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Mundos invertidos por Natalia S Silva

Ver comentários: 4

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Palavras: 7346
Acessos: 229   |  Postado em: 25/02/2026

Capitulo 5

Victoria 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu ouvi o barulho da pá batendo na terra pela décima vez e foi como se cada golpe fosse dado dentro do meu peito.

A terra afundava lenta, úmida, escura, formando um buraco no qual, eu já sabia, meu corpo passaria a fazer sentido.

Foi ali, ajoelhada, com o vestido sujo grudando na pele e o vento frio cortando a base da nuca, que finalmente entendi que não havia saída.

Não havia reforços.

Não havia protocolo.

Não havia plano B.

A van provavelmente ainda estava estacionada no mesmo quarteirão do hotel, aguardando meu “próximo gemido”.

 

Nunca achei que morreria assim.

Principalmente não nessa posição, nessa postura, com o corpo ainda trêmulo pelos beijos de uma mulher que agora observava enquanto o próprio irmão cavava uma cova rasa diante de mim.

 

E quando ela se ajoelhou outra vez, tão perto que eu pude sentir o couro frio da jaqueta roçar no meu braço, algo em mim quebrou.

 

 

(Victoria) — Eu… eu falo.

 

 

Saiu num sussurro, mas era real. Não havia mais força para resistir, e o pensamento nos meus pais, David e Margaret, Deus, os nomes saíram da boca dela com uma naturalidade assustadora, atravessou qualquer tipo de fidelidade profissional que eu achava possuir.

 

 

(Victoria) — Eu falo tudo. Tudo o que a gente tem. — Fechei os olhos. Respirei. — Vocês estão no centro de um mapa que cruza quatro estados. Tráfico, armas, extorsão, lavagem. Temos arquivos, escutas… mas nada direto. Nada que conecte o dinheiro aos nomes de vocês. É por isso que… — minhas palavras se enrolaram — por isso a infiltração.

 

 

Quando reabri os olhos, ela ainda estava lá. Observando-me como quem aprecia um quadro. Nenhuma surpresa. Nenhum espanto. Apenas… satisfação.

 

Ela se levantou lentamente, como se finalmente estivesse convencida de algo.

 

 

(Yelena) — Viu? — murmurou com uma calma que me deixou arrepiada — No fim das contas… você sabe obedecer.

 

 

Um gesto simples com o queixo e a mulher me puxou pelo braço, com força, me colocando de pé. O corpo inteiro protestou. As pernas tremiam. O sangue parecia gelado.

“É agora”, pensei.

Eles vão me fazer ajoelhar diante daquela cova e alguém vai atirar pelas costas.

 

O chão estava molhado e afundava sob meus sapatos. A pá parou. Nikolai se afastou dois passos, o outro homem limpou as mãos nas calças.

Senti Yelena se mover atrás de mim. Passos lentos. Um movimento de braço.

 

Por um segundo, o mundo inteiro ficou silencioso.

 

Eu fechei os olhos.

Vi a cena inteira na minha cabeça, o clarão do disparo, o corpo caindo dentro da cova, a terra cobrindo meu rosto. E, Deus, o pensamento de que poucas horas antes eu tinha desejado aquela mulher com força suficiente para esquecer qualquer código ou protocolo foi cruel demais.

 

 

Mas o disparo não veio.

 

Em vez disso, senti algo frio roçar meu pulso e as fitas se soltaram. Abri os olhos, piscando.

 

As mãos estavam… livres.

 

Em seguida os tornozelos.

 

Olhei em volta, perdida, sem entender. Todos me observavam… e sorrindo.

 

Nikolai começou a rir primeiro, o tipo de riso baixinho e cínico de quem está achando a situação particularmente divertida. O outro homem soltou um “tá vendo?” e apoiou o cotovelo no cabo da pá.

A mulher deu dois passos pra trás, cruzando os braços, com aquele meio sorriso entediado nos lábios.

 

E então Yelena deu um passo à frente e, ainda atrás de mim, inclinou-se ao meu ouvido.

 

 

(Yelena) — Acha mesmo… que eu ia enterrar um corpo por tão pouco?

 

 

Um riso baixo e rouco escapou dela e todos os outros começaram a rir juntos.

Riam de mim.

Da minha expressão.

Do meu medo.

 

 

(Yelena) — A cova foi só uma distração, agente Hartley. — ela passou as pontas dos dedos pela lateral do meu pescoço, como se ainda pudesse me enlouquecer mesmo depois daquilo. — Você precisava entender onde está se metendo.

 

 

Eu não consegui responder nada. Só fiquei ali, com os braços ainda colados ao corpo, sem saber se chorava de alívio ou de ódio.

 

 

(Yelena) — Bem-vinda ao submundo de verdade.

 

 

Por alguns minutos fiquei apenas ouvindo os sons de passos se afastando, o estalar de cascalho sob botas, o rangido suave das portas do SUV se fechando, o ronco do motor cortando a noite úmida.

Um por um, eles foram sumindo entre as árvores.

Até restar só ela.

Yelena.

 

Ficou alguns metros à minha frente, imóvel, o rosto iluminado apenas pelo farol traseiro do carro.

 

 

(Yelena) — Esse lugar é perigoso à noite. — Ela disse aquilo como quem dá uma dica a um velho conhecido. — Tome cuidado pra voltar pra casa, Victoria.

 

 

Por um segundo, a respiração prendeu no meu peito. Eu queria responder, qualquer coisa. Um insulto. Um pedido. Uma ameaça.

Mas nada saiu.

 

Ela deu meia volta, caminhou alguns passos e depois…

Virou o rosto por cima do ombro. Jogou algo no chão, o brilho metálico reluziu na terra molhada.

 

 

(Yelena) — Se cuide.

 

 

E entrou no carro.

 

O motor rugiu e as luzes desapareceram lentamente pela estrada de terra.

Primeiro um carro. Depois o outro.

Até que tudo virou silêncio.

 

Absoluto.

 

Fiquei ali, de pé, com as mãos soltas ao lado do corpo e aquele buraco escuro na minha frente. Senti o vento bater no rosto, e só então percebi que tinha os olhos completamente marejados.

