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Mundos invertidos por Natalia S Silva

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Palavras: 7447
Acessos: 258   |  Postado em: 21/03/2026

Capitulo 8

Yelena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como era boa a sensação de vê-la perdida no meu território. Não precisava de palavras para perceber a luta que travava consigo mesma, aquela rigidez ensaiada de agente federal não era suficiente para mascarar o desconforto. Era minha casa, meu espaço, meus cheiros impregnados nas paredes, meus quadros escolhidos com gosto demasiado caro para alguém como ela, que insistia em viver do protocolo. Aqui, eu era quem ditava as regras. Aqui, ela não tinha como se esconder.

 

E eu sabia o mal que tinha causado. Sabia do trauma, dos medos que carregava desde que nossos caminhos se cruzaram pela primeira vez. Mas também sabia, com a mesma convicção, que quando tive aquele corpo à mercê das minhas mãos, não foi apenas um trabalho, não foi somente encenação. Ela me quis. Tanto quanto eu a quis. Talvez mais. Mesmo sabendo que estávamos em lados opostos.

 

Era essa lembrança que queimava dentro de mim agora, enquanto a observava do outro lado da bancada, curvada sobre o laptop, tentando manter a compostura diante da câmera aberta em comunicação com a equipe dela. Eu segurava o copo de whisky como se fosse apenas um adereço qualquer, mas era muito mais: era uma desculpa para não dizer nada, para não fazer nada, para me ocupar com um gesto simples enquanto a via se contorcer de vergonha e raiva pelo fato de eu estar ali, de calça de moletom, apenas de sutiã, o corpo exposto, a pele à mostra, como se nada me afetasse.

 

Ela tentava se concentrar nas palavras dos agentes, mas eu via seus olhos vacilarem. Vez ou outra, fugiam para mim. E eu estava preparada para capturar cada uma dessas fugas. Havia raiva, sim, mas havia desejo também. Uma centelha traiçoeira, impossível de disfarçar.

 

Nós, russos, temos um certo charme, não é? Algo inato, difícil de explicar. O jeito de ocuparmos um espaço, de nos movermos sem pedir permissão, de transformar o ambiente em território conquistado. E eu sabia que ela sentia isso, que lutava contra isso.

 

O tempo corria devagar, como se o relógio tivesse decidido brincar conosco. A tarde avançava, e eu tinha plena certeza de que ela não havia comido nada desde a manhã. Era uma mulher obcecada, sacrificando o corpo e a mente pelo dever, e ainda assim tão humana em sua fome mal disfarçada. Eu mesma já sentia o estômago pedir algo, mas gostava de prolongar o incômodo, era mais uma forma de medir sua resistência, de ver até onde iria antes de ceder.

 

Quando tudo foi confirmado pela equipe, processos ativos, escutas instaladas, protocolos de segurança funcionando, ela finalmente desligou o laptop. O som seco do clique foi como um suspiro de alívio. A sala mergulhou em silêncio por alguns segundos. Eu não disse nada. Apenas a observei.

 

Ela parecia ter um ritual, um desses gestos que revelam mais do que as palavras. Puxou um envelope já amarrotado, abriu-o como se lesse algo sagrado e passou os olhos pelo conteúdo várias vezes. Eu não sabia se era uma ordem, uma informação ou apenas uma desculpa para se agarrar a algo que não fosse o meu olhar sobre ela. Lia e relia, ignorando minha presença, ignorando minha fome, ignorando minha vontade de puxá-la dali e acabar com aquele teatro.

 

 

(Yelena) — Vai me ignorar até morrer de fome, Victoria? — perguntei em voz baixa, provocando de leve, quase cantando a palavra final.

 

 

Ela não respondeu. Fingiu não me ouvir. As sobrancelhas arqueadas, a boca ligeiramente tensa, os olhos fixos naquelas folhas. A concentração dela era uma farsa.

 

E então, como se já estivesse decidido desde o início, ela levantou-se, caminhou até a lareira na sala e, sem hesitar, acendeu um isqueiro e alimentou as chamas com cada uma das folhas. Eu fiquei imóvel, apenas acompanhando. O papel sendo consumido pelo fogo iluminava o rosto dela, criando sombras dançantes, deixando-a ainda mais bela.

 

Que cena deliciosa: Victoria, a agente inquebrável, a mulher rígida de terno, agora de pé diante da lareira, destruindo documentos como se fossem cartas de amor proibidas. O salto ecoava no assoalho de madeira, a saia justa moldava-lhe o corpo com crueldade, a camisa social denunciava sua respiração acelerada. Era o tipo de imagem que se imprimia para sempre.

 

Ela não sabia, mas eu estava saboreando cada detalhe.

 

O som do papel estalando nas chamas, a postura ereta, a forma como mordia levemente o lábio ao observar o fogo. Eu conhecia esse corpo. Conhecia a força e a fragilidade escondida sob aquelas roupas. Conhecia as marcas que eu mesma deixara nele em outra época, em outro campo de batalha, quando ainda éramos inimigas declaradas e, paradoxalmente, amantes secretas e falsas.

 

E ali estava eu, ainda sentada naa bancada, bebendo meu whisky, lembrando de cada vez em que ela havia se arqueado sob minhas mãos, tentando resistir, tentando convencer-se de que tudo não passava de encenação. Mas nós duas sabíamos que era mentira. Ela me quis. Ela ainda me queria.

 

Terminei meu gole de whisky, deixando o líquido quente queimar a garganta. Inclinei a cabeça, avaliando-a como um predador paciente. Ela me excitava apenas por existir assim, diante de mim, tão controlada e ao mesmo tempo tão vulnerável.

 

 

(Yelena) — Que bela cena — comentei, quando o último pedaço de papel virou cinza. — Você, o fogo, essa roupa… Quase parece que foi encenado para mim.

 

 

Ela virou-se, o rosto sério, os olhos ainda ardendo com a luz da lareira. Não respondeu. Apenas me encarou por um instante que pareceu eterno. Eu sorri. Sabia exatamente o que aquele silêncio escondia.

 

Era fome. Não apenas de comida.

