• Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Cadastro
  • Publicar história
Logo
Login
Cadastrar
  • Home
  • Histórias
    • Recentes
    • Finalizadas
    • Top Listas - Rankings
    • Desafios
    • Degustações
  • Comunidade
    • Autores
    • Membros
  • Promoções
  • Sobre o Lettera
    • Regras do site
    • Ajuda
    • Quem Somos
    • Revista Léssica
    • Wallpapers
    • Notícias
  • Como doar
  • Loja
  • Livros
  • Finalizadas
  • Contato
  • Home
  • Histórias
  • Entre Votos e Silencios
  • Presente de Aniversário

Info

Membros ativos: 9594
Membros inativos: 1620
Histórias: 1972
Capítulos: 20,979
Palavras: 53,124,316
Autores: 811
Comentários: 109,191
Comentaristas: 2603
Membro recente: Sarah333

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Notícias

  • Desafio das Imagens 2026
    Em 23/04/2026
  • 10 anos de Lettera
    Em 15/09/2025

Categorias

  • Romances (877)
  • Contos (476)
  • Poemas (235)
  • Cronicas (230)
  • Desafios (182)
  • Degustações (28)
  • Desafio das imagens 2026 (3)
  • Natal (7)
  • Resenhas (1)

Recentes

  • Investigando o meu Problema
    Investigando o meu Problema
    Por Gabi Reis
  • A volta do amor que nunca se foi
    A volta do amor que nunca se foi
    Por priskelly

Redes Sociais

  • Página do Lettera

  • Grupo do Lettera

  • Site Schwinden

Finalizadas

  • Crème Brûllée
    Crème Brûllée
    Por brinamiranda
  • Guerra
    Guerra & Paz
    Por Etoile

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Categorias

  • Romances (877)
  • Contos (476)
  • Poemas (235)
  • Cronicas (230)
  • Desafios (182)
  • Degustações (28)
  • Desafio das imagens 2026 (3)
  • Natal (7)
  • Resenhas (1)

Entre Votos e Silencios por anonimo2405

Ver comentários: 8

Ver lista de capítulos

Palavras: 9472
Acessos: 510   |  Postado em: 13/03/2026

Presente de Aniversário

Rua Cisplatina, Ipiranga — Segunda-feira, 15h03

Valentina não tocou no embrulho. Ficou olhando para o pequeno embrulho no console central como se fosse uma bomba-relógio. O silêncio voltou, mas agora era diferente. Pesado de expectativa.

— Eu não posso aceitar isso. — A voz dela saiu um fio, os olhos grudados no laço de cetim.

A mulher ao lado soltou um suspiro curto, quase divertido. Apoiou a lateral do rosto na mão, o cotovelo no volante, observando a garota com uma atenção magnética. Nada de posturas difíceis ou palavras calculadas agora. Apenas ela, relaxada no próprio território.

— Pode parar com o drama. A caixa não morde. — O tom saiu manso, aveludado, mas com aquela confiança natural que não deixava espaço para recusas. — Abre. Deu trabalho escolher uma coisa que fosse a sua cara.

A garota engoliu em seco. A curiosidade e a voz daquela mulher sempre foram uma combinação impossível de ignorar. Ela soltou a mochila devagar, deixando-a escorregar para o assoalho do carro.

As pontas dos dedos tremiam milímetros quando tocaram o papel fosco. O som do laço sendo desfeito rasgou o silêncio da cabine. O papel rasgou. Dentro, uma caixinha de veludo preto.

Valentina apertou os lábios antes de abrir. O clique da dobradiça soou metálico.

Apoiada no fundo escuro, havia uma corrente de ouro finíssima, incrivelmente delicada, com um pingente minúsculo e liso. Era simples. Discreto. E absurdamente caro. O tipo de peça que a família Moraes não compraria nem juntando o orçamento de meses.

— Verena... — O nome escapou num sopro assustado. Os olhos dela finalmente subiram, encontrando o olhar escuro que a observava de perto. — Isso é... eu não tenho nem roupa pra usar um negócio desses. Deve ter custado uma fortuna.

O sorriso de Verena foi lento e preguiçoso. Ela não recuou, nem tentou se justificar. Apenas inclinou o corpo um pouco mais na direção do banco do passageiro.

— Não importa quanto custou. — A voz baixou de volume, preenchendo o espaço minúsculo entre as duas. — Importa que eu passei a tarde inteira pensando em você com isso no pescoço.

A respiração da garota falhou visivelmente. O rubor nas bochechas, que mal tinha sumido, reacendeu. Ela abaixou os olhos de novo para a corrente, sem saber onde colocar as mãos.

— Eu nem sei como explicar lá em casa... — murmurou. Uma desculpa fraca, esfarrapada, que nem ela mesma parecia levar a sério.

Um riso baixo escapou pelo nariz da deputada. Ela esticou a mão devagar. Os dedos roçaram a lateral da mão trêmula da garota para pegar a caixinha de veludo. O contato durou um segundo, mas foi o suficiente para um choque elétrico invisível cruzar a cabine.

— Diz que comprou numa feirinha. Mente. Você é esperta, dá um jeito. — Ela puxou a corrente do fundo escuro, o ouro fino escorrendo pelos dedos claros. — Vira pra lá.

Valentina travou. O peito subindo rápido de novo. O cheiro do perfume amadeirado agora estava muito mais perto.

— O quê?

— Vira. Levanta o cabelo. — A instrução veio macia, quase um sussurro, mas carregada de uma autoridade que fez o estômago da garota revirar.

Valentina encolheu os ombros instintivamente, os olhos arregalados colados na corrente fina que escorria entre os dedos de Verena. O pânico era físico. Visível. Ela recuou milímetros contra a porta, o couro do banco rangendo levemente sob o peso do corpo tenso.

— Não… eu coloco. — A voz saiu aguda, espremida na garganta, a mão subindo rápido num gesto defensivo para pegar o colar. — Dá aqui.

Verena não recuou a mão. Pelo contrário. Fechou os dedos longos sobre a joia e arqueou uma sobrancelha, o sorriso contido brincando nos lábios. A diversão em seu rosto era nítida, contrastando brutalmente com o desespero da garota.

— Valentina… — O nome saiu arrastado, carregado de uma paciência irônica. — Você está tremendo tanto que vai demorar meia hora pra fechar isso sozinha. E a gente não tem a tarde toda.

— Eu não tô tremendo. — A mentira foi automática, mas as mãos dela, ainda erguidas no ar entre as duas, a traíam descaradamente.

Verena soltou um riso baixo, aveludado, que vibrou no espaço minúsculo entre elas. Ela apoiou o cotovelo no console central, inclinando o corpo mais um pouco na direção do banco do passageiro. O perfume amadeirado e sofisticado envolveu a garota como uma nuvem densa.

— Vira pra lá. — A instrução se repetiu, macia, mas firme. — Eu prometo que só vou colocar o colar. Não vou fazer mais nada que você não queira.

A frase bateu de frente com tudo o que a mente da adolescente estava processando — ou tentando processar — desde que entrou no carro. As conversas com Léo, a culpa religiosa, os áudios provocativos da madrugada, a saudade esmagadora que sentia daquela mulher.

O olhar escuro de Verena não desviava do dela. Estava ali. Esperando. Paciente, mas ciente do controle absurdo que exercia.

Valentina mordeu a parte interna do lábio inferior com força. O peito subiu e desceu numa respiração irregular. Ela hesitou por mais um segundo interminável, o coração batendo na garganta. Então, num movimento rígido, girou o corpo no banco.

Ficou de costas para o motorista, o rosto voltado para a janela escura, as mãos apertando os próprios joelhos com força.

— Levanta o cabelo. — A voz de Verena soou perigosamente perto agora. O tom baixo, rouco, ecoando na nuca da garota.

As mãos trêmulas de Valentina subiram, puxando os fios para cima e para o lado, expondo a pele clara e fina do pescoço. Ela engoliu em seco, os olhos fechados com força, como se esperasse um tiro.

O toque veio leve. Absurdamente suave.

A ponta dos dedos frios de Verena roçou a nuca da garota ao passar a corrente fina. Um arrepio violento rasgou a espinha de Valentina, fazendo-a prender a respiração instantaneamente. Os ombros dela subiram até as orelhas numa tentativa patética de proteção.

O sorriso silencioso de Verena aumentou ao perceber a reação física, mas os movimentos continuaram lentos, deliberados. Ela inclinou o rosto um pouco mais, o hálito quente batendo de leve na pele exposta, a centímetros do lóbulo da orelha alheia.

— Viu? — A voz soou num sussurro quase inaudível, o metal minúsculo do fecho raspando de leve na pele da nuca. — Não doeu nada.