Minha garganta tremia.

 

Eles se foram…

 

Eles simplesmente me deixaram aqui.

Sem telefone. Sem carro. Sem armas.

Depois de me despir, me humilhar, me usar e abrir uma cova diante dos meus olhos.

 

O chão começou a girar.

Minhas pernas afrouxaram e eu afundei de joelhos na terra molhada.

Um soluço me escapou antes mesmo que eu pudesse contê-lo, feio, vergonhoso, alto.

 

Engoli, de novo.

E aí veio outro.

 

E outro.

 

Até que eu estava chorando de forma descontrolada, com o rosto nas mãos, como uma criança perdida num bosque.

 

Uma agente do FBI. Treinada. Mas que naquele momento nada em mim parecia lembrar disso.

 

 

Eu lembrava apenas do gosto dela. Da sensação daquelas mãos nas minhas costas. Do cheiro da jaqueta. Do som da pá abrindo a terra. Da ameaça sussurrada no meu ouvido, David e Margaret.

Aquilo me destruiu mais do que a cova.

 

Demorei talvez dez minutos inteiros até conseguir respirar sem soluçar.

 

Quando ergui o rosto, os olhos ardiam. E a primeira coisa que vi foi o brilho do canivete no chão, exatamente onde ela havia jogado.

 

Arrastei-me até ele. Fechei os dedos ao redor do metal frio. O objecto em si parecia inútil naquele momento. Mas apenas sentir algo sólido na mão me trouxe de volta um fragmento de controle.

 

Apoiei uma mão no chão e me levantei devagar. As pernas tremiam como se eu tivesse corrido quilômetros.

Respirei fundo. E dei o primeiro passo.

O salto do sapato afundou, sujando-se de lama e folhas.

Dei o segundo passo. O terceiro. Cada um parecia um esforço de sobrevivência.

 

Minha cabeça martelava, deveria sair da mata, depois achar uma estrada. Luz. Pessoas.

 

Virei as costas para o buraco e comecei a andar, devagar, sentindo a escuridão fechar ao meu redor. Cada ruído, um galho quebrando, um grilo, o sopro do vento, me fazia olhar por cima do ombro.

As luzes da cidade estavam longe. Muito longe. Mas eu segui.

 

Uns quinze minutos depois, passei por uma cerca de arame torcida. Aos poucos a mata começou a se abrir numa clareira. Haviam restos de lata, uma carcaça enferrujada de tanque de água… sinais de que a civilização não estava tão distante.

Mais dez minutos tropeçando por um campo me levaram até um caminho de cascalho largo.

 

E lá no final dele…

Um poste de luz desgastado. Uma cabana de madeira. Provavelmente um posto de pescador ou abrigo de manutenção.

 

O coração correu.

 

Apressei o passo.

Cada pedra doía sob o salto, mas continuei.

E finalmente, trêmula, bati na porta de madeira com o punho fechado. Uma. Duas. Três vezes.

 

Nenhuma resposta.

 

Dei a volta. No lado havia um telefone antigo, de uso rural, daqueles protegidos por chapa de metal.

Estava coberto de poeira…

Mas quando ergui o fone com as mãos trêmulas, escutei o som baixo e contínuo do sinal de linha.

 

Fechei os olhos.

 

Por um segundo, apenas um, a raiva, o medo, a humilhação, tudo se misturou numa mesma lágrima que caiu silenciosa pelo meu rosto.

 

Eu ainda estava viva.

 

Desabei outra vez contra a parede de madeira, sentindo o sal do choro queimar meus lábios enquanto meus dedos giravam devagar os números que me levariam de volta ao mundo real.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A luz do farol veio primeiro, recortando árvores, lama, mato alto, até finalmente iluminar meu corpo encostado na parede da cabana. O barulho do motor da van ecoou naquele descampado silencioso, e no instante em que ela freou, eu perdi o pouco de domínio que ainda tinha sobre minhas pernas.

 

A porta lateral se abriu com violência.

 

 

(Ethan) — Jesus Cristo… Vick!

 

 

Ele foi o primeiro a me alcançar, correndo, quase tropeçando na própria pressa. Atrás dele apareceram Lena e Marcus, os dois com o mesmo olhar, uma mistura de choque, pânico e incredulidade. Rick veio por último… mas o olhar dele foi o que mais me atingiu.

 

Não era só preocupação.

Era medo. Medo puro e real.

 

Quando me viram ali, com o vestido sujo de lama na altura do joelho, a pele marcada, os olhos inchados de tanto chorar e segurando com força um canivete russo como se fosse meu único elo com o mundo… os quatro pararam por um momento. Como se estivessem tentando entender se aquilo era real.

 

 

(Ethan) — Meu Deus, Vick — ele sussurrou, e as mãos dele foram direto pros meus braços — Você está ferida?

 

 

Eu balancei a cabeça, sem conseguir falar de imediato.

Rick tirou o casaco dele no mesmo instante e o colocou sobre meus ombros, firmando com as duas mãos como se quisesse me aquecer e me manter inteira ao mesmo tempo.

 

 

(Rick) — Hartley… Hartley olha pra mim… você consegue andar?

 

 

Consegui. Ou tentei.

Dei um passo. As pernas falharam.

Foi Ethan que me segurou. E, naquele momento, não pensei em orgulho, em hierarquia ou em protocolo, simplesmente me deixei ser amparada e levada para dentro da van.

 

O interior estava iluminado demais. O contraste me cegou por um instante. Lena fechou a porta rapidamente e se ajoelhou na minha frente com a testa franzida, como se estivesse contando secretamente cada hematoma visível no meu corpo.

 

 

(Lena) — Você precisa de um médico.

 

 

(Vick) — Estou bem — saiu num fio de voz. Uma mentira. Mas eu precisava falar antes que todos perdessem a cabeça. — Só… me escutem.

 

 

Marcus já havia se atirado ao volante e dado partida. A van começou a arrancar do local, derrapando na terra solta. Ethan sentou-se ao meu lado, sem largar meu braço. Rick ficou de pé, segurando na barra do teto, olhando fixamente pra mim.

