Guerra Declarada
Quarto da Carol – 13h25
O lamento abafado no travesseiro ainda preenchia o quarto quando um zumbido curto e metálico cortou o ar. O celular vibrou contra a madeira do criado-mudo. O som fez as duas congelarem no mesmo milissegundo. O choro parou como se alguém tivesse cortado o som.
Carol foi mais rápida. Antes que a amiga pudesse reagir, ela esticou o braço e virou o aparelho com a tela para cima. O brilho da notificação iluminou o quarto à meia-luz.
O nome Verena estava estampado no pop-up, seguido de um bloco de texto. Ela apertou os olhos, lendo a prévia da mensagem antes mesmo de abrir o aplicativo. A cada palavra, as sobrancelhas subiam um pouco mais.
Me perdoe pelo silêncio. O gabinete virou um inferno hoje cedo e eu tentei ser racional, mas a verdade é que eu não consegui trabalhar. Não parei de pensar no gosto da sua boca desde que você saiu do meu carro. Me diz que você está bem, pequena.
O maxilar de Carol caiu. Ela esperava uma resposta seca. Uma desculpa adulta. Mas aquilo ali? Era uma rendição completa. A mulher estava tão rendida quanto a garota chorando na cama.
— Puta que pariu... — o sussurro escapou, atônito.
Foi o gatilho que faltava.
Valentina disparou. Ela largou o travesseiro no susto, saltando da cama com os olhos inchados e o cabelo completamente desgrenhado. Avançou sobre a amiga com um desespero quase animal, as mãos tremendo enquanto tentava arrancar o aparelho dos dedos dela.
— Me dá! Carol, me dá isso, por favor! — A voz saiu esganiçada, o coração batendo tão forte que parecia que ia rasgar a garganta.
Carol levantou o braço, afastando o celular por um segundo, ainda em choque, olhando da tela para o rosto vermelho de Valentina.
— Valen... — ela murmurou, engolindo em seco. — Ela tá na sua. Ela tá muito na sua.
Valentina aproveitou a distração, puxou o aparelho da mão da amiga e recuou dois passos, colando-o no peito como se fosse o bem mais precioso do mundo. O peito subia e descia numa respiração curta, os olhos cravados na tela iluminada, lendo e relendo aquelas palavras enquanto as lágrimas antigas ainda secavam no rosto.
Sentada na beira da cama, Carol assistiu de camarote a uma transformação assustadora. O desespero e o choro de velório simplesmente evaporaram no ar. Os ombros tensos relaxaram e, sem que a garota em pé pudesse evitar, os lábios trêmulos se curvaram. Um sorriso bobo, imenso e aliviado rasgou o rosto ainda molhado e manchado de vermelho.
— O que você vai responder? — A voz cortou o silêncio, soando mais resignada do que curiosa.
Os dedos apertaram as bordas do aparelho. O sorriso não arredou o pé do rosto enquanto a resposta saía num sussurro quase inaudível, vulnerável e sincero até demais:
— Eu não sei... Mas eu tô com muita saudade dela.
As sobrancelhas de Carol se juntaram num nó de pura confusão. A matemática simplesmente não batia.
— Saudade? — Um riso seco e incrédulo escapou. — Mas vocês não se viram ontem à tarde?
A garota finalmente tirou os olhos da tela e olhou para a amiga. O olhar não tinha mais vergonha, nem medo de julgamento. Só a constatação inegável do próprio abismo.
— Sim. Ontem à tarde.
O silêncio voltou a pesar, mas dessa vez, era definitivo.
Carol deixou as costas caírem para trás, batendo a nuca no colchão de solteiro e encarando o teto branco. Ela soltou um suspiro longo, exausto, cruzando as mãos sobre a barriga. Tinha perdido aquela guerra antes mesmo de tentar lutar.
— Que merd*, Valen.
Não havia mais conselho, não havia mais choque de realidade. A amiga já estava com a água batendo no pescoço e, pelo visto, estava adorando se afogar.
Apartamento Castilho-Alencar – 03h14
O choro agudo ecoava pelas paredes verde-sálvias do quarto infantil. Silvia sorria, estendendo os braços com um embrulho branco. Pega o nosso filho, Verena. Pega o José. Mas quando esticou as mãos, o choro mudou. O berço sumiu. E quem estava encolhida ali, soluçando e chamando por ela, não era um bebê. Era uma garota de dezessete anos com o uniforme escolar amassado.
Verena puxou o ar com tanta força que a garganta ardeu.
Os olhos se abriram num solavanco para a escuridão do próprio quarto. O peito subia e descia num ritmo violento, o suor frio colando o pijama de seda na pele. O coração esmurrava as costelas como se quisesse quebrar o osso.
A respiração pesada e rítmica ao seu lado a fez congelar. Silvia dormia profundamente, o rosto sereno afundado no travesseiro, alheia ao caos.
Com as mãos trêmulas, a deputada tateou o criado-mudo. Os dedos esbarraram na armação fria dos óculos. Ela tentou encaixá-los no rosto de qualquer jeito, mas o tremor era tanto que a haste arranhou sua têmpora antes de parar torta sobre o nariz.
Ela precisava sair daquela cama.
Movendo-se com uma lentidão agonizante, deslizou as pernas para fora do colchão. Os pés descalços tocaram a madeira gelada. Cada rangido milimétrico do piso parecia um tiro no silêncio do apartamento, mas a esposa não se mexeu.
O trajeto pelo corredor até a cozinha foi feito quase às cegas.
O motor da geladeira zumbiu baixinho quando a pesada porta de inox foi puxada. A luz branca e estéril feriu os olhos por trás das lentes. Ela agarrou a primeira garrafa de água que encontrou, destampou com brutalidade e virou na boca.
A água desceu de forma desesperada. Ela engasgou, tossindo o mais baixo que conseguiu, o líquido gelado escorrendo pelo queixo, molhando o pescoço e manchando o tecido caro do pijama.
Verena encostou a testa na borda fria da porta aberta da geladeira, fechando os olhos. O contraste da temperatura não foi suficiente para apagar a angústia que a asfixiava. A vida perfeita que havia construído estava prestes a trazer uma criança ao mundo, e a única coisa em que ela conseguia pensar no meio da madrugada era no gosto da boca da menina que ela estava prestes a destruir.
Apartamento Castilho-Alencar – 03h18
A garrafa de água vazia ficou esquecida em cima da bancada de mármore da cozinha. A mulher caminhou a passos lentos, os pés descalços afundando no tapete felpudo da sala de estar imersa na penumbra.
Ela parou no meio do caminho. A respiração ainda falhava.
Olhou para o espaço vazio entre o sofá de grife e a mesa de centro. A mente exausta começou a pregar peças. Por um segundo, na meia-luz, ela jurou ver um menino correndo ali. José. O filho perfeito, o projeto de família inabalável que ela e Silvia haviam planejado com tanta precisão. Uma vida de comercial de margarina, segura e intocável.
Mas a imagem durou apenas um piscar de olhos.