 

A tarde seguiu, o silêncio entre nós carregado de eletricidade. Eu queria avançar, queria tomá-la, mas sabia esperar. O desejo é mais forte quando amadurece, quando cresce devagar, quando corrói por dentro antes de explodir. E eu sabia esperar.

 

Enquanto ela se movia pelo apartamento, fingindo procurar algo para se distrair, eu permaneci ali, bebendo mais um gole, deixando o tempo trabalhar a meu favor.

 

Porque no fundo, tanto fazíamos planos, tanto falávamos de disfarces, missões e protocolos, mas havia uma verdade inevitável entre nós duas. E era apenas questão de tempo até que ela se rendesse de novo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A água caía pesada no box do banheiro. Não precisei me aproximar muito para perceber que ela havia trancado a porta. Claro que trancaria. Victoria é previsível nesse tipo de gesto, nesses pequenos rituais que dizem mais do que as palavras. O som do jato batendo no azulejo se espalhava pelo apartamento, abafando qualquer outra coisa, como se o mundo tivesse se reduzido a esse banho clandestino.

 

Sentei-me no sofá com o copo de whisky ainda na mão, observando o reflexo do fogo na lareira e pensando em como cada movimento dela era calculado. Trancar a porta não significava apenas privacidade. Era um aviso para mim: não entre, não ultrapasse a linha, não confunda mais ainda as fronteiras entre nós.

 

Sorri sozinha. Ela ainda acreditava que era capaz de me manter à distância com uma fechadura.

 

O tempo passou devagar. Eu a imaginava ali dentro, tirando cada peça de roupa com aquele rigor que sempre carrega, até no ato mais simples, Victoria é meticulosa. A camisa social dobrada em excesso de zelo, a saia cuidadosamente posta sobre a cadeira, os sapatos alinhados ao lado. Nada nela é largado, nada é entregue ao acaso. No banho, provavelmente fechava os olhos só depois de verificar o trinco duas vezes.

 

E ainda assim, eu sabia. O vapor que começava a escapar por baixo da porta me dizia que, por trás de toda essa disciplina, havia também uma mulher tentando se recompor. Que esfregava o corpo não apenas para limpar-se, mas para apagar marcas invisíveis, o peso de cada olhar meu que a despia antes mesmo da água.

 

Não invadi. Não precisei. Bastava imaginar, o cabelo loiro escorrendo pesado, colado ao pescoço, a pele ficando rósea pelo calor da água, as mãos demorando mais do que deveriam em certas partes, como se quisessem convencer-se de que era apenas asseio.

 

E então veio o silêncio. O som do chuveiro cessou, seguido de passos controlados no piso molhado, o ranger leve do armário, o barulho seco da toalha puxada. Eu já sabia que não sairia vestida de qualquer maneira. Victoria não sabe ser qualquer coisa. Quando a porta finalmente se abriu, e ela surgiu…

 

Ah.

 

Era outra visão.

 

Vestido. Justo o bastante para acentuar suas formas, discreto o suficiente para não parecer um convite descarado. Azul profundo, quase preto sob a luz baixa da sala, decote sóbrio, mas não inócuo. O tecido caía pesado, elegante, moldando-lhe os quadris e a cintura com a mesma precisão que uma lâmina corta seda. O cabelo ainda úmido, preso de modo simples, deixando algumas mechas soltas que enquadravam o rosto. Perfume discreto, daqueles que só quem se aproxima o bastante pode sentir.

 

Eu sorri, genuinamente.

 

 

(Yelena) — Linda — deixei escapar, sem cálculo, sem disfarce. Não era estratégia, não era jogo. Era apenas a constatação de que ela estava magnífica.

 

 

Victoria revirou os olhos, como se quisesse jogar meu elogio no fogo junto com os papéis de antes. Mas não pôde evitar o leve rubor que subiu às maçãs do rosto. Eu vi. Sempre vejo.

 

Levantei-me, estendi a mão, e ela não a aceitou. Não importava. O ponto já estava em sua orelha, funcionando perfeitamente. Ela não sabia, mas isso me divertia: toda essa tecnologia escondida e, ainda assim, nenhum disfarce seria tão eficaz quanto um simples gesto humano.

 

 

(Yelena) — Vamos? — perguntei, pegando as chaves.

 

 

Descemos até a garagem em silêncio. O som dos saltos dela ecoava pelo concreto frio. Meu carro esperava, negro, discreto, mas com motor que ronronava como uma fera pronta para a caçada. Abri a porta para ela. Um gesto antigo, quase cortês, mas feito com a ironia que ela certamente percebeu.

 

No trajeto, foi ela quem primeiro quebrou o silêncio.

 

 

(Vick) — Onde exatamente vamos jantar? — perguntou, tentando parecer indiferente, como se fosse apenas logística.

 

 

Eu respirei fundo, como quem saboreia o momento antes de lançar a verdade.

 

 

(Yelena) — Onde eles estarão — respondi.

 

 

(Vick) — Eles? — os olhos dela fitaram os meus de relance, desconfiados.

 

 

Sorri, sem pressa.

 

 

(Yelena) — Meu pai. A mulherzinha dele. Dimitri, claro. Um restaurante… peculiar. Não se preocupe, é chique o suficiente para combinar com esse vestido. — toquei de leve no volante, mantendo o olhar fixo na estrada. — Mas não se engane: todo mundo lá dentro é criminoso. Todo mundo é perigoso.

 

 

Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Não precisava responder. O jeito como apertou as mãos sobre o colo denunciava a tensão.

 

Estacionei diante do prédio. Fachada imponente, discreta em ostentação, daquelas que não precisam de letreiros brilhantes para anunciar o que são. Mármore negro, portas pesadas, vidros fumê. Guardas na entrada, ternos impecáveis, olhares calculados. Todos armados, embora nenhuma arma estivesse visível. Era óbvio.

 

Antes de sair do carro, virei-me para ela.

 

 

(Yelena) — Controle-se, Victoria. Não importa o que veja lá dentro, não importa quem fale com você. Apenas… sorria.

 

 

Ela sustentou meu olhar por um instante. E então, em um daqueles raros lampejos de desafio, arqueou os lábios num sorriso lento, quase insolente. Linda.

 

Entramos.

