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Mundos invertidos por Natalia S Silva

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Palavras: 5520
Acessos: 222   |  Postado em: 13/03/2026

Capitulo 6

Yelena 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O barulho do carro fechando atrás de mim ecoou na rua quase deserta, e por um instante me deixei sentir o peso do ar frio contra a pele. Cada passo até o meu veículo foi medido, consciente, calculado. O asfalto refletia a luz amarela dos postes, riscando a rua com sombras longas e fragmentadas, como se o próprio chão me advertisse sobre o que acabara de acontecer. Entrei no carro com um misto de emoções: raiva, frustração, triunfo, e uma consciência afiada de que havia cruzado linhas que talvez não devesse, mas que eram necessárias para estabelecer meu poder.

 

Eu sabia exatamente o que estava fazendo, sabia os riscos, mas também sabia o efeito que minha presença, minha ação, teria sobre todos: a minha família, meus aliados e a garota… Victoria. Ela não tinha culpa, nenhum papel real naquela disputa que se estendia há décadas dentro da minha família. E ainda assim, minha mão apertava o volante com força, meu corpo tensionado, porque nada podia ser deixado ao acaso.

 

Engolir a morte da minha mãe? Jamais. Jamais engoliria. Aquela fraqueza, aquela injustiça, ficou marcada em mim desde os primeiros instantes após a tragédia. Nikolai sabia. Dmitri sabia. Todos sabiam, mas ninguém fazia nada. Meu pai, aquele velho filho da puta, havia quebrado qualquer chance de redenção, e eu sentia um ódio profundo, que queimava dentro do peito como fogo negro. Nikolai até tentou se rebelar, mas a palmada seca no seu rosto, entregue pela mão do pai, foi o sinal inequívoco de que ele nunca teria liberdade para escolher seu caminho. Eu nunca amei meu pai, mas naquele momento, odiá-lo parecia pouco.

 

Enquanto ligava o carro, sentindo o motor ronronar sob minhas mãos, deixei os pensamentos fluírem sem censura. Cada detalhe da noite anterior me vinha à mente: a tensão nos olhos de Victoria, o medo contido, a submissão forçada. Um aperto no peito, quase culpa, me lembrou do quanto havia ido longe demais. Eu não precisava fazer aquilo, não precisava torturá-la emocionalmente, nem brincar com seu medo. Era cruel, e eu sabia. Ela não tinha nada que nos incriminasse de forma concreta. NADA.

 

Mas havia um propósito maior, e ele pesava mais do que qualquer remorso: mostrar força, mostrar que a linhagem Volkov não se curva, que o patriarca da família seria respeitado, temido. Era a prova de que, mesmo dentro do caos, eu poderia manter o controle. Cada gesto, cada pressão que eu exerci sobre Victoria, cada segundo de medo que a percorreu, era calculado. Não por malícia gratuita, mas por estratégia. Mostrar força era garantir que meu pai, mesmo morto ou debilitado, continuasse sendo lembrado como soberano dentro daquilo que criara.

 

Enquanto dirigia pelas ruas de Nova York, os pensamentos se misturavam, e uma parte de mim se revoltava com a própria capacidade de crueldade. Eu sentia no fundo, aquele pequeno recanto que reconhecia minha própria humanidade, que era lixo. Totalmente consciente disso. Victoria jamais me perdoaria. Ela poderia até tentar racionalizar o que aconteceu, poderia até esconder a raiva, mas eu sabia. Eu sentia. Não havia espaço para perdão naquele momento, apenas a consciência da necessidade do que fiz.

 

E mesmo assim, um fio de vigilância me mantinha alerta. Mesmo depois de ir embora, mesmo depois de vê-la receber ajuda, eu não conseguia simplesmente me desligar. O instinto de proteger, de garantir que ela não fosse morta, ferida, ou que algo saísse do controle, era mais forte do que qualquer desejo de vingança ou orgulho. Eu me escondi no mato aquela noite que a torturei, observei cada movimento dela até que estivesse segura, até que conseguisse assistência. Até que sua equipe chegasse em socorro. Um luxo cruel, talvez, mas era a única forma de equilibrar meu impulso destrutivo com uma sombra de responsabilidade.