 

(Rick) — O que aconteceu. — A voz dele era firme… mas embargada. — Victoria… como diabos você saiu daquele hotel?

 

 

Abri a boca e a voz não veio de imediato. Senti a garganta fechando. Por um segundo achei que fosse desabar de novo.

Eu respirei fundo.

 

 

(Vick) — Fui… levada. Por eles. — Os olhos dos quatro se ampliaram. — Fizeram contato no quarto… me tiraram por uma rota de serviço. Uma mulher. Nikolai. E um terceiro… um homem. Me levaram para um ponto fora da cidade… matagal… — A imagem da cova voltou em um estalo e precisei fechar os olhos por um instante para continuar. — Ela sabia desde o começo. Tudo. Quem eu era. O disfarce. A operação. Todas as nossas rotas.

 

 

Lena praguejou em voz baixa, um “Merda…” abafado.

 

 

(Ethan) — Mas como? Como ela descobriu…?

 

 

(Vick) — Não sei. Ela me disse que nunca caiu no meu disfarce, fez uma cova só pra… pra me quebrar.

 

 

Ninguém falou por alguns segundos.

 

 

(Marcus) — Jesus… — sussurrou do banco do motorista.

 

 

(Vick) — Eles… me deixaram lá. Só. Jogaram um canivete… e foram embora.

 

 

Eu senti o corpo inteiro tremer de novo depois de dizer aquilo. Era como se, ao ouvir as palavras em minha própria voz, finalmente aceitasse o que tinha acabado de passar. Pela primeira vez desde que entrei naquela van, deixei a cabeça cair nos ombros e prendi o choro na garganta.

Só conseguia pensar na voz de Yelena dizendo “Se cuide”, como se aquilo fosse uma piada.

 

Rick passou uma mão no rosto e murmurou algo que eu não consegui entender. Depois se aproximou e se abaixou até ficar na mesma altura dos meus olhos.

 

 

(Rick) — Você tá viva. É só isso que importa agora. — Ele se virou para o resto da equipe. — Marcus, retorna pra base. Nada de hospital público. Vamos chamar o nosso médico.

 

 

(Ethan) — E depois?

 

 

Rick enrijeceu o maxilar.

 

 

(Rick) — Depois? — Ele olhou de novo pra mim, e nesses olhos não havia mais medo.

Havia raiva. — Depois a gente acaba com os Volkov.

 

 

Eu fechei os olhos e deixei o corpo relaxar um pouco contra o assento, tentando manter a mente desperta, mas sentindo os últimos sinais de adrenalina se esgotarem. O barulho do motor, o cheiro do casaco de Rick nos meus ombros, a presença silenciosa de Ethan ao meu lado… tudo aquilo formava um casulo precário, frágil, mas naquele momento necessário.

 

A van seguiu devorando a estrada escura, enquanto eu, com as mãos trêmulas sobre o casaco de Rick, tentava lembrar que ainda havia um motivo, mesmo em meio à raiva, à vergonha e ao medo, para continuar lutando.

 

 

 

Depois do atendimento médico na sede, curativos rápidos, analgésicos, um exame de choque postural para comprovar que eu ainda estava funcional, Rick insistiu que eu fosse levada para casa. Disse que um relatório completo poderia esperar. Que eu precisava dormir num lugar seguro.

 

Dois oficiais da Polícia de Nova York foram posicionados na entrada do meu prédio. “Excesso”, segundo Rick. “Essencial”, segundo a minha pulsação, que ainda disparava toda vez que eu fechava os olhos e via aquela cova aberta no fundo da mata.

 

Em casa… eu desabei de verdade.

 

Não houve grito. Nem drama. Eu simplesmente sentei no sofá, com o casaco de Rick ainda sobre os ombros, e chorei silenciosamente até não conseguir mais respirar.

 

Passei os dias seguintes em suspensão.

Fui afastada “temporariamente”, e mesmo que me irritasse, acabei aceitando. Dormia mal, acordava no meio da noite revivendo o som da fita rasgando a pele do meu pulso. Comecei a passar mais tempo na casa dos meus pais, inventei que estava de férias. Eles ficaram felizes por me ver tanto tempo por perto… e não faziam ideia do quanto eu só precisava olhar pra eles e pensar eles estão vivos, ela não chegou até eles. Ou não quis chegar.

 

O mês inteiro escorreu em um estado esquisito de alerta e tentativa de normalidade.

 

Quando finalmente voltei para a sede do FBI, achei que me sentiria mais forte.

 

Mas Rick foi direto:

 

 

(Rick) — Hartley, a infiltração está encerrada. Definitivamente. — Ele nem me deu chance de responder. — Vamos continuar investigando os Volkov, mas à distância, com inteligência remota. Nada de colocar mais alguém em risco… e, principalmente, nada de colocar você em risco.

 

 

Eu tentei argumentar. Tentei lutar. Estava com raiva.

 

 

(Vick) — Você não pode me tirar do caso. Eu sou a única que chegou perto dela…

 

 

(Rick) — Justamente por isso. Você chegou perto demais.

 

 

As palavras me feriram mais do que eu gostaria de admitir. Mas eu vi o olhar dele. Não era autoridade. Era preocupação. Real. Crua.

 

Então engoli meu orgulho.

 

E voltei a trabalhar, mas em outros casos, tráfico interno, lavagem de dinheiro de uma facção da Georgia, rastreamento transnacional.

 

Tentei ocupar cada segundo.

Tentei preencher todos os espaços da mente com números, mapas e relatórios.

 

Mas vez ou outra meus olhos escapavam para o painel do escritório onde ficavam os arquivos abertos da Operação Volkov.

E tudo estava… parado.

A equipe circulava em torno dos mesmos pontos de sempre, esbarrando nos mesmos becos sem saída. Nenhum avanço. Nenhuma pista. Yelena tinha desaparecido do radar como fumaça.

 

E eu…

 

Eu não conseguia esquecê-la.

 

Era como se o sangue ainda lembrasse do perfume dela.

Como se o corpo ainda pudesse sentir o peso dos dedos dela nas minhas costas.

