Capitulo 3 - A tempestade próxima
O céu de Bastrop não apenas escureceu; ele desabou sobre o rancho. O que começou como um vento errático e quente, embora constante, transformou-se, em minutos, em um rugido ensurdecedor de trovões que pareciam sacudir as fundações do próprio solo. Quando o primeiro relâmpago cortou o horizonte, a energia do rancho entregou os pontos. Com um estalo seco, o trailer de luxo de Eleanor mergulhou na escuridão, e o silêncio do ar-condicionado foi substituído pelo chicotear furioso da chuva contra as paredes de metal.
- Sra. Wilson? - A voz do assistente lá fora mal vencia o temporal. - O gerador principal explodiu. Não temos previsão de volta e a estrada para a cidade está começando a alagar. A Srta. Thompson disse que... bem, ela disse que seu trailer pode tombar se o vento aumentar. Ela está esperando a senhora na casa principal.
Eleanor soltou um suspiro longo, tateando no escuro até encontrar seu robe de seda. A ideia de aceitar o abrigo de Cassidy era quase tão desconfortável quanto a tempestade, mas a alternativa era ser arrastada pelo vento texano dentro de uma lata de luxo.
A travessia até a varanda da casa de Cassidy foi um borrão de lama, água fria e indignação. Quando Eleanor finalmente cruzou o limiar da porta principal, estava encharcada. O cabelo loiro, antes impecável, colava-se ao pescoço, e o vestido de linho branco agora era uma segunda pele transparente e fria.
- Você demorou. Achei que estivesse esperando um tapete vermelho para cruzar o quintal - a voz de Cassidy veio do fundo da sala, iluminada apenas pelo brilho alaranjado de uma lareira imponente e algumas velas de cera de abelha.
A dona do rancho estava sentada em uma poltrona de couro desgastado, com um copo de uísque em uma mão e um livro antigo na outra. Ela não usava mais o chapéu; o cabelo escuro caía livre sobre os ombros, conferindo-lhe uma suavidade que Eleanor ainda não tinha visto.
- Eu não estava esperando um tapete, Srta. Thompson. Estava esperando um pingo de hospitalidade que não viesse acompanhado de sarcasmo - rebateu Eleanor, abraçando os próprios braços para conter o tremor de frio.
Cassidy levantou-se. No jogo de sombras da sala, ela parecia ainda mais alta, uma presença telúrica que preenchia o espaço. Ela caminhou até Eleanor, parando a uma distância que fazia a atriz prender a respiração.
- Você está tremendo - observou Cassidy. O tom de desafio sumira, substituído por uma observação pragmática, quase cautelosa.
- É o que acontece quando seres humanos normais são expostos a dilúvios.
- Vá para o quarto ao fim do corredor. Tem uma banheira de cobre lá, e a água é aquecida a gás, então ainda deve estar quente. Tem roupas limpas no armário. Use o que precisar.
Eleanor hesitou. O azul de seus olhos encontrou o mel queimado dos de Cassidy. Por um segundo, o som da tempestade lá fora pareceu desaparecer, restando apenas o estalar da lenha na lareira.
- Por que está fazendo isso? - perguntou Eleanor, a voz mais baixa. - Depois de passar o dia todo tentando me expulsar do seu rancho com o olhar?
Cassidy deu um passo para trás, recuperando sua zona de segurança. - Eu não gosto de desperdício, Wilson. E seria um desperdício de talento deixar uma lenda de Hollywood morrer de hipotermia no meu tapete da entrada. Agora vá. O uísque estará esperando quando você voltar.
Meia hora depois, Eleanor retornou à sala. Ela vestia uma camisa de flanela de Cassidy que ficava enorme nela, as mangas dobradas várias vezes, e um par de calças de moletom que ela tivera de ajustar na cintura. Sem maquiagem, com o rosto lavado e a pele brilhando à luz das velas, ela parecia desarmada.
Cassidy estava de pé junto à janela, observando os raios iluminarem o pasto. Ela se virou quando ouviu os passos de Eleanor. O olhar de Cassidy percorreu a atriz, detendo-se na forma como a sua própria camisa moldava o corpo da outra mulher.
- Fica melhor em você do que em mim - admitiu Cassidy, entregando-lhe um copo com um líquido âmbar. - Beba. Vai queimar o frio que sobrou.
Eleanor aceitou o copo, seus dedos roçando os de Cassidy. O toque foi elétrico, um choque que não tinha nada a ver com a rede elétrica caída do rancho. Elas se sentaram em sofás opostos, a barreira do set de filmagens agora substituída por uma intimidade forçada e perigosa.
- Julianne me ligou hoje - disse Eleanor, quebrando o silêncio, o álcool aquecendo sua garganta. - Ou tentou. O sinal caiu antes que ela pudesse começar a reclamar do tédio de Beverly Hills.
- Quem? Perguntou Cassidy.
- Minha esposa - respondeu ela. - Não estamos muito bem atualmente. - Nem sabia porque tinha sentido a necessidade de confessar seus segredos a esta estranha.
Cassidy arqueou uma sobrancelha. - E você? Sente falta dela? Ou das reclamações?