 

Enquanto os prédios passavam pelo meu campo de visão pelo vidro do carro, a cidade parecia indiferente, como se não percebesse a guerra silenciosa que se desenrolava em suas ruas. O cheiro de asfalto, óleo e frio misturava-se com o perfume sutil que ainda pairava em mim, memória de Victoria. Memória que me irritava, que me lembrava do quanto meu corpo reagia, da tensão que ainda persistia, e do quanto ela me afetava de forma inesperada. Não era amor, não era desejo no sentido clássico, era algo mais profundo, visceral, uma combinação de respeito, desafio, e a certeza de que aquela garota nunca mais me sairia da mente.

 

Enquanto o carro percorria avenidas mais largas, minhas mãos segurando firme o volante, percebi que o plano para Nikolai, para Dmitri, para toda a dinâmica familiar, ainda estava em desenvolvimento. Zoja e Noah precisavam ser removidos do caminho do FBI, eles sempre foram leais a mim. Cada passo precisava ser pensado, cada movimento calculado. A liberdade de Nikolai era uma meta, um objetivo que me impulsionava, mais do que qualquer ressentimento ou ódio. Ele não merecia viver com medo, escondido. Ele merecia escolher. Eu não podia permitir que a vida dele fosse definida pelo terror do patriarca.

 

Os sinais de trânsito passavam em um borrão, e cada vez que olhava pelo retrovisor, lembrava do risco constante. As ruas poderiam estar vazias, a noite tranquila, mas o perigo estava sempre presente. Cada decisão, cada passo em falso poderia comprometer tudo: o FBI, o controle sobre minha família, e até a segurança de Victoria, paradoxalmente. Eu me perguntei quantas vezes, em outros cenários, teria permitido a liberdade de alguém apenas para testar minha própria força. A resposta era: quase nunca. Mas naquela noite, havia algo diferente. Havia consciência e estratégia, misturadas a um instinto que eu não podia ignorar.

 

O peso da culpa e do cálculo estratégico me esmagava simultaneamente. Queria odiar Victoria por me tocar de formas inesperadas, por se meter na minha vida, por mexer com minha atenção, mas o respeito e a curiosidade sobre sua coragem, sua resistência, sua forma de lidar com o medo, eram mais fortes. Ela havia enfrentado o perigo de frente, mesmo sem saber de tudo, e eu sabia. Eu sentia. Não havia inocência em nossos olhares; havia poder, tensão e um reconhecimento mútuo de limites cruzados.

 

Enquanto estacionava o carro na garagem do meu apartamento, senti um alívio momentâneo. A adrenalina começou a ceder, mas não o peso das decisões que haviam sido tomadas. O frio do metal do volante ainda estava gravado em minhas mãos, e o silêncio do estacionamento era quase ensurdecedor. Eu desliguei o motor, mas não me movi imediatamente. Fiquei ali, respirando, absorvendo cada detalhe da noite, a tensão, a raiva, a culpa, a excitação, a estratégia.

 

No momento em que entrei no prédio, senti novamente a presença da minha própria sombra, o reflexo nos vidros e nos espelhos do hall. Cada passo ecoava nos corredores silenciosos, lembrando-me que aquela noite não terminaria até que cada peça estivesse no lugar, até que cada ameaça fosse controlada, até que meu pai, minha família, e o FBI fossem manipulados dentro do que eu planejava.

 

Enquanto trancava a porta do meu apartamento atrás de mim, o peso da culpa e do propósito misturava-se com a adrenalina do poder que sentia. A amargura pela morte da minha mãe, o ódio pelo pai, o desprezo por quem me havia machucado… tudo isso fervia junto, criando uma mistura de raiva e determinação que eu sabia que seria combustível para os próximos movimentos. Eu podia sentir cada decisão pulsando em minhas veias, cada estratégia se formando antes mesmo de eu tocar papel ou tela, e a certeza de que tudo ainda estava longe de terminar me deixava mais viva, mais intensa, mais perigosa do que jamais fora.

 

E mesmo quando finalmente me joguei na cadeira do escritório, com a luz baixa iluminando o apartamento silencioso, percebi o fio invisível que ainda me conectava a Victoria. Um fio de lembrança do toque, da tensão, do medo e da submissão dela, que me irritava e encantava ao mesmo tempo. Eu sabia que não precisava dela, que poderia manipular toda a situação sem interferência, mas a sensação de poder que ela proporcionava, de desafio, era inestimável.