E isso me enojava. Me revolvia. Me deixava furiosa comigo mesma.

Como é que eu podia sentir coisa alguma além de ódio por alguém que me jogou numa cova e ameaçou minha família?

 

Comecei acompanhamento psicológico protocolar.

 

Na primeira sessão não consegui falar nem dez palavras sobre Yelena sem sentir o estômago revirar.

 

Na segunda, a psicóloga me disse que eu estava com sintomas de trauma vinculado à manipulação afetiva.

Quase ri.

Mas depois, quando deitei à noite, percebi que era exatamente isso: toda vez que fecho os olhos sinto ódio… e ao mesmo tempo sinto o calor dela.

Era sufocante.

Como se eu tivesse sido marcada.

 

E mesmo tentando focar em mil outros relatórios e casos, no fundo, uma parte silenciosa em mim repetia como um relógio quebrado:

 

“Eu preciso voltar. Preciso terminar. Isso não pode ficar assim.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os dias não passam. Eles escorrem, arrastando-se por dentro da pele como cacos de vidro. Eu acordo, me visto, vou à sede, reviso relatórios que não significam nada e volto para casa com a mesma sensação de que tudo está estagnado, inclusive eu.

 

Foi numa segunda-feira cinzenta que a manchete apareceu.

 

 

“Elena Volkov, 58 anos, esposa do empresário Viktor Volkov, morre após parada cardíaca.”

 

 

Eu reli aquela frase umas vinte vezes.

58.

A idade combinava com a imagem que sempre tive dela, tímida, frágil, o olhar levemente ausente nas poucas fotos que tínhamos dentro dos dossiês.

Mãe de Dmitri (36), de Yelena (32) e de Nikolai (28).

 

Eu senti um impacto no estômago que me obrigou a me sentar.

 

Era estranho. Meus dedos tremiam.

E não era satisfação. Nem alívio.

 

Era um peso silencioso. Um vazio.

 

Uma hora depois eu sabia exatamente quando e onde seria o enterro.

Não avisei Rick. Não pedi permissão.

Só bati na sala ao lado com o jornal em mãos.

 

 

(Ethan) — Você quer… ir até lá?

 

 

Eu não precisei responder.

Ele me olhou por um longo momento e suspirou profundamente.

 

 

(Ethan) — Me dá quinze minutos. Vou pegar o carro.

 

 

O cemitério ficava à margem do Hudson, perto de uma pequena capela ortodoxa. O céu estava pesado, a luz cinzenta deixava tudo quase monocromático, árvores, túmulos, o portão de ferro antigo.

 

Ficamos dentro do carro escurecido, estacionados em uma pequena rua lateral. Ethan se manteve no volante, em silêncio, respeitoso. As mãos dele estavam firmes, até quando não precisava estar.

 

Lá na encosta, algumas dezenas de metros à frente, estavam eles.

 

Todos.

 

Viktor, imponente, frio, parado como uma estátua de pedra.

Dmitri, sob o mesmo casaco escuro do pai, ao lado dele, rígido e atento.

Nikolai, alguns passos atrás, mais retraído, um semblante que misturava tristeza com tensão.

 

Mas meus olhos…

meus olhos só enxergavam ela.

 

Yelena.

 

Toda de preto.

Sobretudo, calças, botas. Cabelo solto para trás.

Os braços cruzados, o rosto imóvel, mas não era neutralidade… era irritação. Um tipo de raiva silenciosa que eu nunca tinha visto nela.

Era como se a dor tivesse atravessado a armadura e, por não saber o que fazer com aquilo, ela a transformasse em puro aço.

 

Eu senti a garganta apertar.

 

 

(Ethan) — Tá tudo bem? — ele perguntou, sem olhar para mim. A voz veio baixa, muito baixa.

 

 

(Vick) — Ela está com raiva. — Eu mesmo me surpreendi com o que disse… e com o fato de entender isso sem ouvir uma única palavra.

 

 

Ethan não respondeu. Mas apertou o volante com mais força.

 

Quando o padre terminou o trecho final da cerimônia, vi Yelena dizer algo ao ouvido de Nikolai, ele respondeu com um aceno e uma frase curta. O olhar dela endureceu. A mandíbula travou.

 

 

(Vick) — Eles estão discutindo…

 

 

(Ethan) — Os irmãos inseparáveis?

 

 

(Vick) — Parece que sim…

 

 

E, então, exatamente como se eu tivesse narrado o comportamento de um animal que conheço, Yelena permaneceu ali.

 

Todos começaram a se afastar, Viktor, Dmitri, os guarda-costas, os parentes distantes, mas ela ficou.

Imóvel diante da cova aberta.

Garoa.

Cigarro entre os dedos.

O olhar cravado na terra fresca.

 

O vento levantava o tecido do sobretudo e empurrava algumas mechas de cabelo para longe. Ela nem piscava.

 

 

(Ethan) — Pelo jeito ela realmente amava a mãe. — murmurou.

 

 

(Vick) — Difícil não amar a própria mãe…

 

 

E no momento em que eu disse isso, percebi que era verdade.

De algum modo, eu sabia.

 

Nenhum prazer. Nenhum “bem feito”.

Só um buraco enorme no peito.

 

Eu deveria odiá-la.

E odeio.

 

Mas naquele instante, o que senti foi apenas um… vazio.

E uma sensação maldita de querer estar mais perto, entender o que ela estava pensando, o que estava sentindo, por que o corpo dela não tremia de dor como o meu tremeu naquela maldita cova.

 

A garoa engrossou.

Ela se virou lentamente e caminhou até o carro preto que eu já conhecia.

Abriu a porta, entrou… e desapareceu entre árvores e sepulturas.

 

Fiquei olhando o espaço vazio onde ela estivera por vários segundos.

 

 

(Ethan) — Vamos? — a voz dele soou hesitante, como se tivesse medo de me puxar de volta daquele transe.

 

 

Respirei fundo e assenti.

 

 

(Vick) — Vamos.

 

 

Enquanto ele começava a dar ré, senti algo que não queria admitir:

 

Uma parte de mim…

ainda seguia atrás dela.