A corrente fria se acomodou. Verena não recuou imediatamente. Deixou as mãos pairarem a um milímetro do pescoço, sentindo o calor do corpo tenso à sua frente.

— Pronto. — murmurou, finalmente afastando as mãos devagar e recostando-se no próprio banco.

Valentina soltou o ar de uma vez, como se estivesse mergulhando. Ela soltou o cabelo, que caiu cobrindo parte do pescoço, e virou o rosto lentamente de volta. Os olhos escuros e grandes, ainda brilhantes de pânico e algo mais, encararam a deputada.

A mão da garota subiu hesitante, os dedos tocando o pequeno pingente gelado de ouro.

— Obrigada. — sussurrou, a voz ainda falhando.

Verena a observou por um segundo inteiro. O contraste entre o luxo sutil da peça e a blusa simples que a menina usava era gritante. Mas, na cabeça da mulher, nada nunca tinha feito tanto sentido.

O sorriso charmoso, cheio de intenções, reapareceu no canto da boca de Verena.

— Ficou perfeito. — O olhar desceu para a corrente e subiu de volta para os lábios entreabertos da garota. — Agora sim… parece que você fez dezessete anos de verdade.

A frase pairou no ar, densa, carregada com o cheiro do perfume importado. Valentina ainda segurava o pequeno pingente contra o peito. O metal estava gelado, mas a pele debaixo dele queimava. Ela levantou os olhos devagar.

A distância entre elas era mínima. Verena não tinha recuado totalmente para o próprio banco. Continuava ali, com o cotovelo apoiado no console, o corpo inclinado, o sorriso satisfeito de quem sabia exatamente o feitiço que estava jogando.

Foi então que aconteceu.

O olhar escuro de Valentina desceu. Foi um movimento involuntário. Rápido. Mas fixo. Ela olhou direto para a boca da mulher à sua frente. As palavras do amigo ("olhos, respiração... a inclinação da cabeça") ecoaram como um zumbido no fundo da mente, mas o que a prendeu ali não foi estratégia. Foi instinto. Foi uma saudade desesperada que ela lutava há meses para afogar em cultos de domingo.

A respiração da garota falhou. Os lábios se entreabriram levemente para puxar o ar, o peito subindo de forma irregular. Verena acompanhou a descida daquele olhar. E no mesmo milissegundo, o sorriso de canto de boca da deputada desapareceu.

A máscara de ironia, a pose de mulher intocável, o controle calculado do ambiente... tudo desmoronou como um castelo de cartas. Ser olhada com aquela fome crua, despida de qualquer filtro, por uma garota que passava o tempo todo fugindo dela, era um golpe baixo. O estômago de Verena despencou. O calor subiu rasgando pela nuca.

Ela de repente esqueceu como respirar devagar.

Valentina piscou, os cílios longos batendo rápido quando percebeu o que estava fazendo. O pânico voltou como um soco.

— Eu... — A voz saiu espremida. Ela soltou o pingente como se o ouro estivesse em chamas e tentou recuar, esquecendo que não havia espaço.

O ombro bateu com força contra o vidro da janela. O baque surdo quebrou o transe.

— Desculpa. — Valentina sussurrou, o rosto agora vermelho num tom alarmante, a respiração disparada. Ela abaixou a cabeça, as mãos voltando a apertar os próprios joelhos numa postura de defesa quase infantil. — Desculpa, eu... eu não devia ter vindo. Isso foi um erro.

A garota se encolheu, a vergonha transbordando, pronta para abrir a porta e fugir. Mas Verena não deixou. A mão cruzou o espaço do console num bote rápido e impreciso. Muito diferente dos toques ensaiados de antes. Os dedos longos agarraram o pulso de Valentina. O aperto não foi forte o suficiente para machucar, mas foi firme. Urgente.

Valentina travou, os olhos arregalados voando para o rosto de Verena.

A deputada estava com o maxilar tenso. O olhar não tinha mais nenhum traço de deboche ou superioridade. Estava escuro. Dilatado. A respiração dela agora também estava visivelmente descompassada, o peito subindo sob a seda branca.

— Desculpa pelo quê? — A voz de Verena saiu uma oitava mais baixa. Rouca. Um som que não existia nos corredores da Assembleia. O polegar deslizou, apenas um milímetro, sobre a pele do pulso que segurava. — Me diz, Valentina. Pelo que você tá pedindo desculpa?

O toque no pulso não foi bruto, mas aterrissou com o peso de uma âncora.

Os olhos da garota arregalaram. O pânico, aquele pânico cru de quem percebe que está a um milímetro de despencar num abismo do qual fugiu o ano inteiro, engoliu qualquer traço de desejo que existisse ali segundos antes.

Ela puxou o braço com um solavanco brusco.

Verena soltou o aperto no mesmo instante, assustada com a reação, mas já era tarde. A garota girou o corpo no banco com desespero. As mãos tremiam tanto que batiam cegamente contra o painel da porta, tateando a penumbra atrás da maçaneta. O som das unhas arranhando o couro e o plástico rígido soou alto na cabine.

Ela agarrou a trava e puxou, mas os dedos escorregaram. Puxou de novo, a respiração saindo em puxões curtos, os ombros encolhidos, quase hiperventilando. A porta blindada pesava, e o mecanismo exigia uma firmeza que ela não tinha naquele momento.

O barulho metálico da tentativa falha foi um soco no estômago do outro lado do banco. O terror absoluto de ver aquele banco vazio obliterou qualquer resquício da mulher fria e calculista. O ego sumiu. A segurança derreteu.

— Não... espera. Ei! — A voz de Verena saiu alta, embargada, despida de qualquer controle.

Ela não tentou segurar a garota de novo. O medo de assustá-la ainda mais a travou. Ficou com as mãos espalmadas no ar, trêmulas no espaço entre as duas.

— Desculpa! Desculpa! — As palavras atropelaram umas às outras. A voz rouca, quase suplicante. — Eu não vou fazer nada. Eu não vou encostar em você. Por favor, não abre essa porta.

A maçaneta estalou de novo nas mãos da garota, mas a porta não abriu.

— Valentina, me perdoa. Eu sou uma idiota. — Verena engoliu em seco, o coração batendo violentamente contra as costelas. — Eu não queria te assustar. Desculpa. Fica. Só… fica. Por favor.

O eco do "por favor" bateu contra o teto do carro e morreu.

A garota congelou.

A mão esquerda continuava agarrada com força à maçaneta de metal. A testa quase encostava no vidro gelado da janela. O peito subia e descia num ritmo doloroso, as costas curvadas sob a blusa simples, tensionadas ao extremo. Ela não virou o rosto. Não soltou a porta.

Mas também não tentou abrir de novo.

O silêncio voltou a se esticar dentro do Audi. Fino. Cortante. Preenchido apenas pelo som das duas respirações ofegantes, completamente fora de ritmo.

Verena abaixou as mãos devagar, recolhendo-as para o próprio colo como se pesassem toneladas. O suor frio marcava a linha do cabelo dela. Ver o desespero da menina por causa de um toque seu era uma humilhação que ela não estava preparada para sentir.

— Eu juro... — sussurrou a mulher mais velha. A voz quebrou um pouco no final, carregada de uma vulnerabilidade que não existia nos discursos nem na cama de casa. — Eu juro pra você. Eu só... só queria te ver. Não precisa fugir de mim.

A garota continuou de costas. Os nós dos dedos da mão que segurava a porta ainda estavam brancos.

Rua Cisplatina, Ipiranga — Segunda-feira, 15h25

Verena recostou a cabeça no banco de couro. Fechou os olhos com força. O peito subia e descia rápido, puxando o ar frio do ar-condicionado como se tivesse acabado de correr uma maratona. O coração martelava na garganta, um lembrete físico e humilhante de que ela tinha perdido completamente o controle da situação.

Ela engoliu em seco. Passou as duas mãos pelo rosto, esfregando a pele antes de empurrar os fios soltos de cabelo para trás.

— Ok. — A voz da deputada saiu num suspiro trêmulo, muito mais fraca do que o normal. — Ok. Respira.

Valentina não se mexeu. As costas continuavam curvadas, a respiração presa em puxões curtos.

Verena olhou para as próprias mãos no colo. O silêncio estava esmagando as duas, e a culpa era inteiramente dela. Ela precisava quebrar aquilo. Precisava de uma saída que não envolvesse política, charme ou tensão. Precisava ser... normal.

— A gente... — Verena pigarreou, tentando limpar a rouquidão da garganta e o próprio nervosismo. — A gente pode passar num drive-thru.

A garota piscou. A testa ainda quase encostada no vidro gelado da janela.

— O quê? — A voz da adolescente saiu espremida, genuinamente confusa.