O menino sumiu. A sala perfeita derreteu. E, no lugar da criança, a imagem que se formou na cabeça foi o rosto assustado, jovem e corado de uma aluna do ensino médio. O sorriso tímido de quem não conhecia a maldade do mundo. O cheiro doce e inexperiente.
— Não. — Sussurrou para o vazio, a voz saindo rasgada e rouca.
Verena apertou as duas mãos nas laterais da própria cabeça, fechando os olhos com força, como se pudesse esmagar a lembrança fisicamente.
— Esquece isso. Esquece ela. Esquece. Acabou. — A voz subia de tom a cada palavra, um murmúrio desesperado e patético no meio do silêncio. — Você é uma mulher adulta. Você é casada. Vai ser mãe. Para com isso, Verena. Para.
A angústia era tanta, que o peito parecia prestes a rasgar. Ela precisava arrancar aquilo pela raiz. Agora. Antes que o dia clareasse e ela fizesse mais alguma loucura.
Com passos rápidos e cegos, voltou ao quarto. A esposa continuava ressonando, alheia à tempestade. As mãos trêmulas tatearam o criado-mudo novamente, os dedos agarrando o celular frio com a força de quem segura uma arma.
Voltou correndo para a sala, o coração espancando as costelas.
A luz da tela acendeu, iluminando o rosto pálido e suado no escuro. Abriu o WhatsApp. O nome estava ali no topo. O dedo polegar tremia tanto que errou o toque duas vezes antes de conseguir deslizar a conversa para o lado.
A lixeira vermelha apareceu.
Ela tocou.
A caixa de diálogo saltou no centro da tela: Deseja apagar esta conversa?
O dedo pairou milímetros acima do botão de confirmar. Era só clicar. Era só apagar o histórico, bloquear o número e fingir que as últimas vinte e quatro horas nunca tinham existido.
Mas enquanto olhava para a pergunta cruel brilhando na tela, os olhos se encheram de lágrimas. A mente a traiu pela última vez naquela noite. Como um filme desgovernado, todos os momentos a invadiram de uma vez. A timidez da garota. O rubor nas bochechas no banco do carro. O jeito como as mãos pequenas a apertaram. A entrega absoluta e faminta naquele beijo.
E pior do que a lembrança da menina, foi a lembrança do que ela própria sentiu. Um fogo absurdo subindo pela espinha, a sensação de estar viva pela primeira vez em anos.
A primeira lágrima caiu, grossa, pingando direto na tela do celular.
Ela queria que fosse só um deslize. Queria que fosse só uma crise de meia-idade, só tesão acumulado por uma garota proibida. Mas a dor física que sentia no peito só de imaginar nunca mais ver aquele sorriso destruiu a mentira que tentava contar a si mesma. Não era apenas desejo. Era desespero. De quem estava perdidamente apaixonada.
Um soluço alto rasgou o silêncio da sala.
O dedo trêmulo desceu. E, num ato de pura covardia e rendição, tocou em Cancelar.
O celular escorregou, caindo sem som no tapete. Os joelhos falharam. Ela desabou no sofá, puxando uma das almofadas para abafar o próprio rosto, e chorou. Um choro convulsivo, feio, de quem acaba de perceber que perdeu a guerra contra si mesma e que a própria vida estava prestes a desmoronar.
Apartamento Castilho-Alencar – 06h15
A claridade fria e azulada do amanhecer já desenhava os contornos dos móveis na sala de estar quando o toque aconteceu. Foi leve, apenas o roçar de pontas de dedos afastando uma mecha de cabelo grudada no rosto suado, mas foi o suficiente para puxá-la do fundo de um sono exausto e fragmentado.
Verena abriu os olhos num solavanco violento. O corpo inteiro tencionou, a respiração engatando na garganta como se esperasse um ataque.
— Ei... calma. Sou eu.
A voz mansa e o perfume familiar de Silvia pairaram sobre ela. A advogada estava agachada ao lado do sofá, já vestida com um robe de seda, segurando uma xícara fumegante de café. O olhar castanho carregava uma ternura preocupada, analisando as roupas amassadas da esposa e o rosto inchado contra a almofada de espuma.
— O que você está fazendo aqui no sofá? — Silvia murmurou, pousando a xícara na mesa de centro e levando a mão ao rosto de Verena, acariciando a maçã do rosto pálida. — Sua pele está gelada. Você tava chorando, meu amor? O que está acontecendo?
O carinho foi como ácido na pele de Verena. Ela recuou um milímetro, quase imperceptível, apenas o suficiente para engolir em seco. A dor de cabeça latej*v* na base da nuca, e a lembrança da noite anterior abateu-se sobre ela com o peso de uma âncora.
Ela tentou se sentar, os ossos estalando pela posição ruim, e esfregou o rosto com as duas mãos, fugindo do olhar analítico da esposa.
— Eu só... perdi o sono. Vim beber água e acabei apagando por aqui mesmo. — A voz soou áspera, arranhando a garganta seca.
Silvia suspirou, um som brando e compreensivo, sentando-se na beirada da mesa de centro, enlaçando as mãos de Verena e puxando-as para o próprio colo.
— Você está no limite da exaustão. Olha para essas olheiras, Verena. Olha o seu estado.
Verena finalmente ergueu o rosto. Os olhos estavam vermelhos, opacos, desprovidos da chama autoritária que a definia no gabinete. O que restava ali era apenas uma mulher aterrorizada pelas próprias fraquezas. A culpa sufocou qualquer filtro que ainda existisse.
— É a transferência? — A voz da advogada soou mansa, compreensiva, preenchendo o silêncio com a justificativa perfeita que a própria esposa não conseguia verbalizar.
Verena engoliu em seco, fugindo por um segundo daquela inspeção carinhosa que ardia como ácido em sua consciência.
Mas Silvia sorriu.
Um sorriso brando, cheio de uma empatia cega e acolhedora. Ela apertou as mãos da esposa, levando-as aos lábios para um beijo demorado, e depois acariciou os nós dos dedos de Verena com o polegar.
— Amor... é normal estar apavorada. — Silvia falou com uma suavidade quase maternal, os olhos brilhando de expectativa. — Dois bebês de uma vez assustam qualquer um. A transferência dos embriões chegando, os hormônios, a pressão do seu mandato no meio disso tudo... é óbvio que você acha que vai perder o controle. A nossa vida vai virar de cabeça para baixo, sim. Mas nós vamos dar conta. Nós duas.
O estômago de Verena despencou no mais absoluto vazio. A ironia era cruel. A esposa não via a traição iminente, via apenas o pilar inabalável da família fraquejando diante da grandiosidade da maternidade.
A deputada ergueu o rosto. Encarou o fundo dos olhos castanhos e límpidos da mulher com quem havia escolhido passar o resto da vida. Abriu a boca para concordar, para vestir aquela mentira confortável e segura. Sim, é o medo de ser mãe. Mas as palavras simplesmente entalaram. A culpa era um nó físico fechando sua garganta.