 

Como se o corpo insistisse em manter aquela conexão.

Mesmo que o resto estivesse destruído por dentro.

 

 

(Ethan) — Isso vai passar, Vic. — disse com a voz baixa. — é difícil se infiltrar e sair inteiro…

 

 

Olhei pela janela, vendo a terra escura se perdendo na névoa. Ele sabia o que falava, era pra ele ter estado com ela não eu.

 

 

(Vick) — Não sei se quero que passe.

 

 

E o carro se afastou, levando comigo o som do vento e aquela presença que, por algum motivo, continuava palpando a minha pele, como uma marca invisível, quente, e impossível de apagar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os dias seguintes ao funeral passaram em um ritmo lento demais para ser confortável.

A rotina, café, sede do FBI, relatórios, silêncio, voltou a ocupar os espaços como se tentasse preencher um vácuo.

Mas nada era como antes.

Porque agora havia um buraco claro entre o “antes de Yelena” e o “depois de Yelena”.

 

Eu fingia que respirava normalmente.

Fingia que meu corpo não se lembrava.

Fingia que tudo estava sob controle.

 

Até aquela noite.

 

Eu voltava para o apartamento, um pouco mais tarde do que o normal, a bolsa pendendo do ombro, o andar cansado, a cabeça cheia de relatórios que eu me esforçava para entender.

 

Foi quando abri a porta e notei de imediato algo errado: uma luz baixa vinda da sala.

 

Quieta, quente, como uma sombra amarelada se espalhando pelo chão de madeira.

 

Meu corpo reagiu antes que a minha mente processasse.

A mão deslizou para o coldre e a pistola já estava firme quando atravessei o hall.

 

Assim que virei o canto, o coração… parou.

 

Ela estava sentada no meu sofá.

 

Perna cruzada, o corpo inclinado levemente para trás, os fios escuros do cabelo soltos sobre o ombro. Um copo de vinho tinto na mão direita. O decote discreto da blusa preta revelando parte da tatuagem que subia pelo ombro.

 

Yelena Volkov.

 

No meu apartamento.

 

 

(Vick) — Mãos onde eu possa ver, agora!

 

 

Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia.

Ela ergueu os olhos, lentos, verdes, e sorriu… como se estivesse me esperando há horas.

 

 

(Yelena) — Você tem um gosto interessante para vinhos… — ela diz, girando o copo com delicadeza. — Eu prefiro vodka, mas isto não é ruim.

 

 

Tentou se levantar.

 

 

(Vick) — Não se mova! — O cano ficou firme, mirando o centro do peito dela. — Se der um passo eu atiro.

 

 

Ela permaneceu sentada, e o sorriso nela não diminuiu nem um pouco.

 

 

(Yelena) — Relaxe, Victoria… se eu quisesse te matar, já teria feito isso há semanas. E ninguém teria encontrado o corpo até hoje.

 

 

As palavras me gelaram por dentro.

 

Meus olhos percorreram toda a sala, tentando descobrir se havia mais alguém ali dentro. Nada. Silêncio absoluto. Nenhum movimento. Apenas ela… sentada no meu sofá como se fosse dona de tudo.

 

Ela ergueu um pouco o queixo na direção da porta atrás de mim.

 

 

(Yelena) — Vai fechar? Ou prefere me apontar essa arma pelo corredor inteiro?

 

 

Eu engoli seco.

Sabia que abrir espaço era um erro. Que fechar a porta era um erro maior ainda. Mas alguma coisa, talvez a mesma maldita coisa que me fez dirigir até o funeral, me fez girar e empurrar a porta com o pé até um clique seco preencher o ambiente.

 

Quando voltei a encará-la, ela ainda não tinha movido nem um músculo.

 

Elegante. Calma.

A sombra da luminária tornava tudo mais íntimo. Tóxico.

 

 

(Yelena) — Melhor. — deu um gole lento. — Agora podemos conversar.

 

 

(Vick) — Isso aqui é invasão, ameaça, violação de lei federal. Eu devia te algemar neste exato momento e…

 

 

(Yelena) — … e chamar o FBI todo. Ótimo. — ela me interrompe com um sorriso entediado. — Por favor. — Cruza as pernas com lentidão absurda. — Ligue pro Rick. Ethan. Marcus. Lena. Chame todos. —Gira o copo nos dedos. — Eu preciso que a conversa seja com todos vocês.

 

 

O ar pareceu congelar na sala.

Eu pisquei.

Pela primeira vez… hesitei.

 

 

(Yelena) — Vamos, Victoria… — ela murmurou, recostando-se no sofá com os olhos presos nos meus — …sei que está pensando que isso é uma armadilha. — Deu mais um pequeno gole no vinho. — Se fosse, você já estaria no chão. Ou no porta-malas.

 

 

Novo sorriso, dessa vez quase gentil. 

 

 

(Yelena) — Eu estou aqui porque eu quero. Porque há coisas que você e sua equipe precisam e “querem” saber. — Uma pausa. — E porque… você é a única deles pra quem eu devo alguma coisa.

 

 

Meu dedo apertou mais o gatilho.

Eu não fazia ideia do que ela queria.

Se veio terminar o que começou… se veio me quebrar de vez…

Ou se tudo aquilo era o início de algo ainda pior.

 

Mas uma coisa eu sabia:

 

Era impossível não sentir o corpo responder à presença dela.

 

E naquele instante, mesmo com a arma apontada e os joelhos rígidos, percebi que a mesma tensão que me destruiu naquela noite no hotel… tinha acabado de reentrar na minha sala.

 

 

 

 

 

 

Ainda com a pistola apontada para ela, estico o braço até a bolsa sobre o aparador. Os dedos tremem, mas encontro o celular. Os olhos dela não se desviam dos meus nem por um segundo.

 

Disco o número de Rick e levo o aparelho ao ouvido.

Quando ele atende, falo apenas o essencial e uso os códigos que só nosso núcleo entenderia:

 

 

(Vick) — Situação Alfa-3. Indivíduo Volkov presente no meu apartamento. Contenção. Solicito equipe completa.

 

 

Silêncio de menos de um segundo do outro lado.