 

E ali, sozinha, com o coração ainda batendo acelerado, pensei no futuro imediato: os próximos movimentos contra meu pai, a proteção de Nikolai, a remoção de obstáculos, o equilíbrio entre a força e o controle. Cada peça seria posicionada com precisão, cada jogador avaliando seus passos, e eu… eu estaria no centro, observando, planejando, aguardando o momento certo de mover a peça final.

 

A culpa por Victoria, o ódio pelo passado, o desprezo pelo presente e o desejo de vingança pelo futuro se entrelaçavam, formando um mosaico de emoções que me definia. Sabia que nunca mais seria a mesma depois daquela noite. Sabia que nada e ninguém poderia impedir meus movimentos, nem o FBI, nem minha família, nem a própria Victoria. E, ainda assim, parte de mim desejava que ela me perdoasse, que entendesse, mesmo que nunca pudesse.

 

Enquanto rodava na cadeira do escritório, lembrei de ter visto meu canivete sobre a mesa de apoio, no apartamento de Victoria. O objeto que me lembrava da fuga e do controle, sorri com a consciência de que cada detalhe, cada passo da noite, cada reação, havia sido registrado na minha mente. Cada movimento, cada olhar, cada hesitação, cada medo e cada entrega… tudo isso me daria vantagem. Eu estava pronta para os próximos passos, e nada me faria hesitar. Nem raiva, nem culpa, nem desejo. Nada.

 

 

 

 

 

 

 

 

O dia começou como qualquer outro, com a rotina quase mecânica que nos mantém funcionando mesmo em meio ao caos: reuniões, telefonemas curtos, decisões rápidas. Trabalhei como sempre, analisando relatórios, lidando com fornecedores, planejando detalhes que, para o resto, pareceriam triviais, mas que para mim eram peças de um tabuleiro muito maior. Nikolai passou algumas vezes pelo meu escritório, sem pressa, trocando poucas palavras, checando detalhes que eu já tinha organizado. O olhar dele era calmo, quase neutro, mas eu sabia que ele sentia o mesmo que eu: tensão contida, alerta constante.

 

Ignorei a presença da piriguete mais nova do que eu, pendurada no pescoço do nosso pai, rindo como se o mundo não fosse um lugar de sangue e poder, como se não estivéssemos todos sob a sombra do império Volkov. Era ridículo, irritante, mas irrelevante. Ela era apenas uma distração, e eu não tinha tempo para distrações. Cada movimento que fiz, cada passo que dei, era pensado, planejado, como uma coreografia que só eu e meu sangue entendíamos.

 

A noite caiu e eu voltei para casa, tranquila na fachada, mas por dentro, cada nervo vibrava. Sabia exatamente que naquele instante, na madrugada, a carga chegaria. O tipo de operação que não podia falhar, o tipo de movimentação que qualquer deslize transformaria em desastre. O FBI certamente já estaria nos acompanhando, espalhados, silenciosos, atentos. A antecipação era uma mistura de adrenalina e prazer frio; eu gostava de sentir o jogo se desenrolar enquanto todos acreditavam que estavam no controle.

 

No início da madrugada, meu celular vibrou. A tela mostrava Dmitri. Ele não falou, apenas resmungou que precisávamos nos reunir. Peguei a jaqueta, ajustei os cabelos, vesti botas e me preparei. Cada detalhe da minha aparência era calculado, como sempre: confiança, postura, autoridade. Caminhei até o ponto combinado, já sabendo de antemão do que se tratava. O carregamento. Meu pai estava puto, e com razão. A carga, um lote valioso de cocaína, estava avaliada em cerca de cinquenta milhões de dólares. Cinquenta milhões de dólares que, para ele, representavam poder, controle, dinheiro líquido, influência. Para mim, representavam apenas mais uma peça do tabuleiro.

 

Quando cheguei, a tensão era quase palpável. Meu pai resmungava, os dedos batendo sobre a mesa com força suficiente para fazer tremer os copos de cristal. Dmitri o acompanhava, igualmente irritado, mas tentando manter algum tipo de racionalidade. Nikolai, como sempre, se manteve discreto, observando, ouvindo, ponderando cada palavra, cada gesto. Eu me mantive ainda mais quieta, analisando tudo. Cada respiração, cada olhar, cada gesto poderia ser uma pista sobre como agir, ou como antecipar movimentos indesejados.

 

 

(Viktor) — Estamos sendo investigados — resmungou meu pai, a voz carregada de fúria.

