CAPÍTULO XVII
Chiara estava terminando de dobrar a última peça de roupa quando ouviu a porta atrás de si. Não ousou olhar para trás, continuou o que estava fazendo. Depois, cuidadosamente, acomodou a peça em seu lugar no armário.
Quando se virou, Luísa estava parada de pé, a olhando.
Fez uma breve reverência:
— Majestade, vim trazer suas vestes, mas já terminei.
Luísa não se moveu por alguns segundos, depois disse:
— Bom te encontrar aqui, queria mesmo conversar com você.
Chiara estremeceu enquanto anuía com um aceno de cabeça.
— Estou indo para Ótice em alguns dias. Gostaria que você fosse comigo.
Fez uma pausa, antes de completar:
— Como minha criada pessoal.
A cabeça de Chiara rodou. Deixar Diamantora? Mas era sua casa. A casa de Maia. Não podia se afastar dela. Ao mesmo tempo, algo dentro de si gritava: Maia está morta!
— Eu… eu não sei…
Luísa a interrompeu:
— É provisório. Eu pretendo voltar. Mas preciso de uns dias no meu reino.
Deu dois passos cautelosos na direção de Chiara:
— Entendo se não quiser me acompanhar, mas… eu gostaria muito que você fosse comigo.
Luísa tinha decidido se afastar de Diamantora por um tempo. Ficou evidente que Milo tinha o controle total dentro daquele castelo. Estava perigoso demais. Em Ótice poderia contar com seus guardas e seu próprio Conselho. Precisava pensar cautelosamente. Precisava de um plano sem erros.
Chiara não esperava viajar na mesma carruagem que Luísa. Sozinhas. Apenas as duas. Na outra vez em que foi para Ótice, como criada de Maia, viajou junto com as malas, numa carruagem velha.
Não sabia muito bem o que fazer. Mexia as mãos nervosamente. Como passaria tantas horas daquele jeito, no mesmo ambiente que Luísa? Evitava contato visual com ela, por isso encarava o chão.
— Caso se sinta mal com o balanço é só falar. Podemos parar um pouco e pegar um ar fresco.
Ainda sem olhá-la, Chiara respondeu:
— Obrigada, Majestade.
Luísa levantou o rosto dela com a ponta dos dedos:
— Não precisa me tratar assim… Estamos só nós duas aqui.
Chiara voltou a desviar o olhar:
— Não é apropriado.
Luísa sorriu:
— Há tantas coisas que dizem não ser apropriadas… Mas quem inventou essas regras? E por quê? Já pensou nisso?
Chiara a olhou confusa, antes de dizer:
— Minha função não é pensar, muito menos questionar, Majestade.
Luísa manteve o sorriso:
— Tenho certeza que uma moça tão inteligente como você pensa em muitas coisas.
Chiara se manteve calada, querendo que o assunto se encerrasse o mais breve possível, mas Luísa continuou:
— Nunca imaginou se a vida fosse diferente e você pudesse se declarar para Maia?
Ela levantou o rosto rapidamente. Olhou para Luísa com raiva:
— Gostaria que não tocasse no nome de Maia, por favor.
Não pareceu abalar Luísa:
— Calma, só estou perguntando se nunca cogitou…
— Não!
Saiu quase em um grito. Chiara precisou respirar antes de continuar:
— Nunca desrespeitei Maia. Nem em meus pensamentos.
Luísa se inclinou para frente, ficando a centímetros do rosto dela:
— Desrespeito? O beijo que trocamos foi um desrespeito?
A voz sussurrada de Luísa causou em Chiara reações que ela não podia admitir:
— Aquilo não pode se repetir.
A voz saiu tão falha que quase não se ouviu. O olhar alternava entre os olhos e a boca de Luísa sem que pudesse controlar.
— Não?
A última pergunta dela foi um sopro, que trouxe o hálito quente para seu rosto. A respiração estava completamente alterada. O coração palpitava. Sem perceber, Chiara tomou a iniciativa e juntou os lábios aos dela.
Luísa sorriu no meio do beijo, absolutamente deliciada em perceber que Chiara também a queria. Sem separar os lábios, a puxou para que se sentasse em seu colo. Acariciou o corpo dela por cima das camadas de roupas, enquanto sentia Chiara suspirar, se rendendo em suas mãos.
Estava indo sem reservas e com pressa, mas — além da vontade irrefreável que sentia — temia ir mais devagar e Chiara acabar se arrependendo. Com algum esforço, enfiou a mão por debaixo dos panos e venceu a barreira da peça íntima que ela usava. Se arrepiou inteira ao sentir o líquido quente em seus dedos. Habilmente começou a fazer movimentos circulares que fizeram Chiara soltar um primeiro gemido contido. O balanço da carruagem ajudava no atrito dos dedos de Luísa contra o ponto sensível.
Sem sequer se dar conta, Chiara começou a movimentar os próprios quadris contra Luísa, ofegando, pedindo, querendo mais e mais… Até sentir uma onda arrebatadora irradiar do seu sex* para todo o corpo, primeiro enrijecendo, depois relaxando todos os seus músculos.