 

O restaurante era um teatro de poder. Lustres de cristal lançavam luz dourada sobre mesas de mármore branco, arranjos florais excessivos, tapetes persas amortecendo os passos. O cheiro de carne grelhada se misturava ao de charuto cubano. Homens de terno, mulheres com vestidos caros, joias que refletiam a luz em fragmentos. Cada riso era estudado, cada gesto medido. A máfia sempre soube encenar o luxo.

 

E lá estavam eles.

 

Zoja e Noah, discretos, sentados ao lado de Nikolai. Fingiam que não nos viam, que não conheciam Victoria. Eu sabia que sabiam de tudo. Haviam aceitado meus planos antes mesmo dela saber. E essa cumplicidade silenciosa era tão valiosa quanto perigosa.

 

Mais adiante, meu pai. O mesmo de sempre. Elegante, frio, com aquela aura de poder que sempre me causou náusea. Ao lado dele, a mulher, vulgar no exagero da maquiagem, no decote que nada tinha de sofisticado. Dimitri completava o quadro, rindo alto, a arrogância escorrendo de cada gesto.

 

Passei por todos sem olhar. Eles me ignoraram da mesma forma. Assim era nossa dinâmica familiar: uma guerra fria constante.

 

Mas eu senti. Senti os olhos do meu pai pousarem rapidamente em Victoria. Avaliando-a. Medindo-a. E essa sensação me provocou um incômodo que não quis nomear.

 

Coloquei a mão em suas costas. Um gesto leve, quase protetor. Íntimo. A desculpa perfeita para o disfarce: duas mulheres que vinham juntas, que ocupavam o espaço como um casal qualquer. Mas era mais do que isso. Era posse. Era aviso.

 

 

(Yelena) — Relaxa — resmunguei baixo, perto de sua orelha.

 

 

Ela respirou fundo. Sorriu. Entrou no personagem como se tivesse nascido para aquilo. E, por um segundo, eu tive a impressão de que não era disfarce.

 

Conduzi-a até a mesa reservada. Lugar perfeito: próximo o suficiente para ver tudo, distante o bastante para manter nossa própria bolha. Sentei-me primeiro, observando como ela se acomodava ao meu lado. O vestido azul, a postura elegante, o sorriso ensaiado. Era a atriz perfeita, a parceira ideal.

 

Linda.

 

Eu pedi vinho. Ela aceitou. O garçom nos serviu sem demora. E quando ergui a taça, brindando apenas com um olhar, percebi algo que não tinha coragem de admitir em voz alta: não importava quantos criminosos estivessem ao redor, quantos fantasmas da minha família rondassem aquela sala. O que importava era ela, ali, sustentando meu disfarce, bebendo comigo, linda e inacessível como sempre.

 

 

 

Havia algo de delicioso na maneira como Victoria se forçava a parecer tranquila enquanto tudo nela gritava o contrário. Eu a via, cada músculo do rosto calculado, cada respiração contida, cada olhar ao redor analisando saídas, rotas, armas, pessoas. A perfeita agente. Mas ao mesmo tempo, a mulher que eu já tinha provado. Por mais que ela tentasse mascarar, aquele ar de controle só me aguçava ainda mais.

 

A sala estava impregnada pelo perfume caro dos tapetes persas e pelo fumo dos charutos; o restaurante não era apenas chique, era um covil maquiado de luxo. Lustres de cristal refletiam as taças de vinho tinto que passavam de mesa em mesa, cada cliente com um rosto marcado pelo crime: banqueiros da máfia, capangas engravatados, políticos vendidos, traficantes travestidos de empresários.

 

E, claro, minha família.

 

Meu pai, sentado no centro como um rei decadente; Dimitri, sempre o cachorro fiel e debochado; e a sua mulherzinha da vez, essa sombra de beleza cara e vazia que ele gostava de ostentar.

 

 

(Yelena) — Relaxe — murmurei, curvando-me até a orelha de Victoria, apenas para que o ponto em seu ouvido registrasse junto. Minha mão deslizava sutil em suas costas, um gesto íntimo o bastante para parecer carinho, estratégico o bastante para lembrá-la que eu estava no comando da cena. — Eles farejam medo, mas não sabem o que fazer com charme. E você… tem muito dos dois.

 

 

Ela não respondeu de imediato. Sorriu. Sutil, contida. Mas sorriu. Isso bastava.

 

Eu não olhei para meu pai, nem para Dimitri, nem para Zoja ou Noah que estavam a algumas mesas dali com Nikolai. Eles, como combinado, fingiram que não a conheciam. A encenação era perfeita: éramos apenas duas mulheres atraentes, uma russa e uma americana, amantes de fachada, trocando confidências em uma noite qualquer.

 

O vinho que bebemos era o mais caro da carta, não pelo gosto, mas porque eu podia. Victoria apenas assentia, o olhar deslizando pela sala como se fosse a primeira vez que pisava em um lugar desses e, de fato, era a primeira vez que pisava num lugar desses.

 

 

(Yelena) — Eles estão todos aqui — sussurrei em seu ouvido, o hálito quente contra a pele delicada da sua nuca. Eu sentia a rigidez no corpo dela, mas mantive o tom baixo, íntimo, quase amante. — A mesa no canto esquerdo… Arkadi. Ele faz as transferências de dinheiro para as empresas de fachada. O homem de bigode perto da adega… Alexei. Ele controla o porto de Nova Jersey.

 

 

Vi os olhos dela se estreitarem, discretamente, como se cada nome fosse um tiro certeiro na mente analítica que já traçava conexões.

 

Continuei, aproveitando cada segundo do jogo:

 

 

(Yelena) — O careca com a gravata vermelha é Petrov. Logística. E aquele com o anel de ouro que não tira os olhos de você?… Esse é mais perigoso do que parece. Sergei. Ele cuida das execuções.

 

 

Victoria fingiu não reagir, mas a rigidez no maxilar a denunciava. Ainda assim, mantinha o sorriso elegante nos lábios, como se estivéssemos falando banalidades de casal. Deus, como eu adorava aquilo nela, a máscara, a contenção, a guerra travada sob a pele.