 

 

(Yelena) — Sempre estivemos — respondi, curta, direta, com a calma que escondia meu próprio desprezo e raiva. A declaração era simples, mas carregada: eu sabia do que falava, e ele sabia que eu sabia.

 

 

(Dmitri) — Isso é inaceitável — Dmitri interveio, tentando equilibrar a situação.

 

 

(Yelena) — Inaceitável é acreditar que alguém pode controlar isso — resmunguei de volta.

 

 

Meu pai se levantou, os passos pesados ressoando na sala, cada um acompanhado por um leve estalo de tensão no ar. Nikolai continuava imóvel, quase imperceptível, observando cada reação, cada gesto, cada palavra. Eu podia sentir a energia entre nós, a tensão que se acumulava, o medo e a raiva se misturando em um cocktail perigoso. Cada segundo contava, cada olhar podia ser interpretado como fraqueza ou desafio.

 

Quando a reunião terminou, cada um voltou para suas posições. Eu sabia que o dia seguinte seria decisivo, e mais: que às 20h eu precisaria estar exatamente onde deveria estar, cumprindo meu papel como cidadã de bem. A antecipação corria como fogo sob a pele. Cada minuto que se passava até o horário exato era consumido por planejamento mental, cálculo frio e preparação emocional.

 

O dia seguinte foi uma dança de paciência e controle. Trabalhei como todos os dias, mas com a mente voltada para a noite que se aproximava. Cada relatório, cada reunião, cada decisão era tomada com consciência de que estava jogando com o tempo, com os movimentos da minha família e, silenciosamente, com os olhos atentos do FBI. Nikolai e eu trocamos breves olhares de entendimento, sem palavras, cada um consciente do que o outro sabia, do que podia e não podia ser dito.

 

Quando finalmente o relógio marcou as oito da noite, eu estava exatamente onde deveria estar. A rua à minha frente estava silenciosa, quase deserta. Meu carro estacionado com cuidado, as portas trancadas, cada detalhe posicionado para que nada fugisse do meu controle. 

 

Enquanto subia pelo elevador, sentindo o frio da noite tocar minha pele, eu pensava na audácia do meu pai, na fúria de Dmitri, na prudência de Nikolai, e na certeza de que, no momento certo, cada movimento seria minha vantagem. Tudo se desenrolava exatamente como planejado, e ainda assim, uma parte de mim estava alerta, consciente de que qualquer deslize poderia custar caro.

 

 

Toquei a campainha com o indicador e esperei apenas meio segundo até escutar o som de ferrolhos sendo destravados. A porta abriu com um estalo seco e lá estava ele, Ethan, segurando a pistola como se a tivesse mantido apontada para a madeira o tempo todo.

 

Ele levou meio segundo para mirar no meu peito. O olhar dele era puro ódio.

 

 

(Ethan) — Um movimento errado, e eu atiro.

 

 

Inclinei a cabeça, sem me abalar.

 

 

(Yelena) — Bom ver você também.

 

 

Entrei sem pedir permissão. Ele não gostou disso, ficou colado atrás de mim como se pudesse me impedir de respirar. O apartamento estava em silêncio, mas ainda assim carregado. Bastou um passo para ver o restante da equipe reunida na sala, Marcus de pé, braços cruzados, expressão fechada. Lena apoiada junto à bancada da cozinha, sem piscar. E Rick à frente do sofá, com a arma ainda na mão, como quem já tinha decidido que aquilo podia terminar de um jeito ou de outro.

 

Victoria estava um pouco mais atrás, sem arma… mas com o olhar afiado, preso em mim. A pele dela se arrepiou quando nossos olhos se cruzaram, e mesmo com a tensão, senti aquilo percorrer o meu peito. Tirei os olhos dela antes que o resto percebesse.

 

Ninguém falou.

Ninguém mandou que eu sentasse.

Então simplesmente caminhei até a poltrona mais próxima, passos calmos, firmes, controlados e me sentei como se aquela sala fosse minha. Cruzei as pernas, recostei os braços e fiquei observando todos em silêncio, como se estivesse avaliando peças num jogo.

 

Rick quebrou o silêncio.

 

 

(Rick) — A carga de ontem foi interceptada.

O tom dele era tenso, mas seguro. — Cinquenta milhões de dólares em cocaína apreendidos. Foi uma das maiores operações conjuntas entre FBI e DEA em anos.

 

 

Não respondi de imediato. Apenas deixei um sorriso pequeno surgir no canto dos lábios.

 

 

(Yelena) — Parabéns.

