Perdendo o controle - Parte 2
Apartamento Verena e Silvia — Domingo — 22h40
O apartamento estava silencioso.
A televisão da sala ainda ligada sem som, imagens passando devagar na tela. Sobre a mesa de jantar, os papéis que Verena tinha tentado analisar continuavam espalhados exatamente do mesmo jeito. Intocados.
Verena estava sentada na cadeira, o celular na mão, olhando para a conversa aberta. A tela iluminava o próprio rosto na penumbra da sala. Áudios enviados. Vários. Ela passou a mão pelo cabelo solto e soltou um pequeno suspiro.
— Você perdeu completamente o juízo… — murmurou para si mesma.
Aquilo tinha saído muito do controle. Muito. Verena apoiou o cotovelo na mesa e pressionou os dedos contra a testa por um instante. A própria voz ainda ecoava na memória. Mesmo querendo. Ela soltou um riso baixo pelo nariz.
— Ridículo…
O celular vibrou. Verena levantou os olhos imediatamente.
Novo áudio.
Valentina — 0:04
O coração deu um pequeno salto.
— Tão rápido assim? — murmurou.
Ela encostou o celular no ouvido. A voz da menina veio baixa. Quase um segredo.
— Eu abriria.
O áudio terminou. Verena ficou imóvel. O telefone ainda encostado na orelha. Por alguns segundos ela não se mexeu. Então afastou o aparelho devagar. Olhou para a tela outra vez. Reproduziu o áudio novamente. A frase ecoou de novo no silêncio da sala. Verena fechou os olhos por um instante.
— Você só pode estar brincando comigo… — murmurou.
O calor subiu pelo pescoço até o rosto. Ela se levantou da cadeira de repente. O movimento foi rápido demais, O móvel arrastou um pouco no piso. Verena atravessou a sala até a cozinha com passos longos. Abriu a geladeira. Pegou a garrafa de água. Bebeu direto no gargalo, vários goles seguidos.
A água gelada desceu pela garganta, mas não fez muita diferença. Ela apoiou a garrafa no balcão e soltou o ar devagar.
— Ótimo, Verena… — murmurou, passando a mão pelo rosto. — Parabéns.
O celular ainda estava na mão. A tela acesa. A conversa aberta. Ela encostou o quadril no balcão da cozinha e olhou para a conversa mais uma vez. Um sorriso lento apareceu no canto da boca.
— Você não tem ideia do que acabou de fazer… — disse em voz baixa.
Verena desbloqueou o celular. Segurou o botão do microfone. Pensou por um segundo. Soltou. Apagou. Respirou fundo. Então gravou.
— Valentina…
A voz dela saiu mais baixa agora. Menos controlada.
— Você tem algum instinto de autopreservação?
Ela soltou um pequeno riso no meio da frase.
— Porque mandar um áudio desses pra mim às dez e quarenta da noite…
Uma pausa curta. Então a frase veio quase como um comentário sincero demais.
— …é uma provocação enorme.
Verena soltou o botão. O áudio foi enviado.
Áudio — 0:17
Ela apoiou o celular no balcão por um momento. Respirou fundo. Mas bastou olhar para a tela outra vez para perceber uma coisa. Ela já estava esperando a próxima resposta. Como alguém esperando um fósforo cair numa poça de gasolina. E isso era exatamente o problema.
Ela cruzou os braços, olhando para a tela como se aquilo fosse responder por conta própria.
— Vamos… — murmurou, mais para si mesma.
O celular vibrou. Quase imediatamente.
Valentina — 0:06
O canto da boca se curvou antes mesmo de apertar play. Ela encostou o telefone no ouvido. A voz de Valentina veio baixa, quase envergonhada.
— Eu não estava provocando…
Uma pausa curta na gravação.
— Eu só… respondi.
O áudio terminou. Verena ficou parada por um segundo. Então soltou uma risada baixa, curta, daquele tipo que nasce no fundo da garganta.
— Claro que não… — murmurou.
Ela reproduziu o áudio outra vez. O sorriso aumentou um pouco.
— Você não tem a menor ideia…
Verena passou a mão pelo cabelo, empurrando os fios para trás, e pegou a garrafa de água outra vez. Bebeu mais um gole. A água estava gelada. Mas o calor ainda estava ali. Ela apoiou a garrafa no balcão e pegou o celular de novo. Segurou o botão do microfone. Dessa vez não pensou muito.
— Então imagina se estivesse.
Ela soltou um pequeno riso pelo nariz.
— Porque se isso foi você sendo inocente…
Uma pausa curta. A voz dela saiu um pouco mais baixa.