— Um drive-thru. — Verena repetiu. A ideia se formando no meio do próprio desespero. Era um plano ridículo, improvisado, o oposto de tudo o que ela planejava para o dia. Mas ela não estava raciocinando. — Pedir um hambúrguer. Batata frita. Milkshake. Sei lá. Qualquer coisa cheia de gordura que você queira.

Valentina piscou de novo. A imagem da mulher inatingível, de camisa de seda e carro blindado, sugerindo fila de fast-food para acalmar os ânimos causou um curto-circuito na mente da garota. Ela afrouxou um pouco os dedos da trava.

Verena percebeu a pequena hesitação e agarrou a chance com unhas e dentes.

— Eu não vou encostar em você de novo. Eu juro. — O tom era quase uma rendição absoluta. A arrogância tinha evaporado. — A gente pega a comida, fica no carro, e eu te deixo na sua casa antes de escurecer. Como eu prometi. Sem surpresas.

O silêncio voltou por alguns segundos. A respiração da garota foi perdendo a urgência. Os ombros, antes tensos até as orelhas, cederam uma fração de centímetro. Ela soltou a maçaneta devagar. O ruído do couro roçando na blusa soou alto quando ela finalmente se moveu.

Lentamente, Valentina girou o corpo de volta para a frente.

O rosto estava manchado de vermelho, os olhos brilhantes e assustados, ainda na defensiva. Ela abraçou a mochila no colo de novo, como um escudo contra o peito, os dedos tocando o pingente de ouro que agora pesava no pescoço.

— Batata frita? — Sussurrou. A voz ainda tremia, cheia de incerteza, como se esperasse que fosse uma pegadinha.

Verena soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Um sorriso minúsculo, frágil e sem nenhum traço de malícia apareceu no rosto cansado da mulher.

— A maior que tiver no cardápio. — Verena respondeu, a voz mansa, quase aliviada.

Ela apertou o botão e ligou o motor. As mãos finalmente voltaram para o volante, seguras, mas evitando qualquer movimento brusco.

— Pode colocar o cinto.

Avenida Nazaré, Ipiranga — Segunda-feira, 15h42

O Audi deslizava suavemente pelo asfalto movimentado da avenida. O sol começava a baixar de vez, pintando o céu de um laranja sujo de poluição, típico do fim de tarde paulistano.

Dentro da cabine, o silêncio já não era mais uma corda no pescoço.

A respiração de Valentina finalmente havia voltado ao normal. Ela continuava abraçada à mochila, mas os ombros haviam cedido, encostando de verdade no couro do banco. Os olhos escuros acompanhavam o movimento dos carros lá fora, mas a atenção dela, a atenção inteira, estava no reflexo do vidro.

Ela via o perfil de Verena.

A mulher dirigia com uma mão só, o cotovelo apoiado na porta. A postura relaxada, a camisa de seda branca levemente amassada, os óculos escuros que ela tinha colocado minutos atrás para esconder a claridade, e talvez os próprios olhos, dando a ela um ar absurdamente comum. E isso, de alguma forma torta, era o que mais fascinava a garota.

— Tem um McDonald's ali na frente. — A voz rouca cortou a música baixa que tocava no rádio. Verena apontou o queixo para o grande 'M' amarelo que despontava a dois quarteirões. — Serve, ou a gente procura algo melhor?

Valentina virou o rosto. A menção a "algo melhor" quase a fez rir pelo absurdo. Para ela, aquilo já era o topo.

— Serve. — A resposta saiu baixa, mas firme. A primeira frase em meia hora que não carregava pânico.

Verena olhou de relance. Um canto da boca subiu, formando um sorriso minúsculo de alívio por ouvir aquele tom. Ela ligou a seta, reduzindo a velocidade para entrar na fila do drive-thru.

O Audi parou atrás de um HB20 surrado. A diferença de mundos entre os dois veículos era gritante.

— Tá... — A deputada suspirou, tirando os óculos e esfregando os olhos antes de jogar a armação no console central. — O que você vai querer?

A garota piscou, sentando um pouco mais reta no banco.

— Eu não sei. Qualquer coisa.

— Qualquer coisa não é um pedido. — Verena rebateu, a voz ganhando um tom de falsa impaciência, muito mais leve agora. Ela esticou o braço, puxando a carteira da bolsa no banco de trás, e se virou para Valentina. — Um Big Mac? Dois? Você tem dezessete anos, deve estar em fase de crescimento.

Valentina sentiu o rosto esquentar de novo, mas dessa vez, não foi vergonha. Um riso frouxo, quase involuntário, escapou dos lábios dela. O primeiro da tarde.

— Eu não aguento comer dois Big Macs. Um só tá bom.

O som daquela risada fez o estômago de Verena dar um salto triplo. Ela não escondeu o sorriso de volta. Largo. Brilhante. Um sorriso que desarmava até a própria dona.

— Um Big Mac e a maior batata frita do mundo. Fechado. — Verena confirmou, batucando os dedos no volante enquanto a fila andava devagar. — E pra beber? Não me diz que você toma refrigerante zero, porque eu perco o respeito.

A garota cruzou as pernas, a tensão derretendo aos poucos enquanto observava a mulher à sua frente. Havia algo de muito íntimo naquilo. Na forma como Verena assumia o controle de coisas banais, como um pedido de fast-food, com a mesma autoridade com que provavelmente derrubava projetos de lei.

— Milkshake de morango. — Valentina soltou, a voz finalmente encontrando a própria força.

Verena parou de batucar no volante. Ela olhou para a garota por um segundo a mais do que deveria. O sorriso diminuiu, mas o olhar escureceu, carregando um peso que não tinha nada a ver com comida.

— Morango. — Ela repetiu a palavra quase como um sussurro — Anotado.

O carro andou, parando ao lado do totem metálico do alto-falante.

Valentina sentiu o coração acelerar. Não de medo, mas de uma adrenalina que só o perigo da presença daquela mulher trazia. A forma como ela dizia "morango". A forma como o olhar dela queimava.

O alto-falante chiou, e uma voz anasalada e robótica invadiu o carro:

— Bem-vindo ao McDonald's. Qual o seu pedido?

Verena abaixou o vidro blindado pela metade, encostando o braço na porta, e respondeu com aquela voz grave, polida, que estava acostumada a dominar o plenário da Assembleia:

— Boa tarde. Eu vou querer um combo do Big Mac, batata grande. Um milkshake de morango. E... — Ela hesitou por um segundo, olhando o painel brilhante. — Uma água sem gás.

Valentina franziu o cenho, o rosto virando para a mulher de imediato.

— Você só vai tomar água? — A pergunta escapou sem pensar, cortando a formalidade da deputada. 

Verena tapou o microfone do totem com a mão, virando o rosto lentamente para a garota, a sobrancelha arqueada e um sorriso perigoso brincando na boca.

— Eu disse que vinha te trazer pra comer, Valentina. — A voz saiu baixa, quase ronronando por cima do chiado da máquina. — Eu já perdi o apetite pra lanches faz tempo.

O chiado do alto-falante confirmou o pedido.

Verena soltou o botão do vidro elétrico, fechando a cabine enquanto avançava devagar na fila. Valentina desviou o olhar para as próprias mãos, o rosto quente, um sorriso nervoso e contido brigando para não aparecer. O peito já subia num ritmo quase normal, e a mochila no colo agora servia mais de apoio do que de escudo.

O carro parou na primeira cabine.

A deputada pegou a carteira de grife no console central. Puxou um cartão preto fosco e esticou o braço pela fresta do vidro que baixou apenas o suficiente. A atendente, uma garota que não devia ser muito mais velha que Valentina, pegou a máquina com uma expressão entediada que mudou no segundo em que viu o rosto no volante.

A menina piscou rápido, os olhos arregalados passando do cartão para o rosto de Verena, que sustentou o olhar com uma polidez calculada de quem está acostumada a ser reconhecida.

— Aproxima, por favor? — A voz da atendente saiu uma oitava mais fina.

Verena encostou o cartão. O bipe soou.

— Obrigada. — A deputada respondeu com um sorriso profissional e o vidro subiu no mesmo instante.

Valentina observou a cena inteira. A mudança imediata no ambiente ao redor de Verena. O peso que ela carregava só de existir num espaço público.

— Ela te reconheceu. — A frase escapou num sussurro, quase uma constatação do óbvio, enquanto o carro andava até a próxima janela.

Verena suspirou, guardando o cartão de volta.

— É o preço de ter o rosto estampado em outdoor de campanha e jornaleco de oposição o ano inteiro. — A voz soou cansada, mas sem arrogância. Ela virou o rosto para a garota, o olhar suavizando. — Mas ela estava prestando atenção em mim. Ninguém vai ligar pra quem está no banco do carona de um carro blindado no drive-thru do Ipiranga. Relaxa.