Então, num impulso cego e desesperado — uma necessidade violenta de se ancorar na própria realidade e arrancar a lembrança de Valentina da cabeça — Verena avançou.
As mãos subiram para o rosto de Silvia, puxando-a para um beijo brusco. A esposa soltou um sobressalto abafado de surpresa contra a boca dela, mas a hesitação durou apenas um segundo. Silvia retribuiu com amor, os lábios se abrindo para acolher a urgência do momento. Foi um beijo intenso, faminto e rápido, sem luxúria, apenas um desespero tateante por salvação.
Tão subitamente quanto começou, o toque foi quebrado.
Verena soltou o ar de forma trêmula e, sem dizer uma única palavra, escondeu o rosto na curva do pescoço da esposa. Os braços apertaram a cintura da advogada num abraço quase sufocante. E ali, agarrada ao cheiro seguro do próprio casamento, a mulher mais implacável da Assembleia Legislativa encolheu-se, tremendo em silêncio, exatamente como uma criança aterrorizada pelo escuro.
Plenário Juscelino Kubitschek – ALESP, 14h30
O zumbido do plenário era uma tortura física. O eco das vozes, os cliques das câmeras, o som metálico dos microfones sendo ligados e desligados. Tudo parecia amplificado dentro do crânio da deputada, onde uma dor de cabeça constante martelava desde a madrugada mal dormida.
Verena esfregou as têmporas, os olhos ardendo sob a luz branca do teto. Estava esgotada. Cada fibra do seu corpo pedia trégua.
No púlpito, o deputado Barros enchia os pulmões. O peito estufado sob o terno claro, o dedo em riste apontado para as galerias.
— ...porque a família tradicional paulista, os homens de bem deste estado, não podem fechar os olhos e financiar o ócio! — a voz trovejou pelo sistema de som. — Esse projeto não protege crianças em vulnerabilidade, ele cria dependentes do Estado! O dinheiro do agronegócio, que carrega esse estado nas costas, não vai servir de esmola! Meu voto é não!
Aplausos esparsos e vaias colidiram no ar. O verdadeiro circo da política.
Verena observou o homem voltar para a sua poltrona com um sorriso presunçoso. Um defensor da moralidade. Um homem de bem. A hipocrisia embrulhou o estômago dela de uma forma tão violenta que o café forte do almoço ameaçou voltar. Ela, que passara a madrugada chorando de culpa por desejar uma adolescente, subitamente sentiu um nojo incontrolável pela pose intocável daquele homem.
A impaciência rasgou a última camada do seu autocontrole. O filtro político, que sempre a impediu de implodir pontes no plenário, simplesmente desintegrou.
O presidente da mesa pigarreou.
— Como vota a deputada Verena Castilho?
No fundo do plenário, Rafaela, encostada na parede com a prancheta nas mãos, assentiu levemente para a chefe. Era o momento do discurso padrão. A fala elegante, firme, mas polida.
Verena apertou o botão vermelho do seu microfone. A luz acendeu. Ela não se levantou. Apenas inclinou o corpo para frente, apoiando os cotovelos na mesa, o olhar frio e direto cravado no deputado do outro lado do corredor.
— Meu voto é sim, senhor presidente. — Sua voz soou baixa, mas letalmente nítida, cortando o burburinho do ambiente. — E eu gostaria de aproveitar meu tempo de fala para parabenizar o deputado Barros pela sua preocupação tão comovente com os recursos do nosso estado.
Rafaela franziu a testa no fundo do salão. Aquele não era o texto.
— É realmente inspirador ouvir sobre os valores da família tradicional e sobre não financiar o ócio, vindo do homem que, há menos de seis meses, teve duas de suas fazendas no interior autuadas pelo Ministério Público do Trabalho. — Verena fez uma pausa intencional. O silêncio que caiu sobre o plenário foi absoluto e gelado. — Porque, se a memória não me falha, os fiscais encontraram dezoito trabalhadores em situação análoga à escravidão dormindo em galpões sem teto.
Barros ficou lívido. Ele bateu a mão na própria mesa, o microfone desligado impedindo que seu grito fosse ouvido em todo o salão, mas a boca se movendo em claros insultos. Verena não recuou um milímetro. A fúria silenciosa que guardava de si mesma foi toda canalizada para o microfone.
— Quem lucra com a escravidão moderna, deputado, não tem envergadura moral para usar o nome de Deus neste plenário, muito menos para ditar o que as crianças pobres deste estado merecem ou não comer. Lave a boca antes de falar sobre proteção infantil.
Ela soltou o botão. A luz vermelha apagou.
O plenário explodiu. Gritos, deputados se levantando, o presidente da mesa batendo o malhete freneticamente exigindo ordem. Uma confusão ensurdecedora.
Verena recostou-se na cadeira de couro, o coração batendo rápido, os dedos trêmulos escondidos debaixo da mesa. Ela havia acabado de declarar guerra a uma das frentes mais poderosas da Assembleia. O dano político era incalculável.
Nos fundos, Rafaela deixou a prancheta cair ao lado do corpo e cobriu os olhos com a mão, incrédula. A chefe havia perdido o juízo.
Corredor Principal – ALESP, 15h14
As pesadas portas de madeira do plenário bateram com um estrondo abafado, mas não foram suficientes para conter o eco da confusão lá dentro. Verena marchava pelo corredor de mármore, os saltos batendo num ritmo duro e apressado. O ar condicionado gelado do prédio parecia não dar conta do calor que irradiava do seu corpo.
Rafaela vinha logo atrás, o celular já colado na orelha, tentando apagar os primeiros focos do incêndio com a assessoria de imprensa.
— Castilho!
O grito rasgou o corredor, ecoando pelas paredes de pedra.
A deputada parou abruptamente. Ao virar, encontrou a figura robusta do deputado Barros avançando a passos pesados em sua direção. O rosto do homem estava em um tom perigoso de púrpura, as veias do pescoço saltadas por cima do colarinho branco e apertado. Uma pequena comitiva de assessores e outros parlamentares vinha no encalço dele, os rostos pálidos antecipando o desastre.
— Você enlouqueceu de vez?! — Barros rosnou, parando a menos de um metro dela. O dedo indicador tremia, apontado diretamente para o rosto de Verena. — Você acha que pode usar o microfone daquela tribuna para me difamar e sair andando?
Verena não recuou um único milímetro. A fúria cega que a dominava exigia um alvo, e aquele homem se ofereceu de bom grado.
— Difamação pressupõe mentira, deputado. — A voz saiu baixa, mas carregada de um veneno letal. — O relatório do Ministério Público é um documento público, caso não saiba. Eu só li em voz alta.
— Você assinou a sua sentença hoje, sua inconsequente! — Ele cuspiu as palavras, a voz subindo uma oitava, a raiva o cegando completamente. — Acha que a sua pose de intocável e o seu terninho de grife te protegem? Eu vou virar o seu mandato do avesso! Vou cavar até o último centavo das suas campanhas, vou expor a porcaria da sua vida pessoal na mídia até você não ter onde se esconder!
