CAPÍTULO XV
— Bom dia, princesa!
A última palavra fez Maia arregalar os olhos instantaneamente. Sentou na cama, cobrindo o corpo nu com o tecido.
Zahra sorriu:
— Perdeu a hora… Mas pela noite de ontem, está justificado.
A apreensão de ter sido descoberta foi diminuindo ao perceber que Zahra estava agindo normalmente.
— Que horas são?
— Tarde… Vamos, se lave e se vista. Precisamos sair.
Maia olhou confusa para a cama desarrumada, depois viu suas roupas jogadas no chão. Zahra acompanhou seu olhar, se abaixou e pegou as peças, estendendo para ela.
— Eu paguei nossas acompanhantes de ontem… Elas nem cobraram o valor cheio, não te disse?
Maia continuou calada. A sensação de irrealidade ao se lembrar de tudo que havia acontecido na noite anterior. Surreal. Nunca tinha lido sobre aquilo, nunca tinha sequer imaginado. Achava impossível, pecaminoso, impuro… mas inegavelmente delicioso.
Zahra interrompeu seus pensamentos ao dizer antes de sair:
— Mas de qualquer forma, da próxima vez é você quem paga!
*****
Luísa abriu os olhos com certa dificuldade. Um pequeno barulho, mas constante, a tirando de seu estado de inconsciência. Quando conseguiu abrir completamente as pálpebras, o corpo inteiro se tensionou. Milo sentado numa cadeira a olhava, e a fonte do barulho estava em suas mãos. Uma pequena adaga que ele tirava e colocava na bainha, também de ferro.
— Como está se sentindo, Majestade?
Luísa olhou ao redor, tentando raciocinar rápido. Onde estava Martín? Onde estavam seus guardas?
Sentou-se na cama e encarou Milo, tentando não demonstrar a fragilidade em que se encontrava:
— Muito melhor.
Ele curvou os lábios em um esgar antes de dizer:
— Que boa notícia.
O tom de voz calmo e comedido de sempre:
— Uma pena o infortúnio que ocorreu com Vossa Majestade.
Fez uma pausa encarando Luísa nos olhos. Ela sabia o que aquilo significava. Era um recado claro de que foram eles que tentaram matá-la e que tinham o controle da situação. A adaga nas mãos de Milo, os dois sozinhos dentro daquele cômodo, com Luísa completamente indefesa, era a prova de que, caso ele quisesse, seria fácil tirar sua vida.
Luísa entrou no jogo dele, mostrando que havia entendido e que estava ciente das novas regras do jogo:
— Um infortúnio terrível. Por sorte consegui me salvar. Foi um erro meu… Me achei mais esperta do que realmente sou… E acabei escorregando perto do rio.
Milo acenou com a cabeça. Guardou a adaga na bainha — fazendo com que o barulho finalmente cessasse — e se levantou:
— Que bom que chegou a essa conclusão, Majestade. Muito melhor assim.
Mais tarde, quando Martín entrou no quarto, Luísa estava de pé:
— Onde é que você estava? E onde estavam todos os incompetentes que deveriam estar me protegendo?
Martín tentou acalmá-la:
— Não é melhor se sentar?
Luísa o olhou inteiramente tomada pela fúria:
— Me sentar, Martín? Eu poderia estar morta neste momento! Só não estou porque Milo não quis!
Chiara entrou no aposento com uma bandeja na mão e ficou parada, encarando os dois, sem saber o que fazer.
Apesar de ter notado a presença dela, Luísa continuou com sua atenção voltada para o guarda:
— Ele entrou livremente no meu aposento… Como você me explica isso?
Martín não a encarou ao falar:
— Vou averiguar o que aconteceu, Majestade. O responsável vai ser punido e voltará para Ótice. Isso não vai se repetir.
— E o tal prisioneiro que vocês iriam interrogar? Ele disse alguma coisa?
O guarda olhou para o chão e hesitou antes de falar:
— Não. O encontramos morto mais cedo.
Completamente possuída pela raiva, Luísa pegou e arremessou um pequeno enfeite contra a parede. Martín precisou desviar rapidamente. Chiara quase deixou a bandeja cair.
O homem fez uma reverência rápida antes de sair do cômodo. Luísa finalmente se sentou, tapando o rosto com as mãos.
— Não é bom que você se altere assim… Ainda está frágil.
Olhou para Chiara, mas a raiva que estava sentindo não permitiu poupá-la:
— Ou eu começo a me alterar ou vou estar morta em breve!
A mudez da criada fez Luísa respirar fundo algumas vezes. A voz comedida quando pediu:
— Desculpe, Chiara. Você não tem culpa de nada.
Ela se aproximou devagar:
— Aqui… trouxe uma erva para Vossa Majestade. Beba um pouco, vai te fazer bem.
Luísa pegou o copo, propositalmente encostando os dedos nos dela. A voz bem mais suave ao dizer:
— Obrigada.
