Capitulo 7 - Mãe Sempre Sabe
Se eu fosse escolher um filósofo para ser o patrono da minha família e discorrer sobre as tantas particularidades e pequenas nuances cotidianas, não seria algo tão fácil. Com os ocorridos recentes, prefiro utilizar uma frase de Sócrates que diz: “A sabedoria começa na reflexão”.
Preferi encerrar, por hora, a leitura com minha tia. Precisava focar em qualquer outra coisa para não ter uma crise com o amontoado de informações ingeridas. Olhei a estante suspensa da TV e meu Nintendo Gamecube já estava instalado. Era uma das muitas similaridades que eu tinha com Lilian, ambas eram viciadas nos jogos da Nintendo, sobretudo os mais antigos. Peguei um controle e dei o outro para Lilian. Enquanto o jogo iniciava, dei uma última olhada na arca.
No meio da nossa terceira corrida no Need For Speed, partida empatada, a mesa começou a vibrar e ao olhar o visor do aparelho celular, li Maria Isabel. Tia Lilian estava concentrada em ultrapassar meu carro em uma das tantas curvas na pista em que estávamos. E ela ganhou a dianteira quando o Porsche 718 spyder prata que eu controlava bateu. Já era a última volta do circuito, não tinha muito o que fazer. Deixei que ela vencesse e comemorasse com uma dancinha ridícula.
- Seu telefone estava tocando.
- Maria Isabel. Não tenho disposição para escutar as tentativas dela.
- Imagino que não queira tocar no assunto. Mas... O que houve?! Se fosse qualquer outra pessoa, poderia dizer que foi por causa de traição, mas suas relações sempre foram mais pautadas em lealdade do que fidelidade. Sempre viveu amores livres.
- Eu nunca fui uma pessoa de muitas palavras. Isso me custou alguns relacionamentos e, talvez, o amor da minha vida. Não por perdê-la, mas por nunca poder tê-la. Conheci Maria Isabel em uma noite de bebedeira com alguns - bem poucos amigos - da minha turma da academia de polícia. Ela se mostrou alguém leve, divertida, cativante e sedutora. Me deixei entrar no clima. Começamos a sair e quando a relação ficou séria, trouxe para Inês conhecê-la.
- Vovó gostou dela?
- Não! _riu._ Era um sinal. Um dia percebi que o Buda que você me deu não estava na estante. Como Dolores havia feito faxina na casa, pensei que ela havia mudado de lugar. Quando a perguntei, ela não soube responder, mas me falou que Mabel havia saído com um objeto em uma sacola.
- Sério?! Ela não tinha noção da vida. Como é que você rouba alguém que trabalha para a Justiça? E para que ela queria a grana?
- Pagar uma dívida. Ela estava envolvida com um pessoal da pesada e quando quis pular fora, eles cobraram uma taxa. Foi duro porque eu achei que poderia ter uma vida tranquila ao lado dela. Sabe?! _ pegou uma dose de licor cremoso de menta e voltou para o sofá.
- Por que ela não te contou?
-Segundo ela, por medo. Peguei o Buda de volta, dei o dinheiro para ela pagar e a fiz prometer que ela jamais voltaria a encontrar qualquer um deles. E adivinha… Ela quebrou a promessa.
- Hija de una puta! _ela riu. Sabia que eu só xingava quando estava muito indignada.
- Fui cumprir um mandato em um casarão na saída da cidade. Quando a equipe invadiu o local, reconheci alguns dos antigos amigos dela. Como estávamos encapuzados para não haver retaliação, era bem difícil nos identificarem. No segundo andar tinham algumas pessoas em quartos. Na verdade, o local estava mais para um bordel. O último quarto era do chefão do local. Duarte e Macedo arrombaram a porta e a cena que eu vi me embrulhou o estômago. Mabel estava nua, deitada de pernas abertas com linhas de cocaína na barriga e uma mulher dava um tiro e fazia um oral nela.
Nunca vi Lilian sair do sério, mas já vi resquícios em quem a tirou do sério. O copo espatifar na mão dela talvez fosse um indício de que aquele assunto a irritava profundamente. Ela olhou para a mão e o sangue começou a pingar. A conduzi para a pia mais próxima e a ajudei a lavar a mão. Fiz um curativo e, enquanto ela olhava a água do chá ferver, eu limpei os estilhaços. Quando voltei para a cozinha, ela já bebia chá.
- No fim, vovó tinha razão nos dois casos. _ disse colocando o líquido quente em minha caneca.
- Dois?!
- É! Ela também não gostou de Marcos.
- Mãe sempre sabe quem presta ou não. Quem fará seu filho feliz ou quem só quer colher o que a pessoa tem de bom a oferecer.
Fim do capítulo
Até breve!
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