A promessa de invisibilidade funcionou melhor do que qualquer calmante. Valentina assentiu devagar.

Na janela da frente, o braço de Verena esticou de novo. A sacola de papel pardo e o copo de milkshake foram passados para dentro. O cheiro de gordura, sal e morango artificial invadiu o cheiro caro do couro e do perfume amadeirado. Um contraste ridículo.

— Segura. — Verena entregou a sacola e o copo gelado para a garota. As mãos se encostaram por um milissegundo. Um toque gélido do plástico suado contra a pele quente, mas nenhuma das duas recuou rápido demais.

Verena pegou a própria garrafa de água e acelerou o carro para fora do estacionamento do restaurante.

— A gente não vai comer aqui? — Valentina perguntou, ajeitando a sacola no colo, o cheiro de batata frita fazendo o estômago dela roncar baixo, o que a fez corar violentamente.

Verena soltou uma risada genuína pelo nariz ao ouvir o barulho do estômago alheio.

— Não no meio desse estacionamento com luz fluorescente na minha cara. — Ela virou o volante, pegando uma rua lateral arborizada e muito mais escura. — Se o GPS estiver certo, tem uma praça aqui perto.

Dois quarteirões depois, o carro encostou sob a sombra densa de uma árvore velha, numa rua residencial silenciosa. O motor foi desligado, mas o ar-condicionado e uma luz fraca no painel continuaram ligados, criando uma penumbra confortável.

Verena puxou o freio de mão. Virou o corpo no banco, dobrando uma perna sobre o estofado para ficar de frente para a passageira.

— Pronto. Sala de jantar particular. — Ela desenroscou a tampa da água, dando um gole longo antes de apoiar a garrafa no console. O olhar escuro desceu para a sacola no colo da garota. — Pode atacar. Eu prometo não julgar a sua falta de modos.

Valentina riu baixo. Um som real dessa vez. O nervosismo ainda estava lá, vibrando debaixo da pele, mas a presença da mulher ao lado não parecia mais uma ameaça de morte. Parecia... perigosa, sim, mas de um jeito que ela não queria mais fugir.

O farfalhar da embalagem de papel soou alto naquele silêncio confortável.

Valentina puxou a caixinha vermelha de batatas com um cuidado cirúrgico. O cheiro de gordura e sal inundou a cabine, brigando feio com o perfume imponente que impregnava o estofado caro. Ela segurou a caixinha com as duas mãos, os olhos fixos na comida como se fosse a coisa mais fascinante do mundo.

Na verdade, era só uma desculpa para não olhar para a mulher acomodada no banco ao lado. Valentina engoliu em seco. Pegou uma única batata. O silêncio estava a deixando louca. Ela olhou de relance. O olhar da deputada estava cravado nela.

— Você vai ficar me olhando comer? — A garota murmurou, a batata parada a meio caminho da boca, o rosto já ganhando aquele tom avermelhado de sempre.

Verena soltou um riso baixo, aveludado, que vibrou na penumbra do carro. O canto da boca subiu num sorriso preguiçoso.

— É um evento raro. — A voz arrastada carregava uma diversão genuína. — Eu passo o dia inteiro vendo homens de meia-idade mastigando e cuspindo farelo em reuniões de comissão. Me deixa apreciar a vista.

A resposta fez a garota fechar os olhos por um segundo, o rubor piorando.

— Isso é muito constrangedor. — Ela resmungou, finalmente enfiando a batata na boca. Mastigou rápido, a mão livre voando para debaixo do queixo como um aparador improvisado. — Esse carro deve custar mais que a minha casa. Se eu derrubar gordura nesse banco claro, eu vou presa.

Verena gargalhou. Uma gargalhada real, aberta, jogando a cabeça para trás por um instante. O som preencheu o espaço pequeno de um jeito que fez o coração de Valentina dar um salto perigoso no peito.

— Valentina, relaxa. — Ela umedeceu os lábios, o sorriso ainda iluminando o rosto cansado. — É couro. Passa um pano e sai. E mesmo se manchar, eu invento que foi um assessor desastrado que derramou café. Ninguém vai te prender. Não por isso.

O "não por isso" carregou uma entonação minúscula, uma provocação sutil que bateu direto na lembrança do porquê elas estavam ali, escondidas no escuro.

A garota ignorou a provocação com esforço. Pegou outra batata, a tensão nos ombros afrouxando mais um pouco. O medo de sujar o carro parecia ter virado a preocupação principal, o que era um alívio cômico para a tensão esmagadora de vinte minutos atrás.

Ela puxou a caixa do sanduíche da sacola. O papel amassou. O molho do Big Mac ameaçava escorrer. Valentina apertou os lábios, calculando a mordida com o desespero de quem não queria passar vergonha na frente da mulher que mexia com a sua cabeça.

Verena acompanhou a matemática silenciosa da garota com um sorriso travesso.

— Quer que eu segure um guardanapo embaixo pra você? — ofereceu, a voz mansa, mas os olhos brilhando de pura sacanagem.

Valentina fuzilou a deputada com o olhar. Uma coragem rara despontando ali.

— Você é péssima. — Ela rebateu, a voz embargada pela batata frita, tentando manter a pose enquanto abria a caixa de papelão.

O sorriso da mulher mais velha só aumentou. Ela não recuou a postura. Pelo contrário. O polegar começou a traçar movimentos circulares lentos e distraídos no couro do encosto do banco, centímetros atrás do ombro da garota.

— Eu só estou tentando ser útil. — Verena piscou, a voz caindo um tom, voltando a ficar perigosa. — E você está fugindo do meu olhar de novo.

O sanduíche parou a centímetros da boca de Valentina. O coração disparou, a brincadeira evaporando sob o peso daquela frase e do polegar que roçou "sem querer" no tecido da manga da blusa dela.

Rua lateral, Ipiranga — Segunda-feira, 16h15

Valentina apertou os dedos no papelão da caixa. O coração martelava tanto que ela tinha certeza de que dava para ouvir no silêncio do carro. O pudor mandou que ela abaixasse a cabeça, fingisse que não ouviu e comesse a batata quieta.

Mas o sangue quente falou mais alto.

Valentina abaixou o lanche devagar. O rosto virou, e os olhos escuros, enormes e dilatados, bateram de frente com o olhar predatório de Verena. E, pela primeira vez no dia, não houve desvio.

— Eu não tô fugindo. — A voz saiu um pouco trêmula, mas não recuou. — Só achei que você preferisse que eu prestasse atenção na comida.

A deputada arqueou a sobrancelha, o sorriso de lado inabalável.

— É mesmo? E por quê?

A mão suou no papelão. O cérebro gritou para, mas a boca abriu.

— Porque meia hora atrás, quando eu me mexi rápido aqui dentro... você quase teve um ataque de pânico e implorou pra eu não ir embora. Achei que comer quieta evitava outro desespero da sua parte.

O silêncio que se seguiu não foi tenso. Foi um vácuo absoluto.

O polegar de Verena paralisou no couro do banco. A respiração travou por uma fração de segundo. O sorriso debochado sumiu, apagado por uma expressão de choque genuíno. A mulher que jantava opositores no plenário tinha acabado de levar uma invertida de uma adolescente segurando um Big Mac.

O pânico bateu em Valentina um segundo depois.

O rosto da garota ferveu até a raiz do cabelo. A coragem evaporou num estalo. O arrependimento foi tão físico que ela encolheu os ombros, sentindo uma vontade real de derreter e se fundir com o estofado bege. Ela abriu a boca para pedir desculpa, erguendo o lanche de volta na direção do rosto como um escudo patético.

Mas antes que a primeira sílaba de retratação saísse, um som grave encheu a cabine.

Verena estava rindo. Não um riso contido ou um sorriso irônico. Era uma risada baixa, rouca, visceral, que fez os ombros dela sacudirem sob a camisa de seda.

— Puta merd*... — O xingamento escapou solto, o verniz político indo direto pro ralo.

Ela inclinou a cabeça, os olhos agora cravados na garota, brilhando com uma mistura perigosa de surpresa e puro fascínio. A mão que estava no encosto do banco escorregou para baixo, os dedos longos se enroscando de leve na ponta do cabelo dourado de Valentina.

— Você é um perigo absoluto, sabia?

A proximidade agora não era só física. Era elétrica.

— Eu... eu não devia ter falado isso. — A garota murmurou contra a beirada da caixa de papelão, a pele do pescoço arrepiando inteira onde os nós dos dedos da outra encostavam.