A menção à vida pessoal foi como acender um fósforo num tanque de gasolina. O rosto de Verena perdeu qualquer resquício de cor, mas os olhos brilharam com uma ferocidade quase maníaca.
Ela deu um passo à frente. Invadiu o espaço pessoal dele.
— Tenta a sorte — Sussurrou, o queixo erguido, os olhos cravados nos dele. — Tenta cavar, Barros. Mas eu garanto que antes de você achar qualquer coisa sobre mim, eu coloco você e os seus capangas do interior na cadeia por trabalho escravo. Eu acabo com a sua vida.
O homem perdeu o resto de razão que lhe sobrava. Com um grunhido gutural, ele deu um tranco para frente, o peito estufado, a mão grande se erguendo num reflexo claro de agressão.
— Sua filha da...
— Deputado, não! — O grito veio de um dos parlamentares da base dele, que se atirou no meio dos dois antes que a mão de Barros descesse.
Em frações de segundo, o corredor virou um pandemônio. Três deputados agarraram Barros pelos ombros e pelo paletó, empurrando a massa enfurecida do homem para trás. Do outro lado, Rafaela e um assessor de segurança puxaram Verena pela cintura, forçando-a a recuar.
— Me solta! — Verena rosnou, tentando se desvencilhar de Rafaela, a respiração curta, o peito subindo e descendo freneticamente.
— Chega, Verena! Já chega! — Rafaela sibilou no ouvido dela, a voz tremendo de puro desespero enquanto a arrastava em direção à porta do gabinete. — Você já destruiu tudo por hoje, pelo amor de Deus, recua!
No fundo do corredor, jornalistas já erguiam os celulares, gravando os gritos de Barros que ainda ecoavam enquanto ele era arrastado na direção oposta. A guerra não estava apenas declarada, ela havia acabado de ser transmitida ao vivo.
E, no meio daquela confusão, com o coração espancando as costelas e as mãos tremendo incontrolavelmente, Verena percebeu a dimensão do estrago. A barragem havia se rompido.
Casa da família Moraes – Sala, 15h30
O cheiro forte de desinfetante de eucalipto ardia de leve no nariz. Valentina mergulhou o pano de chão no balde de plástico encardido e torceu até os nós dos dedos ficarem brancos. Lá fora, o barulho rítmico da escova esfregando o jeans grosso no tanque de cimento denunciava que a mãe estava concentrada na lavagem das roupas do pai.
A garota suspirou, jogando o pano úmido no chão e encaixando o rodo. A rotina doméstica era o único lugar onde sua cabeça conseguia alguns minutos de trégua depois da tempestade das últimas horas.
O celular vibrou em cima da mesa de fórmica, arrastando-se alguns milímetros pela vibração longa. Valentina encostou o rodo na parede e secou as mãos no short surrado antes de pegar o aparelho. O nome Léo brilhava na tela de bloqueio.
Ela desbloqueou, o coração dando um salto involuntário que a simples menção do mundo fora daquele bairro causava.
Léo:
[Vídeo encaminhado]
Achei que a sua deputada fosse de gelo, Val.
Mas pelo visto alguém soltou a coleira da fera hoje no plenário.
Pega a pipoca e vai vendo o barraco da alta cúpula.
Agora entendo porque vc tá perdidinha nela. Gente, que mulher é essa.
Valentina franziu a testa, o estômago dando um nó cego. Ela encostou no batente da porta da cozinha e apertou o play.
O áudio começou estourado, cheio de ecos e flashes de câmeras. A imagem tremida, gravada de um celular no meio de uma roda de engravatados, mostrava o corredor luxuoso da Assembleia. Um homem mais velho, roxo de raiva, cuspia ameaças com o dedo em riste.
E então, a câmera focou nela.
Verena.
O terno impecável, a postura de quem era dona do mundo. Mas o que fez a respiração de Valentina sumir não foi apenas a beleza. Foi a fúria. A frieza cortante na voz de Verena enquanto devolvia a ameaça, falando sobre Ministério Público, cadeia e trabalho escravo, com uma letalidade que beirava a crueldade. Quando o homem quase avançou para bater nela e a confusão explodiu, o vídeo cortou.
Valentina ficou paralisada.
O silêncio da sua sala parecia ensurdecedor agora. A tela do celular apagou, mas a imagem daquela mulher implacável continuava queimando em suas retinas.
A mente de Valentina entrou em curto-circuito. Aquela mulher assustadora, que acabara de peitar um homem com o dobro do seu tamanho e de colocar o mandato em risco na frente de dezenas de câmeras... era a mesma mulher que, horas atrás, enviou uma mensagem pedindo desculpas, confessando que não conseguia trabalhar porque sentia saudade do seu beijo.
O poder absoluto e a vulnerabilidade total. As duas coisas habitavam a mesma pessoa.
— Valentina! Que barulho foi esse?
O grito abafado da mãe, vindo do quintal, estourou a bolha.
A garota deu um pulo, o celular quase escorregando das mãos suadas. Ela guardou o aparelho no bolso do short às pressas, pegou o rodo de volta com as mãos trêmulas e começou a esfregar o piso de cimento queimado. Mas o coração batia tão forte nas costelas que o esforço físico parecia inútil para acalmar a adrenalina.
Ela não estava apenas apaixonada por uma mulher mais velha. Ela estava apaixonada por um furacão.
Sala da Liderança do Partido, ALESP – 16h00
O copo de uísque bateu com violência contra a mesa de mogno. O líquido âmbar espirrou nas bordas, manchando os relatórios espalhados.
— Você perdeu o juízo, Verena?! — O grito de Henrique fez as vidraças da sala vibrarem. Ele caminhava de um lado para o outro, o rosto vermelho, afrouxando a gravata como se estivesse sufocando. — Você tem a menor noção do que acabou de fazer com a nossa base aliada? O Barros controla trinta prefeituras no interior! Trinta!
Afundada na poltrona de couro do outro lado da mesa, Verena não piscou.
Sua postura permanecia ereta, as pernas cruzadas com a elegância de sempre, mas o frescor havia sumido. O blazer estava desabotoado. As mangas da camisa de seda branca estavam dobradas de qualquer jeito. Havia uma sombra escura debaixo dos olhos e uma linha dura de tensão ao redor da boca. Ela girava o próprio anel de casamento no dedo, a mente oscilando entre a gritaria da sala e a lembrança de um beijo proibido.
No canto da sala, encostada na estante de livros de direito, Rafaela parecia a ponto de ter um infarto. A assessora olhava da chefe para o presidente do partido, as mãos suando frio.
— Henrique... a Verena tava sob extrema pressão hoje. Nós podemos soltar uma nota de retratação — Rafaela tentou intervir, a voz polida e trêmula, tentando jogar água na fogueira. — Dizer que os ânimos se exaltaram no calor do debate e...
— Não vai ter nota nenhuma — A voz de Verena cortou o ar. Baixa. Fria. Definitiva.
O homem parou de andar. Rafaela fechou os olhos, engolindo em seco.