*****
— Que tipo de dança é essa?
Maia riu ao responder:
— A dança que sempre fizeram em Diamantora.
Zahra a segurou pelo braço devagar, para que parasse:
— Se dançar assim em público aqui, vão achar que é louca.
Pousou uma mão na cintura de Maia e entrelaçou os dedos nos dela com a outra:
— Assim.
Mostrou os passos básicos para Maia, bem devagar, até ela entender o ritmo da dança, depois disse:
— Agora mais rápido.
Os corpos giraram várias vezes, os pés sincronizados iam de um lado para o outro e Zahra sorriu percebendo que Maia não teve nenhuma dificuldade para aprender.
— Agora desse jeito…
Ficou com apenas uma das mãos enlaçada na de Maia, enquanto a conduzia, preenchendo todo o espaço do pequeno quarto da hospedaria. Os pés batendo no chão cada vez mais rápidos, até que ouviram batidas nada amistosas na parede de madeira que dividia os cômodos:
— Parem com essa barulheira!
Maia e Zahra congelaram, depois caíram em uma gargalhada compartilhada.
— Acho que por hoje nossas lições acabaram.
Maia deixou-se cair no colchão:
— Ótimo, estou exausta.
Zahra sentou ao lado dela:
— Com música é muito mais divertido, você vai ver.
Acariciou o rosto de Maia antes de se pôr de pé novamente:
— Vou adiantar as coisas com Martelo para não me atrasar à noite. Vamos dançar até você não sentir mais suas pernas.
Quando chegaram ao local que Rino se referiu como “caverna”, Maia entendeu o porquê. Era um lugar apertado e abafado, completamente cheio de pessoas que dançavam. Pelo jeito que alguns pingavam suor, imaginou que deveriam estar dançando por horas.
Zahra a puxou pela mão para que fossem até o balcão pegar bebidas. Depois voltaram para perto da multidão. Ficaram por alguns minutos apenas observando. Quando as canecas estavam quase no fim, Zahra as colocou em uma mesa próxima e puxou Maia para o meio.
No começo, se sentiu um pouco envergonhada, retraída. Muito por não se sentir segura com os passos que tinha conhecido naquela manhã. Mas depois, aos poucos, foi se soltando, e perdeu completamente a noção do tempo. Só pararam quando Zahra pediu:
— Vamos beber alguma coisa.
Voltaram para o balcão. Zahra praticamente secou a caneca de uma só vez. Maia bebeu mais devagar.
— Preciso me aliviar.
Apontou para o pequeno cubículo que todos usavam para urinar e saiu. Maia ficou no mesmo lugar, observando as pessoas que dançavam.
— Quer ser meu par?
Olhou para a moça atrás do balcão. A mesma que tinha servido bebida para ela e para Zahra nas duas vezes. Era uma mulher jovem, talvez da sua idade. Os cabelos negros caíam longos até sua cintura.
Maia olhou para trás, apenas para se certificar de que era com ela mesma que a jovem falava. Pensou que talvez a moça tivesse a confundido com um rapaz, por conta das roupas que vestia, apesar dos seus cabelos já estarem na altura do ombro:
— Eu?
A mulher riu e disse de forma bem-humorada:
— Tem mais alguém aqui?
Maia se sentiu encabulada:
— Eu sou mulher.
A moça deu a volta no balcão e parou na frente dela:
— Eu sei. Por isso estou te convidando. Ou a sua… amiga… não vai gostar?
Maia olhou na direção do cubículo em que Zahra ainda estava:
— Não, ela não vai se importar.
Foram para junto das outras pessoas, com a moça a puxando pela mão. Começaram a dançar, primeiro separadas, depois unidas. Só muito tempo depois Maia se lembrou de Zahra. A buscou com os olhos no meio dos dançantes, mas a encontrou encostada perto do balcão. Zahra sorriu para ela e fez um leve movimento de cabeça, indicando que aprovou sua dança acompanhada.
Mais alguns minutos de dança e a moça perguntou perto do seu rosto, para ser ouvida:
— Vamos para outro lugar?
Maia acenou positivamente com a cabeça:
— Só preciso falar com minha… amiga.
Se aproximou de Zahra enquanto a serva a esperava próximo a saída.
— Vou dar uma volta.
Zahra piscou para ela, sorrindo:
— Não faça nada que eu não faria.
Assim que saiu da “caverna” com a garçonete, propôs:
— Vamos para a hospedaria? Tenho um quarto lá.
Mas a moça tinha outros planos:
— Vem comigo.
Conduziu Maia para um lugar afastado do movimento de pessoas, entraram em uma trilha que a jovem parecia conhecer muito bem e caminharam por pouco tempo, até ela parar e se recostar em uma árvore.
Maia ficou parada sem saber o que fazer.
— O que está esperando?
A moça a puxou para perto, pegou sua mão e a encaminhou para debaixo de seu vestido.
*****
O restante da viagem com Chiara, depois que ela se rendeu deliciosamente em seus braços, tinha sido em total e completo silêncio. Luísa achou por bem não tentar puxar qualquer assunto, diante do visível constrangimento da moça que não a olhou mais.
