CAPÍTULO 6 - A Escolha
O jantar naquela noite foi impecável.
A mesa longa estava disposta com precisão quase cerimonial. Louças brancas. Talheres alinhados milimetricamente. Arranjos florais discretos, elegância contida. Nada que chamasse mais atenção do que deveria.
Do lado direito, a família Thanawongchai. Posturas retas. Sorrisos calculados e frases cuidadosamente polidas.
Krit estava confortavelmente natural naquele cenário, como se pertencesse a esse mundo. Já Sarin, não. Ela se sentia como parte da composição — presente, necessária, mas inanimada.
As conversas giravam em torno de expansão, investimentos, integração de marcas. A palavra "futuro" aparecia com frequência estratégica.
Ela mastigava devagar. Sentia a textura da comida. Mas nada tinha sabor.
Em determinado momento, sua mãe pousou a taça sobre a mesa com delicadeza excessiva. O som foi quase imperceptível — mas organizou o silêncio ao redor.
— A fusão com os Thanawongchai depende de você. – Olhou diretamente para Sarin.
Não houve ameaça no tom. Foi pior. Foi constatação e ninguém pareceu surpreso.
Para as famílias era natural. Era lógico. Era esperado.
Sarin compreendeu algo que doeu mais do que qualquer imposição explícita:
Nunca foi sobre amor e nem sobre afinidade. Era sobre estabilidade. E ela sempre fora a parte mais estável da equação.
A filha responsável, a herdeira que não criava ruídos. Sempre foi a peça confiável. E peças confiáveis não questionam o tabuleiro.
Depois do jantar acompanhou sua mãe até o escritório e lá ficaram um tempo. Quando saiu foi direto para seu quarto.
Naquela noite, dormiu pouco. E quando fechava os olhos, não via o rosto de Krit.
Via o de Pim.
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Na manhã seguinte, o restaurante ainda estava fechado quando Sarin chegou.
A cozinha começava a despertar: facas cortando ervas frescas, água correndo, o cheiro de alho sendo esmagado. A rotina sempre lhe trouxera calma, mas naquele dia, não.
Pegou uma xícara de café, e seguiu para seu pequeno escritório nos fundos. Ligou para Krit, que atendeu já no segundo toque.
— Já imaginava que você me procuraria.
Sarin olhou para a parede vazia antes de responder.
No corredor estreito que levava ao estoque, Pim retornava para buscar uma pasta esquecida na noite anterior. Ao ouvir o nome de Krit, desacelerou o passo sem perceber.
Não queria escutar. Mas também não quis interromper.
— Conversei com minha mãe — disse Sarin.
A voz estava firme, treinada. Uma pausa breve.
— Diga à sua família que estou disposta a considerar o casamento.
A palavra ficou suspensa no ar.
“ Casamento. ”
Do outro lado da linha, o silêncio foi satisfeito.
— É uma decisão sensata.
Sarin fechou os olhos por um segundo.
— Não confunda sensatez com entusiasmo.
Mas não voltou atrás.
No corredor, Pim sentiu algo se reorganizar dentro dela. Como quando se entende uma verdade que já estava ali, mas ainda não tinha nome. Ela deu um passo para trás antes que a conversa terminasse. Antes que fosse vista. Antes que precisasse fingir que não ouvira.
Voltou para a cozinha com as mãos frias e os movimentos perfeitamente coordenados. Ninguém percebeu nada.
Algum tempo depois, Sarin saiu do escritório e encontrou Pim perto da entrada, conferindo reservas que já estavam conferidas.
— Você chegou cedo — comentou Sarin.
— Esqueci uma pasta ontem. – A resposta foi neutra. Profissional e limpa.
Silêncio. O tipo de silêncio que não é ausência de som, mas é excesso de não-dito.
— Eu não sabia que você estava noi... — Pim começou a falar, mas parou.
Não precisava concluir. Sarin entendeu.
Cruzou os braços em defesa. Era automático.
— Isso não diz respeito à equipe. – A formalidade foi precisa e cruel.
Pim assentiu devagar. Então, finalmente, olhou para ela.
Não havia lágrimas e nem acusação. Só a distância que foi recém-construída.
— Claro, Khun Sarin. - O título voltou como um muro erguido com elegância.
Nenhuma das duas respirava no mesmo ritmo.
Sarin percebeu que a escolha que fizera não tinha sido apenas estratégica. Mas que tinha sido audível e testemunhada.
Pim passou por ela em direção à cozinha sem hesitar. Não pediu explicação.
Sarin permaneceu parada perto da entrada, olhando o salão vazio. Ali, tudo estava no lugar. Mesas alinhadas, cadeiras simétricas, a luz entrando na medida exata. Funcionamento perfeito do jeito que deveria ser. Ela sempre escolheria o que mantinha tudo funcionando, mesmo que, para isso, precisasse sufocar o que começava a nascer.
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E naquele dia, o restaurante funcionou perfeitamente, mas algo ali tinha deixado de funcionar e não havia manual para consertar isso.
Fim do capítulo
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