Capitulo 7
Victoria
A manhã seguinte pesava sobre meus ombros como chumbo.
O café não tinha gosto de nada; o espelho me devolvia uma imagem que parecia exausta demais para alguém que tinha dormido apenas algumas horas.
Eu estava diferente e não apenas pelo cansaço.
Havia algo dentro de mim que se mexia como uma fera enjaulada, uma mistura de raiva, medo e uma inquietação quase doentia. Yelena tinha deixado uma marca que não desaparecia, não importava quantas vezes eu respirasse fundo, não importava quantas vezes eu me lembrasse do que ela é: uma criminosa, uma assassina, alguém que deveria estar atrás das grades.
E ainda assim… eu não conseguia afastar os olhos verdes dela da minha mente.
A reunião no FBI foi tensa.
A sala estava cheia: Rick na cabeceira, Ethan com os braços cruzados parecendo pronto para explodir a qualquer momento, outros agentes trocando olhares sérios. O assunto era Nikolai. Os documentos que garantiriam imunidade a ele estavam quase prontos, um acordo frágil que parecia irritar metade da equipe.
Eu escutava em silêncio, as mãos cruzadas sobre a mesa, tentando parecer a mais profissional possível. Mas por dentro… meu estômago revirava. Cada vez que mencionavam o nome dele, eu não conseguia deixar de pensar em quem estava por trás, quem manipulava tudo aquilo: ela.
Yelena.
A cada detalhe da providência dos papéis, eu me perguntava onde ela estava agora. O que tramava. Se ria de nós, do nosso esforço para legitimar uma jogada que no fundo era só mais um passo dentro do tabuleiro dela.
(Vick) — Esses documentos não vão nos proteger de tudo — eu disse por fim, minha voz saindo mais fria do que esperava. — Nikolai ainda é uma variável instável. E Yelena… não confiem que ela vai jogar de acordo com nossas regras.
Rick me lançou um olhar longo, daqueles que pesam.
(Rick) — Hartley, se ela quer que o irmão respire ar livre, vai ter que aceitar. Cabe a nós aproveitar isso. Não se esqueça: às vezes até o inimigo pode ser útil.
Inimigo.
A palavra ficou ecoando, mas minha mente não se convenceu.
Mais tarde, quando o movimento da base parecia ter entrado naquele ritmo morno de sempre, ouvi um burburinho nos corredores. Passos apressados, vozes tensas. Eu já estava acostumada a esse tipo de agitação, mas dessa vez… meu corpo reagiu antes que minha mente entendesse.
Ela entrou.
Não pediu permissão, não anunciou nada.
Simplesmente atravessou os corredores da sede como se estivesse caminhando no quintal de casa.
Ao lado dela, claro, estava Nikolai, sorriso debochado no rosto, mãos enfiadas nos bolsos, como se fosse uma visita amigável e não o centro de uma tempestade política e criminal.
Meu coração disparou.
O corpo inteiro ficou em alerta, mas de um jeito que eu odiava reconhecer: não era apenas raiva. Havia algo indecente no modo como meu peito se apertava, como meus olhos correram por ela antes que eu pudesse controlar.
Yelena estava vestida de forma quase insultuosa para o ambiente: uma calça preta justa que realçava as pernas, botas de couro que ressoavam a cada passo como se marcassem território, e uma camisa branca de seda parcialmente desabotoada, deixando um vislumbre perigoso de pele tatuada. Sobre os ombros, um sobretudo cinza claro, caindo com descuido calculado.
O cabelo escuro solto, levemente bagunçado, como se tivesse acabado de sair de uma noite longa e ainda assim desafiava todos nós a olharmos mais uma vez.
Meus olhos me traíram.
Percorreram a linha do pescoço, o movimento da boca quando um sorriso quase imperceptível se formou, o balanço sutil dos quadris.
Senti o calor subir pelo meu corpo, e odiei isso. Odiei a maneira como ela conseguia mexer comigo só por existir no mesmo espaço.
(Nikolai) — Olha só, — a voz de Nikolai cortou o silêncio, carregada de ironia. Ele abriu os braços como se estivesse reencontrando velhos amigos. — A equipe mais sisuda do FBI… e ainda assim não conseguem esconder como ficam surpresos com a minha presença.
Ele me viu.
Claro que viu.
E inclinou a cabeça, aquele sorriso torto estampado.
(Nikolai) — Victoria… — disse, com um tom debochado que me fez cerrar os dentes. — Ainda tão linda quanto na última vez que nos vimos. Aposto que está morrendo de saudades.
Os outros agentes trocaram olhares tensos.
Eu apenas o encarei, mantendo a postura ereta, tentando ignorar o calor que ainda queimava minha pele por causa de Yelena.
Mas era impossível.
Porque ela estava ali, parada alguns passos atrás do irmão, olhando direto para mim.
Não para Rick, não para Ethan, não para ninguém mais.
Apenas para mim.
E naquele olhar, eu vi tudo o que não deveria existir entre nós: provocação, desejo, lembrança… e uma promessa silenciosa de que nada estava terminado.
A sala de reuniões parecia menor do que realmente era.