— Devia. — A resposta veio imediata, num sussurro cortante. Verena inclinou o tronco milímetros mais para a frente, o cheiro marcante engolindo qualquer rastro de fast-food. O olhar desceu direto para os lábios entreabertos. — Nunca mais peça desculpas por me colocar no meu lugar. Eu adoro quando você faz isso.

O silêncio esticou. Valentina apertava o papelão com tanta força que as pontas dos dedos estavam brancas. O rubor nas bochechas não cedia de jeito nenhum. O olhar continuava baixo, a respiração presa na garganta. O surto de coragem tinha cobrado um preço altíssimo do sistema nervoso dela.

Verena percebeu a retração imediata. O olhar predatório suavizou. A mão que estava enroscada na ponta do cabelo claro recuou devagar, e a deputada encostou as costas no banco de couro, dando um passo invisível para trás naquela tensão esmagadora. Ela tinha prometido não surtar a menina.

— Você vai esmagar esse lanche antes de comer. — A voz voltou a soar mansa, quase um sussurro divertido.

— Eu perdi a fome. — A mentira saiu fraca, espremida atrás da caixa.

Verena soltou um riso anasalado.

— Mentira. Seu estômago roncou mais alto que o motor do carro há dez minutos. Para com isso.

A jovem engoliu em seco, finalmente abaixando o escudo de papelão. O rosto ainda queimava.

— É constrangedor.

Verena tombou a cabeça para o lado. Aquele bloqueio repentino, aquela timidez quase infantil contrastando com a língua afiada de um minuto atrás... era fascinante. E pedia uma quebra de protocolo absurda.

— Levanta isso aí. — A instrução soou simples, direta.

A garota franziu a testa, confusa.

— O quê?

Verena não explicou. Ela inclinou o tronco para a frente, cruzando o espaço do console central mais uma vez. O rosto sofisticado, a maquiagem impecável, parou a exatos dois centímetros das mãos trêmulas da garota. 

— Vou te mostrar que ninguém perde a dignidade dando uma mordida num hambúrguer.

Os olhos grandes se arregalaram. A respiração falhou.

A mulher não esticou as mãos para pegar o lanche. Ela simplesmente manteve o olhar escuro, pesado e absurdamente fixo nos olhos assustados à sua frente. Entreabriu os lábios, inclinou o rosto um milímetro a mais e deu a primeira mordida no sanduíche, direto das mãos trêmulas que o seguravam.

O ato em si já era uma quebra de intimidade absoluta. Mas o detalhe físico foi letal.

Ao fechar a boca para puxar o pedaço do pão, os lábios macios e quentes roçaram deliberadamente no nó do dedo indicador que segurava a caixa. Um toque fantasma. Úmido. Rápido. Mas que mandou um choque de mil volts direto para a base da espinha da garota.

Valentina arfou, os dedos quase soltando tudo no chão.

Verena recuou para o próprio assento com uma lentidão calculada. Mastigou devagar, sem desviar os olhos da passageira por um único segundo. Quando engoliu, passou a ponta da língua no canto do lábio inferior para limpar uma gota minúscula de molho.

— Viu? — A voz saiu rouca, raspando na garganta, o sorriso perigoso de volta ao rosto. — Sobrevivi. Pode comer tranquila. A não ser que você tenha nojo de dividir o mesmo pedaço comigo.

Rua lateral, Ipiranga — Segunda-feira, 16h43

O silêncio voltou a reinar na cabine, mas não era mais aquele silêncio aterrorizante do começo. Era um silêncio carregado, denso, quase estático.

Verena cumpria a promessa. Tinha virado o rosto para a própria janela, fuxicando na carteira de couro, ajeitando cartões que já estavam em seus devidos lugares, apenas para dar privacidade à garota. O perfil sofisticado contra a luz fraca do poste lá fora era uma visão quase irreal.

Valentina terminou a última batata. O papel amassado na sacola soou alto quando ela o ajeitou no assoalho. Limpou os dedos num guardanapo, o coração batendo num compasso surdo e contínuo no fundo dos ouvidos.

A comida não acalmou nada. Só deu tempo para o cérebro dela fritar.

A imagem dos lábios quentes roçando no seu dedo não sumia. O cheiro do perfume amadeirado parecia entranhado na sua própria roupa. E no fundo da mente, a voz debochada do amigo martelava sem piedade: "Não me vem depois reclamar que perdeu a chance da sua vida".

Ela olhou para a mulher ao lado.

A deputada estava absorta, o cenho levemente franzido enquanto checava algo no celular que acabara de puxar. Aquela distância calculada, aquele respeito súbito pelo espaço dela... pela primeira vez na tarde, começou a irritar a jovem.

Onde estava a mulher predatória dos áudios? A que fazia promessas perigosas na madrugada? A que jogava o carro numa rua escura e encostava nos dedos dela de propósito? A ideia de abrir a porta blindada, dizer "obrigada" e voltar para o quarto escuro da sua casa sem ter sentido a boca dela de verdade... era fisicamente dolorosa.

Valentina engoliu a seco. A mão suou. O "instinto de sobrevivência" que Verena tanto brincava tinha acabado de desligar.

Ela amassou o guardanapo sujo de gordura até virar uma bolinha minúscula. Jogou na sacola no chão. O som do papel não fez Verena virar o rosto.

A garota inspirou fundo, puxando todo o oxigênio que conseguia, e soltou devagar.

— Eu terminei. — A voz saiu um pouco mais baixa do que ela planejava, mas firme o suficiente para cortar a penumbra.

Verena desligou a tela do celular no mesmo segundo. O rosto virou lentamente de volta, o sorriso automático, polido, de quem retoma a pose depois de uma pausa.

— Ótimo. — Ela guardou o aparelho no console central, a voz mansa voltando a preencher o espaço. — Sobreviveu à humilhação do fast-food?

Valentina não respondeu.

Os pensamentos dela estavam a mil por hora. Aquele cheiro de perfume caro entranhado no ar, a lembrança da boca roçando no seu dedo, o zumbido insistente da voz de Léo martelando que ela perderia a chance da vida dela... A distância física entre os dois bancos de repente virou uma tortura física. Uma coceira insuportável debaixo da pele. Ela sentiu uma falta desesperadora de ser acuada por aquela mulher.

Se parasse para formular uma frase, a coragem sumiria. Se respirasse fundo, o pânico venceria.

Então ela não pensou.

Num solavanco cego e repentino, Valentina escorregou no banco de couro. O corpo jovem avançou sobre o console central num bote desajeitado. As mãos trêmulas voaram para os ombros da deputada, agarrando a seda branca com uma força desesperada, como se ancorasse a si mesma para não cair.

O choque das bocas foi seco. Direto. Num selinho forte, rígido, pressionado com a urgência de quem estava prendendo a respiração debaixo d'água. Valentina cravou os dedos nos ombros alheios, os olhos fechados com força, o cenho franzido numa mistura de pavor e desejo absoluto. A boca continuou imóvel contra a outra. Travada.

Verena congelou.

O sistema inteiro da mulher inatingível deu um apagão. Os olhos escuros se arregalaram na penumbra do carro, absorvendo o rosto tenso colado ao seu. O choque foi tão brutal, tão fora de qualquer cálculo ou estratégia política, que a deputada simplesmente parou de respirar.

As mãos de Verena, que segundos antes repousavam no colo, ergueram-se instintivamente num gesto de pura rendição. Ficaram paradas no ar, trêmulas e indecisas, a centímetros da cintura e do rosto da garota. O ego, a pose, a superioridade... tudo evaporou no baque daquela boca quente e imóvel pressionada contra a sua.

O silêncio no Audi agora era preenchido apenas pelo som do motor distante de outro carro na avenida, e pela tensão elétrica de duas mulheres completamente imobilizadas pelo impacto daquele segundo.

O choque de Verena durou exatamente dois segundos. Dois segundos inteiros daquela boca trêmula, inexperiente e travada contra a sua. A respiração voltou num puxão afiado pelo nariz. O cérebro reiniciou, e a mulher política, controlada e contida, desapareceu instantaneamente.

As mãos que estavam rendidas no ar desceram com a precisão de um tiro. A direita foi direto para a nuca da garota, os dedos longos se embrenhando no cabelo macio com firmeza. A esquerda desceu pesada para a cintura, agarrando o cós do jeans e puxando o corpo jovem ainda mais para cima do console central.

O susto da própria coragem finalmente bateu em Valentina.

Assim que sentiu o aperto possessivo afundar na sua pele, a rigidez do corpo vacilou. Valentina abriu os olhos, o pânico brilhando na íris escura, e tentou recuar, num reflexo tardio, um instinto de fuga que a fez tentar afastar o rosto um milímetro, as mãos nos ombros da deputada afrouxando o aperto na seda branca, prontas para empurrar.