 

 

Ele estreitou os olhos.

 

 

(Rick) — Não pense que significa que confiamos em você.

 

 

Agora sim eu ri, baixa, sem pressa.

 

 

(Yelena) — Eu não quero confiança, agente. — Dou de ombros. — Quero resultados.

 

 

Ele deu um passo à frente, irritado.

 

 

(Rick) — Os presos da operação estão sob supervisão constante. Já estão sendo interrogados. E se você veio aqui esperando qualquer tipo de acordo fácil, está enganada.

 

 

Inclinei o corpo para a frente, apoiando os cotovelos nas coxas.

 

 

(Yelena) — Eles vão morrer.

 

 

O silêncio que se seguiu foi denso.

 

 

(Rick) — …o quê?

 

 

(Yelena) — Os presos. Os três colombianos. — pauso, olhando de um em um — Vão morrer antes do amanhecer. Meu pai não deixa pontas soltas. Já deve ter pago alguém da cadeia. Ou da própria equipe de vocês.

 

 

As mandíbulas se travaram ao mesmo tempo. Ethan murmurou um palavrão. Marcus apertou o maxilar.

 

Rick franziu o cenho, mas por um segundo, só um, eu vi a dúvida passar pelos olhos dele.

 

 

(Rick) — Isso é impossível. Eles estão sob supervisão da DEA.

 

 

Eu ergui uma sobrancelha, mordendo o canto do lábio , entre diversão e desprezo.

 

 

(Yelena) — Já deveriam ter arrancado informações deles. Mas preferiram seguir o protocolo. — Uma pausa. — Meu pai adora quando o sistema segue o protocolo.

 

 

Lena desviou o olhar rapidamente para Rick. Marcus já andava de um lado para o outro, claramente inquieto.

E eu continuei ali, sentada, tranquila. Porque naquele instante, mesmo algemada na noite anterior, mesmo ameaçada, eu ainda controlava o tabuleiro.

 

 

Eles não disseram nada, mas eu conseguia sentir.

A tensão corria de um para o outro como corrente elétrica, e era fácil perceber o esforço que faziam para manter o foco em mim, mas, por alguma razão, meus olhos insistiam em voltar para ela.

 

Victoria.

 

Ela não piscava. O olhar era firme, ferido… e inquieto.

Mesmo assim, havia algo ali, algo entre raiva e curiosidade, que me fazia desviar o olhar dos outros apenas para encontrá-la de novo.

Era inevitável. Quase… irritante.

 

Rick continuava trocando olhares rápidos com Lena, claramente pesando minhas palavras. Ethan ainda estava próximo demais, com o dedo praticamente imóvel sobre o gatilho. Marcus cerrava o maxilar com tanta força que eu imaginei o som dos dentes se friccionando.

 

Eu me recostei na poltrona com calma e, finalmente, tirei o maço de cigarros do bolso do casaco.

 

Ninguém reagiu de imediato quando bati o filtro na borda e levei o cigarro aos lábios.

Quando acendi, a chama iluminou parte do meu rosto, e senti o cheiro do tabaco se espalhar em segundos pelo apartamento.

 

Foi só então que Victoria finalmente se mexeu.

 

 

(Victoria) — Você não pode fumar aqui.

 

 

A voz dela atravessou o cômodo com mais firmeza do que eu esperava.

Eu virei apenas um pouco o rosto na direção dela, traguei devagar e deixei a fumaça sair pelos lábios com a calma de quem conhecia todos os segredos da sala.

 

 

(Yelena) — Até onde eu sei, eu não pedi permissão… — inclinei a cabeça — E nós não terminamos a conversa.

 

 

Por um instante, o olhar dela vacilou e eu precisei me controlar para não sorrir.

 

Traguei outra vez e cruzei as pernas, voltando meu olhar para Rick.

 

 

(Yelena) — Então… vamos direto ao que importa. — Fiz uma pausa, deixando o silêncio pesar sobre eles. — A imunidade de Nikolai. Como será feita?

 

 

Rick franziu a testa, tentando manter a voz firme.

 

 

(Rick) — Isso não depende só de mim.

 

 

(Yelena) — Depende sim. — respondi, sem levantar a voz. — Você sabe como isso funciona. Prepara o documento. Entrega ao procurador. Eles fazem vista grossa em troca do pacote completo. Já aconteceu antes.

 

 

Ele respirou fundo, claramente incomodado com o fato de eu saber exatamente como o sistema funciona.