— Como é que é? — Ele apoiou as duas mãos na mesa, inclinando-se sobre ela como um predador. — Você peita o maior financiador do nosso bloco, chama o cara de escravocrata no microfone aberto e me diz que não vai ter nota?
— Ele é um escravocrata, Henrique — Verena respondeu, a voz carregada de um cansaço quase palpável. Ela finalmente ergueu o olhar para encarar o chefe do partido. Não havia medo ali. Apenas uma exaustão absoluta e um desprezo perigoso. — Eu não disse nenhuma mentira. E eu não vou recuar só porque ele assina os cheques que pagam as suas campanhas.
As persianas pesadas isolavam o gabinete do fim de tarde paulistano. O ambiente cheirava a café expresso e tensão.
Henrique não elevou a voz. E isso era infinitamente pior. Ele estava de pé, apoiando-se na ponta da imensa mesa de mogno, encarando Verena com uma mistura de repulsa e absoluta incredulidade.
— Eu passei seis meses, Verena. — A voz dele era baixa, mastigando cada sílaba. — Seis meses de jantares, concessões e sorrisos falsos para costurar um acordo com o bloco do Barros. Nós precisamos dos quarenta votos dele para passar a pauta da educação no mês que vem. Você sabe disso. Você desenhou a estratégia comigo. E você joga meses de articulação no lixo porque resolveu bancar a justiceira no microfone?
Afundada na poltrona de couro do outro lado da mesa, Verena não desviou o olhar.
— A sua pauta da educação já estava no lixo desde o momento em que você aceitou negociar com ele, Henrique! — A voz dela cortou o ar, afiada e letal, cravando os olhos no homem. — Ele quer cortar a verba das escolas estaduais para financiar subsídio de trator. O projeto nasceu morto e você sabe disso! Eu apenas coloquei o histórico dele na mesa.
— Histórico? — Henrique soltou uma risada seca e sem humor. Ele se endireitou, caminhando lentamente até parar na frente da poltrona dela. — Você acha que está no centro acadêmico da faculdade, deputada? Política não é sobre quem tem a bússola moral mais polida. É sobre quem tem os votos. Eu desprezo o Barros tanto quanto você, mas agora ele vai usar essa humilhação pública para trancar a pauta inteira. Você não ofendeu um homem, Verena. Você implodiu a ponte que nós precisávamos atravessar.
Verena encostou a nuca no couro frio da poltrona e fechou os olhos.
A dor de cabeça era alucinante. A lógica fria e pragmática dele era exatamente a mesma que usaria há uma semana. Era como a política funcionava. Mas a mulher que habitava aquele corpo agora estava quebrada. O esforço monumental para manter o casamento, a postura, o mandato e enterrar o desejo por Valentina havia esgotado suas reservas. Ela não tinha mais espaço para a hipocrisia. Estava se afogando.
— O que você quer que eu faça? — Sussurrou, ainda de olhos fechados. — Que eu suba lá amanhã e peça desculpas ao escravocrata para salvar o acordo?
Rafaela abraçava a própria prancheta, os olhos arregalados. Ninguém, absolutamente ninguém, falava daquele jeito com o cacique do partido.
— Você é uma hipócrita. — O homem apontou o dedo na direção do rosto dela, a voz tremendo de ódio. — Você sentou na mesma mesa que ele na semana passada e brindou! Política é engolir sapo. Mas se você acha que a sua bússola moral de repente ficou mais importante que a governabilidade, você escolheu a profissão errada. Ele vai pedir a cassação do seu mandato amanhã no Conselho de Ética. Ele quer o seu sangue. E sabe o que o partido vai fazer?
Ele apoiou as duas mãos na mesa, projetando o corpo para frente.
— Nada. Nós vamos soltar a sua mão. Você é um dano colateral agora.
A ameaça de morte política pairou no ar, densa e sufocante. A resposta natural de qualquer parlamentar em sã consciência seria recuar. Implorar. Prometer uma retratação pública. Mas Verena soltou uma risada. Um som seco, amargo e assustadoramente genuíno.
Ela deu a volta na poltrona e marchou até o homem, até que os rostos ficassem a palmos de distância. A mulher implacável havia retornado, alimentada pelo caos.
— Soltem. — O sussurro era puro veneno. — Mas presta muita atenção. Se o Barros colocar o meu nome naquele Conselho, eu não vou cair calada. Eu vou pra tribuna todos os dias. Eu vou expor cada emenda superfaturada, cada acordo de bastidor e cada fazenda não declarada que esse partido acobertou para manter essa base aliada de pé.
Henrique prendeu a respiração, a cor sumindo do rosto pálido. O blefe não existia no fundo dos olhos claros dela. Era a promessa de um massacre.
— Se eu for pra guilhotina, eu puxo a corda e levo metade desse prédio comigo. — Verena se endireitou, pegando o blazer jogado na cadeira com um movimento brusco e violento. — Passem bem.
A pesada porta de carvalho bateu com tanta força que o estrondo ecoou pelo andar inteiro, deixando para trás um líder político em choque absoluto e uma assessora à beira de um infarto.
Gabinete 312 – ALESP, 16h25
A pesada porta de madeira bateu com um estrondo que fez os vidros da sala de espera tremerem. A deputada entrou como um furacão, jogando o blazer de qualquer jeito sobre o sofá de couro e marchando direto para a própria mesa. A adrenalina do confronto ainda queimava nas veias, mascarando o cansaço.
— Quero a equipe jurídica inteira aqui em cinco minutos — Sua voz cortou o ar, afiada como vidro quebrado, dirigida aos três assessores juniores que arregalaram os olhos em suas baias. — Mandem levantar cada licitação, cada nota fiscal e cada relatório do Ministério Público arquivado contra o Barros desde 2018. Eu quero a vida daquele escravocrata mapeada na minha mesa até as cinco.
Os juniores hesitaram, paralisados pelo terror.
A porta se abriu novamente. A chefe de gabinete entrou, trancou a fechadura com um estalo seco e puxou as persianas de vidro, isolando a sala do resto do corredor.
— Saiam — Ordenou, num tom baixo, mas que não admitia réplica.
Os três assessores recolheram os notebooks aos tropeços e sumiram pela porta lateral, deixando as duas sozinhas no silêncio denso da sala principal. Verena ergueu o olhar, os olhos faiscando de irritação.
— Eu dei uma ordem, Rafaela.
— E eu acabei de revogar. — A assessora caminhou até o centro da sala e jogou a prancheta com força sobre a mesa. — Eu não vou colocar doze pessoas da nossa equipe para cavar a sua cova em praça pública. Acabou o show, Verena. Você já incendiou o partido, já comprou briga com o maior bloco da casa. Agora você senta aí, respira e a gente vai pensar em como não deixar você perder esse mandato amanhã de manhã!
O maxilar da deputada travou. O limite da paciência havia sido pulverizado horas atrás. Ela apoiou as duas mãos na borda da mesa e se inclinou para frente, a expressão endurecendo numa máscara de pura crueldade.