— …eu prefiro nem descobrir como seria se resolvesse provocar de verdade.
Ela soltou o botão. A mensagem foi enviada. Verena ficou olhando para a tela por alguns segundos. Ainda com aquele sorriso perigoso. Mas algo no silêncio do apartamento começou a voltar para ela. O relógio na parede. A televisão sem som na sala. A porta do quarto entreaberta no corredor. Ela passou a mão pelo rosto devagar.
— Você perdeu completamente a linha hoje… — murmurou.
Mas quando olhou para o celular outra vez, percebeu algo. Ela não parecia nem um pouco interessada em recuperar a linha. O aparelho vibrou novamente. Outro áudio de Valentina. Verena levantou as sobrancelhas.
— Você está corajosa hoje… — disse baixo.
Ela apertou o play. A voz da jovem veio um pouco mais nervosa dessa vez.
— Eu não sei provocar ninguém…
Uma pequena pausa. Então a frase saiu antes que a menina pudesse pensar melhor.
— A senhora que começa essas coisas.
Fim. Verena ficou completamente imóvel. Por um segundo. Depois soltou uma risada de verdade. Baixa. Mas genuína. Ela apoiou os cotovelos no balcão e abaixou a cabeça, ainda rindo.
— Ah, Valentina… — murmurou.
Quando levantou o rosto de novo, havia um brilho diferente nos olhos. Aquele tipo de brilho que aparece quando alguém percebe que a noite ainda não acabou. Ela pegou o celular mais uma vez. E começou a gravar outro áudio.
— Eu começo?
Um pequeno riso atravessou a gravação.
— Isso é uma acusação bem séria.
Uma pausa. Então a voz dela ficou mais calma.
— Quer mesmo colocar essa responsabilidade toda em mim?
Ela soltou o botão. O áudio foi enviado. Deixou o celular sobre o balcão. Mas não se afastou. Ficou ali. Esperando. E dessa vez havia uma sensação muito clara no ar. Aquilo não parecia mais uma conversa casual. Parecia um jogo. E, de alguma forma, as duas já estavam dentro dele.
O celular vibrou. Outro áudio. Verena levantou as sobrancelhas devagar.
— Vamos ver… — murmurou.
Ela apertou o play. A voz de Valentina veio primeiro com um pequeno sopro de riso, como se estivesse tentando se controlar.
— A senhora é impossível.
Uma pausa curta.
— Eu nunca consigo ganhar uma discussão com a senhora.
O áudio terminou. Verena encostou o telefone no balcão e soltou uma risada baixa.
— Discussão… — repetiu.
Ela pegou o celular de novo, olhando para a tela como quem observa um movimento interessante num tabuleiro. Gravou.
— Isso não é uma discussão.
Uma pausa curta.
— Discussões tem regras.
Um pequeno riso atravessou a gravação.
— Isso aqui… é outra coisa.
Ela enviou. Mal teve tempo de apoiar o celular.
Valentina — 0:09 Verena deu play.
— Então o que é?
A pergunta saiu simples. Curiosa. Quase inocente. Mas havia algo na forma como Valentina perguntou que fez o canto da boca de Verena subir de novo. Ela passou a mão pelo queixo pensativa por um segundo.
— Boa pergunta… — murmurou.
Pegou o celular. Gravou a resposta.
— Acho que é aquele tipo de conversa que duas pessoas não deveriam ter às quase onze da noite.
Uma pausa. A voz ficando um pouco mais baixa.
— Mas continuam tendo mesmo assim.
Ela soltou o botão. O celular vibrou poucos segundos depois. A voz da menina veio mais baixa agora. Mais tímida.
— A senhora começou…
Uma pausa.
— Foi a senhora que perguntou se eu abriria o portão.
Verena soltou uma pequena gargalhada pelo nariz.
— Tocada. — murmurou.
Ela apoiou a garrafa de água no balcão e gravou de novo.
— Eu fiz uma pergunta hipotética.
Pausa.
— Você respondeu com muita convicção.
Outra pausa. Então a frase saiu com aquele tom provocador que ela não estava mais tentando esconder muito.
— Isso muda bastante as coisas.
O silêncio voltou por alguns segundos. Verena pegou a garrafa de água de novo e tomou mais um gole. Quando abaixou, o celular vibrou.
— Eu respondi porque a senhora perguntou…
Uma pausa. Então veio a frase que escapou antes que Valentina pensasse melhor.
— Não quer dizer que eu não ficaria nervosa.
Verena ficou parada. Com o celular ainda na mão. Os olhos voltaram para a tela lentamente. Um sorriso muito lento surgindo.