 

O garçom trouxe os pratos. Carpaccio de carne com trufas negras, seguido por filé mignon ao molho de vinho do porto. Victoria não reclamou; ela jamais reclamaria em campo. Apenas comeu, delicada e contida, como se estivesse em um jantar íntimo comigo e não rodeada de chacais.

 

Até que, inevitavelmente, Nikolai se aproximou. Serie estranho para a família se meu confidente não viesse ao meu encontro.

 

 

(Nikolai) — Sestra… — disse ele com aquele sorriso torto, olhando Victoria de cima a baixo. — E quem é a encantadora dama?

 

 

Ah, o jogo. Adorava quando começava.

 

 

(Yelena) — Esta é Danielle — respondi suavemente, como se tivesse orgulho em exibir meu troféu. Toquei de leve a mão de Victoria sobre a mesa, a encenação perfeita de intimidade. — Danielle, este é meu irmão, Nikolai.

 

 

Victoria sustentou o olhar dele como a boa agente que era. Nenhum tremor, nenhum vacilo. Apenas aquele sorriso educado, contido, que me dava vontade de provocá-la ainda mais.

 

Nikolai, como sempre, não se alongou. Sabia que nossa relação era de ferro frio: aproximações calculadas, diálogos curtos. Ele voltou para a sua mesa, deixando apenas o rastro de provocação no ar.

 

Terminamos a refeição. O vinho já aquecia meu corpo, e a tensão do ambiente só me excitava mais. Eu sabia que Victoria estava atenta a cada olhar, cada gesto, cada mínima ameaça disfarçada em cortesia. Mas, para os outros, parecíamos duas mulheres apaixonadas dividindo segredos em um restaurante caro.

 

E então, claro, Dimitri não resistiu.

 

Ele se aproximou com aquele andar insolente, como se fosse dono de todos os espaços. O sorriso de deboche já anunciado em seu rosto.

 

 

(Dimitri) — Sestra, sempre tão… elegante. — Seus olhos deslizaram até Victoria, demorando-se mais do que deveriam. — E quem é a garota cara?

 

 

Senti o corpo de Victoria enrijecer ao meu lado. Eu adorava.

 

 

(Yelena) — Cuidado com o que pergunta, Dimitri — respondi, sorvendo o vinho com calma. — Porque às vezes a resposta pode te humilhar mais do que imagina.

 

 

Ele riu, provocador.

 

 

(Dimitri) — Não estou vendo nada de humilhante. Só curiosidade. Você nunca aparece com a mesma mulher duas vezes.

 

 

Meu pai escolheu esse momento para finalmente abrir a boca. A voz grave, cheia de arrogância.

 

 

(Viktor) — Então? Quem é ela? A garota da vez…

 

 

O silêncio caiu como um peso na mesa. Vários olhares se voltaram. A tensão era palpável. Eu podia ouvir o coração de Victoria acelerar, mesmo que ela escondesse bem.

 

Inclinei-me, sem desviar o olhar dele. A taça de vinho na mão, meu tom firme, cortante, venenoso.

 

 

(Yelena) — Alguém mais bela e mais elegante do que a sua garota da vez.

 

 

O rosto da mulher ao lado do meu pai empalideceu por um instante. Dimitri riu alto, e meu pai apenas me encarou com aquela fúria silenciosa que sempre me divertiu. Eu não baixei os olhos. Nunca baixaria.

 

Victoria, perfeita, entrou no papel: deslizou sua mão sobre a minha na mesa, como se me apoiasse, como se fosse cúmplice. Eu quase sorri de verdade.

 

Não houve resposta imediata. O silêncio durou o suficiente para marcar território. Então, com

um gesto frio, meu pai se virou de volta para sua refeição. Discussão encerrada, por ora.

 

Terminei minha taça. Levantei-me, deslizando a cadeira para trás com a calma de quem controla a cena. Inclinei-me para Victoria, deixando o perfume caro preencher o espaço entre nós.

 

 

(Yelena) — Vamos? — perguntei baixo, sedutora, como se fosse apenas um convite íntimo e não a retirada calculada de um campo minado.

 

 

Ela assentiu, graciosa, como se fosse apenas minha amante obediente.

 

Acompanhei-a até a saída, minha mão outra vez repousada em suas costas, guiando-a pelo salão. Todos nos olhavam, alguns com desejo, outros com ódio, alguns com inveja. Mas ninguém ousava tocar.

 

Do lado de fora, o ar da noite era frio, mas dentro de mim tudo queimava.

 

E eu sabia que Victoria sentia o mesmo.

 

 

 

O ar fresco da noite ainda grudava na pele quando deixamos o restaurante. A fachada iluminada refletia no carro preto que esperava por nós, discreto, como sempre. Eu podia sentir Victoria ao meu lado, tensa, ainda carregando nos ombros o peso da encenação. Era engraçado: ela conseguia enfrentar uma sala cheia de criminosos armados até os dentes, sorrir como se fosse dona de tudo, mas bastava estarmos sozinhas para a rigidez se transformar em cansaço.

 

Abri a porta do carro para ela.

 

 

(Yelena) — Sente-se, moya lyubimaya, — murmurei com um sorriso enviesado, o bastante para ela perceber a ironia e para qualquer câmera de rua interpretar como um gesto de intimidade.

 

 

Ela suspirou, entrou e ajeitou a saia antes que eu fechasse a porta. Dei a volta e assumi o volante. Assim que o motor ronronou e deixamos a calçada para trás, a atmosfera mudou. Victoria relaxou contra o banco, cruzando as pernas com elegância, e deixou escapar algo que parecia uma risada abafada.

 

 

(Yelena) — Está rindo de quê? — perguntei sem olhar, já que precisava manter os olhos no trânsito.

 

 

(Vick) — De mim mesma. — ela confessou, passando a mão no cabelo loiro, já solto do coque impecável. — Achei que não ia conseguir... mas acho que convenci.

 

 

Ri baixo. Um riso cheio de deboche.

 

 

(Yelena) — Convencer, Victoria, é a única coisa que você sabe fazer.

 

 

Ela me lançou um olhar atravessado, mas não respondeu. Eu adorava quando ela ficava calada, porque os olhos dela sempre falavam mais do que qualquer palavra.