— Você acha que só porque me conhece há mais tempo tem o direito de me dar ordens na minha própria sala? — O tom era de um veneno letal. — Você trabalha para mim. E se o seu estômago ficou fraco de repente, ou se você não tem competência para sustentar a guerra que eu decidi comprar, a porta está aberta. Deixa o crachá na mesa e vai embora.
Foi a ofensa máxima. A ameaça de demissão pairou no ar condicionado gelado. Mas a outra não piscou. Não recuou um único milímetro. Pelo contrário. Rafaela apoiou as duas mãos na mesa, espelhando a postura da chefe, e diminuiu a distância entre as duas até conseguir ver os pequenos tremores de exaustão no rosto impecável à sua frente.
— Você pode gritar com o Henrique. Pode ameaçar o Barros de prisão. Mas comigo, não. — A voz dela não subiu um decibel sequer, e exatamente por isso soou devastadora. — Eu limpo a sua bagunça desde quando você era uma vereadora de baixo clero. Você não vai me demitir, porque sem mim você bate o carro em cinco minutos.
A respiração de Verena falhou no compasso.
— E quer saber de uma coisa? — Rafaela continuou, o olhar suavizando milimetricamente, trocando a raiva pela mais profunda preocupação. — Eu sei muito bem que esse surto suicida de hoje não tem absolutamente nada a ver com o Barros, ou com o Centrão, ou com a pauta da educação.
O silêncio engoliu a sala. A armadura da mulher mais temida da Assembleia Legislativa começou a rachar ali mesmo, sob o olhar clínico da única pessoa que a enxergava de verdade.
— O que está acontecendo com você, Verena? — O sussurro de Rafaela soou como uma súplica. — O que está te destruindo por dentro a ponto de você querer queimar a sua vida inteira junto?
A pergunta pairou no ar, densa e perigosa. Verena soltou uma risada nasalada, um som áspero e completamente desprovido de humor. Seu mecanismo de defesa imediato sempre foi o ataque, a crueldade calculada para afastar qualquer um que chegasse perto demais da ferida.
— Não tente me psicanalisar, Rafaela — Ela disparou, a voz banhada em cinismo. — Nós não somos amigas tomando vinho na varanda. Guarde a sua intuição barata para os seus relacionamentos fracassados e foque em salvar o meu mandato.
O golpe foi baixo. Sujo. Mas a assessora sequer piscou. A familiaridade entre as duas permitia que Rafaela visse o terror escondido por trás daquela arrogância terna.
— Você pode me ofender o quanto quiser. Não vai mudar o fato de que você está agindo como uma suicida. — A chefe de gabinete rebateu, a voz subindo de tom pela primeira vez, a paciência evaporando. — Você passou os últimos meses como um fantasma! Tava deixando até a Silvia perceber. E hoje... hoje você simplesmente decide jogar uma granada no colo do maior cacique da Assembleia por quê? Por um surto de moralidade? Conta outra, Verena!
— Chega! — O grito da deputada rasgou a sala. Ela bateu com a palma da mão aberta na mesa, o estrondo fazendo os porta-retratos tremerem. — Deixa a minha mulher fora disso!
Rafaela apoiou as duas mãos na cintura, a respiração pesada. O peito subia e descia enquanto ela encarava a fúria desesperada nos olhos da mulher à sua frente. A mente analítica começou a trabalhar na velocidade da luz. A agressividade desproporcional. A exaustão física. A fuga aterrorizada da própria vida perfeita.
Só havia uma coisa no mundo capaz de fazer a inabalável Verena Castilho perder completamente as estribeiras daquela maneira. Uma única ponta solta que havia sido varrida para debaixo do tapete meses atrás.
Os olhos de Rafaela se estreitaram. A respiração falhou por um segundo quando as peças finalmente se encaixaram.
— Verena... — O sussurro escapou, carregado de uma incredulidade aterrorizada.
A postura defensiva da deputada vacilou por um milímetro.
— O que foi agora? — Verena cuspiu, mas a voz saiu um tom mais baixa, traindo o pânico incipiente.
Rafaela deu um passo à frente, diminuindo ainda mais o espaço entre as duas, o olhar cravado no rosto pálido da chefe, como se pudesse ler a alma dela através da pele.
— A última vez que eu te vi assim... disposta a jogar a sua racionalidade no lixo, você estava obcecada por uma coisa.
O silêncio absoluto engoliu a sala. O zumbido do ar-condicionado parecia subitamente ensurdecedor. A cor sumiu por completo do rosto de Verena. Seus dedos, que apertavam com força a borda da mesa, amoleceram, escorregando pelo verniz.
— Rafaela... — O tom era um aviso, um último fio de orgulho implorando para que a frase não fosse terminada.
Mas a assessora não teve piedade.
— Me diz, Verena. — A voz dela tremia agora, não de raiva, mas do mais puro e profundo pavor. — Pela nossa amizade, me diz olhando nos meus olhos que você não fez a burrice de ir atrás daquela menina.
Verena sentiu o ar abandonar seus pulmões com a violência de um soco físico.
Ela abriu a boca para negar. Para usar o tom de autoridade, para mandar a mulher sair da sua sala, para fabricar a mentira perfeita. Mas os olhos marejados e implacáveis da única pessoa que ainda segurava seu mundo de pé a paralisaram.
O silêncio foi a confissão mais barulhenta que já ecoou naquele gabinete.
Rafaela abaixou a cabeça, os ombros caindo de uma vez só, como se toda a energia do corpo tivesse sido drenada. Um riso oco, seco e carregado de pura incredulidade escapou de seus lábios. Ela esfregou o rosto com as duas mãos, balançando a cabeça devagar.
— Eu não acredito nisso... — Murmurou para o chão, o riso morrendo e dando lugar a uma constatação aterradora. Voltou a erguer os olhos, encarando a mulher destruída do outro lado da mesa. — Você jogou o seu mandato, o nosso acordo com o centrão e a paz do seu casamento na fogueira por causa de uma...
— Cala a boca.
A ordem não foi gritada. Foi cuspida.
Verena deu a volta na mesa com a ferocidade de um animal encurralado. A palidez do rosto sendo substituída por manchas vermelhas de fúria e vergonha. A angústia de ver seu segredo mais sujo e desesperador exposto sob a luz fria do escritório estilhaçou o pouco de sanidade que lhe restava.
Ela parou a centímetros de Rafaela.
— Você não vai terminar essa frase — Verena sibilou, os dentes trincados, o peito subindo e descendo de forma errática. — Você não sabe de nada. Você não entende nada.
— Eu entendo que você perdeu o juízo, Verena! — Rafaela rebateu, a voz embargada, a raiva se misturando ao desespero de ver a chefe afundar. — Você acha que eu não vejo? Você está se destruindo! Verena a gente tá metida num desvio de verba e você arruma essa briga toda, por que não consegue se controlar por causa de uma menina…
— Esse assunto é intransponível, Rafaela. — A deputada ergueu o dedo indicador, a mão tremendo, apontando bem entre os olhos da assessora. O tom de voz era um abismo escuro e letal. — Ele começa e termina no silêncio desta sala. Hoje. Agora. Se você ousar abrir a boca para questionar a minha vida pessoal mais uma vez, se você sequer cogitar o que eu faço ou deixo de fazer fora daqui... a nossa história de dez anos acaba no mesmo segundo. Você me entendeu?