Tomou um primeiro gole sentindo o líquido a aquecer por dentro. Chiara se manteve de pé ao seu lado enquanto tomava o restante. Quando acabou, ela pegou o copo de volta e o colocou na bandeja. Se virou para Luísa e perguntou:
— Precisa de mais alguma coisa?
Luísa se levantou e se aproximou dela devagar. Colocou uma mecha de cabelo de Chiara para trás:
— Preciso…
Acariciou o rosto dela delicadamente. Aproximou o rosto e tocou os lábios de Chiara. A intenção era não passar disso, para não assustá-la, mas a onda elétrica que sentiu ao tocá-la fez com que não conseguisse se conter. Buscou os lábios dela e beijou Chiara com ardor. No início ela se entregou, correspondeu, suspirou… Até empurrar Luísa, com os olhos arregalados. Ela a encarou por um segundo antes de virar as costas e sair quase correndo do cômodo.
Tocou os próprios lábios com os dedos, mais uma vez. A sensação da boca de Luísa na sua parecia ter ficado gravada. Só tinha feito aquilo uma vez antes, aos quatorze anos. Gian era filho de um dos jardineiros do castelo. Ele havia cortejado Chiara por semanas. Ela sabia que não tinha interesse por ele, era de Maia que gostava, sempre havia sido. Mas ele foi insistente, levou flores, e um dia — mais por pena do que qualquer outra coisa — permitiu um beijo. Não que tivesse sido ruim, mas não a fez sentir nada, absolutamente nada. Era como pressionar os lábios contra uma porta.
Mas com Luísa… o que sentiu a assustou a ponto de sair quase correndo dos aposentos da rainha. O corpo havia estremecido, a respiração havia se alterado e ainda sentia palpitações só de lembrar.
*****
— Não é melhor voltarmos para Ótice?
Luísa suspirou pesadamente. Sabia que racionalmente era o melhor a se fazer, mas, por outro lado, se saísse de Diamantora perderia de vez tudo que lutou para conquistar. Ficando por perto, ainda poderia tentar tomar Oton de volta, controlá-lo, tirá-lo das mãos de Milo.
Respondeu a Martín num tom de voz desanimado:
— Não. Vamos ficar.
Precisava pensar. Arquitetar alguma coisa. Controlar Oton não era difícil, o problema seria eliminar Milo. Passou a tarde inteira pensando, maquinando, e chegou a conclusão de que a única maneira seria dar fim à vida dele. Assim como ele tentou fazer com ela.
*****
— Nos encontramos aqui quando acabar.
Maia acenou positivamente para Rino, antes de se virar e caminhar para o outro lado. Seria mais um dia normal de trabalho. Serviria de distração em um salão repleto de homens ricos e embriagados.
Seguiu o plano, executando quase que automaticamente seus atos e suas falas. Percebeu o sinal, o momento de se retirar, a confusão que sempre causavam para que pudessem fugir. Começou a correr, tudo dentro do combinado, e em alguns minutos se encontraria com o resto do grupo no esconderijo. Tudo certo, se não tivesse olhado para trás e visto um homem segurando Zahra pelos braços. Maia parou, voltou se esgueirando, passando por pessoas que ainda corriam. Tentou estudar o ambiente, observou onde estariam os outros, mas não viu ninguém. Ela mesma precisaria agir.
Se precisasse contar o que tinha acontecido anos depois, não teria detalhes. Seguiu seu instinto, se aproximou devagar, aproveitando ser uma pessoa que não chamava muita atenção. Tirou o punhal da cintura, pulou sobre o homem que ainda segurava Zahra e o golpeou repetidas vezes no pescoço, com toda força que tinha. Quando o corpo muito maior que ela cambaleou e caiu, Maia ficou parada, estática, percebendo o que tinha acabado de fazer.
Tinha matado um homem.
— Eu estou bem…
Maia disse, ao olhar para o semblante preocupado de Zahra.
Depois que viu o corpo do homem sem vida caído à sua frente, entrou num estado de catatonia, paralisada, sem conseguir mover nenhum músculo. Zahra a puxou com força, empurrando Maia, até que se misturassem na multidão e conseguissem voltar ao esconderijo.
— Não sinta culpa ou remorso… Você salvou minha vida. Nunca hesite numa hora dessas, porque seu inimigo não vai hesitar. Você foi perfeita.
Sentiu a mão dela acariciar seu rosto, ergueu os olhos e sorriu um pouco.
Não tinha dúvidas quanto aquilo. Em momento algum raciocinou ou teve espaço para ponderações morais. A única coisa que importava era salvar Zahra.
Maia aproximou o rosto do dela lentamente e a tocou nos lábios. Imediatamente Zahra correspondeu ao beijo, acariciando sua nuca. Quando as bocas se separam, Maia a encarou nos olhos e soltou:
— Eu sou a rainha de Diamantora.
Fim do capítulo
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AlphaCancri Em: 12/03/2026 Autora da história
Hahahahaah capítulo XVI já postado. Rapidinho, viu?