Capitulo 4 - Máscaras e Miragens
O amanhecer em Bastrop não trouxe a paz esperada, mas uma revelação crua da violência da noite anterior. O céu era de um azul pálido e lavado, um contraste irônico com o cenário de destruição no solo. Árvores centenárias haviam sido arrancadas como gravetos, cercas de arame farpado estavam retorcidas e o barro vermelho do Texas cobria tudo o que antes era verde.
Eleanor acordou na cama de Cassidy com o som metálico de marteladas ao longe. O quarto cheirava a cedro e à chuva que ainda evaporava da terra quente. Por um momento, ela esqueceu quem era - não havia a pressão do set, o peso de Beverly Hills ou a sombra de Julianne. Havia apenas o calor dos lençóis de algodão pesado.
Quando desceu, encontrou a casa vazia, exceto por um bilhete na mesa da cozinha ao lado de uma garrafa térmica de café fumegante:
"A luz voltou, mas o mundo lá fora quebrou. Preciso ir a Austin resolver uma pendência que o satélite não alcança. Não exploda nada enquanto eu estiver fora. Volto ao pôr do sol. - C."
O que o bilhete não dizia era que a "pendência" era o fechamento da aquisição de uma gigante de tecnologia logística. Enquanto Eleanor pensava que Cassidy estava preocupada com o preço do feno perdido na chuva, Cassidy cruzava a rodovia em seu caminhão, coordenando por viva-voz uma operação de doze milhões de dólares com seus corretores em Austin.
***
O dia para Eleanor foi um exercício de paciência. O set de filmagens estava em ruínas; o diretor, Marcus, andava de um lado para o outro reclamando do seguro, enquanto a equipe tentava salvar o que restara do figurino manchado de lama. Eleanor, curiosamente, não explodiu. Ela passou o dia observando o horizonte, sentindo uma inquietude que não vinha do trabalho, mas da ausência da mulher que a acolhera na noite anterior.
Ao entardecer, o som de um motor potente cortou o silêncio do pátio principal. Eleanor, que estava sentada na varanda da casa de Cassidy, levantou-se com um sorriso involuntário que morreu no instante seguinte.
Um conversível esportivo prateado, absolutamente deslocado naquela paisagem de lama e poeira, estacionou logo atrás do caminhão de Cassidy, que acabara de chegar.
De dentro do conversível, saiu uma mulher que parecia ter sido recortada de uma revista de moda de Milão. Óculos escuros enormes, um conjunto de seda creme e saltos agulha que afundaram imediatamente no barro texano.
- Mas que inferno de lugar é este?! - a voz aguda e familiar de Julianne ecoou pelo pátio.
Cassidy desceu do seu caminhão, batendo a porta com força. Ela estava exausta, o cabelo preso em um nó desfeito e a camisa suada após um dia de reuniões tensas e a vistoria dos estragos nos pastos mais distantes. Ela parou, observando a mulher loira que tentava, sem sucesso, limpar a lama de seu sapato de grife.
- Posso ajudar, madame? Ou você se perdeu no caminho para o shopping? - perguntou Cassidy, a voz carregada de um sarcasmo gélido.
Julianne olhou para Cassidy de cima a baixo. Viu as botas sujas, o jeans gasto e a pele bronzeada demais. Para Julianne, aquela mulher era apenas parte da "decoração rústica" e barata do Texas.
- Quem é você? A caseira? - Julianne bufou, retirando os óculos e olhando para a casa principal, onde Eleanor estava parada na varanda. - Eleanor! Querida! Graças a Deus! Eu vi as notícias sobre a tempestade e decidi que você não podia ficar mais um segundo neste... neste chiqueiro isolado!
Cassidy sentiu o sangue ferver. Ela olhou para Eleanor, buscando um sinal, mas a atriz parecia petrificada, dividida entre o mundo que a definia e a mulher que a descobrira na noite anterior.
- Esta "caseira", como você diz - Eleanor começou descendo as escadas da varanda com uma calma forçada -, é Cassidy Thompson. A dona de tudo o que você está pisando agora, Julianne. Incluindo a paciência que você está prestes a esgotar.
Julianne lançou um olhar de desdém absoluto para Cassidy, ignorando a apresentação. - Tanto faz. Pegue suas coisas, Eleanor. O hotel em Austin tem energia e, mais importante, tem chuveiros que funcionam. Não sei como você suportou ficar hospedada com... - ela gesticulou vagamente para Cassidy - ...isso. A rusticidade tem limites, e o cheiro de cavalo fedorento é um deles.
Cassidy deu um passo à frente, invadindo o espaço de Julianne. A diferença de altura e a intensidade nos olhos castanhos claros de Cassidy fizeram Julianne recuar meio passo, instintivamente.
- O cheiro aqui é de trabalho honesto, boneca - disse Cassidy, o tom de voz perigosamente baixo. - Algo que você claramente não conhece. E se você não quer que o seu carro de luxo precise de um trator para sair daqui, sugiro que mude o tom antes que eu decida que a minha "rusticidade" inclui colocar visitas indesejadas para fora a pontapés.
Julianne riu, uma risada nervosa e arrogante. - Eleanor, você ouviu isso? Ela é primitiva! Vamos embora agora.
Eleanor olhou para Cassidy. Havia um pedido silencioso de desculpas em seus olhos azuis, mas também uma faísca de algo novo. A química entre elas, o segredo daquela noite de vulnerabilidade, pulsava entre as três mulheres como um fio elétrico. Julianne, cega pela própria vaidade, não percebia que o desdém que sentia pela "rancheira" era o que a estava empurrando definitivamente para fora da vida de Eleanor.
- Eu não vou a lugar nenhum, Julianne - disse Eleanor, a voz firme como nunca. - Na verdade, Cassidy e eu temos assuntos pendentes. Por que você não vai para o hotel em Austin? Eu ligo para você... quando eu tiver algo para dizer.
Cassidy permitiu-se um pequeno sorriso vitorioso, enquanto Julianne ficava boquiaberta, olhando da esposa para a rancheira, sem entender que a batalha já estava perdida antes mesmo de ela ter descido do carro.
Fim do capítulo
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