Talvez fosse o silêncio carregado que se espalhava enquanto Yelena e Nikolai tomavam lugar como se estivessem em casa, como se não fossem os dois maiores problemas que já atravessaram nossas carreiras.
O couro das cadeiras rangeu quando eles se acomodaram. Nikolai, insolente, recostou-se com os braços abertos no encosto, aquele sorriso de quem acha que está no controle. Yelena, por outro lado, cruzou as pernas devagar, quase em câmera lenta, e ajeitou o sobretudo com a calma calculada de quem sabe que cada gesto é uma provocação.
Meu coração batia forte, mas não pela mesma razão dos outros na sala. Ethan estava com os punhos cerrados, a mandíbula trincada, pronto para explodir. Rick, ao meu lado, respirava fundo, claramente irritado, mas ainda mantendo o controle que fazia dele o chefe. Os outros agentes evitavam contato visual, fingindo anotar algo, mexendo nos papéis, tentando se proteger da presença sufocante daqueles dois.
Mas eu…
Eu só conseguia sentir o peso do olhar dela em mim. Verde. Uma chama que queimava minhas defesas.
Rick quebrou o silêncio, jogando uma pasta pesada sobre a mesa, diretamente diante de Nikolai.
(Rick) — Está aqui. Os documentos. Imunidade total pelos crimes passados, contanto que cumpra com as condições do acordo.
Nikolai abriu a pasta como se fosse um cardápio. Virou as páginas devagar, assoviando baixo.
(Nikolai) — Imunidade. Que palavra bonita. Gosto dela. Faz parecer que todo o sangue, toda a sujeira, nunca aconteceu. Quase poético, não acha, irmãzinha?
Yelena riu baixo.
(Yelena) — Incrível o que uma assinatura pode apagar, não é? — os olhos dela passaram de Rick para mim, pousando sem pressa. — Mas vamos direto ao ponto, porque sei que vocês estão doidos para voltar a fingir que têm algum controle.
Ethan bateu a mão na mesa, o estalo ecoou pela sala.
(Ethan) — Vocês dois estão brincando com a gente! Entram aqui como se fosse o playground de vocês. Estão cercados pelo FBI, e ainda ousam debochar?
Nikolai inclinou a cabeça, divertido.
(Nikolai) — Debochando? Não, agente Ethan. Estou confortável. Vocês falam em poder, mas a verdade é que precisam de mim. Se não precisassem, já estaria algemado. Então me diga, quem está debochando de quem?
O riso dele me fez estremecer de raiva.
Mas antes que Ethan pudesse retrucar, Yelena entrou no jogo, a voz baixa, cortante.
(Yelena) — Calma, soldadinho. Acha mesmo que levantar a voz muda alguma coisa? Está nervoso por quê? Porque no fundo sabe que estamos certos? Ou porque sua chefe — ela fez um gesto discreto na minha direção, como se desenhasse uma flecha invisível até mim — não consegue tirar os olhos de mim?
O sangue subiu às minhas faces tão rápido que precisei engolir em seco.
Ethan virou-se para mim, confuso, e isso só piorou a sensação de estar exposta.
(Rick) — Basta. — Rick se inclinou sobre a mesa, firme. — O acordo é claro. Imunidade para Nikolai. Só isso.
Foi então que Yelena descruzou as pernas, se inclinando para frente, os cotovelos apoiados sobre a mesa.
(Yelena) — Ah, mas aí é que está. Eu quero mais.
Rick cerrou os olhos.
(Rick) — Não vai ter mais. O acordo é fechado. Uma imunidade, um benefício. Ponto final.
Yelena sorriu, aquele sorriso lento, que parecia cortar como uma lâmina.
(Yelena) — Eu não quero imunidade para mim, Rick. Eu nunca pedi isso. Eu só vou garantir que duas pessoas não sejam presas. Que fiquem fora do seu caminho.
Um silêncio pesado caiu.
Ninguém respirava.
(Yelena) — Zoja e Noah. — Ela disse os nomes devagar, olhando-me direto nos olhos. — Você se lembra deles, não é, Victoria?
Meu coração disparou.
Claro que me lembrava.
Zoja, a mulher que jogou de joelhos no chão, e Noah… Noah o cara que abriu uma cova pra mim. Outro fantasma que eu queria enterrar.
Minha boca secou. Eu não respondi.
Mas o brilho de triunfo nos olhos dela dizia que não precisava.
(Rick) — Não ouse tentar mexer nessas peças, Yelena. — Rick resmungou, a voz mais grave que o normal. — O acordo não cobre dois criminosos a mais. Você está brincando com fogo.
Ela deu uma risada baixa, quase doce.
(Yelena) — Não estou pedindo a bênção de vocês, Rick. Estou dizendo que não vou deixá-los serem pegos. Vocês podem caçar o mundo inteiro, mas não vão tocar neles. É simples.
Ethan bufou, batendo novamente na mesa.
(Ethan) — Você não manda aqui!
Ela o ignorou completamente.
Os olhos ainda em mim.
Aquela fixação indecente que fazia meu corpo reagir, mesmo contra a minha vontade.
Depois de alguns segundos de silêncio tenso, ela recostou-se outra vez na cadeira, exalando calma.