— Nervosa… — repetiu em voz baixa.
Ela pegou o celular outra vez. Gravou.
— Valentina…
Uma pausa curta. A voz saiu mais calma agora. Mais próxima daquele tom que sempre fazia a menina perder o raciocínio.
— Você já percebeu que cada vez que tenta se explicar… acaba se complicando mais?
Um pequeno riso atravessou a gravação.
— Porque está fazendo isso comigo há quase meia hora. Mas não posso negar que adoro quando você fica nervosa assim.Sua voz muda. Sabia?
Verena apoiou o celular no balcão. Mas não saiu dali. Os olhos ainda na conversa. E naquele momento ela percebeu algo que fez o sorriso voltar com mais força. Aquela conversa não estava diminuindo. Estava esquentando. Devagar. Como uma chama que alguém insiste em alimentar sem admitir.
O silêncio durou alguns segundos. Então o telefone vibrou. A voz veio baixa. Um pouco mais rápida que antes.
— A senhora está inventando.
Uma pequena pausa.
— Minha voz não muda.
Verena soltou um riso curto.
— Claro que muda… — murmurou.
Ela pegou o celular. Gravou.
— Valentina…
Pausa.
— Você acabou de falar duas frases e ficou nervosa nas duas.
Um pequeno riso atravessou a gravação.
— Isso já é prova suficiente pra mim.
Ela enviou.
O celular vibrou poucos segundos depois.
— Eu não estou nervosa.
A frase saiu rápida. Quase atropelada. Verena levantou as sobrancelhas devagar.
— Impressionante… — disse baixo.
Pegou o celular. Gravou.
— Então vamos fazer um teste.
Pequena pausa.
— Fala meu nome.
Enviou. Verena apoiou o celular no balcão de novo. O sorriso já aparecendo antes mesmo da resposta. Porque ela sabia. Aquilo desmontaria a menina. O celular vibrou. Silêncio de um segundo. Então a voz veio. Baixa. Quase um sussurro.
— Verena…
Verena ficou imóvel por um instante. Os olhos ainda na tela. O sorriso agora mais lento. Ela pegou o celular.
— Viu?
Pequena pausa. A voz saiu tranquila. Mas claramente satisfeita.
— Sua voz muda completamente.
Outro pequeno silêncio. Então ela acrescentou, quase casual:
— E você ainda acha que eu não repararia nisso?
Ela enviou. O celular ficou quieto alguns segundos. Mais do que antes. Verena já imaginava a cena. Valentina provavelmente olhando para o telefone. O rosto quente. Tentando encontrar uma resposta. E quando o celular vibrou de novo, a voz que saiu no áudio confirmou exatamente isso.
— A senhora fica observando essas coisas?
A pergunta saiu quase incrédula.
— Eu nem percebo…
Verena soltou uma risada baixa. Pegou o celular. Gravou.
— Eu percebo muita coisa.
Pausa.
A voz ficou um pouco mais suave.
— Principalmente quando se trata de você.
Enviou. E ficou ali. Encostada no balcão. Esperando a próxima reação. Porque naquele ponto da conversa… ela já sabia exatamente o que estava acontecendo do outro lado da cidade. Valentina estava tentando se defender. Mas cada resposta só acabava entregando mais. E, para alguém como Verena… isso era um jogo muito difícil de resistir.
O celular vibra novamente.
— A senhora fica me analisando.
Pequena pausa.
— Isso é meio injusto.
Verena solta um riso baixo.
— Injusto… — murmura.
Ela pega o celular e grava.
— Profissionalmente eu observo muito bem as pessoas.
Pausa.
— É parte do trabalho.
Pequeno silêncio. Então ela acrescenta, quase casual:
— Mas você nunca foi exatamente… um caso profissional.
Ela envia. O celular fica quieto por alguns segundos. Então vibra.
— Como assim?
A pergunta vem cautelosa. Verena sorri devagar. Ela pega o celular novamente.
— Vamos ser honestas por um segundo.
Pausa. A voz sai calma.
— Duas pessoas que já se beijaram algumas vezes dificilmente continuam se tratando da mesma forma.
Silêncio curto. Então ela completa com uma leve provocação:
— Pelo menos não comigo.
Ela envia. Do outro lado da cidade… provavelmente há uma Valentina completamente vermelha agora.
Casa da família Moraes, Domingo — 22h52
O áudio termina. Valentina continua olhando para a tela. Como se a frase ainda estivesse sendo dita. O quarto está silencioso. Ela leva alguns segundos até respirar fundo.
— Verena… — murmura.