 

 

(Rick) — Você está armada?

 

 

(Vick) — Tenho a mira.

 

 

Ele só responde:

 

 

(Rick) — Estamos a caminho.

 

 

Desligo. Nem preciso dizer nada. Ela já entendeu.

 

Yelena apenas inclina o queixo, quase satisfeita, e ergue o copo num brinde silencioso… como se tivesse orquestrado tudo.

 

Quatorze minutos depois, a minha porta quase sai do batente.

 

Rick entra primeiro, colete, arma em punho.

À esquerda, Ethan, com o fuzil encostado no ombro.

Marcus e Lena, atrás, fechando a formação e varrendo cada canto com precisão.

 

Quando a enxergam, as miras convergem instantaneamente sobre ela.

 

 

(Lena) — Baixa a porr* do copo e levanta as mãos!

 

 

Ela gira o rosto, um leve sorriso, quase preguiçoso e solta com sarcasmo, enquanto se levanta.

 

 

(Yelena) — Demoraram.

 

 

Antes que alguém se mova, Ethan dá um passo à frente, a raiva no olhar.

 

 

(Ethan) — Cala a boca.

 

 

Ele atravessa a sala depressa demais, Rick ainda tenta segurar pelo braço, mas ele e atinge Yelena com um soco direto no rosto, com tanta força que o som ecoa na parede. Ela cambaleia dois passos para trás e quase esbarra na mesinha de centro… mas não cai.

Passa o dorso da mão nos lábios… e ri.

 

 

(Yelena) — Engraçado, agente Cole… dias atrás você queria me levar pra cama, e agora me bate? Isso é pessoal ou profissional?

 

 

Ethan avança outra vez, mas Rick o segura com força.

 

 

(Rick) — Já chega.

 

 

Lena rapidamente se aproxima e começa a revistá-la de forma bruta. Primeiro o casaco…

Encontra uma Glock .19 na cintura.

Depois, se abaixa e puxa um revólver .38 escondido no coldre do tornozelo.

 

 

(Lena) — Duas armas.

 

 

Yelena apenas levanta as sobrancelhas, como se aquilo fosse puro protocolo.

Rick faz sinal com a cabeça.

 

 

(Rick) — Algema.

 

 

Marcus se aproxima com os punhos de metal e prende os dois pulsos dela à frente do corpo. Yelena solta um longo suspiro como quem perde a paciência.

 

 

(Yelena) — Vocês vão mesmo fazer isso antes de me ouvir?

 

 

(Marcus) — Pode economizar o discurso.

 

 

Rick empurra-a de volta no sofá, ela cai sentada, algemada, a respiração levemente alterada pelo soco e se aproxima, arma na altura do peito dela.

 

 

(Rick) — Você tem exatamente um minuto pra dizer por que veio até aqui e qual é o jogo dessa vez.

 

 

Suspirei fundo, apoiada no encosto do sofá, os olhos fixos em Yelena. Pela primeira vez, a sala parecia encolher, como se cada palavra que ela pronunciava fizesse o ar pesar mais. Rick manteve a postura firme, mas percebi a tensão em seus ombros, a forma como os dedos dele seguravam o coldre da arma com força contida. Ethan e Marcus permaneciam imóveis, atentos, e Lena se manteve atrás de Yelena, garantindo que nenhuma surpresa acontecesse.

 

Yelena finalmente suspirou, um som quase de alívio, e começou a falar com uma calma quase teatral.

 

 

(Yelena) — Todos vocês já sabem que minha mãe morreu… mas ninguém aqui sabe o que realmente a matou.

 

 

Rick resmungou, com uma incredulidade automática.

 

 

(Rick) — Infarto?

 

 

Ela virou-se para ele, os olhos verdes fixos nos dele, um leve sorriso nos lábios, quase debochado.

 

 

(Yelena) — Não. Meu pai a matou. Depois, chantageou o legista. E, mais tarde, matou ele também. Aliás, ele sofreu um "acidente trágico" dias depois.

 

 

Vi o franzir de sobrancelha de Rick, o ceticismo evidente, mas ao mesmo tempo, uma pontada de interesse atravessou seu olhar.

 

 

(Rick) — E quem liga pra como sua mãe morreu?

 

 

O comentário, seco e direto, fez Yelena apertar os lábios. Percebi o incômodo em seu rosto, a pontada de irritação ou talvez desafio. Ela inclinou levemente o corpo, aproximando o olhar, e respondeu, firme:

 

 

(Yelena) — Eu ligo.

 

 

Um silêncio pesado caiu sobre a sala. O tom de sua voz era controlado, mas carregava uma autoridade inegável, como se cada palavra fosse medida para cortar qualquer dúvida. Eu sentia meu próprio coração acelerar, não só pelo que ela dizia, mas pela maneira como ela dominava cada centímetro do ambiente, cada um de nós ali presentes, manipulando o medo e a curiosidade com a precisão de quem sempre esteve no controle.

 

Marcus franziu o cenho, claramente irritado com o suspense.

 

 

(Marcus) — O que temos com isso?

 

 

Ela ergueu um dedo, pausando o impulso dele, e respondeu com calma quase glacial:

 

 

(Yelena) — Quero que meu pai morra, mas matá-lo seria fácil demais. E também seria colocar Dmitri no lugar dele, trocar seis por meia dúzia. Não é isso que quero. Quero fazer pior.

 

 

Cada palavra saía devagar, deliberada, e eu sentia a tensão crescer dentro de mim, como se cada sílaba estivesse gravando uma imagem na minha pele.

 

 

(Yelena) — Vou entregar passo a passo toda a operação. Tudo. Desde os menores detalhes. E farei isso de um jeito que ele pegue perpétua… para que pense em cada ação, em cada falha, todos os dias que lhe restarem.

 

 

Rick pigarreou, a incredulidade evidente na forma como se inclinava levemente para frente.

 

 

(Rick) — Não tem como sabermos se isso é verdade.

 

 

Ela se inclinou levemente, aproximando o queixo, os olhos fixos nos dele, quase desafiadores.