 

Foi então que ouvi o estalo baixo no ponto dela. A voz metálica de algum agente ressoou, mas baixa demais para que eu entendesse. Notei apenas a reação dela: ergueu a cabeça, como se estivesse sendo chamada à realidade.

 

 

(Vick) — Yelena… — ela virou-se para mim, o rosto ainda iluminado pelas luzes vermelhas dos semáforos. — Preciso confirmar algumas identidades.

 

 

Assenti, mesmo sem tirar os olhos da rua.

 

Ela tocou discretamente o microfone escondido e falou com a equipe. Em seguida, virou-se mais para mim, olhos frios agora, quase profissionais.

 

 

(Vick) — O primeiro… Arkadi.

 

 

Sorri, inclinando a cabeça um pouco.

 

 

(Yelena) — Sobrenome: Ivanovich. É o braço direito do meu pai nos negócios de importação. Mas na prática, é o homem que lava o dinheiro.

 

 

Ela repetiu para o ponto, e eu pude imaginar o agente do outro lado anotando, satisfeito.

 

 

(Vick) — O segundo, Sergei — ela deixou no ar.

 

 

(Yelena) — Romanov. — completei. — Segurança. Faz o trabalho sujo. É quem decide quem vive e quem desaparece.

 

 

Seus lábios se comprimiram ao repetir a informação, como se cada detalhe fosse um peso carregado.

 

 

(Vick) — E o último… — ela hesitou. — Alexei.

 

 

Sorri mais largo dessa vez, sem pressa em responder.

 

 

(Yelena) — Alexei Pavlenko. Comanda o porto e também é o contador pessoal de Dimitri. Mas não se engane, não é só um contador… é o único homem que sabe cada cifra, cada pagamento. Se o FBI quiser derrubar Dimitri, precisa dele vivo.

 

 

A respiração dela ficou mais pesada. Eu notava, mesmo no silêncio do carro, cada músculo dela denunciava a tensão.

 

Outro estalo no ponto, uma voz mais insistente, e Victoria respondeu apenas:

 

 

(Vick) — Está tudo bem. Eu vou continuar.

 

 

Franzi o cenho, mantendo o sorriso apenas por esporte.

 

 

(Yelena) — Ethan, não é? — provoquei, sem precisar de confirmação.

 

 

Ela não respondeu, mas o silêncio foi suficiente.

 

 

 

 

 

 

O resto do caminho seguiu em silêncio. Apenas o ronco baixo do motor, as ruas de Manhattan passando rápido, os reflexos das luzes na lataria preta. Eu sabia que ela queria se perder nos pensamentos, mas também sabia que não podia, não com meu perfume ainda preso nas narinas dela, não com minhas palavras sussurradas ainda arranhando a pele do pescoço dela.

 

Ao chegarmos ao prédio, desci primeiro. O lugar era impecável: garagem subterrânea de mármore polido, iluminação fria, câmeras em cada canto. Abri a porta para ela sair, um gesto teatral, mas necessário.

 

 

(Vick) — Não precisa disso. — ela resmungou baixinho, ajustando a saia para descer.

 

 

Aproximei-me de seu ouvido.

 

 

(Yelena) — Precisa sim. — respondi firme. — Há câmeras por toda parte. E meu pai, Victoria… meu pai sempre assiste.

 

 

Ela respirou fundo, se recompôs, e aceitou o braço que ofereci. Senti a tensão inicial, mas logo o peso do corpo dela cedeu ao contato, como se fosse inevitável.

 

Atravessamos a garagem, entramos no elevador. O espelho dourado refletia nossas imagens perfeitas: eu de preto, imponente; ela, elegante, loira, a fantasia perfeita de esposa troféu.

 

Foi ali que me aproximei. O espaço fechado permitia. Inclinei a cabeça, deixei meu nariz deslizar pelo pescoço dela, inspirando fundo. O perfume dela era doce, limpo, provocador.

 

 

(Yelena) — E o garoto que trabalha com você…? — sussurrei com a voz baixa, arrastada. — Já deu uma chance para ele?

 

 

Ela enrijeceu. Eu senti.

 

 

(Vick) — Somos apenas colegas. — respondeu seca, quase ríspida.

 

 

Ri alto, o som preenchendo o elevador como uma explosão inesperada. Então encostei os lábios na curva da orelha dela e mordi devagar, deixando a marca.

 

 

(Yelena) — Ouviu isso, Ethan? — falei mais alto de propósito, como se o microfone fosse meu público. — Colegas! Não se preocupe… estou cuidando bem dela dessa vez.

 

 

A boca de Victoria abriu num protesto mudo, mas não houve tempo. O elevador apitou, as portas se abriram. Segurei firme em seu braço e a puxei comigo para o corredor.

 

Ela não podia retrucar. Não ali, não agora. E eu adorava isso.

 

 

 

 

O corredor era silencioso, acarpetado, iluminado em tom âmbar. Caminhamos lado a lado até a porta do meu apartamento. Eu podia sentir o coração dela acelerado pelo toque leve do braço, o ritmo denunciado sob a pele.

 

E quando a porta se fechou atrás de nós, afastando câmeras e olhos curiosos, eu sabia que a verdadeira tensão ainda estava por vir. Senti o peso do silêncio cair como um manto. A diferença era brutal: do elevador cheio de câmeras, da rua cheia de olhos, para a penumbra quente e controlada do meu território. Aqui, ninguém nos assistia. Aqui, cada movimento era meu, cada detalhe obedecia à minha vontade.

 

A luz suave de abajures estrategicamente posicionados banhava a sala em tons dourados. O cheiro de couro do sofá, misturado ao vinho aberto na mesa lateral, preenchia o ar. Eu sabia que esse lugar causava efeito em Victoria, não só pela opulência discreta, mas porque era impossível não perceber que tudo ali carregava minha marca.

 

Ela se afastou de mim devagar, ajeitando os cabelos com uma elegância automática, quase uma defesa. O salto ecoou no piso de madeira.

 

 

(Vick) — Você não precisava ter feito aquilo. — disse, séria, referindo-se à provocação no elevador.

 

 

Cruzei os braços e inclinei a cabeça, observando-a como quem estuda uma peça rara.