Ela aperta o botão de gravar. Solta. Aperta de novo. Solta outra vez. O rosto quente. Finalmente grava.
— A senhora fala isso com muita naturalidade…
A voz sai baixa. Um pouco incrédula.
— Como se fosse… normal.
Ela solta o botão. O áudio vai. Assim que envia, ela passa a mão pelo rosto.
— Por que eu falei isso? — sussurra.
O celular vibra. Resposta rápida demais. Valentina fecha os olhos antes de dar play. A voz da Verena vem calma.
— Porque foi natural.
O áudio termina. Valentina abre os olhos devagar. O coração batendo forte. Ela olha para a tela. Respira fundo. E grava de novo.
— Pra senhora pode até ter sido…
Pequena pausa. A voz fica ainda mais baixa.
— Pra mim não foi tão simples assim.
Ela solta o botão. A gravação é enviada. E só depois de mandar ela percebe o que acabou de admitir. Valentina fecha os olhos outra vez. Encostando a cabeça na parede. Porque agora a conversa mudou de lugar. Não é mais só provocação.Agora tem verdades ali. E isso… a deixa ainda mais vulnerável.
Apartamento Verena e Silvia — Domingo — 23h02
O áudio de Valentina termina. A cozinha está silenciosa. A luz sobre o balcão desenha um círculo claro no granito. A televisão na sala continua ligada sem som, as imagens passando como um fundo distante.
Verena permanece imóvel por alguns segundos.O celular ainda na mão. Ela reproduz o áudio outra vez. A voz de Valentina sai novamente pelo pequeno alto-falante. Mais baixa do que antes. Mais sincera.
Verena solta o ar devagar. Não há mais sorriso agora. Apenas uma expressão concentrada que ela costuma ter quando decide alguma coisa. Pegou a garrafa de água. Bebeu um gole. Depois apoiou o vidro no balcão. O polegar tocou o ícone do microfone. E então gravou.
— Valentina…
A voz sai calma. Sem ironia dessa vez.
— Algumas coisas na vida não são simples mesmo.
Uma pequena pausa atravessa o áudio. Como se estivesse escolhendo com cuidado a próxima frase.
— E talvez seja justamente por isso que a gente continua pensando nelas.
O silêncio dura um segundo. Então ela conclui:
— Acho que está na hora da gente parar de conversar sobre isso por áudio.
Ela solta o botão. O arquivo é enviado. Do outro lado da cidade, o celular de Valentina vibra sobre o colchão. No apartamento dos Jardins, Verena observa a tela por alguns segundos. Depois grava mais um. Curto. Direto.
— Eu tenho algumas coisas pra resolver amanhã perto do Ipiranga a tarde.
Pequena pausa.
— Se você quiser… a gente pode se ver, tomar um café.
A voz permanece tranquila. Como se fosse a coisa mais simples do mundo.
— Sem perguntas difíceis.
Um leve riso atravessa a última frase.
— Prometo.
Ela envia. O celular volta para o balcão. Verena cruza os braços. Encosta o quadril na pedra fria. E espera. Lá fora, a cidade segue o ritmo de uma noite comum de domingo. Mas naquele momento, entre dois bairros da mesma cidade, existe apenas uma coisa realmente importante: a resposta de Valentina.
Casa da família Moraes, Domingo — 23h30
Valentina ainda está sentada na cama. O celular repousa ao lado da perna. A última mensagem da Verena permanece aberta na tela, como se pudesse desaparecer se ela piscasse. Ela inspira fundo.
Pegou o telefone. Abriu o contato. Léo. Digitou.
Valentina
Vc tá acordado?
A resposta vem quase instantânea.
Léo
Sempre. Principalmente quando é drama alheio
Valentina fecha os olhos por um segundo. Depois começa a digitar.
Valentina
Eu fiz besteira.
Léo
Essa frase nunca vem sozinha. Conta.
Ela hesita. Então resolve mandar alguns áudios encaminhados. Um. Dois. Três. A conversa fica silenciosa por alguns segundos. Valentina observa os três risquinhos aparecerem… sumirem… aparecerem de novo. Finalmente:
Léo
Valentina.
VALENTINA.
Ela já imagina o sorriso do outro lado.
Léo
Vc tá viva?
— Para… — ela murmura sozinha, digitando.
Valentina
Para.
Léo
Não. Agora já foi.
Ela basicamente te desmontou por áudio.
Valentina sente o rosto esquentar.
Valentina
Não desmontou.
A resposta vem rápida.
Léo
Desmontou sim. Com educação, mas desmontou.
Ela suspira.