 

 

(Yelena) — E você, Rick? O que faria se seu pai matasse sua mãe apenas para substituí-la quando ela ficasse velha por uma puta nova?

 

 

O impacto da pergunta foi quase físico. Eu vi Rick se enrijecer, um reflexo involuntário, e mesmo sem querer, minha respiração ficou presa. Era como se a sala tivesse se tornado um campo minado, e cada uma de suas palavras uma explosão silenciosa que nos atingia em cheio.

 

O silêncio durou segundos que pareceram minutos. Ethan respirava fundo, tentando se recompor, e Marcus esfregava o rosto, claramente irritado e abalado. Lena mantinha-se atrás de Yelena, mas seus olhos se moveram com rapidez para cada detalhe do comportamento dela, estudando, analisando, prevendo.

 

Yelena recostou-se levemente, um sorriso curto e sarcástico nos lábios.

 

 

(Yelena) — Vocês têm a oportunidade de fazer algo que nunca tiveram antes. Mas precisam decidir… se vão fazer direito, ou se vão se contentar com a versão fácil da história.

 

 

A tensão no ar era quase tangível. Eu me apoiava nos braços do sofá, incapaz de desviar o olhar dela. Cada movimento, cada inclinação da cabeça, cada brilho nos olhos verdes parecia calculado para manter todos nós em alerta, como se estivesse testando até onde éramos capazes de suportar antes de reagir.

 

 

(Yelena) — Eu não peço nada além de que ouçam. Depois disso, vocês decidirão o que fazer.

 

 

Rick respirou fundo, o semblante grave, mas agora com uma faísca de algo que eu não conseguia identificar, talvez respeito, talvez um entendimento silencioso da gravidade da situação.

 

 

(Rick) — Certo. Então comece. Cada detalhe que tiver, e não esconda nada.

 

 

Ela assentiu, satisfeita, os olhos percorrendo cada um de nós mais uma vez antes de começar a falar. Sua voz agora era mais baixa, medida, carregada de intensidade, cada palavra cuidadosamente escolhida, mas ainda assim carregada de uma emoção que parecia misturar dor, ódio e determinação.

 

Ela começou descrevendo a cadeia de eventos, cada ação de seu pai, cada detalhe das armadilhas, das fraquezas da família, do funcionamento interno dos negócios, da política da organização e da logística de cada operação… e cada palavra fazia meu estômago apertar, a adrenalina subir, e eu sabia que cada segundo que ela falava era como segurar fogo nas mãos.

 

Eu percebia a admiração silenciosa de Rick pela audácia de Yelena, mas também a raiva contida, um profissional tentando não ceder à emoção, mesmo diante de algo tão pessoal e letal. Ethan se mantinha tenso, cada fibra do corpo pronta para intervir, mas paralisado pela inteligência e controle da mulher diante dele. Marcus resmungava baixo, irritado e impressionado ao mesmo tempo. Lena fazia caretas rápidas, absorvendo cada detalhe com eficiência cirúrgica.

 

Yelena falava com calma, mas cada frase carregava peso, cada pausa era medida para que sentíssemos a força de sua narrativa. Ela não apenas contava o que sabia; ela nos fazia sentir a dimensão do que estava em jogo, a complexidade das intrigas familiares, e como cada peça da sua história poderia destruir vidas se mal utilizada. Mas, porém, se tivesse provas concretas.

 

 

Meus pensamentos correndo em turbilhão: Cada palavra dela não é apenas informação. É ameaça. É charme. É controle absoluto. O medo se mistura com a admiração. A raiva com a excitação. Não posso deixar que ela perceba que estou impactada… mas como controlar quando tudo dentro de mim treme ao ouvir a precisão de cada ação dela?

 

Ela continuava, descrevendo o que acontecera nos últimos meses, anos, décadas, os segredos que mantivera escondidos, e como estava usando cada peça do tabuleiro a seu favor. Cada detalhe sobre seu pai, sobre Dmitri, Nikolai e até sobre as operações que nossa equipe jamais imaginaria estar conectada, nos deixava atônitos.

 

O clima era sufocante, intenso. A adrenalina misturada com o medo, a curiosidade, a repulsa e, confesso, uma estranha fascinação. Cada frase de Yelena era uma peça de teatro calculada, mas eu sabia que nada ali era encenação: cada palavra era realidade, e sua segurança, sua coragem e sua frieza tornavam o cenário ainda mais perigoso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O peso do silêncio ainda pairava na sala quando Yelena terminou de expor cada detalhe, cada fio de intriga e cada ação calculada da sua família. Rick franziu a testa, apoiando-se na borda da mesa, claramente absorvendo tudo, mas a dúvida era palpável.

 

 

(Rick) — Precisaremos de provas concretas… materiais, algo que sustente tudo isso.

 

 

Yelena inclinou levemente a cabeça, os olhos verdes brilhando com aquela calma calculada que sempre a definira.

 

 

(Yelena) — Posso conseguir todas elas. Mas há uma condição. Nikolai… não será pego. Não será preso nem julgado. Quero perdão total para ele.

 

 

Rick ergueu uma sobrancelha, e um riso curto escapou de seus lábios, carregado de incredulidade.

 

 

(Rick) — Impossível.

 

 

Ela se recostou levemente, cruzando as pernas com elegância, o sorriso sarcástico surgindo aos poucos, quase desafiador.

 

 

(Yelena) — E me diga, Rick, é melhor três Volkov presos e um livre… ou nenhum preso?

 

 

Rick franziu a testa, ponderando, e finalmente assentiu lentamente.

 

 

(Rick) — E por que a liberdade para Nikolai e não para você?

 

 

Yelena permaneceu em silêncio, os olhos fixos no dele, quase como se estivesse medindo cada reação, cada nuance de expressão. Depois, baixando o olhar, falou com uma voz mais suave, carregada de sinceridade e firmeza:

 

 

(Yelena) — Ele nunca quis essa vida… eu também não. Mas ele é diferente. Sensível. Vive escondendo quem realmente é por medo. E eu não quero mais que ele tenha medo.

