CAPÍTULO XVI
A risada de Zahra ecoou pelo espaço pequeno em que as duas estavam escondidas, esperando pelos homens. Ela voltou a beijar Maia, um beijo rápido, depois disse, ainda rindo:
— O que é isso? O choque de ter tirado uma vida afetou sua cabeça?
Mas Maia se manteve séria e repetiu:
— Eu sou a rainha de Diamantora.
Não sabia o porquê, naquele momento, sentiu a necessidade de falar. Talvez tivesse sido realmente a perplexidade de ter tirado uma vida com as próprias mãos. O sentimento de como era frágil, de como as coisas eram efêmeras. De como tudo podia mudar ou acabar em questão de segundos. Queria, precisava… falar com alguém, verbalizar… quase afirmar para si mesma, para que não se esquecesse. Ela era a rainha de Diamantora. Tinha uma vida antes de tudo aquilo acontecer.
A sensação era de que tinha se enterrado e se transformado em outra pessoa. E de repente, sem aviso prévio, a enterrada queria voltar à vida.
— Maia, minha linda… O que é que você está dizendo?
Suspirou pesadamente, mas manteve os olhos nos de Zahra:
— Estou te dizendo que sou a rainha de Diamantora. A rainha que todos pensam estar morta.
Não soube interpretar a total mudez de Zahra. Ela analisou Maia com os olhos, franzindo a sobrancelha antes de dizer:
— Certo. Nós vamos esperar os outros chegarem, achar um lugar para dormir e amanhã conversamos sobre isso, tudo bem?
Pelo tom de voz, Maia soube que ela não acreditou. Mas achou melhor não insistir naquele momento. Depois conversariam com calma e poderia contar detalhes do que havia acontecido.
Balançou a cabeça em concordância, no momento em que Martelo e Ramon entraram no esconderijo. Logo a atenção de Zahra voltou-se para eles e começaram a falar sobre os próximos passos. Maia continuou calada, com uma inquietação nova dentro de si. Pela primeira vez desde que caíra naquele rio, uma rainha parecia querer sair de dentro dela.
Assim que entrou na taberna, foi direto ao balcão. Pediu uma caneca e perguntou para a moça que a serviu:
— Giorgios está aqui hoje?
A mulher fez um sinal com a cabeça, indicando a parte de trás, onde ficava a saleta que Zahra já conhecia.
Caminhou até lá e bateu na portinhola. Alguns segundos depois uma pequena fresta, que só permitia ver os olhos da pessoa do outro lado, se abriu. Zahra percebeu que ele sorriu, mesmo sem ver seus lábios. A porta se abriu e um homem magro e alto, da idade dela, apareceu de corpo inteiro. Ele sorriu, dando passagem:
— Entre, entre…
Se espremeu para passar e andou pelo corredor estreito, até chegar na saleta que era um pouco maior. Giorgios indicou a cadeira velha na frente dele e os dois se sentaram:
— Há tempos não te vejo…
Zahra sorriu:
— Estivemos longe, conhecendo novos lugares, mas estamos de volta.
O homem balançou a cabeça energicamente:
— Vieram para ficar?
Deu de ombros:
— Por um tempo. Você sabe que não podemos nos demorar em um mesmo lugar…
Novamente Giorgios agitou a cabeça em concordância. Ajeitou os óculos redondos no rosto e perguntou:
— O quem tem para mim hoje?
Zahra tirou do embornal dois relógios dourados e uma corrente prateada. Ele estendeu as mãos apressadas, pegou os objetos e os analisou na frente do rosto. Depois pegou um monóculo e analisou as peças meticulosamente.
— Vinte e quatro moedas.
Zahra concordou com a cabeça. O homem deixou as peças na mesa e a olhou curioso:
— Assim? Não vai barganhar?
Zahra negou:
— O preço está justo.
Fazendo o homem arquear uma das sobrancelhas:
— Se não fosse você quem estivesse me trazendo… eu desconfiaria que está tentando me engambelar.
Zahra sorriu rapidamente:
— Jamais faria isso com você. Com outros, talvez, mas jamais com você.
Giorgios assentiu e perguntou:
— O que mais? Você está inquieta.
Ela se ajeitou na cadeira e pediu:
— Preciso de umas informações… sobre um reino em que nunca estive… estamos pensando em ir até lá.
Preferiu omitir a verdadeira razão do pedido. Desde a noite passada quando Maia havia insistido na ideia de ser uma rainha, não conseguiu tirar aquilo da cabeça. Poderia ser só um devaneio dela, uma confusão mental depois do trauma de ter matado alguém pela primeira vez, mas… e se ela estivesse falando a verdade?
Conhecia Diamantora apenas por nome, não sabia nada sobre o lugar. Precisava do maior número de informações para tirar a limpo aquela história.