Valentina
Ela me chamou pra gente se ver amanhã, tomar um café.
Silêncio. Dois segundos. Três. Então:
Léo
DESCULPA, COMO É?
CAFÉ?
C-A-F-É?
ISSO É UM ENCONTRO, MINHA FILHA
Valentina puxou o travesseiro e apertou o rosto por um segundo.
Valentina
Não é.
É só um café.
Ela falou ‘sem perguntas difíceis’.
A resposta vem carregada de ironia.
Léo
Claro. Porque as fáceis ela já fez TODAS.
Valentina morde o lábio.
Valentina
Léo.
O quê?
Para.
Não é um encontro.
Não vai acontecer nada.
A digitação demora. Quando vem, é certeira.
Léo
Então vai de batom vermelho.
Mas não leva pra retocar.
Se no fim ele ainda estiver intacto, aí eu acredito em você.
Valentina arregala os olhos.
— Léo! — sussurra, indignada.
Digita rápido.
Valentina
Para com isso.
Eu tô me sentindo culpada.
E animada.
E nervosa.
Tudo ao mesmo tempo.
Do outro lado da cidade, Léo provavelmente sorriu.
Léo
Isso se chama estar viva.
E apaixonada.
Valentina
Não fala isso.
Ela fecha os olhos. Encosta a testa no joelho. A resposta vem mais suave agora.
Léo
Eu só falo porque você confia.
Mas ó…
Vai com calma.
E lembra: quem tá com tudo a perder não é você.
Ela leu a frase duas vezes. O coração desacelerou um pouco.
Valentina
Boa noite, Léo.
Léo
Boa noite, futura pessoa que vai fingir que não está surtando amanhã.
Valentina sorri, apesar de tudo. Apaga a luz. Deita de lado. Mas o sono não vem. Porque agora existe um café. E um batom vermelho que ela não tem coragem de usar. Ainda.
Casa da família Moraes, Quarto — 13h30
Valentina estava sentada na cama, pernas cruzadas, olhar perdido na parede clara à sua frente. O celular vibrava na mão, e ela sabia quem era. Léo. Respirou fundo, tentando se convencer: “Não é nada demais. Não é nada demais É só um café.” Mas a própria voz soava fraca, como se a mente estivesse rindo da própria determinação.
Ela abriu a chamada de vídeo. A tela se iluminou com o rosto do amigo, sorriso irônico, sobrancelhas arqueadas.
— Então… você vai ou vai inventar uma desculpa nova? — ele cutucou, como sempre, sem piedade.
— Léo… não é nada demais… — ela murmurou, desviando o olhar.
— Ahhh, claro que não, Val. É só aquele café inocente… com a mulher que você não gosta de jeito nenhum. — Ele inclinou a cabeça, piscando. — Mas me diz uma coisa… você vai se segurar mesmo na hora do beijo?
O coração dela acelerou. Ela franziu o cenho, mas não conseguiu esconder o rubor subindo pelo rosto.
— Léo! — sussurrou, já tentando rir, mas falhando. — Para com isso… não vai ter beijo!
— Não vai ter beijo? — ele arqueou uma sobrancelha, divertidíssimo. — Tá, então eu preciso que você me explique como vai fingir que não quer quando estiver bem na frente dela. Dicas rápidas: olhos, respiração… até a inclinação da cabeça.
Valentina quase caiu da cama, segurando o celular com as duas mãos.
— Léo! Você tá maluco! — disse, tentando manter a voz firme. — Eu não posso… não posso pensar nessas coisas agora!
— Mas me conta… — começou, inclinando a câmera como se estivesse conspirando com ela — vocês já beijaram de língua?
Ela sentiu o corpo inteiro congelar. As mãos suavam, o coração disparado.
— L-Léo… — murmurou, quase engolindo a voz — para com isso… eu…
— Relaxa, tô só perguntando — disse ele, voz doce, mas cheia de provocação. — Mas se ainda não, deixa eu te dar umas dicas, hein. Tipo… como encostar a boca na dela, a respiração, o ritmo… até a posição das mãos. Coisinhas que fazem ela perder o fôlego sem nem perceber.
O calor subiu de repente, o rosto dela queimando. Ela tentou olhar para o chão, mas não conseguiu se desligar da tela. Cada palavra dele fazia a timidez dela colidir com a excitação que ela ainda nem entendia direito.
— Léo! — ela explodiu, vermelha da cabeça aos pés. — Para, PARA! Eu não vou! Eu não vou!
Ele riu, sem perder a postura provocadora:
— Tá, tá… só não me vem depois reclamar que perdeu a chance da sua vida, hein?