Mas já era tarde demais. Se ela queria ser acuada, tinha acabado de destrancar a jaula.

Verena não a deixou ir a lugar nenhum. A mão na nuca apertou os fios claros, puxando o rosto jovem de volta com uma força cega, anulando qualquer chance de recuo. A boca se abriu, engolindo o selinho casto com uma urgência que não tinha nada de civilizada. A língua quente traçou a linha dos lábios travados de Valentina, exigindo passagem com uma autoridade absoluta.

A garota arfou. O som assustado morreu direto na boca da mulher alheia, que aproveitou a brecha sem piedade.

A língua de Verena invadiu, e o beijo explodiu. Profundo. Intenso.

O gosto doce e artificial de morango foi completamente dominado. A resistência de Valentina derreteu no mesmo milissegundo. Os braços perderam a força de empurrar, e as mãos voltaram a se agarrar aos ombros da deputada, as unhas cravando na seda apenas para não cair, enquanto o mundo inteiro girava fora de eixo.

Verena ajustou o ângulo, aprofundando o beijo com uma possessividade que deixava Valentina tonta. Ela sugava o lábio inferior da garota, mordendo a carne macia de leve, antes de voltar a explorar a boca inexperiente com uma fome absurda.

A respiração das duas se misturou, pesada, o som úmido do beijo preenchendo o silêncio do carro blindado. Verena apertava a cintura dela contra o console, o polegar roçando a pele exposta pela blusa que subiu um pouco no movimento.

Valentina soltou um gemido baixo, vibrando direto na garganta da outra. O corpo inteiro tremia, completamente refém do ritmo ditado pela mulher que, até um minuto atrás, prometera não encostar nela.

A resistência de Valentina, que já era frágil, esfarelou por completo. O pânico de ter cruzado a linha sumiu, substituído por uma dormência quente, pesada, que irradiava do ponto onde a mão de Verena apertava seu quadril.

O cérebro simplesmente desligou. A garota de família religiosa, a menina cheia de pudores que passou a tarde encolhida no banco do carona, apagou. Sobrando apenas o corpo. Um corpo trêmulo, febril, que pela primeira vez não tentou fugir do instinto.

As mãos que antes apenas se seguravam nos ombros de seda deslizaram para trás. Os dedos finos de Valentina encontraram a nuca da deputada, enroscando-se no cabelo liso com uma força desajeitada, puxando a mulher mais velha ainda mais para si.

Foi a permissão física que Verena precisava.

O aperto na cintura da garota subiu, os dedos cravando nas costelas com urgência. A outra mão escorregou da nuca de Valentina para a lateral do rosto dela, o polegar desenhando a linha da mandíbula enquanto a boca trabalhava.

O beijo mudou de ritmo. Deixou de ser um bote e virou um incêndio calculado.

Rua lateral, Ipiranga — Segunda-feira, 17h15

Verena ditava o compasso. Sugava, mordiscava, invadia, com a precisão letal de quem conhecia perfeitamente o efeito que causava, explorando cada milímetro da outra boca com uma lentidão torturante, apenas para voltar a aprofundar o contato com força no segundo seguinte, roubando todo o fôlego que a menina tentava puxar.

A mão que estava no rosto de Valentina desceu rasgando pelo pescoço exposto, o polegar roçando deliberadamente a corrente de ouro fina que tinha acabado de colocar ali.

O som molhado das bocas e o choque das respirações curtas preenchiam cada centímetro cúbico do Audi. Mas o oxigênio começou a cobrar a conta.

Verena quebrou o contato. Mas não recuou.

Ela afastou os rostos apenas os milímetros necessários para que as duas pudessem puxar o ar, mantendo as testas coladas, os narizes se roçando de leve.

A respiração de Valentina estava destruída. O peito subia e descia violentamente. Os olhos escuros demoraram a abrir, as pálpebras pesadas de torpor. Quando finalmente focaram, encontraram o olhar da deputada.

Verena estava com a respiração tão descompassada quanto a dela. A camisa de seda amarrotada sob as mãos da garota, os lábios inchados, o cabelo bagunçado. A máscara política havia sido estilhaçada. Sobrara apenas uma mulher absorta pela visão do estrago que causara.

O rosto de Valentina estava avermelhado, os lábios inchados, molhados, a blusa fora de lugar. A visão da garota de dezessete anos, entregue e respirando fundo sob as suas mãos, bateu no ego de Verena como um shot de uísque duplo.

As mãos subiram devagar, segurando o rosto de Valentina com uma delicadeza que contrastava brutalmente com a fome possessiva de segundos atrás. Os polegares frios começaram a acariciar as maçãs do rosto avermelhadas, traçando a pele quente com movimentos lentos, contínuos, acalmando o tremor que ainda passava pelo corpo da garota.

A ponta do nariz escorregou pelo da adolescente num roçar suave, um carinho silencioso e arrastado. Elas respiravam o mesmo ar pesado da cabine, isoladas do resto do mundo pela blindagem e pelo escuro da rua.

— Olha pra você... — O sussurro de Verena saiu rouco, mas completamente despido de malícia. Era um tom de voz que ninguém, nem mesmo a esposa, costumava ouvir. Puro afeto. — Você não tem ideia do quanto eu esperei pra você parar de fugir de mim.

A garota piscou devagar. A respiração ainda tremia na garganta. O choque de ser tratada com tanta doçura logo depois de ser devorada de forma tão crua a desarmou mais do que qualquer provocação.

O cérebro de Valentina começou a religar aos poucos, mas o pânico não voltou. Em vez disso, um suspiro fraco escapou dos lábios dela. Ela fechou os olhos de novo e, num instinto que nem ela mesma compreendeu, inclinou o rosto contra a palma da mão que a segurava, buscando mais daquele contato.

Foi um gesto minúsculo de rendição que fez o coração da deputada errar uma batida dolorosa no peito.

— Eu achei... — a voz de Valentina falhou, saindo num fio embargado enquanto os dedos dela, que ainda amassavam a seda branca dos ombros da mulher, afrouxavam devagar. — Achei que eu tava estragando tudo. Que não sabia fazer direito.

Verena soltou um riso muito baixo, soprando o ar quente direto na boca entreaberta da garota.

— Estragando? — Ela moveu o rosto milímetros, deixando um beijo casto, demorado e macio no canto da boca dela. Depois outro no maxilar. — Você me deixou completamente sem chão, Valentina. Ninguém nunca me beijou desse jeito. 

Os polegares continuaram o carinho suave perto das orelhas da garota. O olhar de Verena voltou a encontrar os olhos escuros que agora a encaravam com um misto de alívio e uma adoração perigosa.

— Você é perfeita. — A deputada murmurou, a sinceridade da frase pesando como chumbo na consciência que ela fingia não ter. — Perfeita.

— Eu passei meses... meses, Valentina... te observando. Tentando adivinhar o gosto da sua boca. — A confissão saiu pesada, sincera, sem nenhum filtro de ironia ou pose. — Vendo você ficar vermelha, abaixar a cabeça, fugir de mim o tempo todo. E agora você se joga no meu colo desse jeito? Me agarrando como se o mundo fosse acabar?

O coração da adolescente deu um salto tão violento que ela achou que fosse infartar ao ser  colocada num pedestal que ela não achou que caberia na vida de ninguém, muito menos na de Verena.

— Você me deixa louca, sabia? — Verena sorriu, um sorriso frágil, pequeno, quase derrotado pelo próprio desejo. — O jeito que você olha pra mim quando acha que eu não tô vendo. E agora esse beijo... Valentina. Você me desmonta.

A última frase foi o golpe de misericórdia no cérebro de Valentina.

O rubor que estava diminuindo reacendeu com força total, subindo pelas orelhas. O pudor e a vergonha religiosa ainda existiam ali, soterrados debaixo de camadas de tesão e adoração. Valentina escondeu o rosto num reflexo rápido, afundando o nariz no ombro da deputada, respirando o cheiro do perfume caro na seda amassada.

— Verena... — Ela murmurou contra a camisa, a voz embargada, trêmula, apertando a mulher num abraço desajeitado pelo console central. — Não fala essas coisas... por favor.

Verena fechou os olhos. Abraçou o corpo magro de volta, a mão afagando o cabelo com uma possessividade terna. O cheiro de morango artificial e ansiedade da garota misturado ao cheiro da própria excitação.

— Eu falo, meu anjo. Eu falo. — A mulher sussurrou no ouvido da jovem, o apelido carinhoso escapando sem que ela percebesse. — Porque é a mais pura verdade, pequena. Você não tem a menor ideia do poder que tem sobre mim agora.

Valentina apertou o tecido da camisa por mais um segundo antes de ceder. O rosto avermelhado se afastou devagar do ombro alheio. Ela ergueu o queixo, os cílios longos batendo devagar enquanto os olhos escuros, ainda dilatados, encontravam os da mulher que a segurava.