(Yelena) — Mas, enfim, Nikolai aceita o acordo. Ele terá a imunidade, as condições de vocês. E eu… — um sorriso lento surgiu, cheio de veneno e prazer — eu aceito ser vigiada. Vinte e quatro horas por dia. Onde eu for, vocês vão. Onde eu dormir, vocês vão saber. Cada passo meu. Eu aceito.
As palavras pairaram no ar como pólvora. Enquanto ela me encarava, sugerindo que queria que eu a vigiasse.
Rick piscou, surpreso.
Ethan, mais rápido, explodiu.
(Ethan) — Você enlouqueceu? Isso não está em discussão! Não vamos arriscar a integridade dela para vigiar você!
Yelena não se moveu, não desviou os olhos de mim.
(Yelena) — Não é uma decisão sua. — A voz dela saiu baixa, mas firme, cada sílaba como um golpe calculado. — A decisão é ela.
Eu senti meu coração parar.
Todos os olhos da sala se voltaram para mim.
(Yelena) — Victoria decide. Não aceito outra pessoa.
Ela sorriu.
Um sorriso que doía de tão belo, de tão ameaçador.
Um sorriso que dizia que, de alguma forma, tudo isso sempre esteve nas mãos dela e agora, nas minhas.
Meu corpo reagiu indecentemente, um arrepio subindo pela minha coluna, calor espalhando-se pelo peito.
E ao mesmo tempo, a raiva fervia, porque ela sabia.
Ela sabia exatamente o que fazia comigo.
A sala inteira parecia ter se tornado um campo minado. Cada palavra era um passo em falso, cada olhar um gatilho pronto a disparar. A presença dos Volkov sentados diante da minha mesa como se fosse a sala de estar deles, espalhava uma tensão quase insuportável. Era insolência, era ousadia. Era também estratégia.
Ethan estava em pé, vibrando de raiva como uma corda tensionada prestes a arrebentar. Rick permanecia mais contido, mas os olhos faiscavam com frustração. Marcus e Lena haviam acabado de entrar, e o ar surpreso que trocaram entre si dizia tudo: ninguém esperava encontrar os irmãos Volkov ali, à vontade, como se estivessem apenas discutindo negócios familiares.
Eu, por outro lado, estava com o coração disparado, mas fazia de tudo para que ninguém percebesse. Meu corpo inteiro reagia de formas que me irritavam: as pernas pesadas e tensas, a garganta seca, e a pele arrepiada cada vez que o olhar cinzento de Yelena prendia o meu. Ela estava linda, malditamente linda, de um jeito prático e displicente. O cabelo escuro, solto, caía sobre os ombros como se tivesse sido arrumado sem esforço algum. Mas era no jeito como ela me olhava, um meio sorriso debochado, que minha mente tropeçava. Havia desejo escondido ali? Ou só provocação cruel?
Nikolai, ao contrário, parecia se divertir com a cena como um espectador privilegiado. Quando me encarou, inclinou a cabeça e disse com um sorriso preguiçoso:
(Nikolai) — Agente Hartley… sempre tão séria. Eu juro que vou tentar não te assustar dessa vez.
Revirei os olhos e murmurei entre dentes:
(Victoria) — Babaca.
Yelena riu, baixo, aquele riso que me atravessava como uma lâmina. E enquanto eu tentava me recompor, Ethan avançou:
(Ethan) — Isso é ridículo, Rick! Não podemos aceitar essa condição. Eu vou, no lugar dela.
A voz dele estava carregada de raiva, quase um grito. Rick suspirou, pronto para intervir, mas Yelena o interrompeu com uma calma que me deixou ainda mais tensa.
(Yelena) — Não adianta, garoto. — disse, encostando-se de volta na cadeira com as pernas cruzadas. — A química entre nós seria horrível. Eu prefiro mulheres. A família inteira sabe disso.
A sala explodiu em murmúrios. Marcus arregalou os olhos, Lena me encarou, Rick massageou as têmporas. Ethan… Ethan ficou vermelho de ódio.
Eu, porém, senti o estômago revirar. A frase de Yelena foi jogada como uma granada no centro da sala. E era impossível negar o calor que subiu pelas minhas bochechas.
(Ethan) — Isso não está em discussão! — Ethan rugiu. — Não vou deixar que ela seja jogada no meio disso.
E foi então que, irritada, sentindo como se todos estivessem decidindo por mim, sem me dar voz, sem me permitir controle da minha própria vida… eu falei.
(Victoria) — Eu aceito.
O silêncio caiu como uma martelada. Todos me olharam ao mesmo tempo. Ethan arregalou os olhos, Lena levou a mão à boca, Marcus resmungou algo inaudível. Rick ficou imóvel, como se não tivesse entendido.
Mas Yelena… Yelena sorriu.
(Yelena) — Pode haver ponto, rastreador, escolta de longe. — disse, com um tom preguiçoso e debochado. — Tanto faz. Basta ignorar os ruídos.
Nikolai, divertido, completou:
(Nikolai) — Eles vão querer ouvir…
(Victoria) — Vai pro inferno. — retruquei, num fio de voz.