 

 

O clima na sala mudou sutilmente. Havia tensão, mas agora um respeito silencioso se infiltrava no ar. Rick respirou fundo, apoiando os cotovelos sobre a mesa, e passou as mãos pelo rosto. Ele pensava, avaliava, pesando cada risco e cada possibilidade.

 

Finalmente, levantou a cabeça e dirigiu a palavra aos presentes:

 

 

(Rick) — Vamos pensar um pouco. Precisamos ver se o que você oferece é confiável. Uma prova de boa fé.

 

 

Yelena sorriu, quase como se antecipasse a pergunta, os lábios curvando-se com uma confiança que irritava e encantava ao mesmo tempo.

 

 

(Yelena) — Amanhã. Grande carregamento colombiano. Chegará ao depósito no porto do East River. Cais 14. Não há nada mais seguro.

 

 

Rick inclinou-se para trás, avaliando cada detalhe, absorvendo a informação, enquanto eu sentia meu estômago apertar. A descrição do local não deixava dúvida: era uma oportunidade rara e arriscada, mas a confiabilidade dela era palpável, mesmo que me revoltasse admitir.

 

 

(Rick) — Por hora, vamos esperar para ver o resultado do dia seguinte. Se for satisfatório… te esperamos aqui em dois dias, às 20h.

 

 

Yelena soltou uma risada curta, divertida, e com um movimento elegante das mãos estendeu as algemas para Marcus.

 

 

Ele, revirou os olhos.

 

 

(Marcus) — Sério mesmo?

 

 

Rick concordou, e com um suspiro, ele as retirou e a soltou, e Yelena apenas riu, ignorando o deboche, mantendo seu ar de controle absoluto. Ela então se dirigiu a Lena, pedindo suas armas. Lena fez um gesto curto, firme, sinalizando que não, e Yelena apenas deu um leve suspiro e aceitou com elegância, quase como se aquela derrota mínima fosse uma piada interna.

 

O que me deixou desconfortável foi quando ela passou por mim, tão próxima que senti o calor do corpo dela, a fragrância sutil que sempre me deixava alerta. Ela parou ao meu lado, inclinou-se levemente e me encarou com aqueles olhos intensos, demorando segundos que pareceram minutos.

 

 

(Yelena) — Sinto muito.

 

 

Eu sorri, debochada, tentando mascarar o impacto da proximidade, mas não consegui esconder completamente a inquietação que percorria meu corpo. Ela manteve o olhar por mais alguns segundos, um equilíbrio perfeito entre desafio e sinceridade, antes de se afastar, cada passo calculado, elegante, até desaparecer pela porta.

 

Fiquei ali parada por alguns segundos, sentindo a mistura de irritação, desconforto e aquela estranha pulsação de curiosidade que ela sempre provocava em mim. O ar parecia carregado, e cada detalhe do momento, o som da porta se fechando, o rastro de perfume, a lembrança da voz dela, permaneceu gravado na minha pele.

 

Respirei fundo, tentando recompor-me. A tensão ainda vibrava no ar, e eu sabia que aquele confronto havia apenas reforçado a linha tênue entre controle e caos que Yelena sempre manipulava com precisão. A sensação de estar à mercê dela, mesmo agora, em segurança relativa, me manteve alerta, mas também estranhamente fascinada.

 

O silêncio que ficou após a saída dela era quase ensurdecedor, e eu me sentei lentamente, absorvendo cada pensamento, cada sensação, tentando racionalizar o que acabara de acontecer. Sabia que a operação ainda estava longe de terminar, mas também compreendi que Yelena tinha, de algum modo, estabelecido o controle daquela narrativa, pelo menos por agora.

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

E aí meninas? O que estão achando dessa loucura? Kkkk


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Comentários para 5 - Capitulo 5:
Marta Andrade dos Santos
Marta Andrade dos Santos

Em: 26/02/2026

Mãe é Mãe!

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Zanja45
Zanja45

Em: 26/02/2026

Yelena sempre surpreendendo. Essa dela entregar provas contra a organização, contra o pai e ainda perdir perdão para Nicolai, muito protetiva, mas também, demonstra que ela sabe quem são os membros de sua família e quem ela vê que tem salvação, apesar der serem criminosos. Porque o irmão mais velho ela sabe que ele não é confiável, que obedece cegamente o pai. No entanto, Nicolai com esse excesso de proteção, sensibilidade demais, medo, pode levar ele a agir de maneira diferente quando não tiver mais sobre a proteção da irmã. isso, demonstra que ele pode ser manipulável facilmente. Já Yelena é a dama no tabuleiro de xadrez, ela se move move em todas direçoet no tabuleiro, porque ela sabe jogar o jogo e da mesma forma aprendeu a manipular as emoções. Mas a questão é que o pai dela não apenas manipula e desprovido de vínculos emocionais. Ele é um assassino frio e calculista.

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Zanja45
Zanja45

Em: 26/02/2026

Yelena sempre surpreendendo. Essa dela entregar provas contra a organização, contra o pai e ainda perdir perdão para Nicolai, muito protetiva, mas também, demonstra que ela sabe quem são os membros de sua família e quem ela vê que tem salvação, apesar der serem criminosos. Porque o irmão mais velho ela sabe que ele não é confiável, que obedece cegamente o pai. No entanto, Nicolai com esse excesso de proteção, sensibilidade demais, medo, pode levar ele a agir de maneira diferente quando não tiver mais sobre a proteção da irmã. isso, demonstra que ele pode ser manipulável facilmente. Já Yelena é a dama no tabuleiro de xadrez, ela se move move em todas direçoet no tabuleiro, porque ela sabe jogar o jogo e da mesma forma aprendeu a manipular as emoções. Mas a questão é que o pai dela não apenas manipula e desprovido de vínculos emocionais. Ele é um assassino frio e calculista.

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Zanja45
Zanja45

Em: 26/02/2026

Yelena tem uma motivação forte para dar esse passo tão arriscado. A morte da mãe foi o estopim Ela suportou muitas coisas calada, mas o pai dela foi longe demais ao tirar a vida da mãe dela. Mostra o quanto ele é impessoal, não leva em conta a própria família, é capaz de dar fim em qualquer um que interponga no seu caminho. Isso que é frieza.

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