 

 

(Yelena) — Quero a garantia assinada. Sem pegadinhas, sem “análise posterior”, sem condições ocultas. — Traguei de novo, olhando diretamente para Victoria por um segundo inteiro antes de voltar para Rick.

— Caso contrário, eu simplesmente assisto meu pai morrer… e deixo Dmitri assumir. E vocês voltam pro ponto zero.

 

 

Ninguém respondeu, mas dessa vez os rostos deles tinham mudado.

A descrença deu lugar àquela expressão silenciosa que a gente só tem quando percebe que alguém está dizendo a verdade.

Lena desviou o olhar. Ethan praguejou baixinho. Marcus suspirou.

 

E eu… continuei fumando.

Tranquila.

Como se estivesse no lugar mais seguro do mundo.

 

Porque, naquele instante, estava.

 

 

 

Rick apertou os lábios, pensou alguns segundos e finalmente falou, com aquele ar de superior que ele gosta de usar quando tenta mostrar que tem o controle.

 

 

(Rick) — Quero você monitorada vinte e quatro horas, Volkov. Um agente contigo o tempo todo.

 

 

Eu não resisti e ri. Não um riso leve, mas um riso debochado, lento, que atravessou o ar pesado da sala como uma lâmina.

 

 

(Yelena) — Isso não vai ser possível. — Inclinei o corpo para o lado e deixei os olhos deslizaram lentamente para Victoria. — A menos que vocês decidam levar ela de volta pra minha cama.

 

 

Foi o suficiente.

 

Ethan explodiu.

 

Ele avançou num movimento seco, rápido, deu um tapa na minha mão com tanta força que o cigarro voou longe e, sem hesitar, enfiou a pistola direto no meu peito.

 

Na mesma fração de segundo em que senti o metal, meu corpo já havia reagido.

Desviei a linha do cano com o antebraço, girei o quadril, levantei e em meio à movimentação a lâmina já estava aberta na outra mão, encostada na garganta dele. Não um centímetro longe. Encostada. O fio pressionando a pele.

 

Parou tudo.

 

Ele ficou imóvel. Respirando pelo nariz. E eu senti a jugular dele pulsar contra o metal.

 

Em volta, armas se ergueram ao mesmo tempo. Rick, Marcus, Lena, todos gritaram meu nome como se isso fosse me fazer parar.

 

Mas eu não tirava os olhos dos de Ethan.

 

 

(Yelena) — Eu deixei você me socar outro dia — murmurei, baixa, firme — …mas isso não vai acontecer de novo, garoto.

 

 

Agarrei o punho dele com força e o impedi de mover a arma.

 

 

(Yelena) — A única pessoa aqui que tem o direito de revidar qualquer ação minha… é a Victoria. — Pausa. Apenas o som da respiração dele. — E pelo que lembro muito bem… você não é ela.

 

 

Eu empurrei o corpo dele para trás e ao mesmo tempo afundei levemente a lâmina na pele, só o suficiente para arrancar um filete de sangue no pescoço.

O som que ele fez foi baixo, furioso.

 

Soltei também a pistola, deixei cair no chão com um clack e voltei a me sentar. Como se nada tivesse acontecido. Como se não houvesse uma sala inteira com armas apontadas para mim.

 

Cruzei as pernas com calma, ajeitei uma mecha de cabelo atrás da orelha e recuperei o controle da respiração, sem olhar para mais ninguém.

 

 

(Yelena) — …agora podemos continuar?

 

 

O silêncio que se seguiu valeu mais do que qualquer ameaça.

 

Eles sabiam.

 

Eu estava ali por escolha.

 

E só sairia quando quisesse.

 

 

Rick manteve o olhar em mim por alguns segundos, os olhos endurecidos, a respiração pesada, até que finalmente baixou a arma.

 

 

(Rick) — Certo. Vou providenciar os papéis de imunidade para Nikolai. — Ele falou com aquela frustração contida de quem sabe que está fazendo o que deve, mas odeia ter que admitir.

 

 

Inclinei a cabeça numa saudação quase preguiçosa.

 

 

(Yelena) — Que gentil da sua parte.

 

 

E antes que ele pudesse responder, completei com o mesmo tom debochado:

 

 

(Yelena) — Depois disso… a gente começa a trabalhar de verdade.