Quando chegaram em Ótice, Chiara praticamente pulou da carruagem e caminhou até às malas para levá-las para dentro. Luísa se dirigiu direto para a sala do Conselho, seguida por Martín. Depois, bem mais tarde, quando entrou em seus aposentos, Chiara estava de pé a aguardando. O olhar no chão.
— Precisa de alguma coisa antes de eu me retirar, Majestade?
Pediu porque realmente precisava:
— Prepare meu banho.
Prontamente Chiara pegou os sais, tecidos, e tudo que seria preciso para a tarefa. Quando a água estava na temperatura ideal, disse:
— Está pronto.
Luísa caminhou até a borda da banheira de madeira e mais ordenou do que pediu:
— Dispa-me.
Com as mãos trêmulas, Chiara a atendeu, tirando as peças de roupa tentando inutilmente não encostar na pele de Luísa.
Quando ficou completamente nua, Luísa se virou para Chiara, pegou a mão dela na sua e delicadamente a colocou em seu pescoço, descendo em seguida para o colo, o seio, a barriga…
Chiara não conseguia controlar a respiração, sentindo o próprio corpo esquentar, como se o calor da pele de Luísa estivesse sendo passado para o seu pelas pontas dos dedos.
Luísa a puxou gentilmente, a beijou nos lábios sem enfrentar resistência alguma, depois pediu baixinho:
— Entre comigo.
A mudez de Chiara fez Luísa tirar a primeira peça de roupa dela. Como não teve protesto, continuou, até que as duas estivessem completamente nuas. Analisou o corpo mais jovem com desejo, a tocou devagar, numa carícia, sentindo os pelos do braço dela se arrepiarem. Entrou na banheira e permaneceu de pé, antes de puxar Chiara para que entrasse também. Depois se sentou e fez com que Chiara se sentasse com as costas contra seu peito. Acariciou a pele dela devagar, por muitos minutos, até sentir Chiara completamente relaxada e entregue. Só então beijou o pescoço que se oferecia, o lóbulo da orelha que tinha fácil acesso, mordiscou a mandíbula… e avançou com as mãos pela barriga, descendo até onde mais a interessava naquele momento. Agora sem a urgência desesperada da primeira vez.
Chiara se permitiu. Fechou os olhos e se deixou levar, sem pensar em nada que não fosse o prazer que irradiava por todo seu corpo. A mente vazia como há muito tempo não ficava. Diamantora, o castelo, as criadas que a maltratavam, a mãe que perdeu tão cedo, o pai que nunca conheceu, o amor por Maia perdido na eternidade… Nada seria capaz de tirá-la do transe daquele momento.
O barulho de batidas na porta a despertou. Sentou na cama tentando entender se era real ou se tinha sonhado. Olhou para Luísa ainda adormecida ao seu lado e por alguns segundos imagens da noite anterior passaram por sua cabeça. O cheiro dela invadiu suas narinas. O gosto, sua boca. Passou a mão pelos cabelos tentando conter a sensação quente que subiu pelo seu corpo ao recordar dos próprios dedos deslizando pelo sex* molhado de Luísa… Os sons que ela deixava escapar…
As batidas na porta voltaram. Se desesperou. Que horas eram?
Luísa enfim despertou. Sentou na cama ao ver o olhar desesperado de Chiara. Levantou, se cobriu e foi até a porta, abrindo apenas uma fresta.
— Majestade…
Chiara ouviu a voz de Martín e também se pôs de pé, procurando as roupas para se vestir.
— Acaba de chegar um mensageiro de Diamantora…
Uma leve sensação de déjà vu preencheu Luísa antes do guarda concluir:
— O rei Estefan está desaparecido.
*****
— Tenho um presente para você.
Maia olhou para a porta. Sorriu involuntariamente ao perceber que ela havia voltado depois de alguns dias fora da cidadela, junto com Martelo e Gualter.
Perguntou, levantando uma das sobrancelhas, sem parar de afiar a lâmina do punhal:
— Presente?
O sorriso de Zahra foi travesso, quando pediu:
— Vem comigo.
Maia pensou em algumas coisas enquanto a seguia. Até sorriu de antecipação, imaginando várias possibilidades deliciosas. Mas nada — absolutamente nada — do que pensou chegou perto da surpresa a que Zahra se referia. Entraram em uma das grandes tendas que usavam para armazenar produtos furtados e outras coisas mais. Caminhou atrás de Zahra no meio das caixas e objetos jogados pelo chão, até chegar no fundo do lugar.
Estancou de repente, o punhal caiu de sua mão. Ficou lívida. O sangue sumiu das suas faces. Sentado em sua frente, amarrado e ensanguentado, com Martelo em pé ao seu lado, estava Estefan. Seu esposo. Rei de Diamantora. O homem que tentou matá-la.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 15/03/2026
Agora Zahra me surpreendeu.....e agora qual será o plano?.... só melhora a cada capítulo
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AlphaCancri Em: 20/03/2026 Autora da história
Com certeza surpreendeu Maia também rsrs
Fico feliz que esteja gostando, obrigada :)