- Senti falta de quando eu não sabia que eram apenas reclamações. Senti falta da ilusão.
- A ilusão é um luxo caro, Eleanor. Eu parei de pagar por ela há muito tempo - Cassidy olhou para o fogo, sua expressão endurecendo por um momento. - Traição ensina você a preferir a verdade nua, por mais feia que ela seja.
Eleanor observou o perfil de Cassidy. Havia tanta força naquela mulher, mas também uma solidão que ela reconhecia como se fosse um espelho.
- No meu mundo, a verdade é o que o público decide que ela é - confessou Eleanor. - Às vezes eu acordo e não sei qual versão de mim mesma devo vestir. Mas aqui... - ela olhou ao redor, para as paredes cheias de livros e as fotografias do rancho - ...aqui parece que nada disso importa.
- Aqui não importa - confirmou Cassidy, voltando os olhos para ela. - Aqui só importa quem você é quando as luzes apagam e o gerador morre. E agora, Eleanor Wilson... quem é você?
O desafio agora era outro. Não era sobre gado ou contratos. Era sobre a vulnerabilidade crua de duas mulheres independentes que, pela primeira vez em anos, não tinham para onde fugir.
A tempestade lá fora parecia rugir em concordância com a eletricidade que preenchia a sala. Eleanor deu um gole longo no uísque, sentindo o calor se espalhar, e permitiu que seus olhos percorressem os detalhes da casa - os móveis de madeira maciça, as estantes carregadas, mas a falta de tecnologia de ponta que ela associava à sua bolha em Los Angeles.
***
Eleanor observou Cassidy com uma ponta de condescendência que costumava reservar para aqueles que ela julgava estar sob sua proteção financeira.
- Eu sei como as coisas estão difíceis para os produtores rurais, Cassidy - começou Eleanor, a voz suavizada por uma falsa empatia. - Não precisa esconder. Eu imaginei que, se você aceitou ter uma equipe de cinema inteira invadindo sua privacidade e destruindo suas cercas, é porque os tempos não estão fáceis. A manutenção de um lugar deste tamanho deve ser um fardo pesado quando as contas não fecham no fim do mês.
Cassidy, que naquele momento pensava na trans*ção de milhões de dólares que autorizara pelo satélite antes da queda do sinal, parou o copo a meio caminho da boca. Ela olhou para Eleanor, notando o tom de "salvadora" na voz da atriz. Um brilho de ironia atravessou seus olhos castanhos.
- É mesmo? - Cassidy deu um meio sorriso de lado, recostando-se na poltrona. - Então a grande Eleanor Wilson acha que é o meu anjo da guarda financeiro? Que o seu contrato de locação é o que vai manter o telhado sobre a minha cabeça neste inverno?
- Não há vergonha nisso - insistiu Eleanor, sentindo-se generosa. - Fico feliz que meu filme possa ajudar a manter o Rancho Double Cross de pé.
Cassidy soltou uma risada curta e seca, deliciando-se com o equívoco. - Bom, se isso faz você dormir melhor no seu trailer de seda, Wilson... quem sou eu para desmentir? Digamos que cada dólar do seu estúdio é muito "bem-vindo" para as minhas pequenas necessidades.
Eleanor assentiu, satisfeita por ter "decifrado" Cassidy, sem perceber que a mulher à sua frente tinha mais liquidez financeira do que o próprio estúdio que produzia o filme.
Um trovão explodiu diretamente sobre a casa, tão violento que as janelas vibraram e uma das velas na mesa de centro tombou, apagando-se. O reflexo de Eleanor foi imediato: um sobressalto que a fez derramar um pouco de uísque na camisa de flanela.
- Droga - sibilou Eleanor, tentando limpar o líquido com os dedos.
Cassidy levantou-se. A ironia de segundos atrás desapareceu, substituída por uma gravidade magnética. Ela caminhou até Eleanor e tirou o copo da mão dela, colocando-o sobre a mesa.
- Deixe isso. É só uísque - disse Cassidy. Sua voz agora era um sussurro rouco que parecia vibrar no peito de Eleanor.
A chuva fustigava o telhado com uma fúria renovada, criando um isolamento absoluto. O mundo lá fora havia deixado de existir; havia apenas o brilho da lareira e a respiração entre as duas. Cassidy estendeu a mão e, com uma lentidão deliberada, afastou uma mecha do cabelo loiro e úmido que caía sobre os olhos de Eleanor.
O toque foi como uma marcação de território. Eleanor sentiu a pele formigar sob os dedos calejados da rancheira. Ela deveria recuar, deveria fazer um comentário ácido sobre limites, mas o azul de seus olhos estava preso no mel queimado de Cassidy.
- Você fala demais, Wilson - murmurou Cassidy, aproximando-se mais, o cheiro de madeira e tempestade invadindo os sentidos da atriz. - Tenta preencher cada silêncio com o seu status, com o seu dinheiro, com as suas suposições...
- E o que você sugere que eu faça? - Eleanor desafiou, embora sua voz tenha saído mais fraca do que pretendia. Sua mão subiu, hesitante, e tocou o antebraço de Cassidy, sentindo os músculos tensos sob a pele quente.