 

 

(Yelena) — Ah, dorogaya, claro que precisava. — respondi, deixando o sotaque russo escorrer mais forte de propósito. — Se eu não mostrar ao mundo que você é minha, alguém pode pensar o contrário.

 

 

Ela respirou fundo, e eu vi a linha da mandíbula se contrair. Tão previsível, tão bonita em sua raiva contida.

 

 

(Vick) — Eu não sou sua. — rebateu, firme, os olhos azuis faiscando.

 

 

Dei um passo lento em direção a ela, depois outro, como uma predadora encurralando a presa. Quando estendi a mão, toquei de leve a mecha solta de seu cabelo, enrolando-a entre meus dedos antes de soltá-la.

 

 

(Yelena) — Não? — murmurei. — Então por que treme quando eu chego perto?

 

 

Ela desviou o olhar, mas não se afastou. Isso era tudo o que eu precisava.

 

 

Fui até o aparador, abri a garrafa de vinho e servi duas taças. Entreguei uma a ela, e por um instante nossas mãos se tocaram. O choque foi elétrico. Ela recuou rápido, levou a taça aos lábios como desculpa. Eu apenas sorri.

 

 

(Yelena) — Então… — comecei, me apoiando contra a mesa, cruzando os tornozelos com calma. — Ethan está ouvindo, não está?

 

 

Ela ergueu os olhos para mim, quase engasgando no vinho.

 

 

(Vick) — Não seja ridícula.

 

 

(Yelena) — Ridícula? — gargalhei, baixo, arrastado. — Eu só perguntei. Afinal, se ele está ouvindo, deve estar furioso.

 

 

A expressão dela se fechou, e percebi o músculo pulsar em seu pescoço. Aquilo me divertia.

 

Aproximei-me de novo, até sentir o calor dela contra mim. Encostei os lábios perto do microfone escondido em sua roupa, falando baixo o suficiente para que só quem estivesse do outro lado captasse.

 

 

(Yelena) — Ethan… está aí? — sussurrei, maliciosa. — Espero que esteja anotando tudo. Ela fica tão linda quando está brava…

 

 

Victoria me empurrou, não com força, mas o bastante para impor distância.

 

 

(Vick) — Chega, Yelena.

 

 

(Yelena) — Nyet. — respondi de imediato, sem perder o sorriso. — Eu nunca me canso.

 

 

Ela começou a andar pela sala, fingindo inspecionar os quadros, o piano, as prateleiras cheias de livros em russo. Mas eu sabia que era fuga. Quando uma mulher como Victoria evita olhar nos meus olhos, é porque já perdeu a batalha antes de começar.

 

 

(Yelena) — Sabe o que mais gosto em você? — perguntei, caminhando atrás dela devagar, deixando os passos fazerem o som da perseguição. — Você se esforça tanto para manter o controle… e ainda assim, sempre falha.

 

 

Ela girou de repente, me encarando, como se quisesse provar o contrário.

 

 

(Vick) — Você está enganada.

 

 

Inclinei o corpo para frente, colando nossos rostos a poucos centímetros.

 

 

(Yelena) — Então me prove, — desafiei, meu hálito tocando sua boca. — Olhe para mim e diga que não pensou em mim nenhuma vez desde aquele jantar.

 

 

Ela abriu a boca… fechou… e desviou o olhar.

 

A vitória era minha.

 

Deixei uma risada escapar e me virei, indo até o sofá. Sentei-me com um ar relaxado, cruzando as pernas e bebendo do vinho.

 

 

(Yelena) — O FBI já tem mais do que precisa. — disse, com desdém. — Ivanovich, Petrov, Pavlenko… que nomes bonitos para vocês derrubarem como peças de xadrez. Mas você, Victoria, ainda acha que pode jogar comigo sem perder nada.

 

 

Ela me seguiu com os olhos, a taça ainda firme na mão.

 

 

(Vick) — Eu não estou jogando.

 

 

(Yelena) — … todos jogam. — corrigi, deixando a língua soar como música entre nós. — Você inclusive.

 

 

Ela se aproximou, parando diante de mim. O rosto sério, os lábios apertados, mas os olhos… ah, os olhos denunciavam tudo.

 

Eu estendi a mão, segurei a dela e puxei-a de leve. Não com força, apenas o suficiente para fazê-la perder o equilíbrio e sentar-se ao meu lado.

 

 

(Yelena) — Se não quer brincar, então diga para seu agente desligar o ponto. — provoquei, com a voz baixa, quase um ronronar. — Assim ficamos só nós duas.

 

 

O silêncio dela foi a maior confissão da noite.

 

 

 

Aproximei-me, encostando a taça na mesa antes de soltar a risada curta que eu mesma não consegui conter. Inclinei meu rosto até sentir novamente o perfume doce dela misturado ao calor de sua pele.

 

 

(Yelena) — Eu vou cuidar bem de você dessa vez, Victoria. — sussurrei em seu ouvido, como quem promete e ameaça ao mesmo tempo. — Melhor do que qualquer colega poderia.

 

 

A mão dela se fechou em punho no meu joelho, num gesto de raiva contida, mas não me afastou. Não ousou.

 

E eu sabia… naquele instante, com ou sem FBI, com ou sem Ethan, com ou sem a maldita missão, ela já estava no meu jogo.

 

 

A mão de Victoria continuava fechada em punho sobre o meu joelho. Eu podia sentir a pressão contida, a raiva tentando transbordar pela pele dela. Havia fogo nos olhos azuis, aquele tipo de fogo que só surge quando o autocontrole está prestes a ceder.

 

Sorri. O tipo de sorriso que sei que a enfurece, lento, enviesado, carregado de confiança.

 

 

(Yelena) — Vai me bater, princesa? — perguntei, deixando meu sotaque mais espesso, só para provocar. — Ou vai admitir que gosta quando eu aperto você desse jeito?

 

 

A respiração dela falhou, quase imperceptível. Quase. Eu nunca erro esses detalhes.

 

Inclinei-me, encostando meu ombro ao dela, deslizando os dedos pela lateral de seu braço até alcançar o punho fechado. Toquei com suavidade, como quem acalma uma fera prestes a atacar.

