CAPÍTULO 7 - Medo
Sarin sempre acreditou que o amor era uma escolha racional. Aprendeu cedo. Não através de conselhos, Mas através da arquitetura silenciosa da própria casa.
Na família Vejjapornkul, ninguém gritava, ninguém implorava ou erdia o controle. Todas as decisões eram tomadas à mesa, com chá servido em porcelana fina e contratos repousando ao lado dos pratos. Afeto era educação. Respeito era obrigação, e casamento era alinhamento estratégico e ela nunca questionou isso.
Acreditava que estava preparada. Até Nalita.
Nalita não foi um erro impulsivo. Foi um acontecimento gradual. Ela não era intensa. Não era caótica.
Era paciente. Paciente o suficiente para entrar nas frestas que Sarin nem sabia que existiam.
Sarin lembrava exatamente do momento em que percebeu que estava apaixonada. Não houve declaração. Houve um instante doméstico, banal — Nalita ajeitando sua franja antes de um evento formal, com um cuidado que não precisava existir.
Ali, Sarin soube.
E foi justamente por ter sido tão silencioso que o fim doeu tanto.
Não houve traição. Não houve escândalo. Foi uma conversa contida.
— Eu preciso escolher minha família — Nalita dissera, com voz firme demais para quem estava indo embora.
Sarin lembrava de ter respondido apenas:
— Eu entendo.
Ela sempre entendia. Sempre aceitava.
Sempre era a adulta da situação.
Mas naquela noite, sozinha, percebeu algo devastador:
Ela nunca tinha sido escolhida. Em todos os momentos ela tinha sido confortável. Adequada. Mas nunca prioridade. Essa memória voltou com força inesperada quando viu Pim rindo enquanto conversava com Mali na cozinha naquela tarde.
O riso de Pim não tinha cálculo. Não tinha estratégia. Era algo espontâneo. Vivo. E isso a desestabilizava, porque não era algo que pudesse ser negociado.
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Depois do expediente, Sarin permaneceu no escritório.
Relatórios abertos, números alinhados e projeções estáveis apareciam na tela do computador. Nada ali saía do controle. Diferentemente do que acontecia sempre que ouvia a voz de Pim no corredor. Seu corpo sempre reagia antes que sua mente autorizasse.
O leve aumento da respiração.
A tensão nos ombros.
A expectativa involuntária.
Ela odiava isso.
Sempre teve controle.
Sempre.
Fechou os olhos e, pela primeira vez em dias, não tentou racionalizar.
“ Se continuar assim, vou querer. “ – A frase surgiu inteira em sua mente, sem filtros. Mas logo seu lado racional voltou com mais força.
“ Querer significava depender.
Depender significava risco.
Risco significava perda. ”
E ela não suportaria outra perda.
O problema nunca foi amar, mas foi descobrir que amar não garantia ser escolhida.
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Na manhã seguinte, Pim entrou na cozinha mais quieta. A leveza havia sido substituída por precisão.
— Bom dia, Khun Sarin.
O título caiu entre elas como um lembrete.
Sarin sentiu o impacto, mas em vez de reparar, reforçou a distância.
— Preciso que revise o cardápio especial. – Disse de forma fria e direta.
Era mais fácil assim. Mais seguro.
Pim assentiu. O brilho nos olhos tinha diminuído. Não desaparecido totalmente, mas era mais contido, o que não passou desapercebido por Sarin.
Sarin sentiu algo que quase se transformou em arrependimento. Quase. Mas rapidamente reorganizou o sentimento em justificativas.
“ Ela é minha funcionária.
Isso não é apropriado.
Isso não é inteligente.
Isso não é seguro. ”
Mas a verdade, porém, estava abaixo de todas essas frases:
“ Eu estou com medo. ”
E Sarin sabia disso.
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Mais tarde, o celular de Sarin vibrou. Era uma mensagem de Krit querendo confirmação do próximo jantar com as famílias.
Ela leu. Sabia do que se trataria o jantar. Seria a oficialização do noivado entre ela e Krit.
Não respondeu imediatamente. Se aceitasse, encerraria qualquer possibilidade com Pim antes mesmo que ela tivesse nome, e se recusasse, enfrentaria um conflito que poderia desestabilizar tudo que sustentava até aqui.
Pensou por um tempo e tomou sua decisão.
Ela escolheu como sempre foi treinada para escolher. O que preservava a estrutura, não o que alimentava o coração.
Enquanto digitava a confirmação, algo se tornou claro demais:
Ela estava repetindo o padrão de Nalita. Escolhendo estabilidade e chamando isso de maturidade. Estava abandonando o que poderia ser real.
Desta vez, porém, não era ela quem estava sendo deixada, era ela quem estava deixando.
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Naquela noite, Pim saiu mais cedo.
Sarin observou pela janela do escritório enquanto ela atravessava a rua.
A luz dos postes desenhava sombras longas no asfalto molhado.
Quis chamá-la. Quis dizer algo simples.
"Espere."
Mas ficou imóvel. O orgulho é silencioso e profundamente solitário.
Ali parada, Sarin percebeu pela primeira vez que seu maior conflito nunca foi a família. Mas a incapacidade de se permitir ser vulnerável o suficiente para correr o risco de ser escolhida.
Fim do capítulo
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