- Sugiro que, por uma noite, você pare de atuar.
Cassidy inclinou a cabeça, os lábios a milímetros dos de Eleanor. A tensão física era um elástico esticado ao limite. Eleanor sentia o calor emanando do corpo de Cassidy, um contraste brutal com o frio que sentira minutos antes. O poder que Eleanor exercia no set, a fama que a protegia em Hollywood, nada disso servia ali. Ela era apenas uma mulher, desarmada, vestindo a camisa de uma estranha que a olhava como se pudesse ver através de todas as suas camadas de veludo e máscara.
Quando a mão de Cassidy deslizou da nuca de Eleanor para a sua cintura, puxando-a para mais perto, a respiração da atriz falhou. O próximo trovão rugiu, mas nenhuma das duas desviou o olhar. A barreira do "nós nos odiamos" estava se transformando em algo muito mais perigoso e inevitável.
O estalo de um raio próximo fez a casa vibrar, mas o impacto real estava no silêncio que se seguiu entre as duas. O beijo era uma promessa suspensa no ar, tão inevitável quanto a chuva, mas quando os lábios de Cassidy roçaram os de Eleanor, algo mudou.
Não foi um recuo físico, mas uma súbita quebra na armadura de Eleanor. Ela soltou um suspiro trêmulo, e a mão que antes segurava o braço de Cassidy com firmeza agora subia para o peito da rancheira, não para puxá-la, mas para se apoiar.
- Eu não consigo... - sussurrou Eleanor, a voz falhando, as lágrimas que ela segurara durante todo o dia de filmagens desastrosas e meses de um casamento falido finalmente transbordando. - Eu não sei quem eu sou sem o barulho, Cassidy. Sem o roteiro. Sem alguém me dizendo como devo agir ou quem devo amar.
Ela baixou a cabeça, escondendo o rosto no ombro da camisa de flanela de Cassidy. A "Lenda de Hollywood" havia desaparecido, restando apenas uma mulher exausta de carregar o peso da própria imagem.
Cassidy parou. O desejo que a impulsionava foi imediatamente substituído por uma compreensão profunda e dolorosa. Ela conhecia aquele vazio; ela o habitava há vinte anos. Com uma delicadeza que contrastava com sua aparência bruta, Cassidy envolveu Eleanor em um abraço protetor, permitindo que a outra chorasse o que não chorava há décadas.
- Você não precisa de um roteiro aqui - murmurou Cassidy, o queixo apoiado no topo da cabeça de Eleanor. - E não precisa ser uma "atriz premiada" para me impressionar. Na verdade, eu prefiro muito mais essa mulher que está aqui, tremendo nos meus braços, do que aquela que desceu da SUV.
Eleanor soltou um riso abafado entre os soluços, ainda sem se afastar. - Eu sou um desastre, não sou? Julianne sempre diz que eu sou emocionalmente inacessível.
- Julianne não parece saber do que está falando - rebateu Cassidy, apertando o abraço. - Você não é inacessível. Só estava sendo guardada por alguém que não sabia onde encontrar a chave.
Elas ficaram ali, imóveis, enquanto a tempestade lá fora atingia o seu ápice. A tensão física não desaparecera, mas transformara-se em algo mais denso: uma conexão de almas que reconheciam as suas próprias cicatrizes.
- E você? Ouvi histórias sobre a sua condição de quase eremita aqui neste rancho. Por que você se isolou tanto, Cassidy? - Eleanor perguntou, finalmente afastando-se o suficiente para olhar nos olhos dela. - O Texas é grande, mas você vive como se este rancho fosse o planeta inteiro.
Cassidy desviou o olhar para a lareira, a expressão endurecendo ligeiramente. - Porque a última vez que eu deixei alguém entrar no meu planeta, ela roubou o oxigênio e fugiu com a minha melhor amiga. Eu decidi que era mais seguro viver onde ninguém pudesse me surpreender. Até você aparecer com as suas coisas de cinema e os seus olhos que parecem ver através de cercas e muros.
Eleanor tocou o rosto de Cassidy, o polegar traçando a linha da sua mandíbula. - Parece que nós duas somos ótimas a construir muros.
- O problema dos muros - disse Cassidy, voltando a focar em Eleanor - é que eles também não nos deixam entrever o horizonte, nos deixam no escuro.
O clima entre elas mudou novamente. A vulnerabilidade latente abrira uma porta que o sarcasmo mantivera trancada. Cassidy não tentou beijá-la novamente, mas segurou a mão de Eleanor, levando-a aos lábios e beijando os nós dos dedos com uma reverência silenciosa.
- A tempestade vai durar a noite toda - disse Cassidy. - Durma na minha cama. Eu fico com o sofá. Você precisa de descanso, Wilson. Não da fama, nem da Atriz. Só da Eleanor.
Eleanor sorriu, um sorriso real, desprovido de qualquer intenção de câmera ou holofotes. - Só se você prometer que não vai me cobrar o aluguel do sofá amanhã.
Cassidy riu, o som rouco e quente preenchendo a sala. - Vou colocar na sua conta, pode deixar.
Fim do capítulo
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