Ela mordeu o lábio, segurando a respiração, sentindo o coração bater descompassado. A culpa pela ousadia, a euforia do proibido, a tensão de querer ver Verena… tudo misturado. Ela fechou os olhos, respirou fundo e respondeu, quase sussurrando:
— Tá bom, Léo… mas para de falar essas coisas. Eu… eu vou.
E antes que pudesse pensar demais, segurou o celular com firmeza, o coração disparado, tentando se preparar para atravessar a tarde e encontrar a Verena.
ALESP – Gabinete da Verena, 14h00Verena estava sentada à mesa, mas não exatamente ali. O relatório aberto no computador não avançava. O celular, virado com a tela para cima, vibrava a cada notificação que não era a que ela esperava.
Ela pegava, desbloqueava, olhava. Nada. Colocava de volta. Trinta segundos depois, repetia. Rafaela entrou na sala com uma pasta debaixo do braço e um café na mão. Parou na porta. Observou em silêncio por alguns segundos.
— Você sempre teve esse tique… — disse, por fim.
Verena nem levantou os olhos.
— Que tique?
— O de fingir que tá trabalhando enquanto o telefone virou protagonista da sua vida.
Verena pigarreou, fechou o celular com mais força do que o necessário.
— Eu tô esperando uma confirmação.
— Claro que tá. — Rafaela largou a pasta na mesa sem pressa. — Só não sei se é de agenda, de ego ou de alguma entidade mística que resolveu te testar hoje.
Verena lançou um olhar rápido, defensivo.
— É coisa simples.
— Sim. — A amiga se sentou na cadeira em frente. — Simples como você ajeitar a caneta cinco vezes sem escrever uma linha.
Verena respirou fundo e cruzou as mãos sobre a mesa.
— Você entrou aqui só pra me irritar?
— Não. — Rafa sorriu de canto. — Entrei pra confirmar uma teoria.
— Qual?
Ela inclinou a cabeça, analisando.
— Você tá nervosa.
— Eu não fico nervosa.
— Fica, sim. Só que em você o nervosismo vem com checklist, postura ereta e negação agressiva.
Verena deu um meio sorriso irônico.
— Que diagnóstico profundo. Fez residência onde?
— Anos trabalhando com você. — A assessora deu um gole no café. — E o celular confirma tudo.
O telefone vibrou de novo. Verena olhou quase por reflexo. Rafaela arqueou a sobrancelha.
— Bingo.
— Rafa…
— Relaxa. — Ela levantou as mãos. — Não quero saber com quem você vai se encontrar. Só tô tentando entender se essa sua cara é de quem vai cometer um crime eleitoral ou um crime passional. Porque o meu salário só cobre te ajudar a encobrir um dos dois.
Verena hesitou um segundo a mais do que devia.
— Você não vai ter salário nenhum se não parar de falar essas merd*s.
— Uau. — Ela sorriu, lenta. — Como eu disse agressiva, check.
Verena soltou um riso curto, quase involuntário.
— Você tá impossível hoje.
— Não. — Rafa se levantou. — Só tô curiosa. Porque quando você vai almoçar com seus sogros, você reclama. Quando vai pra evento político, você ensaia discurso.
— Ela apontou para o celular. — Quando você fica assim… é outra coisa.
Verena desviou o olhar.
— Você tá imaginando demais.
Rafaela se aproximou da porta, mas parou antes de sair.
— Só uma dica de amiga: tenta não olhar o telefone de dez em dez segundos. Faz parecer que você tá esperando um crush adolescente te responder.
Verena ergueu os olhos, fulminante.
— Rafaela.
Rafa sorriu, satisfeita.
— Viu? Funcionou. Boa sorte na sua… confirmação.
E saiu, deixando o gabinete em silêncio. Verena respirou fundo. Pegou o celular de novo. Dessa vez, havia uma mensagem. Ela leu. E sorriu antes mesmo de perceber.
Rua Cisplatina — Ipiranga — Segunda-feira,14h45
O motor do carro foi desligado, mergulhando a cabine num silêncio quase imediato. Do lado de fora, o quarteirão da Biblioteca Roberto Santos não lembrava em nada o caos do centro de São Paulo. Pouca iluminação, árvores antigas projetando sombras compridas sobre o asfalto irregular e o isolamento perfeito que a clandestinidade exigia.
Verena soltou o volante devagar. O couro estava quente sob os dedos, marcados pela força desnecessária que ela vinha fazendo desde que acessou a Avenida do Estado.