 

 

(Yelena) — Força linda a sua… — murmurei, meus lábios perigosamente próximos ao ouvido dela. — Mas eu prefiro quando você usa contra mim.

 

 

Foi quando senti: o estalo.

 

Ela girou de repente, rápida, inesperada, empurrando-me contra o encosto do sofá com uma força que me arrancou uma risada curta. Minha taça tombou na mesa, mas não importava. O que importava eram as mãos dela cravando em meus ombros, os olhos faiscando a centímetros do meu rosto.

 

 

(Vick) — Você não sabe quando parar! — cuspiu as palavras, a voz grave, trêmula.

 

 

Levantei as mãos devagar, não para me defender, mas para pousá-las em sua cintura. A tensão do corpo dela sob meu toque era deliciosa, como um arco retesado pronto para disparar.

 

 

(Yelena) — Ao contrário, — respondi, meu tom baixo, carregado de diversão. — Eu sei exatamente quando.

 

 

Ela apertou ainda mais os dedos em meus ombros, como se quisesse me manter presa. Eu deixei. Nunca fui boa em fingir resistência quando a verdade é que eu adoro sentir sua força me conter.

 

 

(Vick) — Você me tira do sério. — disse, a respiração quente batendo contra minha boca.

 

 

Passei o polegar pela curva da cintura dela, lento, insinuante. Inclinei o queixo para cima, sem quebrar o olhar.

 

 

(Yelena) — Exato. — sussurrei. — Eu te tiro do sério… e você adora.

 

 

O som que ela fez, meio gemido, meio suspiro de frustração, me arrepiou inteira. Então, antes que pudesse se conter, ela cedeu.

 

A boca dela encontrou a minha com violência. Nada de doçura, nada de hesitação. Foi um choque, uma colisão de raiva e desejo, dentes e calor.

 

E eu ri contra seus lábios.

 

Segurei sua nuca com firmeza, aprofundando o beijo, deixando-a sentir que eu também sabia ser bruta. O gosto de vinho misturado ao hálito acelerado dela era embriagante. A respiração dela falhava contra a minha pele, e cada movimento mostrava a guerra entre odiar e querer.

 

Quando ela puxou meu cabelo para trás, expondo meu pescoço, arfei, não de dor, mas de prazer puro.

 

 

(Yelena) — É isso, dorogaya… — murmurei, provocando mesmo entre beijos e mordidas. — Me mostra a fúria que você guarda tão bem.

 

 

Ela respondeu com uma mordida no meu lábio inferior, forte o bastante para arrancar um gemido da minha garganta.

 

 

E foi nesse som que percebi: eu tinha conseguido. A muralha dela desabou.

 

 

Ela me empurrava contra o sofá como se quisesse me fundir ao couro, as mãos deslizando entre segurar e castigar. Eu não recuei nem um centímetro. Ao contrário, cada vez que ela me prendia, eu me oferecia mais. Cada vez que ela me provocava, eu ria, como quem se alimenta da tempestade.

 

 

(Vick) — Você é insuportável… — arfou entre um beijo e outro, os dedos já apertando minha cintura com força.

 

 

(Yelena) — E você… — mordi sua mandíbula, arrastando os dentes até o lóbulo da orelha. — é deliciosa quando perde o controle.

 

 

Ela gem*u, abafado, e me empurrou outra vez, mas dessa vez não para afastar, para dominar.

 

O peso dela sobre mim, a respiração acelerada, a pele em brasa. Tudo me dizia que finalmente Victoria estava mostrando a mulher por trás da agente perfeita. E eu não deixaria escapar.

 

Agarrei seu rosto com as duas mãos, forçando-a a me encarar no meio do turbilhão. Nossos olhos se encontraram, azuis contra verdes, fogo contra gelo.

 

 

(Yelena) — Você pode me odiar o quanto quiser. — sussurrei, arrastando a voz como seda rasgando. — Mas vai voltar sempre. Porque ninguém toca você assim.

 

 

Ela tremeu. E quando voltou a me beijar, percebi que já não havia volta.

 

 

O sofá rangeu sob nossos corpos, o vinho ainda escorrendo da taça derrubada, o ar da sala carregado de calor e choque elétrico. Eu ria, arfava, mordia, provocava e ela reagia com a intensidade de alguém que passou a vida inteira se proibindo.

 

E eu sabia, no fundo, que nada poderia ser mais perigoso do que isso.

 

Mas também nada mais delicioso.

 

 

 

O corpo dela colado ao meu era fogo puro, e eu não precisava de muito para atiçar ainda mais as chamas. Victoria me prensava contra o sofá, os cabelos bagunçados caindo sobre o rosto, o olhar feroz e ainda assim, tão vulnerável.

 

Meus dedos deslizaram pela curva de sua coluna, sentindo cada músculo retesado sob o vestido justo que vestia. Eu arranhei devagar, só o suficiente para arrancar aquele suspiro atravessado da garganta dela.

 

 

(Yelena) — Você está tremendo… — murmurei, sorrindo contra seus lábios.

 

 

Ela recuou só um instante, o suficiente para olhar nos meus olhos. O azul queimava.

 

 

(Vick) — Cala a boca. — rosnou.

 

 

(Yelena) — Ou então? — desafiei, arqueando as sobrancelhas, o sorriso provocador ainda estampado no rosto.

 

 

A resposta veio no gesto: as mãos dela segurando meus pulsos e prendendo-os acima da minha cabeça contra o sofá.

 

Um arrepio delicioso percorreu meu corpo.

 

 

(Yelena) — Ah… — suspirei, entre riso e gemido. — Aí está a Victoria que eu queria.

 

 

Ela pressionou ainda mais, a respiração descompassada, como se estivesse lutando contra cada instinto que a puxava para mim.

 

Eu arqueei o corpo, roçando meu quadril contra o dela, lenta e proposital. O olhar dela vacilou, só por um segundo, mas foi o bastante para que eu risse de novo.

 

 

(Yelena) — Está vendo? — sussurrei, mordendo o ar perto da boca dela. — Você me odeia… mas não consegue se afastar.