Yelena então se levantou devagar, com a mesma calma com que havia entrado. O olhar dela nunca deixou o meu. Era como se o resto da sala tivesse desaparecido.
(Yelena) — Ótimo. — disse, ajeitando o sobretudo nos ombros. — Se quiser, pode começar imediatamente. Estou indo pra casa agora. Inclusive, se preferir, posso buscar seus pertences… Ou melhor, os da Danielle.
O nome me acertou como um soco no estômago. Danielle. A identidade falsa que eu havia usado na infiltração. Ela nunca deixava de me lembrar que eu havia me deitado com ela sob esse nome, como parte de um jogo. Eu travei.
Rick tentou falar, com a voz grave:
(Rick) — Victoria, eu não posso decidir isso por você.
(Victoria) — Eu já decidi. — falei, quase cuspindo as palavras.
Ethan deu um passo em minha direção, os olhos marejados de frustração e raiva
(Ethan) — Você não precisa fazer isso, Vick. Não precisa se sacrificar.
O encarei, firme, mesmo com o peito em chamas.
(Victoria) — Se eu não fizer, tudo que passei vai ter sido em vão. Eu quero eles presos.
Antes que ele pudesse responder, Yelena deu uma risadinha baixa.
(Yelena) — Tá tão óbvio, garoto… — disse, encarando Ethan com desdém. — Você gosta dela. Mas não tá rolando. Deixa de se humilhar.
O grito de Ethan ecoou pela sala, explosivo.
(Ethan) — Sua puta!
Mas os Volkov não se abalaram. Nikolai sorriu como quem assiste a uma peça de teatro divertida. Yelena apenas deu de ombros, mantendo aquele maldito meio sorriso, e se virou para a porta.
Os irmãos saíram calmamente, como se tivessem acabado de encerrar uma reunião de negócios qualquer.
Eu, por outro lado, mal conseguia respirar. A raiva, o medo, a ansiedade e… algo indecente que eu odiava admitir, tudo fervia dentro de mim.
Me apressei em recolher meus pertences, ignorando os olhares e os protestos dos colegas. Lena tentou me parar, Marcus resmungou que era loucura, Rick ainda tentava pensar em alternativas. Mas eu não ouvi. Não podia ouvir.
Rick respirou fundo, o olhar pesado como chumbo, e então ergueu a voz para que todos na sala ouvissem:
(Rick) — Chega. A decisão está tomada. — Seu tom não admitia mais protestos, mas era nítido o peso que carregava ao pronunciar cada palavra. — Preparem todo o equipamento que a agente Hartley precisar. Rastreamento em tempo real do celular, ponto discreto, monitoramento integral. Agora.
O silêncio que caiu logo depois foi de cortar o ar. Era como se todos buscassem na minha expressão uma brecha para contestar, uma hesitação que lhes desse espaço para me puxar de volta. Mas eu não ofereci nada. Apenas juntei meus papéis, enfiei caneta e bloco na pasta, e me pus de pé sem olhar para ninguém.
(Rick) — Hartley — Rick chamou quando eu já estava quase na porta. — Nos encontraremos no apartamento da Danielle. Lá você recebe o kit completo, ajustamos os protocolos, e conversamos mais sobre as medidas de segurança. Vamos mexer em alguns detalhes do seu perfil nas redes sociais, só o suficiente para reforçar a narrativa. Nada que possa comprometer sua identidade real.
Assenti. Palavras secas me vieram à boca, mas não as disse. Saí da sala com passos firmes, porque hesitar ali, diante deles, teria sido um erro fatal. Eu precisava parecer inabalável, mesmo que por dentro estivesse à beira de me despedaçar.
O corredor estava mais vazio do que eu esperava. O ar frio da ventilação central arranhava minha pele como se tentasse acordar meus nervos. E então eu os vi: os Volkov.
Encostados diante da velha geladeira de refrigerantes, como se estivessem na sala de estar da própria casa. Nikolai gesticulava com uma lata na mão, Yelena respondia com aquela calma insolente que era só dela. Eles riam de alguma banalidade que não me interessava, mas foi o modo como os dois se destacavam no ambiente que me fez parar por um segundo.
Yelena ergueu o rosto quando me notou. E sorriu.
Não foi um sorriso largo, nem simpático. Foi aquele sorriso que conhecia cada detalhe da minha fraqueza, que me despia em silêncio. O sorriso dela dizia: eu sabia que você ia aceitar.
(Yelena) — Pronta? — perguntou, como quem apenas confirma uma certeza.
Não respondi de imediato. Meus músculos protestavam contra o simples ato de cruzar o corredor em direção a ela, como se cada passo me afundasse ainda mais em algo sem volta. Mas fui. Porque não havia escolha.
Seguimos para a saída sem trocar muitas palavras. As botas de Yelena soavam cadenciados contra o piso, um ritmo confiante, o tipo de andar de quem nunca teme as consequências. Nikolai nos acompanhava, mas já à porta do prédio parou e se virou para mim.
(Nikolai) — Até breve, agente Hartley. — A inclinação da cabeça dele foi quase cortês, mas o tom carregava deboche. — Prometo manter minha querida irmã atualizada sobre cada passo que a família der. Não se preocupe… você será a primeira a saber, mesmo que não queira.
