Capitulo 2 - Luz, câmera e... o caos se instala
O terceiro dia de filmagens começou antes do sol vencer a linha do horizonte. Eleanor Wilson já estava na cadeira de maquiagem às quatro da manhã, suportando o calor que já começava a subir enquanto o hair stylist aplicava uma peruca de época pesada e desconfortável.
Ela era famosa por sua pontualidade quase britânica e por decorar não apenas as suas falas, mas as de todo o elenco. Para Eleanor, o set era um templo. Para o Texas, aparentemente, era apenas mais um pasto.
- Onde está o diretor de fotografia? - a voz de Eleanor cortou o ar do trailer como um chicote.
- Ele está... resolvendo um problema com os geradores, Sra. Wilson. Parece que alguns roedores mastigaram os cabos durante a noite - respondeu um assistente de produção, suando profusamente.
Eleanor fechou os olhos, respirando fundo. Dez minutos depois, quando finalmente pisou no set montado perto do curral principal, a situação era ainda pior. O gado de Cassidy, indiferente ao cronograma de uma produção de oitenta milhões de dólares, decidira que o melhor lugar para pastar era exatamente à frente das câmeras.
- Alguém pode tirar esses animais daqui? - gritou o diretor, Marcus, um homem que Eleanor já considerava incompetente após apenas setenta e duas horas de convivência.
- Eles estão no cercado deles, Marcus! - a voz de Cassidy ecoou, vinda de cima de uma cerca de madeira. Ela observava a confusão com uma caneca de café na mão e um divertimento mal disfarçado. - Se vocês montaram o cenário na rota do bebedouro, o erro de continuidade é de vocês, não das vacas.
Eleanor caminhou até o centro do set, o vestido de veludo pesado da personagem arrastando na poeira, levantando uma nuvem que ameaçava arruinar sua maquiagem.
- Marcus, estamos perdendo a hora dourada - disse Eleanor, o tom de voz perigosamente baixo. - Eu não vim para o meio do nada para observar a vida bucólica do gado. Eu vim para filmar.
- El, querida, estamos tentando...
- Tentando não é um verbo que aceito no meu contrato - interrompeu ela.
Nesse momento, um dos geradores tossiu e morreu, levando consigo os monitores e a iluminação de preenchimento. O silêncio que se seguiu foi interrompido apenas pelo mugido baixo de uma novilha. Foi a gota d'água.
Eleanor Wilson, a dama do cinema, a mulher que jantara com reis e rainhas e intimidara os produtores mais poderosos do mundo, sentiu a paciência evaporar sob o sol texano. Ela arrancou os óculos de leitura e olhou ao redor, vendo a equipe perdida e o amadorismo reinante.
- Isso é um insulto - declarou ela, olhando fixamente para o diretor, mas sentindo o peso do olhar de Cassidy sobre si. - Eu estarei no meu trailer. Não me chamem até que este lugar pareça um set de filmagens e menos um acampamento de férias desastroso. E alguém, pelo amor de Deus, tire esse cheiro de esterco do meu raio de alcance!
Ela girou nos calcanhares, mas o terreno irregular pregou-lhe uma peça. O salto do seu sapato de figurino afundou na terra fofa, e ela tropeçou, perdendo a compostura por um segundo eterno antes de recuperar o equilíbrio.
Um riso baixo e rouco veio da direção da cerca. Cassidy saltou para o chão e caminhou até ela, parando a poucos centímetros. O contraste era brutal: Eleanor, uma visão de sofisticação deslocada em veludo e joias de valor; Cassidy, a personificação da terra, cheirando a couro, suor limpo e café.
- O Texas tem um jeito engraçado de derrubar quem se acha grande demais para ele, Sra. Wilson - disse Cassidy, os olhos castanhos claros brilhando com um desafio puro. - Quer um conselho? O esterco faz parte da paisagem. Se não consegue lidar com o cheiro da vida real, talvez devesse ter ficado nos estúdios de Burbank, onde tudo é feito de plástico.
Eleanor sustentou o olhar. A fúria em seu peito era real, mas havia algo mais - uma faísca de adrenalina que o conforto de Beverly Hills não lhe proporcionava há anos.
- Eu lido com a realidade desde antes de você aprender a montar um cavalo, Srta. Thompson. O que eu não lido é com incompetência. Incluindo a sua, em não controlar o seu rebanho.
- O rebanho está em casa. Você é quem é a visita - rebateu Cassidy, dando um passo à frente, invadindo o espaço pessoal da atriz. - Se quiser que as coisas funcionem por aqui, aprenda a pedir em vez de exigir. No meu rancho, o seu Oscar não vale mais do que uma ferradura usada.
Eleanor sentiu o coração bater contra as costelas. Ninguém a enfrentava daquela maneira. Julianne nunca teria coragem; Julianne apenas se amuava. Cassidy, por outro lado, parecia saborear o conflito.
- Marcus! - Eleanor gritou, sem desviar os olhos de Cassidy. - Me dê o roteiro. Vou revisar a cena do jantar. E Srta. Thompson... se eu tiver que tropeçar em mais uma de suas vacas, eu mesma farei o churrasco desta noite.
Cassidy sorriu de verdade pela primeira vez. Um sorriso perigoso, atraente e terrivelmente independente. - Mal posso esperar para ver você tentar, querida.
Fim do capítulo
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