 

 

Levantei-me com a mesma calma com que havia chegado. Os outros ainda estavam tensos, Ethan com a mão na ferida do pescoço, Marcus segurando a arma mais forte do que devia, Lena apenas observando, fria, pronta, e, no meio deles, Victoria.

 

A única que me fazia hesitar por um segundo inteiro.

 

Passei por ela devagar.

O corpo imóvel, mas os olhos… vivos, intensos, aquela mistura dolorosa de raiva, conflito e algo que ela não queria admitir nem para si mesma.

 

Parei ao lado dela, o suficiente para sentir o perfume leve da pele que eu ainda lembrava perfeitamente.

 

 

(Yelena) — Sabe… você é ainda mais bonita quando tenta me odiar.

 

 

Ela não respondeu. A boca se crispou. Os olhos brilharam, não de desejo… mas de algo muito mais perigoso.

 

Sorri.

E simplesmente saí.

 

 

 

 

 

 

 

A noite estava fria quando desci as escadas do prédio e atravessei a rua. A cidade seguia viva, indiferente, acendendo suas luzes como se nada estivesse prestes a explodir. Entrei no carro e fui direto para o apartamento de Nikolai.

 

Ele abriu a porta já com um copo de vodka na mão e me abraçou sem perguntas. Não um abraço fraco. Um abraço real, daquele tipo que só ele me dá.

 

Sentamo-nos na sala, as janelas abertas para o ruído distante das avenidas. Ele serviu mais duas doses e ficamos alguns minutos apenas bebendo em silêncio, comentando coisas banais: o tempo, a decoração terrível que aquela garota nova colocou na casa do pai, o fato de Katia (uma das nossas contadoras) estar grávida de seis meses e ninguém saber quem é o pai. Coisas assim. Coisas que tentam manter o mundo normal.

 

Mas o nome dela apareceu naturalmente.

Nossa mãe.

 

 

(Nikolai) — Ela… — a voz dele falhou e ele apertou o copo — …ela teria odiado aquele enterro.

 

 

Assenti devagar.

 

 

(Yelena) — Ela merecia algo bonito. Flores claras. Um sol de verdade. E não aquela droga de garoa e a piriguete do pai chorando de mentira.

 

 

Ele bufou, quase rindo. Os olhos estavam vermelhos. O meu peito doeu.

 

Ficamos em silêncio por mais alguns segundos, até que decidi ir direto ao ponto.

Pousei meu copo na mesa devagar e o encarei:

 

 

(Yelena) — Ela foi morta, Nikolay. — Ele não respondeu. Apenas olhou pra frente, as mãos tensas. — E você sabe disso.

 

 

A garganta dele se contraiu.

 

 

(Nikolai) — …eu sei.

 

 

(Yelena) — Eu vou acabar com ele. Com todos eles, se necessário. Mas pra isso… preciso saber se você está disposto a fugir quando tudo acabar.

 

 

Ele franziu o cenho.

 

 

(Nikolai) — Fugir?

 

 

(Yelena) — Ir viver a vida que você sempre quis. Um lugar onde ninguém vai te obrigar a fingir que é algo que não é. Maldivas, talvez. Sem acordo de extradição. Sem Dmitri. Sem pai. Sem essa maldita casa… — Abaixei o tom. — …e sem precisar esconder que gosta de homens.

 

 

Ele me encarou, ofendido.

 

 

(Nikolai) — Eu não gosto de homens.

 

 

Eu fiquei olhando pra ele por um segundo… e comecei a rir. Sincera.

Sacudi a cabeça, ainda rindo.

 

 

(Yelena) — Ah, por favor, Nikolai. O que diabos você tem com o Noah então?

 

 

O rubor que subiu pelo rosto dele confirmou tudo.

Ele prendeu a respiração e abriu a boca pra responder… mas as palavras simplesmente não vieram. Então ele desviou o olhar, apertou o copo com tanta força que eu achei que fosse quebrar.

Fiquei séria.

 

 

(Yelena) — Não quero que você viva com medo. Já vivemos isso por tempo demais. — Toquei o ombro dele com suavidade. — Me deixa garantir isso por nós dois, Nick.

 

 

Ele respirou fundo, os olhos marejados, mas, pela primeira vez em anos, assentiu. Devagar. Sem palavras. Só um gesto silencioso de concordância.

 

E naquele instante eu soube: ele estava comigo.

 

E é tudo o que eu precisava.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Voltar para meu apartamento foi como entrar em uma caixa vazia que de repente ficou grande demais.