O modo como ele me olhou era provocação pura. Não precisei de mais nada para sentir minha garganta secar. Assenti com a cabeça, sem dar o gosto da resposta.
Ele seguiu em direção a outro carro, e Yelena estendeu a mão, indicando o veículo dela estacionado do outro lado da rua. O Aston Martin preto, lustroso como se tivesse acabado de sair da concessionária. Aquele carro era uma extensão da própria Yelena: perigoso, caro, insinuante. Eu já o conhecia bem.
Quando entrei no banco do passageiro, fui imediatamente envolvida pelo cheiro. Couro novo, mas não só isso. Um perfume amadeirado, seco, forte, como se cada assento tivesse sido impregnado com a presença dela. E ainda havia o toque quase imperceptível de tabaco queimado, um resquício de cigarro que grudava no ar.
A cabine era silenciosa demais, isolando o barulho da rua como se estivéssemos em um mundo à parte. O motor ronronava baixo, uma fera domesticada só na superfície.
Yelena deu partida sem se apressar. Virou-se o suficiente para me encarar, os olhos claros faiscando sob a luz difusa da manhã.
(Yelena) — Engraçado. Você parece ainda mais bonita quando decide fazer algo contra a própria vontade.
Meu corpo reagiu de um jeito indecente, automático, quase humilhante. A lembrança do toque dela, dos beijos trocados e da noite de sex* entre nós, voltou como um soco no estômago. Eu cerrei os dentes, tentando recuperar a compostura.
(Victoria) — Apenas dirija. — A ordem saiu firme, mas meu tom traía o esforço que fazia para não estremecer.
Ela riu baixo, o som vibrando pelo carro como uma ameaça disfarçada de música.
(Yelena) — Como quiser, agente. — As mãos dela deslizaram com calma pelo volante, o movimento sensual até demais para ser apenas mecânico.
Enquanto cruzávamos as ruas de Manhattan em direção ao meu apartamento, não houve pressa. Ela dirigia como quem tinha todo o tempo do mundo, e no fundo, tinha mesmo. Eu, não. Cada esquina que passávamos me lembrava do peso da decisão, do risco absurdo que havia aceitado carregar.
O silêncio se manteve até que ela resolveu quebrá-lo.
(Yelena) — Engraçado como a vida dá voltas. Outro dia eu estava com a sua arma apontada para mim. Hoje, você está no meu carro.
(Vick) — Isso não muda nada — rebati, olhando pela janela, me forçando a não encarar o perfil dela.
(Yelena) — Claro que muda. — O tom arrastado dela me fez estremecer. — Agora você depende de mim.
O cheiro do carro, a cadência da voz dela, a proximidade física, tudo aquilo era sufocante. E ao mesmo tempo, havia um ímã perverso em cada detalhe.
Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. Porque sabia que estava apenas no começo.
O caminho até meu apartamento pareceu durar uma eternidade. Talvez porque eu estivesse consciente demais de cada segundo dentro daquele carro. O ronco grave do motor era um lembrete constante da escolha que havia feito ou melhor, da cilada na qual havia me enfiado. Yelena não falava muito, apenas lançava olhares de canto de olho, satisfeita como um predador que finalmente fisgou a presa.
Assim que estacionamos diante do meu prédio, ela desligou o carro devagar, apoiou o braço no volante e me encarou.
(Yelena) — Vai me convidar para subir ou devo esperar aqui, sozinha, no meio da rua?
A ironia no tom dela me irritou. Eu já sabia que seria inútil pedir que ficasse. Então apenas bati a porta do carro e segui para a entrada do prédio. Ela veio atrás, passos tranquilos, quase dançantes, como se estivesse visitando uma amiga para um café.
No elevador, ficamos lado a lado em silêncio. O espaço fechado parecia menor com a presença dela. O perfume amadeirado que impregnava o carro ainda grudava em sua pele, invadindo o ambiente. Evitei olhar. Meus olhos fixaram o painel iluminado até que o som da chegada ao meu andar soou como um alívio.
Destranquei a porta e entrei primeiro. Minha casa me recebeu com o cheiro familiar de lavanda, eu sempre deixava velas aromáticas espalhadas, mas esse conforto se despedaçou no instante em que Yelena atravessou o batente.
(Yelena) — Lar doce lar… — ela deixou a frase suspensa, girando lentamente pelo ambiente. Passou os olhos pela estante de livros, pelas fotos discretas, pela mobília meticulosamente organizada. — Mais elegante do que… anteontem? Frio demais, mas elegante.
Não respondi. Segui direto para o quarto, tentando não me deixar afetar pela voz dela ecoando pela sala. Abri o closet e comecei a puxar roupas sem pensar muito. Camisas, blazers, vestidos sóbrios. Tudo voava das prateleiras para dentro das malas abertas sobre a cama. Eu precisava ser prática, mas cada peça parecia um lembrete do quanto aquela vida estava sendo desmontada diante de mim.
Ouvi o estalo de uma rolha na cozinha. Fechei os olhos, respirei fundo. Claro que ela abriria alguma garrafa de vinho. Quando voltei à sala, Yelena estava recostada no sofá, pernas cruzadas, taça na mão, rodando o líquido escarlate como se estivesse em sua própria casa.