Suspirou, jogando a cabeça para trás no encosto do banco. O painel do carro ainda emitia um brilho fraco, delineando o perfil tenso da deputada. Ela passou a mão pelo rosto, ajeitando uma mecha solta de cabelo. A temperatura do ar-condicionado estava no mínimo, mas o suor frio que sentia subindo pela nuca não tinha nada a ver com o clima lá fora.
— Você é uma imbecil completa… — murmurou no espaço vazio do carro.
Uma imbecil que, aos vinte e nove anos, estava arriscando um escândalo público, a estabilidade de um casamento e o pouco que restava do próprio juízo. Tudo por uma garota de dezessete anos.
Verena deu uma risada curta, rasgada de ironia, que morreu na cabine abafada. Ela escorregou um pouco no banco, cruzando os braços.
— Pensando bem, a cadeia não deve ser tão ruim. Pelo menos lá eu teria uma desculpa irrefutável para não aguentar aquela corja da Alesp. E duvido que a comida do presídio seja pior que o bacalhau seco da Lúcia.
Mas o veneno da própria piada não aliviava a acidez no estômago. A brincadeira interna era só um escudo velho e trincado. O fato inegável era que o estômago dela dava nós físicos e dolorosos. Pegou o celular no console central. A tela acendeu. Nenhuma notificação nova. O relógio marcava cinco minutos para o horário combinado.
No reflexo do retrovisor interno, ela checou a própria imagem. A maquiagem já gasta pelo dia de trabalho, a camisa social branca levemente amassada no colo, os olhos carregando o peso de uma ansiedade adolescente que ela repudiava.
Um farol virou a esquina da rua Silva Bueno, varrendo o interior do Audi de repente. Instintivamente, ela afundou no banco, o corpo inteiro retesando. Paranoia política. O carro passou direto, sumindo na noite. Ninguém a seguia. Era só o bairro pacato. Só ela e a própria loucura.
Baixou dois dedos do vidro elétrico. O cheiro de umidade e asfalto frio invadiu a cabine, misturando-se ao perfume caro que usava. E foi então que o ar sumiu de vez dos pulmões.
Sob a luz amarela e falha do poste, na calçada da biblioteca, uma silhueta dobrou a esquina. O passo hesitante, a mochila pendurada num ombro só, os dedos apertando a alça com força. Valentina. O olhar escuro e gigante da garota varreu a rua vazia até travar na lataria do carro preto.
Verena engoliu em seco. A mão tremeu milímetros antes de alcançar a trava elétrica. O som do destrave soou alto e metálico no silêncio do carro.
Um convite. E uma sentença.
Rua Cisplatina, Ipiranga — Segunda-feira, 15h02
A porta bateu com um estalo abafado pela blindagem. O silêncio do carro engoliu as duas imediatamente. A garota soltou a mochila no colo. Abraçou o tecido com força, os olhos cravados no visor digital do painel. A respiração dela estava curta. Irregular.
Do banco do motorista, Verena apenas observou. As mãos relaxadas no volante, a camisa de seda levemente aberta, dissecando o perfil tenso ao lado. O jeito como ela tentava se encolher no banco largo do Audi.
— Se você apertar essa mochila com um pouco mais de força, acho que o zíper estoura.
A voz saiu baixa. Arrastada.
Valentina engoliu em seco. O som foi quase audível na cabine. Ela soltou o ar devagar, os dedos afrouxando no tecido escuro, e finalmente virou o rosto.
Os olhos grandes e assustados encontraram o sorriso contido da deputada.
— Oi. — A voz da garota não passou de um sussurro apertado.
Verena sustentou o olhar.
— Oi. — Ela umedeceu os lábios devagar. — Achei que tivéssemos combinado um encontro pacífico. Mas você entrou no meu carro parecendo que vai depor numa CPI.
Um rubor imediato subiu pelo pescoço de Valentina.
— Eu… não tô nervosa.
Verena soltou um riso anasalado, curto. Ela largou o volante e apoiou o cotovelo no console central, diminuindo o espaço físico entre as duas com uma calma calculada.
— Não? — murmurou, o olhar descendo deliberadamente para as mãos trêmulas da garota, antes de voltar para o rosto dela.
— Não. É só… — Valentina desviou o rosto para a janela escura, fugindo daquele olhar de raio-x. — Estranho.
— Estranho.
Verena repetiu a palavra, saboreando o som. O dedo indicador dela traçou uma linha imaginária no couro do console, parando a milímetros do tecido da mochila.
— Estranho me ver? — A voz caiu um tom, perigosa. — Ou estranho lembrar do que a gente conversou ontem à noite?