Verena sorria. Um sorriso que desarmava qualquer defesa. O polegar da deputada escorregou da bochecha quente para o lábio inferior de Valentina, contornando a carne inchada com uma lentidão torturante.

— Ainda tá com vergonha de mim? — O sussurro saiu rouco, roçando as bocas.

A garota negou com a cabeça. Um movimento mínimo, hipnotizado. O olhar desceu direto para a boca da mulher.

— Não. — A voz falhou num suspiro.

Verena não precisou de mais nada.

Ela inclinou o rosto e tomou os lábios de Valentina de novo. Mas dessa vez, sem a urgência do desespero. Foi um toque macio, úmido e absurdamente lento.

Os lábios se encaixaram com a naturalidade de quem tinha a noite inteira pela frente. A deputada abriu a boca da garota com um selinho longo, sugando o lábio inferior antes de deixar a língua deslizar para dentro, provando o gosto doce de forma mansa, exploratória.

Valentina arfou baixinho. As mãos que antes apertavam a seda escorregaram para o pescoço de Verena. Os dedos trêmulos tatearam a pele quente por baixo do cabelo liso, arrastando-se até a nuca num carinho instintivo.

O beijo era preguiçoso. Febril. O tipo exato de beijo de quem acabou de descobrir um vício e simplesmente não consegue largar.

Elas se separaram por um milímetro. Apenas para puxar o ar.

— Você beija tão bem... — Verena murmurou de olhos fechados, os narizes se roçando, as respirações se misturando na penumbra. Ela deixou um beijo estalado no canto da boca da garota e voltou a colar os lábios. — Tão bem.

Valentina soltou um som baixo, indefeso, o corpo inteiro derretendo contra o console central. O elogio sussurrado direto na sua boca foi o fim de qualquer restrição. Ela correspondeu, a língua inexperiente, mas repentinamente corajosa, encontrando a da mulher mais velha com vontade.

O movimento arrancou um suspiro pesado, quase um gemido, do peito da deputada.

A mão esquerda de Verena desceu pelas costas da garota até a cintura, apertando o jeans devagar. Ela puxou o corpo magro para um contato ainda mais colado, enquanto o beijo se arrastava, intenso e completamente viciante. O mundo lá fora podia acabar, que nenhuma das duas perceberia.

Até que o oxigênio começou a cobrar o preço.

O ritmo preguiçoso e viciante dos beijos foi ficando entrecortado. As respirações se chocavam, curtas e urgentes, mas nenhuma das duas queria ceder o espaço. Verena sugou o lábio inferior da garota uma última vez, demorando-se ali com um suspiro longo, pesado, que vibrou direto na boca alheia.

Quando os lábios finalmente se separaram com um estalo úmido, unidos por um fio fino de saliva que se partiu no segundo seguinte, não houve recuo. Nenhuma das duas teve força — ou vontade — para afastar os corpos.

O rosto de Valentina escorregou pela bochecha da deputada. A pele quente e febril roçou na dela até que a jovem afundou o rosto na curva do pescoço de Verena, escondendo-se ali enquanto o peito subia e descia violentamente em busca de ar.

Os braços de Verena reagiram no mesmo instante, envolvendo as costas da garota num bote protetor e absoluto. Um abraço apertado. Cego. Forte. As mãos que antes exploravam com malícia agora cravavam os dedos no tecido da blusa de Valentina, puxando o corpo magro contra o próprio peito com uma força que beirava o desespero.

Valentina retribuiu com a mesma intensidade. Os braços finos apertaram os ombros cobertos pela seda amassada, o rosto enterrado no pescoço cheiroso, sentindo o pulso acelerado da mulher batendo frenético direto contra a própria bochecha.

O silêncio do carro foi preenchido apenas pelo som daquelas duas respirações ofegantes, tentando encontrar um compasso normal.

Verena afundou o rosto no cabelo de Valentina. Fechou os olhos com força, sentindo o coração da garota martelar contra as próprias costelas, e a sensação daquele corpo perfeitamente encaixado no seu era a coisa mais avassaladora que já tinha sentido. O jogo político, o controle, a frieza… tudo aquilo parecia uma piada distante agora.

A mão da deputada subiu devagar pelas costas da garota, afagando os fios na nuca num gesto rítmico, mudo, apenas para acalmar o tremor que ainda passava pelos dois corpos.

— Respira, pequena... — Verena murmurou contra o topo da cabeça dela. A voz não passava de um fio rouco e exausto. — Respira.

Valentina apenas apertou o abraço ainda mais, o rosto escondido, recusando-se a soltar. Naquele momento exato, o resto do mundo, a família e a culpa não existiam. Só existia aquele abraço apertado, numa rua qualquer de São Paulo.

Verena sentia o peso do corpo da garota contra o seu, o rosto dela ainda enterrado na curva do seu pescoço. Era um encaixe perigoso de tão perfeito. Ela piscou devagar, a consciência finalmente emergindo do nevoeiro de dopamina. Ela olhou para o painel digital do Audi. Os números brilhando em branco indicavam que o tempo tinha corrido muito mais rápido do que o planejado.

O "antes de escurecer" já estava perigosamente perto do limite.

— Pequena... — A voz de Verena saiu num fio rouco, carregada de uma hesitação que ela raramente sentia.

Ela moveu as mãos, que antes apertavam as costas da jovem, para os ombros dela. Tentou um recuo lento, um movimento suave para criar o espaço necessário para voltar ao banco do motorista e ligar o carro.

— A gente precisa... a hora, Valentina. Eu perdi completamente a noção.

O recuo não aconteceu.

Em vez de soltar, Valentina apertou ainda mais os dedos na seda da camisa de Verena. Ela soltou um resmungo baixo, um som manhoso e quase inaudível que vibrou direto contra a pele do pescoço da mulher. O rosto continuou escondido ali, recusando-se a encarar a realidade lá fora.

— Só mais um pouco... — A voz da garota saiu abafada pelo tecido, num protesto infantil e desesperado ao mesmo tempo.

Verena sentiu os joelhos fraquejarem, mesmo estando sentada. Aquele resmungo foi o golpe final na sua pouca força de vontade. Ela soltou um suspiro longo, a cabeça caindo para trás e encostando no vidro da janela por um segundo, enquanto uma das mãos voltava a afagar o cabelo macio da garota com uma urgência terna.

— Você quer me meter num problema do qual eu não vou saber sair, não é? — Verena murmurou, um sorriso de derrota absoluta aparecendo no rosto.

— Não quero ir. — Valentina insistiu, a voz agora um pouco mais clara, mas ainda sem soltar o abraço. — Agora não.

A deputada fechou os olhos, sentindo o calor daquele corpo e o cheiro de morango que agora parecia ser o seu oxigênio. Ela sabia que cada minuto a mais ali era um risco para as duas — para a reputação dela, para a paz da família Moraes, para o segredo que as consumia.

Mas como dizer não para aquele abraço?

Verena inclinou o rosto, deixando um beijo demorado e suave na têmpora da garota, as mãos descendo novamente para as costas dela, cedendo à pressão.

 

— Se eu não te entregar agora, sua mãe vai chamar a polícia. E eu não acho que o meu cargo me proteja de uma mãe desesperada. — A brincadeira saiu baixa, tentando trazer um pouco de leveza para a tensão que voltava a crescer.

Fim do capítulo


Comentar este capítulo:
[Faça o login para poder comentar]
  • Capítulo anterior
  • Próximo capítulo

Comentários para 46 - Presente de Aniversário:
sky
sky

Em: 15/03/2026

É um dilema que geralmente dividem opiniões sobre o termo:

Adultério,corrupção,morais religiosas 

Até onde é válido ultrapassar limites éticos ou de cunho religioso? 

O que é permitido?

O que é aceitável? 


anonimo2405

anonimo2405 Em: 15/03/2026 Autora da história
Ahhh... os "velhos" dilemas. Bom, acredito que se algo te prejudica ou prejudica o outro, deve ser evitado.


Responder

[Faça o login para poder comentar]

sky
sky

Em: 15/03/2026

Sei que é errado transitar entre dois mundos

Ao mesmo tempo em que mergulho em águas já desbravadas;exploradas;

onde conheço cada milímetro das águas 

Me fascina sentir o quanto à adrenalina de pular de paraquedas em um salto absurdamente cega de regras matrimoniais,de morais políticas,de ser ou não uma mulher polida e culta

Pois é apenas sentir seu corpo perto do meu

Desses olhinhos tão crus de pureza/medo,tão sinceros nas suas intenções 

Desprovidos de qualquer maldade ou malícia 

Eu simplesmente me permito mergulhar nesse desejo visceral 

Nessa estrofe tão certa ao mesmo tempo que incerta de nossas vidas

Quiçá consigo me entender acerca do amor...