(Yelena) — Você realmente tem bom gosto. Cabernet chileno, safra interessante. Não é um Chateau Margaux, mas serve.
(Vick) — Esse vinho não é para você. — rebati, seca.
Ela sorriu.
(Yelena) — Tudo aqui é para mim, Vick. Só não percebeu ainda.
Engoli em seco e voltei para o closet. Enfiei alguns pares de sapato em sacolas, tentando ignorar o peso daquela frase. O som dos passos batendo contra o assoalho ecoava como pequenos tiros. Minha respiração já estava pesada quando retornei ao quarto.
E lá estava ela.
De pé ao lado da cama, taça de vinho na mão, olhando descaradamente para a mala aberta. Meus olhos seguiram os dela e o sangue me subiu ao rosto: lingeries. Rendas pretas, seda vermelha, peças que eu nunca tinha imaginado que alguém como Yelena fosse ver.
Dei dois passos rápidos e fechei a mala de supetão.
(Vick) — Você não cansa?
O riso baixo dela foi um corte de navalha.
(Yelena) — Só achei interessante... Afinal minha namorada quem vai usá-las — Ela ergueu a taça, saboreou um gole lento, e completou: — Confesso que não esperava encontrar algo tão… sensual. Mas fico feliz. Prova que a impecável Hartley também tem segredos debaixo da armadura.
(Vick) — Saia do meu quarto. — minha voz saiu firme, mas a respiração denunciava a fúria e o desconforto.
Ela apenas inclinou a cabeça, satisfeita com o efeito. Depois caminhou até a porta, deixando para trás um rastro de perfume e deboche.
Passei os quinze minutos seguintes jogando o resto de minha vida em malas. Algumas joias discretas, maquiagem. O essencial para alguém que sabia que não voltaria tão cedo. Quando terminei, as malas estavam pesadas demais para que eu mesma carregasse sem esforço.
Yelena apareceu de novo, encostada no batente.
(Yelena) — Precisa de ajuda?
(Vick) — Não.
Ela não esperou minha resposta. Cruzou o quarto, pegou duas malas como se não pesassem nada, e seguiu para a porta. O movimento natural, quase gentil, foi mais insultante do que qualquer provocação. Eu a segui com o resto da bagagem, cada músculo do corpo tenso.
No elevador, ela comentou em tom leve:
(Yelena) — Interessante como sua vida cabe em três malas.
Não respondi. O silêncio era a única arma que me restava naquele momento.
Na rua, ela abriu o porta-malas do Aston Martin e ajeitou tudo com cuidado surpreendente. Fechou a tampa com um clique suave, virou-se para mim e sorriu.
(Yelena) — Pronto. Agora você está oficialmente sob meus cuidados.
As palavras soaram como uma sentença.
Entramos no carro e seguimos para o apartamento do disfarce. A cada quilômetro, eu sentia o peso do passado se afastando e o futuro se tornando cada vez mais incerto.
Descemos até a garagem subterrânea. O espaço amplo estava iluminado por lâmpadas frias que lançavam sombras longas no chão de concreto. E lá estava minha equipe, já à espera.
Rick encostado em uma pilastra, postura firme. Lena organizava os equipamentos eletrônicos. Marcus mexia no laptop apoiado no capô de um carro. Ethan, braços cruzados, me olhou com uma expressão carregada de irritação contida.
Assim que o carro parou, Ethan avançou um passo.
(Ethan) — Ela não deveria estar aqui. — apontou para Yelena.
(Yelena) — Garoto chato. — ela respondeu antes que eu pudesse abrir a boca, saindo do carro com a mesma calma insolente de sempre. — Não se preocupe, agente Ethan, não vou roubar seu lugar. Pelo menos não hoje.
Ele cerrou o maxilar, mas Rick ergueu a mão para cortar qualquer reação.
(Rick) — Chega. Temos trabalho.
Yelena deu um sorriso satisfeito e se afastou alguns passos, fingindo desinteresse, mas observando tudo. Eu mesma abri a porta do passageiro e saí. O ar frio da garagem parecia mais pesado com tantas tensões emaranhadas no mesmo espaço.
Rick se aproximou de mim com um envelope pardo.
(Rick) — Essas são as instruções finais. Senhas, protocolos de comunicação, contatos de emergência. — Passou-me o envelope e manteve os olhos fixos nos meus. — Você sabe que não confio nisso. Mas você decidiu. Então vamos fazer direito. Decore tudo e descarte em seguida.
Assenti em silêncio. Lena veio em seguida com uma pequena maleta preta.
(Lena) — Aqui está o kit. — abriu diante de mim. — Dispositivo de rastreamento em tempo real, ponto de escuta de dois canais, microfone embutido em colar discreto. E, por último, o celular preparado. Ele espelha tudo para nossa central e para o servidor criptografado. Use apenas esse.
Peguei cada peça com cuidado, sentindo o peso da vigilância que passaria a carregar.
Marcus se aproximou do Aston Martin com a naturalidade de quem já sabia exatamente o que fazer.