 

 

Ela me beijou outra vez, como quem cala uma verdade inconveniente. Um beijo faminto, desesperado, que me fez perder o fôlego por um instante. Eu retribuí na mesma medida, sugando o lábio inferior dela, puxando até sentir a pele quente e sensível sob meus dentes.

 

Ela soltou meus pulsos de repente, mas apenas para agarrar minha cintura com ambas as mãos e me puxar para cima, me fazendo sentar sobre seu colo.

 

A sensação da firmeza dela sob mim arrancou um riso baixo da minha garganta. Segurei seu rosto entre as mãos, beijando-a com força, depois deslizei a boca para seu pescoço, aspirando o cheiro da pele misturado ao perfume discreto que ela usava.

 

Mordi, devagar, no ponto exato abaixo da orelha.

 

 

(Yelena) — Ah, dorogaya… — sussurrei contra sua pele. — Você nem imagina o quanto eu esperei isso.

 

 

Ela gem*u baixo, tentando disfarçar, mas a vibração percorreu o corpo dela inteiro, e eu senti cada tremor contra mim.

 

As mãos de Victoria subiram pelas minhas costas, possessivas, cravando os dedos como se quisesse me segurar ali para sempre. Eu arqueei mais uma vez, pressionando, sentindo a respiração dela falhar.

 

 

(Vick) — Não… — disse, a voz rouca, entrecortada. — Isso não podia…

 

 

Agarrei seu queixo, forçando-a a me encarar, os olhos colados nos dela.

 

 

(Yelena) — Mas está acontecendo. — retruquei, mordendo cada palavra. — E você quer tanto quanto eu.

 

 

Ela não respondeu. Não precisava. O beijo que veio em seguida foi a confissão mais honesta que já ouvi dela.

 

 

 

 

O sofá já não era suficiente. Eu me ajeitei melhor sobre o colo dela, sentindo a firmeza, o calor, cada músculo tenso sob mim. A boca dela percorria minha mandíbula, meu pescoço, deixando marcas ardentes no caminho.

 

Minhas unhas arranharam seu ombro por cima do tecido, e o gemido que escapou da garganta dela me fez sorrir largamente.

 

 

Yelena) — É… assim… — murmurei, puxando os cabelos dela entre os dedos, guiando seu rosto de volta ao meu. — Perde o controle comigo. Eu aguento.

 

 

Ela me apertou mais forte contra si, como se quisesse se fundir ao meu corpo. A frustração, o desejo, a raiva e a entrega, tudo misturado num turbilhão que a deixava sem chão.

 

E eu, claro, aproveitava cada segundo.

 

Mordi o canto de sua boca, lambi a pele que ficou sensível, e depois deslizei os lábios até seu ouvido.

 

 

(Yelena) — Você devia ouvir a sua própria respiração agora… — sussurrei, rindo baixinho. — É o som da rendição.

 

 

Ela fechou os olhos, a testa encostada na minha, respirando fundo como quem tenta se recompor. Mas as mãos em minha cintura não afrouxaram nem por um segundo.

 

Eu deslizei uma mão pela linha do maxilar dela, suave, quase carinhosa, e então arranhei de leve até o pescoço, marcando caminho.

 

Ela abriu os olhos outra vez, me encarando como se quisesse me destruir.

 

 

(Vick) — Você é um inferno. — disse entre dentes.

 

 

Apertei os lábios dela num beijo rápido e feroz, rindo contra sua boca.

 

 

(Yelena) — E você está queimando comigo, dorogaya.

 

 

 

 

O ar da sala estava denso, elétrico. O vinho derramado já tinha esquecido, o mundo inteiro tinha desaparecido. Só havia eu e ela, presas uma na outra, em uma guerra que não teria vencedora, apenas sobreviventes mais famintos.

 

E, pela primeira vez, vi em Victoria não a agente impecável, não a fachada fria. Mas a mulher que desejava, que tremia, que lutava contra algo que já tinha perdido.

 

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

E aí? Preparadas pra isso?


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Comentários para 8 - Capitulo 8:
Zanja45
Zanja45

Em: 25/03/2026

Vick acreditando que podia manter Yelena distante apenas com uma fechadura, heim? E a mulher não precisou de nada disso, só imaginou como uma pessoa que é previsivel agiria. — E reconstituição do passo a passo da agente, naquele banheiro, foi de tirar o fôlego. — Ela consegue revelar o que as pessoas pensam serem segredos, só de observar o perfil. — É como se estivessem nuas diate dela. — A perspectiva dela é certeira. 

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Zanja45
Zanja45

Em: 25/03/2026

Será que Vitória com aquele ritual todo, estava na verdade provocando Yelena? kkkk! Será que como Yelena disse. — O fogo, a roupa — Tudo aquilo foi encenado para ela? — Essa mulher se acha, mesmo — Ela se superestima.

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Zanja45
Zanja45

Em: 24/03/2026

Yelena sabe do poder que tem, mas também ela não pode brincar com a sorte. Só pello fato de Vick estar sob o mesmo teto, isso não quer dizer nada. No entanto, a agente a afeta de algum modo, senão ela não a traria para a toca dela. — E essa provocação toda que ela faz, os jogos de palavras, até mesmo as vestimentas dela foi pensada para tirar Vick do sério.


Ela pode conhecer todos os segredos de Vick, pois ela a teve em suas mãos, percebeu que os sentimentos da outra não foram forjados para caber no espaço dela, mas, sim, sentimentos verdadeiros nascidos de encontros de duas almas destinada a se encontrarem de uma forma ou de outra.


No entanto, ela entende que, mesmo sabendo que elas estavam em lados opostos, ela a quis mesmo assim. — Ela desejou— e creio que isso a tenha a assustado, pois a levou a tomar atitudes meio que desnecessárias, porém no intuito de proteger o que ela levou tanto tempo para moldar.

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HelOliveira
HelOliveira

Em: 23/03/2026

Amei esse capítulo....Yelena joga muito bem, mas até quando ela vai ter o controle....

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Sem cadastro
Sem cadastro

Em: 22/03/2026

Poooooowwwww... Massssaaa..... fiquei sem fôlego aqui..


Intensas


Lindas


Irresistíveis 


 


Já quero o próximo capítulo 

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