— E qual seria?
Falou o nome tentando parecer indiferente:
— Diamantora.
Giorgios se levantou em um pulo e começou a caçar livros pelas estantes:
— Ah! Diamantora. Também nunca estive lá, mas conheço pessoas que sim. Dizem que é um bom reino. Grande e rico… Onde é que está?
Ele falava de costas para Zahra, tateando entre as capas enfileiradas.
— Aqui!
Virou-se de frente, soprou a poeira sobre a capa e abriu o livro, procurando entre as páginas:
— O reino de Diamantora é localizado na planície de Outeia, entre os reinos de Ótice e Sisius.
Zahra escutou atentamente enquanto ele lia:
— Sua moeda é própria… o idioma é o universal… Blá blá blá… isso não é interessante… isso também não…
Ele fechou o livro de repente, fazendo um barulho que assustou Zahra.
— O que exatamente você quer saber?
Ela se levantou:
— Nada em específico. Será que você pode me emprestar esse?
Apontou para o livro que ele imediatamente estendeu:
— Mas quero de volta. Intacto.
Zahra colocou o livro debaixo do braço e perguntou:
— Sabe alguma coisa sobre a rainha de lá ter morrido recentemente?
Se Giorgios estranhou a pergunta, não demonstrou:
— Não… Há muito tempo não converso com alguém que esteve por aquelas bandas.
Quando voltou para a hospedaria, aproveitou que Maia havia saído com Gualter e abriu o livro. Procurou entre os diversos reinos descritos nas páginas, até localizar Diamantora. Leu e releu as poucas páginas amareladas que falavam a respeito do lugar e tentou gravar o máximo de informações possível. Mais tarde, depois que já tinham se banhado e comido, foram para o quarto. Maia se sentou na beirada da cama enquanto tirava os sapatos.
— Quero conversar com você sobre a história de… ser a rainha de… como é mesmo o nome do lugar?
Zahra perguntou como forma de testá-la. Queria saber se ela falaria o mesmo nome que tinha dito na noite anterior.
— Diamantora.
A resposta dela foi firme. Zahra balançou a cabeça, puxou a cadeira de madeira e sentou de frente para ela:
— E como você veio parar aqui, vivendo como uma ladra, correndo de um canto para o outro, vestindo trapos e se deitando com mulheres?
A última parte fez Maia franzir a testa. O fato dela ser uma rainha de verdade a impediria de se deitar com outras mulheres? Zahra havia falado aquilo porque não conhecia Luísa…
— Tentaram me matar. Eu sobrevivi.
Zahra suspirou:
— Maia... como eu vou acreditar numa história assim, solta, que qualquer um poderia inventar?
Ela endireitou o corpo e se preparou para falar:
— Vou te contar tudo. Com detalhes.
Depois de longos minutos em que falou tudo que havia acontecido, desde a primeira visita de Luísa até ter sido pega por Zahra tentando furtá-la, Maia fez uma última consideração:
— Eu sou uma estúpida, não é?
Zahra se manteve quieta. A história de Maia tinha detalhes muito específicos, seria difícil ela ter inventado tudo aquilo. Juntou a história dela ao fato de Maia ser delicada e educada, com gestos refinados, como Ramon havia dito… Mas tudo parecia surreal. Uma rainha vivendo com eles… Inacreditável… Precisava tirar todas as provas possíveis.
Se levantou e pegou o livro que tinha deixado escondido perto do embornal. Abriu a página marcada e perguntou:
— Em qual planície fica localizado o seu reino?
— Outeia.
— Quais são as cores do brasão?
— Vermelho e preto.
— Quem foi o último rei antes do seu esposo?
— Meu pai… Bartolomeu VI.
Zahra levantou os olhos do livro e disse:
— Errado!
Maia balançou a cabeça:
— É claro que era o meu pai!
— Mas não é esse o nome dele… Não é o nome que está escrito aqui…
Maia virou levemente o rosto tentando ver a capa do livro:
— Quando é que isso foi escrito?
Não esperou a resposta de Zahra:
— De qualquer forma, antes do meu pai: meu avô Herno I. Antes dele: meu bisavô Carlo III. Antes dele, meu trisavô Bartolomeu V. Antes dele…
Ficaria falando nomes de gerações de reis de sua família, se Zahra não a tivesse interrompido com a palma da mão estendida:
— Certo, certo.
Ela fechou o livro e encarou Maia por alguns segundos:
— E agora?
Maia não entendeu a pergunta:
— Agora o quê?
Zahra se manteve calada olhado para ela. Só instantes depois se levantou e deixou o livro de volta na mesa:
— O que eu faço com você?
Maia também se levantou. Uma onda de medo invadiu suas veias repentinamente. E se tivesse sido mais um erro contar a verdade para Zahra? E se ela quisesse tirar proveito da situação? E se a entregasse para Estefan em troca de moedas?