O olhar de Verena não tinha um pingo de blefe. Era a barreira final. A muralha construída com o desespero de quem preferia morrer e queimar o próprio império a admitir em voz alta o tamanho da sua dependência.
Rafaela engoliu em seco, sustentando o olhar enlouquecido da amiga por longos segundos, medindo o peso real daquela ameaça, entendendo que o limite havia sido traçado.
— Entendido, deputada — Respondeu, a voz reduzida a um fio gélido e estritamente profissional.
Ela virou as costas, pegou a prancheta largada em cima da mesa e marchou em direção à porta. Destrancou a fechadura e saiu, fechando a pesada folha de madeira atrás de si, deixando Verena Castilho absolutamente sozinha no centro da própria ruína.
O silêncio do gabinete era denso, quase asfixiante.
Verena estava em pé, no centro da sala, encarando a porta de carvalho por onde Rafaela havia acabado de sair. O peito subia e descia numa respiração errática, curta. O coração espancava as costelas. Ela havia acabado de queimar sua última ponte. O mandato estava por um fio, a carreira política em frangalhos, e o casamento... o casamento era uma farsa mantida por inércia.
Ela caminhou a passos lentos de volta à mesa. As pernas pareciam feitas de chumbo. Deixou o corpo cair de qualquer jeito na poltrona e afundou o rosto nas duas mãos.
Estava exausta. Uma exaustão que corroía os ossos. De repente, o zumbido metálico do celular cortou o silêncio. A tela acendeu sobre o verniz da mesa, iluminando a sala na meia-luz. Verena abriu os olhos devagar, as mãos escorregando pelo rosto. O nome Valentina brilhava na notificação.
O estômago despencou numa queda livre. Com os dedos ainda trêmulos de raiva e de cansaço, conseguiu puxar o aparelho e deslizou o dedo pela tela.
Valentina:
Oi. Eu vi um vídeo seu. Uma briga na Alesp.
Eu só queria perguntar se você tá bem.
A respiração de Verena travou na garganta.
Uma lágrima solitária, quente e grossa, escapou do olho direito e pingou no vidro do celular. No meio daquele covil de cobras, onde homens de terno calculavam como arrancar pedaços do seu cargo, aquela menina era a única pessoa que não queria nada além de saber se ela estava bem.
A armadura implacável derreteu por completo. A barreira da idade, do casamento, da moralidade... tudo virou cinzas. Verena não pensou. Se pensasse por um milésimo de segundo, a razão a impediria. O polegar voou sobre o teclado com uma urgência que beirava a loucura.
Verena:
Eu preciso de você. Agora.
Me encontra naquele mesmo lugar do café. Em uma hora.
Apertou enviar antes que a sanidade voltasse. Bloqueou a tela e jogou a cabeça para trás no encosto da poltrona, os olhos fechados, o peito arfando. Havia assinado a própria sentença de morte política, mas, ainda assim, sentia que estava prestes a voltar a respirar de verdade.
Fim do capítulo
Oi gente!
Como vocês estão? Espero que bem.
Bom, depois de chorar horrores vendo Planeta do Macacos rsrsrs, corri aqui pra colocar mais um capitulo desse romance/drama. Espero que tenham gostado!
Até amanhã! S2
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Zanja45
Em: 18/03/2026
Oi, autora, Gostei demais!
Aquele bafafá lá no plenário foi "da hora" como diria umas das minhas amigas. rsrsrsr! Show!
Já assisti Planeta dos Macacos(Me recordo vagamente), mas me pergunte alguma coisa para ver se eu sei? Rsrsrsr!
Não lembro de ter me emocionado a esse nível. Mas pela sua declaração, vou ter que vê -lo novamente, sombreado pelos olhos da Autora. — Quero ver se me emociono de alguma forma. — Olha que me desfaço todinha quando me conecto com algo significativo.
Zanja45
Em: 19/03/2026
Você deve ser bem controlada emocionalmente.
Para gostar de filme de terror, mesmo com medo. kkkk!
Eu já assisti a muitos filmes de terror, porém não mais, foi só uma fase da minha vida. - Gosto mais dos de suspense, esses são os meus preferidos.
Mas vou falar aqui das impressões que tive sobre quando assisti. Ontem, já tive o vislumbre do que me aguarda, agora só resta assistir ou reassistir porque são vários , né? Falei com uma pessoa sobre o filme. Ele narrou detalhes impressionantes a respeito Por isso julgo que serei impactada por eles.
anonimo2405
Em: 19/03/2026
Autora da história
Ahh eu amo filmes de terror, sempre gostei muito. Principalmente com o clima apropriado, chuvoso, aquele friozinho pra justificar a coberta rsrsrsrs. Não sei se pra esse caso controlada seja o nome rsrsrrs, mas o fato de sentir medo me faz gostar mais ainda. Já aconteceu de estar sozinha em casa e a luz automática acender sozinha de madrugada. Kkkkkk
E sobre o filme que comentei, sim, são 4. E são maravilhosos. Acredito que vá gostar.
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Zanja45
Em: 18/03/2026
Ela quer relaxar depois de ser colocada no paredão. Já pensou se Barros tiver colocado em prática expor todos os podres. Ele vai começar a fucar a vida. — E o momento pode começar agora, com essa vacilada dela. — Ela que não fique atenta não. Mas ela agora não tem espaço para pensar coerentemente. Está agindo pela carência, pelo sentimento por Valentina. A razão esta passando longe dela.
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Zanja45
Em: 18/03/2026
Ela quer relaxar depois de ser colocada no paredão. Já pensou se Barros tiver colocado em prática expor todos os podres. Ele vai começar a fucar a vida. — E o momento pode começar agora, com essa vacilada dela. — Ela que não fique atenta não. Mas ela agora não tem espaço para pensar coerentemente. Está agindo pela carência, pelo sentimento por Valentina. A razão esta passando longe dela.
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Zanja45
Em: 18/03/2026
Ela queimou a ultima ponte mesmo. E agora como ela faz para chegar ao outro lado?
Ela destrata muito Rafa, porque não quer admitir o obvio, que sua vida está ruindo por conta da falta de resolução da vida pessoal. — Rafa sabe de tudo isso, mas ela prefere não admitir, pois prefere perder uma aliada do que aceitar ajuda para sair do poço. — E o pior que ela não pesou na balança as consequencias dos atos dela.
anonimo2405
Em: 19/03/2026
Autora da história
Pois é. Mas acho que a Rafaela até releva, ainda mais que nesse meio político não dá pra ficar guardando muito rancor. Mas Verena podia ter bem mais noção, pq elas são amigas há muito tempo.