(Marcus) — Vou instalar o rastreador no carro dela. — anunciou, olhando rapidamente para mim. — Preciso do celular dela também, para garantir acesso.
(Yelena) — Nem pense nisso. — Yelena interrompeu, cruzando os braços, o sorriso frio. — Meu carro é uma coisa. Meu celular é outra.
Marcus ergueu uma sobrancelha.
(Marcus) — Sem rastreador no celular, complica.
Ela deu de ombros.
(Yelena) — Complica para vocês, não para mim.
O clima pesou de imediato. Ethan avançou um passo, pronto para discutir, mas Rick cortou antes.
(Rick) — Marcus, instale no carro e pronto.
Marcus mordeu a língua, mas obedeceu, desaparecendo agachado junto ao Aston.
Eu me mantive imóvel, segurando a maleta com os equipamentos. Sentia os olhos de Yelena sobre mim, constantes, quase íntimos. E sabia que aquilo tudo era apenas o primeiro ato.
Saímos do apartamento falso carregando o silêncio pesado da última hora. O peso das instruções ainda estava em mim, o som da voz de Rick ecoando, o jeito sério de Ethan, as mãos precisas de Marcus instalando rastreadores como se fosse apenas mais um dia de trabalho, mas não era. Nada daquilo era só mais um dia. Agora não havia equipe, não havia a barreira da sala de reuniões, nem os olhares deles sobre mim para me proteger. Agora havia só eu. Eu e ela.
O Aston Martin negro de Yelena nos aguardava ainda na garagem como um felino à espreita. Ela abriu a porta do passageiro sem dizer nada, um convite silencioso, mas carregado daquele olhar provocador que parecia me medir, ou pior, me despir, cada vez que me detinha. Respirei fundo antes de entrar, fingindo calma, como se o couro macio do banco não tivesse já impregnado um perfume dela, uma mistura de couro caro, especiarias e um toque doce, feminino, que me lembrava flores noturnas, jasmins talvez. Era um cheiro tão particular que parecia vibrar dentro de mim, em contraste com meu coração acelerado.
O carro deslizou por Manhattan como se não houvesse trânsito capaz de detê-lo. Yelena dirigia com a mesma postura que tinha em qualquer situação: descontraída, um braço apoiado no volante, a outra mão livre, às vezes tamborilando o ritmo de uma música que nem tocava. O silêncio entre nós não era vazio; era carregado. E eu não sabia se era pior quando ela me olhava de soslaio, com aquele meio sorriso de quem sabia algo que eu não sabia, ou quando simplesmente ignorava minha presença como se estivesse sozinha.
Ela conhecia Manhattan como quem não precisa de mapas nem de lógica; fez curvas por ruas estreitas, contornou avenidas, cortou por caminhos que eu não reconhecia. Até que paramos diante de um prédio de fachada imponente, vidro escuro e linhas modernas que brilhavam sob as luzes artificiais da noite. O porteiro a cumprimentou pelo nome, "senhora Volkov", sem questionar nada. Claro. Pessoas como ela não eram questionadas.
O elevador era silencioso, amplo, espelhado. Eu evitava olhar para o reflexo, mas vi de relance: ela ao meu lado parecia ainda mais poderosa ali dentro, como se cada detalhe daquele espaço fosse apenas uma extensão dela. O número do andar piscou e a porta se abriu para um corredor impecavelmente iluminado, paredes claras, carpete macio.
E então entramos.
O apartamento de Yelena era… sufocante em sua beleza. Luxo moderno, mas não aquele luxo impessoal de revista; era um espaço vivido. Cada detalhe gritava personalidade. Uma sala ampla, janelas imensas abertas para a cidade, cortinas claras que esvoaçavam levemente com o ar-condicionado. O chão era de madeira polida, e um tapete persa se estendia diante de um sofá cinza enorme, pontuado por almofadas que pareciam ter sido escolhidas com desleixo, mas claro, era o tipo de desleixo que custava milhares de dólares. Havia quadros abstratos nas paredes, uma estante com livros em russo e inglês, e garrafas de bebidas raras alinhadas num móvel de canto, como se fossem troféus.
O cheiro era outro golpe: uma mistura de madeira cara, perfume feminino e algo levemente metálico, que só podia ser dela. O tipo de cheiro que impregna e não larga.
(Yelena) — Bem-vinda à minha toca — disse ela, largando as chaves numa bandeja de cristal perto da porta. E sorriu. Um sorriso pequeno, irônico.
Antes que eu pudesse me mover, ela pegou minhas malas com a mesma naturalidade de quem recolhe sacolas de compras. Como se eu não tivesse peso. Como se eu não fosse uma convidada forçada, mas algo inevitável.
(Vick) — Eu levo. — Tentei intervir, mas ela já seguia pelo corredor interno, como se fosse óbvio que minhas coisas lhe pertenciam.
O quarto dela parecia saído de uma revista, mas mais íntimo: cama king size com lençóis brancos impecáveis, colcha cinza escura, cabeceira acolchoada. Havia outro tapete persa, mais macio que o da sala. O closet, ao lado, tinha portas abertas revelando fileiras de roupas alinhadas em degradês perfeitos, relógios, sapatos e joias organizados com precisão.