Ela se aproximou e acariciou o rosto de Maia:
— Sempre te achei uma princesa… mesmo quando parecia um rapazinho…
Aproximou os lábios delicadamente e beijou a boca de Maia, enquanto a enlaçava pela cintura.
Maia sentiu o corpo dela pressionado contra o seu e se arrepiou inteira. Deixou um suspiro escapar no meio do beijo, sentindo Zahra deitá-la na cama. A boca dela desceu pelo seu pescoço. Quando Zahra levantou o rosto e voltou a olhá-la, Maia disse com a voz rouca de desejo:
— Na verdade… Eu sou uma rainha.
*****
Martín serviu o copo e o estendeu para Luísa, antes de dizer:
— Sabe que não será fácil, não é? Milo é muito esperto… e tem uma rede de segurança dentro e fora do castelo.
Luísa balançou a cabeça depois de ter tomado um longo gole da bebida:
— Sei… Mas é o único jeito.
O guarda sentou ao seu lado e falou:
— Seria mais fácil sumir com Oton. Anda sempre desprotegido, não se atenta a nada… não sabe nem empunhar uma espada.
Luísa o olhou começando a levar em conta a sugestão. Ele continuou:
— E se ele morrer… a duquesa assume o trono. Você pode tentar controlá-la.
Luísa balançou a cabeça em concordância:
— Já pensei nisso, mas temo que Milo consiga colocar o Conselho contra mim. Ele tem todos os Conselheiros na palma da mão. E se for preciso me matar, ele fará, como já tentou.
Martín disse calmamente, como se não fosse nada importante:
— Então podemos sumir com os dois.
Não teve tempo de responder. Batidas na porta os interromperam:
— Entre.
Quando Luísa autorizou, Chiara surgiu na porta, olhando para o chão:
— Com licença, Majestade. Vim trazer a refeição.
Martín se levantou e se despediu, fazendo uma pequena mesura ao passar por Chiara.
— Pode deixar na mesa, por favor.
Chiara seguiu as ordens dela sem olhá-la. Depois perguntou:
— Precisa de algo mais?
Luísa se aproximou devagar:
— Sobre aquele dia… me desculpe se fui rude com você. Se você não quiser, não vai se repetir.
Chiara finalmente a olhou. E se arrependeu, pois ruborizou no mesmo instante. O que queria e deveria era dizer que fosse assim. Que nunca mais se repetisse. Mas a lembrança da boca de Luísa na sua a impedia de falar aquela inverdade. Fez uma reverência rápida e pediu, antes de sair do cômodo:
— Com licença.
Assim que ela desapareceu pela porta, Luísa sorriu. Um pequeno sorriso que foi aumentando até se transformar em uma risada alta. Chiara não havia sequer tentado negar.
*****
— Você tem vontade de voltar para lá?
Maia suspirou e demorou longos segundos para responder:
— Sinceramente? Eu já não sei.
Semanas tinham se passado desde que contara a verdade para Zahra. Só ela sabia, não falaram nada para nenhum dos homens.
Zahra a abraçou e a beijou no rosto. Manteve Maia junto dela ao dizer:
— Nós podemos te levar de volta… Te proteger… Até você conseguir…
Sussurrou a última parte para que ninguém mais ouvisse:
— O trono de volta.
Maia a olhou nos olhos e acariciou o rosto dela:
— Eu sei que vocês fariam isso por mim, mas… não é tão simples. Enfrentar uma Guarda Real é diferente de roubar bêbados.
Fingindo indignação, Zahra protestou:
— Você está dizendo que somos amadores?
Maia riu antes de responder:
— Não… Estou dizendo que seria diferente de tudo que vocês já enfrentaram.
Zahra pensou um pouco antes de retrucar:
— Nós poderíamos traçar um plano. Muito bem calculado. Ramon é um ótimo estrategista.
Nos últimos dias Maia não conseguiu tirar aquele assunto da cabeça. Parecia que falar em voz alta, para que outra pessoa soubesse, tinha feito a rainha Maia existir de alguma forma. Um passado que ela não tinha mais esperanças que se tornasse presente. Não sabia sequer se queria. O que significaria voltar para o castelo? Nunca teve tanta liberdade quanto naquela vida ao lado de Zahra e dos homens. E se voltasse para assumir seu posto de rainha legítima de Diamantora, voltaria para uma prisão. Um pouco diferente da que experimentou quando se casou, mas, ainda assim, seria uma prisão.
— Vamos esperar um pouco… Eu não sei muito bem o que quero…
Zahra concordou e nas duas dezenas de dias que se seguiram, Maia se esforçou para empurrar a rainha de volta para a cova.
Fim do capítulo
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