agora!
Cassidy olhou para ela, surpresa pela determinação gélida nos olhos azuis de Eleanor. Não havia hesitação. Eleanor Wilson mergulhou as mãos na lama, segurando a cabeça do animal com uma força que Cassidy não sabia que ela possuía, usando o próprio corpo para acalmar a novilha.
- Shhh... calma, menina... calma - Eleanor sussurrava, a mesma voz aveludada que encantava multidões agora servindo de âncora para um animal moribundo.
Cassidy agiu com precisão cirúrgica. Com um alicate de pressão, ela cortou os fios de arame um a um. Suas mãos trabalhavam rápido, a poucos centímetros das mãos de Eleanor. O cheiro de ferro do sangue do animal misturava-se ao cheiro da terra molhada.
- No três, nós a empurramos para fora da vala - comandou Cassidy. - Um, dois... três!
Com um esforço coordenado que exigiu cada grama de força de ambas, a novilha foi içada para solo firme. O animal ficou de pé, trôpego, olhou para as duas mulheres e, com um mugido baixo, mancou em direção ao abrigo do celeiro.
Eleanor desabou sentada na lama, exausta. Seus cabelos loiros estavam arruinados, o rosto manchado de terra e sangue animal, e as mãos tremiam. Cassidy, também coberta de barro, sentou-se à frente dela. O silêncio que se seguiu não era mais carregado de ódio, mas de uma exaustão compartilhada.
- Você é louca - Cassidy disse, limpando o suor da testa com o dorso da mão limpa. - Ela poderia ter esmagado os seus dedos.
- E você é teimosa demais para admitir que precisava de ajuda - rebateu Eleanor, mas sem a acidez de antes. - Julianne teria desmaiado só de ver a lama. Mas eu não sou a Julianne, Cassidy. Pare de tentar me colocar na caixa que você criou para as "mulheres da cidade".
Cassidy olhou para Eleanor - realmente olhou. Viu a vulnerabilidade misturada à força bruta. Viu a camisa de flanela rasgada no ombro, revelando a pele branca agora marcada pela lama.
- Você tem razão - admitiu Cassidy, a voz baixa. - Eu sinto muito. Eu... eu projetei em você um passado que não é seu.
Ela estendeu a mão para ajudar Eleanor a se levantar. Quando suas mãos se uniram, desta vez não houve luta. O toque era firme, fundamentado na realidade do que acabaram de realizar juntas.
- A propósito - disse Cassidy, enquanto caminhavam de volta para a casa, -, você é péssima em segurar ferramentas. Mas é uma excelente assistente de resgate.
Eleanor soltou uma risada fraca, limpando uma mancha de barro do rosto. - Não se acostume, Thompson. Eu cobro caro por diárias de trabalho pesado.
- Acho que podemos negociar o pagamento - murmurou Cassidy, parando na varanda e puxando Eleanor para perto, a tensão física retornando, mas agora limpa de rancor, purificada pela terra e pelo esforço.
Fim do capítulo
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