Ela largou as malas no canto, deu dois passos para dentro do closet e disse casualmente:
(Yelena) — Suas coisas ficam aqui.
Cruzei os braços, firme, tentando conter o incômodo.
(Vick) — Não vou dormir com você.
Ela se virou devagar, ainda dentro do closet. Sorriu. Não de surpresa, não de ofensa. Sorriu como quem já sabia a resposta antes de ouvir.
(Yelena) — Tudo bem. — Um encolher de ombros. — Mas suas coisas têm que ficar aqui. Afinal, querida, o disfarce precisa parecer real. Meu pai, meu irmão… eles passam por aqui de vez em quando. Seria estranho você se instalar na sala,ou no quarto de hóspedes…
Resisti. Era um instinto. Mas cada palavra dela vinha carregada de uma lógica fria, difícil de rebater. E eu sabia que Rick diria o mesmo: manter as aparências era essencial.
Suspirei, derrotada, e respondi:
(Vick) — Então que seja. Mas eu vou dormir na sala.
Ela saiu do closet, passou por mim com aquele andar tranquilo e insolente, e se inclinou para as malas.
(Yelena) — Ótimo. Eu já estava pensando em abrir espaço para você. — E sem esperar permissão, começou a mover cabides, puxar roupas, abrir gavetas. Um pedaço do closet dela se tornou "meu" em questão de minutos.
Fiquei parada, deslocada, como uma intrusa na própria vida. Quando percebi, ela já abria minha mala.
(Vick) — Ei! — Fui até lá rápido, fechando a tampa antes que ela tivesse tempo de explorar mais. — Minhas coisas pessoais não são da sua conta.
Yelena arqueou uma sobrancelha, recuando dois passos. Riu. Não um riso alto, mas um som baixo, debochado.
(Yelena) — Calma, agente. Eu só ia organizar pra você. — Mas se preferir, pode guardar suas calcinhas junto com as minhas. Não me incomodo.
Senti o rosto queimar. Revirei os olhos e me afastei, tentando me recompor. Não lhe daria o prazer de ver meu embaraço.
Saí do quarto sem olhar para trás, ainda com a mala por organizar. A sala era meu refúgio temporário. Joguei a bolsa sobre a bancada da cozinha e abri imediatamente o laptop. Era como mergulhar em oxigênio. Configurações, telas, protocolos. A conexão com a equipe precisava estar perfeita.
Conectei à rede, ajustei os códigos e iniciei a chamada. O rosto sério de Rick surgiu primeiro, depois Marcus, Lena e por fim Ethan, que parecia mais carrancudo do que nunca. O som dos microfones se sobrepunha, perguntas, confirmações, tudo girando ao redor da missão.
Por algum tempo durante a conversa, me senti de volta ao controle.
Mas então ouvi o barulho de vidro no fundo. Olhei de relance: não vi nada. O cheiro mudou no ar, sabonete, perfume fresco, pele limpa. Meu estômago apertou.
Quando me dei conta, a equipe estava em silêncio, os olhos fixos em algo que não era eu.
Virei rápido.
E lá estava Yelena. Atrás de mim, observando a tela como se fosse convidada. Um copo de uísque na mão, o cabelo ainda úmido, calça de moletom cinza e apenas um sutiã preto que deixava exposto o dorso firme, marcado por tatuagens que eu já tinha visto antes, mas nunca tão sensuais, tão próximas, tão reais, tão intrusas.
(Vick) — Merda! — xinguei, fechando o laptop com força e instintivamente tentando esconder não a tela, mas o corpo dela da visão da equipe. Meu rosto ardia.
Ela riu baixinho.
(Yelena) — Calma. Achei que ia participar de tudo.
Afastei-me, levando o laptop para o outro lado da bancada, de frente para ela agora, tentando manter os olhos dos meus colegas longe daquele corpo. Mas não sabia se a ideia era boa. Porque agora era só eu e ela.
E eu não conseguia decidir se estava mais irritada… ou vulnerável.
Fim do capítulo
A vida tem sido corrida, mas obrigada a todas que acompanham.
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Marta Andrade dos Santos
Em: 20/03/2026
Pois é! Não esta nada fácil pra Vic.
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HelOliveira
Em: 19/03/2026
Mesmo na correria consegue nos trazer sempre um capítulo melhor que o outro, e com gostinho de quero sempre mais...
Obrigada
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Zanja45
Em: 18/03/2026
Muito feliz, Natália, porque apesar da sua vida agitada, consegui em tempo hábil trazer mais um capítulo pra gente. No entanto, esse, deixou um gostinho diferente no ar Suscitou uma vontade de querer muito mais, de experimentar, de adentrar com maior profundidade, de conhecer mais intensivamente o mundo inecognocivel de Yelena. E parece que a partir de agora vamos começar a viver isso.
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Zanja45
Em: 18/03/2026
Quero mais, autora!
Essa YELENA é um perigo ambulante, conseguiu levar Vick para a toca dela. Ela vai estar muito ferrada em vigiar uma dessas 24 horas por dia Vai ser impossível não cair em tentação. - Porque essa YELENA é muito sensual - É uma indecência para qualquer pensamentos controlados de Vick.
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