Apenas sinto.

 


anonimo2405

anonimo2405 Em: 15/03/2026 Autora da história
Oiee!

Gente eu acho o máximo esses comentários que são verdadeiras poesias. Um show a parte.

Obrigada pelo carinho! S2


Responder

[Faça o login para poder comentar]

lucys
lucys

Em: 14/03/2026

Será que finalmente a Valentina vai perder a virgindade? Kkkk vamos esperar os próximos capítulos! 


anonimo2405

anonimo2405 Em: 15/03/2026 Autora da história
Kkkkkkk vamos esperar!


Responder

[Faça o login para poder comentar]

Zanja45
Zanja45

Em: 14/03/2026

A cena que mais gostei foi Verena quebrando o protocolo e provando do Big Mac e de quebra tocando Valentina no processo, para mim foi muito sensual essa parte, foi insidioso, pois essa imagem ficou na mente de Valentina e que culminou em outros desdobramentos.


anonimo2405

anonimo2405 Em: 15/03/2026 Autora da história
Oieee!

Acho que a Valentina comeu mais por obrigação mesmo rsrsrs. Pq ela já tava totalmente perdida tadinha



Zanja45

Zanja45 Em: 15/03/2026
Ela comeu por obrigação, sim, mas ela estava constrangida em comer com Verena olhando pra ela. Porque ela está a com fome, pois Verena ouviu o estômago dela roncar. Rsrsrs! No entanto, ela tinha mais fome de matar as saudades e provar dos beijos da deputada. Foi bom ela estar alimentada fisicamente pra não desmaiar dessa vez. E a energia que ela ganhou depois que comeu? Tomou coragem e tascou o beijo na depu Dessa vez ela pegou Verena de surpresa, desmontou ela todinha. A menina está aprendendo as artimanhas.



anonimo2405

anonimo2405 Em: 15/03/2026 Autora da história
Kkkkkkkkkkk.

É, de fato ela pegou mesmo a Verena de surpresa.

Agora, ficar sendo observada comendo tbm não dá né? Kkkk Gente, não vejo possibilidade de manter uma pose decente comendo um hambúrguer.

Só de garfo e faca, mas não é a mesma coisa. Acho que tenho um leve preconceito com quem come kkkkkk.



anonimo2405

anonimo2405 Em: 15/03/2026 Autora da história
Kkkkkkkkkkk.

É, de fato ela pegou mesmo a Verena de surpresa.

Agora, ficar sendo observada comendo tbm não dá né? Kkkk Gente, não vejo possibilidade de manter uma pose decente comendo um hambúrguer.

Só de garfo e faca, mas não é a mesma coisa. Acho que tenho um leve preconceito com quem come kkkkkk.



anonimo2405

anonimo2405 Em: 15/03/2026 Autora da história
Kkkkkkkkkkk.

É, de fato ela pegou mesmo a Verena de surpresa.

Agora, ficar sendo observada comendo tbm não dá né? Kkkk Gente, não vejo possibilidade de manter uma pose decente comendo um hambúrguer.

Só de garfo e faca, mas não é a mesma coisa. Acho que tenho um leve preconceito com quem come kkkkkk.



Zanja45

Zanja45 Em: 15/03/2026
Kkkk! Eu particularmente fico sem saber como comer um sanduíche enorme sem perder a compostura, ainda mais com uma deputada me observando. - Ficaria constrangida igualmente.
Mas ainda bem que Verena teve traquejo para meio que obrigar a Valentina e tirar a tensão pesada que predominava no console. Rsrsrs!
E depois a tirada de Valentina pra cima de Verena não teve preço. Dela falar que Verena estava tendo um ataque de pânico( creio que foi mais ou menos nesses termos) foi impagável.


Responder

[Faça o login para poder comentar]

Zanja45
Zanja45

Em: 14/03/2026

A pequena quer mais da Deputada. No entanto Verena fez certo em chamar a razão para o meio delas, se não elas iam extrapolar nas coisas, e colocar tudo a perder. Dessa vez Verena foi sensata.


anonimo2405

anonimo2405 Em: 15/03/2026 Autora da história
Até relógio quebrado acerta duas vezes né rsrsrs.


Responder

[Faça o login para poder comentar]

Joanna
Joanna

Em: 14/03/2026

Concordo com a leitora quando fala sobre querer ou não que elas fiquem juntas, também gosto delas, dessa química, a fase da paixão agora o amor consolidado é outra história. E ainda este outro aspecto que colabora em separá-las, a corrupção, principalmente em se tratando de uma garota religiosa, questões morais profundas.

Mas a vida segue muitos caminhos, também adoro a Sílvia, as escolhas com certeza geram sofrimento, e uma coisa aprendemos com a vida, além de não sermos perfeitos, ninguém é totalmente bom ou mal.

Vamos aguardar o que a autora nos apresentará.

Achei fofo a Valentina grudada na Verena fazendo birra para não deixá-la.

Abr

Joanna


anonimo2405

anonimo2405 Em: 15/03/2026 Autora da história
Oii Joanna! Obrigada pelo carinho viu? S2

Tbm confesso que gosto delas. Apesar de todas as coisas difíceis que cercam as duas. Não consigo imaginar o sofrimento da Silvia se ela descobre. Traição pra mim é uma coisa que não tem perdão, mas... vamos ver né kkkk.


Responder

[Faça o login para poder comentar]

Crika
Crika

Em: 14/03/2026

Uma coisa é certa,a visão de cada um é realmente interessante, opiniões diferentes.E a minha em relação a sua estória é que eu estou amando,a erros em parte da Verena,pq traição nunca é bom,mas não tem nada mais que eu torço,do que essas duas conseguirem está juntas.

 


anonimo2405

anonimo2405 Em: 15/03/2026 Autora da história
Oieee!
Obrigada pelo carinho! :)

Concordo. Traição é o que mata. Mas pelo que tenho visto aqui, temos duas partes: #teamsilvia e #teamvalentina

Eu vou me abster da minha humilde torcida kkkkk, mas só sei que o mais provável é que as duas sofram.


Responder

[Faça o login para poder comentar]

Thalita31
Thalita31

Em: 13/03/2026

Olá, autora!
 
Tenho lido essa história há alguns meses e acho um enredo bem interessante, mas estou aguardando com expectativa os capítulos em que as máscaras tanto da deputada corrupta quanto da adolescente cairão ao chão.
 
Espero que a corrupta pague pelo sofrimento e a traição infligidos a Silvia, assim como a adolescente que  também está errada e tem de lidar com as consequências de suas escolhas.
 
Sinceramente, Silvia,  uma mulher íntegra e correta, não merece passar por essa dupla traição. Ainda assim, espero que, quando descobrir a verdade, ela faça a corrupta provar do próprio veneno. 
 E depois que se reconstrua ao lado de outra pessoa que a mereça de verdade e construa uma família linda, porque ela é merecedora demais.


anonimo2405

anonimo2405 Em: 15/03/2026 Autora da história
Oie Thalita.

Eu entendo bem o seu anseio de ver as injustiças serem desmanteladas. Eu sou suspeita pra falar da Silvia rsrsrs. Acho que em uma coisa todos vão concordar, ela é incrível, apesar de dar uma boa passada de mão na cabeça da Verena né. Mas quem sou eu pra julgar. Mas no final, Torço muito por ela tbm.

E, é aquele ditado né... Mentira tem perna curta.



anonimo2405

anonimo2405 Em: 15/03/2026 Autora da história
Oie Thalita.

Eu entendo bem o seu anseio de ver as injustiças serem desmanteladas. Eu sou suspeita pra falar da Silvia rsrsrs. Acho que em uma coisa todos vão concordar, ela é incrível, apesar de dar uma boa passada de mão na cabeça da Verena né. Mas quem sou eu pra julgar. Mas no final, Torço muito por ela tbm.

E, é aquele ditado né... Mentira tem perna curta.


Responder

[Faça o login para poder comentar]

Informar violação das regras

Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:

Logo

Lettera é um projeto de Cristiane Schwinden

E-mail: contato@projetolettera.com.br

Todas as histórias deste site e os comentários dos leitores sao de inteira responsabilidade de seus autores.

Sua conta

  • Login
  • Esqueci a senha
  • Cadastre-se
  • Logout

Navegue

  • Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Ranking
  • Autores
  • Membros
  • Promoções
  • Regras
  • Ajuda
  • Quem Somos
  • Como doar
  • Loja / Livros
  • Notícias
  • Fale Conosco
© Desenvolvido por Cristiane Schwinden - Porttal Web