Capitulo 5 - O Veneno e a Verdade
Julianne não era mulher de aceitar uma derrota sem antes queimar o campo de batalha. Ela ajustou os óculos escuros sobre o rosto, soltando uma risada curta e anasalada que carregava todo o peso de sua arrogância em Beverly Hills.
- "Assuntos pendentes"? - Julianne repetiu, a voz pingando veneno. - Que tipo de assuntos, Eleanor? Você vai discutir a colheita do feno ou como remover carrapatos do figurino? Olhe para este lugar! É um deserto de lama e decadência. Você é uma estrela de cinema, não uma camponesa em retiro espiritual.
Cassidy deu um passo à frente, os punhos cerrados ao lado do corpo. A paciência que ela cultivara durante anos de isolamento estava a segundos de evaporar.
- Escute aqui, boneca de porcelana - Cassidy sibilou, a voz vibrando com uma fúria contida. - Este "chiqueiro", como você chama, tem mais dignidade em cada palmo de terra do que você em todo esse seu guarda-roupa de seda. Você entra na minha casa, insulta o meu sustento e acha que a sua conta bancária a torna intocável? Aqui não nos importamos com quem você acha que é.
- Oh, por favor! - Julianne revirou os olhos, apontando para o caminhão de Cassidy. - Você fala como se estivesse defendendo um reino. É apenas uma fazenda caindo aos pedaços que precisa do dinheiro da minha esposa para não ir a leilão. Tenha um pouco de consciência da sua posição antes de latir para mim.
Cassidy parou. O insulto sobre suas finanças foi o estopim. Ela olhou para Eleanor, esperando que a esposa colocasse um fim naquilo, mas a atriz parecia paralisada pela sombra do próprio casamento. A falta de reação de Eleanor irritou Cassidy mais do que os absurdos de Julianne.
- Eleanor - Cassidy disse, o tom agora gélido e direcionado à atriz -, se você não tirar essa mulher da minha propriedade em cinco minutos, eu mesma a coloco no carro. E não serei gentil.
- Julianne, chega! - Eleanor finalmente recuperou a voz, mas soou cansada, não autoritária. - Vá para Austin. Agora.
- Vou. Com prazer! - Julianne girou nos calcanhares, os saltos afundando na lama uma última vez antes de entrar no conversível. - Divirtam-se com o cheiro de bosta e a falta de sinal. Quando você cansar de brincar de "mulher do campo", Eleanor, sabe onde me encontrar. No mundo real.
O carro arrancou, jogando uma chuva de lama vermelha para trás. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado pelo som do motor desaparecendo no horizonte.
Cassidy não esperou. Ela subiu os degraus da varanda, passando por Eleanor como se ela fosse invisível, e entrou na casa. Eleanor a seguiu apressadamente.
- Cassidy, espere! Eu sinto muito pelo que ela disse...
- Você sente muito? - Cassidy girou, o rosto vermelho de indignação. - Ela entrou aqui e me tratou como uma serviçal miserável. Ela cuspiu no meu lar! E você ficou lá parada, parecendo uma estátua de cera, deixando que ela falasse como se eu fosse um projeto de caridade seu!
- Eu não queria causar uma cena maior...
- Uma cena? - Cassidy soltou uma risada amarga, aproximando-se de Eleanor com passos pesados. - É isso que importa para você, não é? O roteiro, a imagem, a "não cena". Para você, o meu rancho é uma locação, um cenário de filme. Julianne pode ser uma fútil, mas ela disse o que você pensa, Wilson. No fundo, você também me olha de cima, sentada no seu trono, cheio de Oscars e premiações, sentindo pena da "pobre rancheira" que aceitou as suas câmeras por necessidade.
- Isso não é verdade! - Eleanor gritou de volta, sua própria frustração explodindo. - Eu defendi você! Eu disse que ficaria aqui!
- Você ficou em cima do muro! - rebateu Cassidy, batendo a mão na mesa de madeira. - Você me deixa beijar as suas mãos à luz das velas, mas na luz do dia, na frente da sua esposa, eu volto a ser apenas a dona do rancho que você "ajuda" a sustentar. Eu não preciso do seu dinheiro, Eleanor. E não preciso da sua piedade.
Eleanor sentiu o impacto das palavras. O segredo de Cassidy sobre sua fortuna ainda estava guardado, e a suposição de Eleanor sobre a falência da outra agora agia como um veneno entre elas.
- Você é orgulhosa demais, Cassidy! - Eleanor avançou, ficando a centímetros do rosto da outra. - Eu tentei ser vulnerável com você. Eu contei coisas que ninguém sabe. E você usa isso para me atacar porque a sua insegurança não aguenta uma crítica de uma mulher como a Julianne?
- Minha insegurança? - Cassidy arqueou as sobrancelhas, os olhos castanho-claro faiscando. - Eu sei exatamente quem eu sou e o que eu tenho. O problema aqui é você, Wilson. Você vive uma mentira com aquela mulher há anos e agora quer descontar em mim o fato de que ela tem razão em uma coisa: você não pertence a este lugar. Você é toda plástico. Você é Hollywood. E eu fui uma idiota em achar que havia algo real por baixo dessa maquiagem toda.
Eleanor empurrou o ombro de Cassidy, um gesto de raiva pura que logo se transformou em algo mais. Cassidy segurou os pulsos dela, prendendo-os. A respiração de ambas era curta, pesada, o ódio e a atração se misturando de forma perigosa.
- Saia da minha frente - sibilou Eleanor, as lágrimas de raiva subindo aos olhos.
- Eu estou na minha casa - lembrou Cassidy, a voz agora rouca e baixa, sem soltar os pulsos dela. - E se você acha que eu sou tão pequena assim, por que o seu coração está batendo como se fosse pular do peito agora mesmo?
O impasse era total. A discussão havia alongado as feridas, mas a proximidade física estava prestes a quebrar o que restava da resistência de ambas.
Fim do capítulo
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