Silêncio.

Nada além do tic-tac do relógio na parede e do ruído baixo da cidade entrando pelas janelas.

 

Deixei a jaqueta cair sobre a cadeira e fiquei parada no meio da sala por alguns segundos. Só… parada.

Como se o corpo ainda estivesse tentando entender tudo que aconteceu nos últimos dias.

 

Minha mãe estava morta.

 

Se eu repetisse isso mais dez vezes talvez fizesse algum sentido, mas não fazia. A voz dela ainda ecoava na minha lembrança com tanta nitidez que por um instante pensei que poderia virar o rosto e encontrá-la preparando chá na cozinha. Como das vezes que me visitava.

 

Mas não.

 

Ela estava morta e meu pai havia feito aquilo.

Não por necessidade, nem porque precisava eliminar algum risco.

Fez porque quis.

Porque para ele tudo é substituível, até a mulher que lhe deu três filhos.

 

Senti os punhos se fecharem. A mandíbula travar.

 

Passei a noite inteira com essa mistura asquerosa de ódio, nojo e… desprezo. Desprezo por Dmitri, que se acomodou tanto no papel de sucessor que agora até parece se preparar pra assassinar o próprio pai quando for conveniente.

E desprezo por mim também — por ter gasto tanto tempo tentando defender aquela estrutura doentia em vez de explodi-la por dentro muito antes.

 

Mas havia outra coisa.

Um nome que insistia em retornar no meio da madrugada, quando o resto do ódio se calava:

 

Victoria.

 

A imagem dela não me saía da cabeça.

Aquele jeito como me olhou esta noite, olhos azuis que antes me queimavam de desejo e curiosidade… agora me atravessavam com medo, raiva… e algo mais que ela mesma ainda não entendeu.

 

Ela estava linda.

 

Linda mesmo me apontando uma arma, com a respiração tensa e a voz firme.

Às vezes penso o quão diferente tudo poderia ter sido.

Se ela não fosse do FBI.

Se eu não tivesse me sentido obrigada a prová-la e quebrá-la naquela noite.

 

Deveria me proteger desses pensamentos, e ainda assim, quando fecho os olhos, o que sinto nas minhas mãos não é a Glock ou a faca…

 

…é a pele dela. A forma como o corpo reagia ao meu toque.

 

E, Deus, como fui estúpida.

 

Não precisava ter feito aquilo com ela.

Ela não tinha absolutamente nada que pudesse nos incriminar. Estava ali, confusa, suscetível, entregue e eu transformei isso em medo. Trauma.

Ela talvez nunca me perdoe.

 

E a parte mais irônica é que eu não deveria me culpar.

Ela se deitou com uma criminosa por causa de um caso.

Ela escolheu isso.

Ela cruzou essa linha voluntariamente. E qualquer outra agente no lugar dela teria feito o mesmo.

 

…Mas eu me culpo mesmo assim.

 

Por ter visto aqueles olhos se fecharem não por prazer, mas de medo.

Por ter visto as mãos dela tremerem.

Por tê-la deixado ajoelhada na lama, chorando e acreditando que ia morrer.

 

Respiro fundo. Olho o reflexo no vidro da janela.

 

Eu não vou pedir desculpas. Não é isso o que faço.

 

Mas posso compensar.

 

No fim de tudo, quando Nikolai estiver em segurança, quando meu pai estiver apodrecendo numa cela e Dmitri cair com ele, eu vou me entregar.

Deixar que Victoria me prenda.

Deixar que feche as algemas ela mesma.

 

Não porque perdi.

Mas porque talvez… pela primeira vez… eu que

ira dar a alguém aquilo que merece.

 

E ela merece isso.

 

Um gosto amargo subiu pela garganta, mas desta vez não lutei contra ele. Peguei meu copo de vodka, sentei no chão, encostei as costas no sofá e deixei o silêncio me afundar ali.

 

Até que o sol começasse a nascer.

 

 

 

 

Fim do capítulo


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Comentários para 6 - Capitulo 6:
Zanja45
Zanja45

Em: 13/03/2026

Ethan não vai mais dar uma de brabo pra cima de Yelena, apenas a Vick foi dado esse direito. Rsrsrsrs!

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Zanja45
Zanja45

Em: 13/03/2026

Que fofo da parte de Yelena! Depois que ela resolver todas as pendências se deixar aprisionar por Vick.

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