Valentina travou. O peito parou de subir por um segundo inteiro. Ela fechou os olhos com força, a pele do rosto agora fervendo.
— A senhora prometeu. — sussurrou, a voz trêmula. — Sem perguntas difíceis.
O sorriso no canto da boca de Verena aumentou. Aquele sorriso cheio de ego e intenção.
— Essa não foi difícil. — Ela inclinou a cabeça um pouco mais perto, a voz virando quase um sussurro no espaço entre elas. — Foi só um teste pra ver se a sua respiração mudava.
Valentina apertou os lábios, completamente desarmada.
— A senhora joga sujo.
Verena paralisou o dedo que batucava distraidamente no couro do console. A sobrancelha direita arqueou milímetros.
— Senhora?
A voz saiu carregada de uma ironia tão polida que quase parecia uma dúvida real. Valentina piscou, o rosto virou de volta num reflexo tenso.
— O… o quê?
Verena encostou a cabeça no banco, o sorriso ganhando um ar quase travesso, embora o estômago ainda estivesse torcido num nó.
— Valentina… — Ela puxou o ar pelo nariz, balançando a cabeça devagar. — Nós já passamos desse ponto, não acha? Depois de tudo o que aconteceu, do que conversamos ontem. E agora você entra aqui, segura essa mochila como se fosse um colete salva-vidas e me chama de senhora?
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor.
Valentina abriu a boca, mas nenhum som saiu. O rubor que já estava no pescoço subiu para as bochechas num incêndio repentino. Ela abaixou a cabeça, escondendo o rosto atrás de uma mecha de cabelo, os dedos apertando a mochila de novo.
Um risinho baixo, quase um ganido de desespero e vergonha, escapou da garganta dela.
Verena observou a reação. A armadura da menina rachando. Aquele risinho contido era tudo o que ela precisava para finalmente conseguir respirar direito na própria cabine. O ego da mulher mais velha inflou, mascarando a própria ansiedade de forma brilhante.
— Viu? — Verena provocou, a voz caindo um tom, mais suave agora, quase perigosa. — Já estamos progredindo. Você já tá rindo do próprio desespero.
— Você é impossível. — A garota resmungou de cabeça baixa, a voz abafada pelo tecido da mochila. Mas o pronome saiu.
O canto da boca da deputada subiu.
— É a política, Valentina. A gente aprende a usar as fraquezas do adversário. — Verena piscou, recuando o corpo devagar. A tensão no ar já havia mudado de medo para algo muito mais elétrico. Ela esticou a mão para o banco de trás. — Mas eu não vim aqui só pra te torturar.
Ela trouxe a mão de volta. Sobre o console central, depositou o pequeno embrulho de papel escuro com o laço de cetim. Valentina olhou para a caixa. Depois para Verena. Os olhos escuros ainda arregalados, o riso nervoso sumindo de imediato.
— O que é isso?
— Meu instinto de sobrevivência falhando miseravelmente. — Verena respondeu, a ironia mascarando o peso real daquela frase. — Feliz aniversário, Valentina.
Fim do capítulo
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Zanja45
Em: 14/03/2026
Rafa já conhece a chefe muito bem para saber do que se trata esses tiques dela em pegar o celular várias vezes. — Igual uma adolescente mesmo — É capaz de desconfiar que é a Valentina a causa de Verena estar nessa ansiedade toda.
Zanja45
Em: 15/03/2026
Eu acredito nessa possibilidade também. Rafa já conhece a chefe de cabo a rabo. Afinal de contas são amigas de longa e parceiras.
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Vpains
Em: 12/03/2026
Olha só, Valentina aos poucos vai criando coragem. Seria até cômico a deputada aparecendo na porta plena noite rsrsrs Valentina morreria rsrsrs
so esperando as cenas dos próximo capítulos rsrsrs
anonimo2405
Em: 15/03/2026
Autora da história
Oiee!
Não pretendo demorar! ;) S2
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Zanja45
Em: 12/03/2026
Não acredito que Valentina mandou um áudio desses!
Minha nossa, corajosa, Será que abriria mesmo? Rsrsrs!
anonimo2405
Em: 15/03/2026
Autora da história
Kkkkkkk
Não sei se ela abriria o portão pra Verena entrar, mas pra entrar no carro da Verena, acho que a chance era alta rsrs.
Zanja45
Em: 15/03/2026
Rsrsrs! Meu Deus, Valentina subiu de nível. Deve ser a convivência com os amigos e a própria deputada.
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anonimo2405 Em: 15/03/2026 Autora da história
Acho que ela deve ter pensando, só não quis falar pra evitar.