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Zanja45
Em: 18/03/2026
Henrique pensou que ia levar a melhor. Se lascou, porque minha deputada não come regue calada. — Ela tem as cartas nas mangas. — Ele que deixe o tal de Barros cassar o mandato. Ele vai levar todo mundo. KKKK! A mulher sem medo, Uhum!
anonimo2405
Em: 19/03/2026
Autora da história
Pois é. O que mais tem na politica são essas amarras uns com os outros. A famosa delação premiada é um assombro pra muita gente rsrs. Por isso que tanta coisa passa batido.
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Zanja45
Em: 18/03/2026
Esse Leo gosta da vida alheia e principalmente cutucar Valentina. — Dizer que Valentina esta perdidinha nela é coisa pequena. — Ela está apaixonada pelo furação que é a deputada em ação. KKKK!
anonimo2405
Em: 19/03/2026
Autora da história
kkkkkkkkkkk, onde eu moro temos um nome bem específico pro Léo.
Zanja45
Em: 19/03/2026
Qual é mesmo? Fiquei curiosa!
anonimo2405
Em: 19/03/2026
Autora da história
Bico de chaleira (na tradução, pra frente rsrsr)
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Zanja45
Em: 18/03/2026
Verena se meteu em uma tremenda confusão com esse Barros. Foi ameaçada por ele quando disse que ela não sairia andando de lá e ainda quase que agride ela. — Verena é muito destemida, ela foi colérica no contra ataque . Ela tem sangue nos olhos — Juntou tudo, não passou a noite bem, e ainda tendo que enfrentar uma situação dessas. — O nível decaiu, ela não é mulher de levar desaforo para casa. — No entanto, muitas coisas foram feitas no calor das emoções. A barragem se rompeu mesmo, ao invés de ser aberta.
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Zanja45
Em: 18/03/2026
Verena fugindo do roteiro. KKKK! Detonou com o discurso fajuto sobre financiar o “ócio” do deputado Barros. — Essa mulher é um ícone mesmo. — Sempre bem afiada, desbancou direitinho o Barros. Ele está todo errado, depois vem falar de moralidade. Não gerar dependentes para o Estado. O bicho é muito escroto para falar uma coisa dessas. Sendo que as crianças não têm culpa por estarem nestas condições, precisam ser assistidas mesmo. Necessitam de Projetos que venham a ampará - las. E isso é dever do Estado. — Aplausos para minha deputada, viu? Ela pode não andar na linha, mas quando é para desbancar gente hipócrita ela não mede palavras. Ela é certeira — Nas próximas eleições meu voto é dela, com certeza. — Admiro muito essa deputada.
anonimo2405
Em: 19/03/2026
Autora da história
kkkkkkkkk, siim. Verena tbm tá beeem longe de ser santa. mas muito longe mesmo rsrs, mas tbm adoro quando ela desmascara aquele bando de hipócritas assim. Não sei se eu voto nela rsrsrs, se eu não soubesse dos desvios dela, provavelmente.
Zanja45
Em: 19/03/2026
Kkkk!
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Zanja45
Em: 18/03/2026
Silvia sempre um amor de pessoa, respirando em torno de uma gravidez — transferência— Enquanto a mulher está a quilômetros de distância nos pensamentos. Dessa vez ela não se ancorou na pressão de mãe que a estava deixando assustadada. — No entanto, mesmo assim, ela de uma forma desesperada tentou fugir da realidade e também para disfarçar, deu aquele beijo em Silvia. Buscando se agarrar a algo que não a levasse a compactuar com uma inverdade sobre ela.
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Zanja45
Em: 18/03/2026
Verena está afundada em um drama gigantesco. E não é arrastando o que ela está sentindo debaixo do tapete que vai resolver. — Esse desespero dela em querer abafar tudo como se não tivesse existido, revelou essa falta de clareza dela. No entanto, foi uma tentativa de parar com tudo que havia fazendo, no entanto algo falou mais forte do que tentar mentir para si mesma. E a consciência de que está apaixonada por Valentina ultrajante fazendo com que recuasse nas suas ações de querer bloquear a garota da sua vida.
anonimo2405
Em: 19/03/2026
Autora da história
Concordo. Verena tá afundando cada vez mais. É como areia movediça, quanto mais você se debate pra sair, mais afunda.
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Zanja45
Em: 18/03/2026
Foi um pesadelo ou aviso para Verena? O bebê dela se transformou em Valentina, minha nossa, que sonho mais que real. — É um aviso para o que ela anda fazendo, pois Valen ainda é uma adolescente e não um bebê como ela sonhou. Essa vontade que consome ela em querer Valentina, já está fazendo ela alucinar. — O beijo de Valentina deixou um gosto doce na boca dela, pois ela só consegue pensar nele.
anonimo2405
Em: 19/03/2026
Autora da história
Acho que foi os dois viu.
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Zanja45
Em: 18/03/2026
Verena rendida, kkk! Olha a transformação de Valentina após ver a mensagem. De choro de velório diz Carol para um sorriso estampado no rosto. — A mulher está na de Valentina — Não consegue trabalhar direito pensando nos beijos da garota. E a “ pequena” como diz Vê já está com saudades de quem acabou de ver, isso é muito sério.Hahahaha. A amiga já jogou a toalha, ela não pode mais tentar controlar a amiga.
anonimo2405
Em: 19/03/2026
Autora da história
Parece que a Valentina já arqueou a bandeira branca dela faz tempo rsrs.
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sky
Em: 18/03/2026
Que situação...
Dejavu aqui kjj
anonimo2405
Em: 19/03/2026
Autora da história
Aiiii, eu acho muito legal essa sensação. Rsrs fico tentando lembra de alguma situação parecida, pra justificar, mas nunca consigo. É muito interessante.
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sky
Em: 18/03/2026
Planeta dos macacos?
Gente?kkkkkk
anonimo2405
Em: 18/03/2026
Autora da história
Ahh tudo bem que sou meio manteiga derretida rsrsrs, mas não tem como não chorar com algumas cenas kkkk, eu acho impossível. Principalmente quando morreu o Cesar e um outro segurança dele. Chorei mesmo rsrs
anonimo2405
Em: 18/03/2026
Autora da história
Misericórdia, tomara que eu não tenha dado spoiler. Não era a intenção.
sky
Em: 18/03/2026
Kkkk
Muitas coisas dos primeiros capítulos estão se conectando entre si
Quando tinha meus 26 e tentei evitar exatamente me jogar nesse turbilhão com uma pessoa de 15 pra 16...
sky
Em: 18/03/2026
Por isso entendo toda dinâmica
Por mais difícil que seja
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anonimo2405 Em: 19/03/2026 Autora da história
Oie!
Fico muito feliz que tenha gostado. Barraco na política sempre tem, infelizmente.
Ah e eu gostei muito do filme. Apesar do meu gênero favorito ser terror (gosto muito, mesmo morrendo de medo rsrs), as vezes eu abro exceções pra alguns de ficção assim. Recomendo que veja e me fale se eu que sou muito chorona rsrsrs.
Abraço! S2