Capitulo 8 - A Jogada de Janis
Capítulo 8 — A Jogada de Janis
A manhã começou com pressa.
Rebeca desceu as escadas quase correndo depois de ouvir a voz de Janis chamando do portão.
O som era inconfundível. Impaciente. Alegre demais para aquela casa.
— Rebeca!
A menina atravessou a porta da frente antes que o pai pudesse perguntar qualquer coisa.
Mas Moisés já estava de pé. Ele saiu pela porta da cozinha e interceptou a filha no quintal.
O portão estava a dois passos quando a mão dele segurou firme o braço dela.
— Você não vai mais andar com essa menina.
A frase caiu seca.
Rebeca congelou por meio segundo.
Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, a voz de Janis atravessou o portão.
— Com licença, Pastor?
Moisés virou. Soltou o braço da filha, mas permaneceu entre ela e o portão.
Janis estava parada na calçada, o skate debaixo do braço, olhando diretamente para ele.
Não havia medo no rosto dela.
Nem desafio.
Apenas curiosidade.
— O que eu preciso fazer para ser amiga da sua filha?
A pergunta veio simples demais.
Ele não respondeu.
— Qual o problema de a gente ir juntas pra escola?
— Influência excessiva não é saudável.
— Influência de quê?
— Não me faça repetir.
Rebeca sentiu o coração acelerar.
Janis continuou:
— O senhor é um homem que gosta de regras e Rebeca sente que tem que obedecer a cada uma delas. Se o senhor quiser, podemos estudar juntas aqui, na sua casa. Com a porta do quarto aberta e com tia Débora supervisionando.
Ela falou aquilo como quem organiza um contrato.
Sem ironia.
Sem submissão.
— Amizade não é algo que se regulamenta — Moisés respondeu.
— Então o que está sendo proibido?
Ele não gostou da precisão da pergunta.
— Está sendo colocado limite.
Janis assentiu devagar.
— Que tipo de limite?
Moisés percebeu que estava sendo conduzido a especificar.
— Nada de andar pela cidade. Nada de exposição desnecessária. Nada de afastamento das responsabilidades espirituais.
Rebeca virou o rosto na direção dela.
Janis continuou:
— Se eu frequentar a célula também… resolve?
A palavra célula foi dita sem hesitação.
Moisés analisava cada micro expressão.
Ela não parecia intimidada.
Também não parecia rebelde.
Parecia estratégica.
— Você frequentaria a célula? — ele perguntou.
— Frequentaria.
— E manteria postura adequada?
— Sim.
— E não andaria com ela pela cidade?
Janis pensou meio segundo.
— Não sem autorização.
Rebeca engoliu seco.
O acordo estava sendo desenhado ali, no quintal, às sete da manhã.
Moisés olhou para a filha.
Ela não implorava.
Não chorava.
Apenas observava.
Era como se, pela primeira vez, alguém estivesse jogando por ela.
Ele voltou o olhar para Janis.
— A amizade de vocês será supervisionada.
— Tudo bem.
A resposta veio sem hesitação.
— E se eu perceber qualquer desvio, isso acaba.
— Tudo bem.
Não havia ironia.
Não havia tremor.
Moisés abriu o portão.
— Cinco minutos para saírem.
Ele voltou para dentro da casa.
Rebeca ficou parada por um segundo.
Janis inclinou levemente a cabeça.
— A gente vai estudar mais do que nunca agora.
Rebeca não respondeu.
Mas o olhar que lançou para ela não era de derrota.
Era de reconhecimento.
O jogo tinha mudado.
Elas caminharam alguns metros em silêncio.
O bairro ainda estava acordando. Uma padaria abrindo as portas. Um cachorro latindo atrás de um muro.
Janis carregava o skate debaixo do braço, como se nada tivesse acontecido.
Rebeca ainda sentia no braço o lugar onde o pai a segurara.
— O que foi aquilo? — ela perguntou, por fim.
A voz saiu mais baixa do que pretendia.
Janis deu de ombros.
— Diplomacia matinal.
Rebeca soltou um riso nervoso.
— Ele quase me puxou de volta pra dentro.
— Eu vi.
Silêncio de novo.
Elas dobraram a esquina. Só então Janis diminuiu o passo.
Apoiou o skate na parede de uma casa vazia e virou-se para Rebeca.
Sem falar nada, levou a mão direita ao dedão da mão esquerda.
Girou o anel de resina devagar. Elas sabiam que Moisés não permitiria que a filha usasse algo tão mundano. Então, Janis guardava o anel de Rebeca consigo e o devolvia quando elas se encontravam pela manhã.
A flor seca presa na transparência captou um reflexo rápido de sol.
Janis tirou o anel.
Segurou-o entre os dedos por um segundo, como quem pesa uma decisão.
Depois pegou a mão direita de Rebeca.
Colocou o anel no dedão dela.
— Que bom que você me aceita de volta todos os dias.
Rebeca olhou para a própria mão como se fosse algo recém-descoberto.
— Ainda bem que a rua é território neutro. — falou. — Em casa, nunca é.
Janis apoiou o skate novamente no ombro.
Rebeca respirou fundo.
— O que foi aquilo, Janis?
Agora a pergunta saiu inteira.
Janis inclinou levemente a cabeça, observando-a com calma.
— Seu pai acredita sabe jogar melhor do que eu.
Rebeca franziu a testa.
— Do que está falando?
— Xadrez de pastor.
Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca de Janis.
Não era arrogância.
Era cálculo.
— Vamos ver como ele se sai se eu começar a movimentar minhas peças no tabuleiro dele.
Rebeca sentiu algo entre medo e admiração.
— Você vai mesmo pra célula?
— Vou.
— E estudar lá em casa?
— Vou estudar até você cansar daquele teclado.
Rebeca balançou a cabeça.
— Ele vai ficar em cima da gente.
— Ótimo.
Janis empurrou o skate para o chão com o pé.
— Quanto mais ele olhar, menos ele vai enxergar.
Rebeca ficou parada por um segundo.
O anel no dedão parecia mais pesado do que antes.
— Você está fazendo isso por mim?
Janis subiu no skate e estendeu a mão para ela.
— Eu estou fazendo isso com você.
Rebeca segurou a mão dela.
Subiu atrás.
As mãos se encaixaram na cintura, firmes.
— E se der errado?
Janis impulsionou o skate para frente.
— A gente recalcula a rota.
O vento começou a puxar as pontas do cabelo de Rebeca para trás.
Ela olhou para o anel no próprio dedão e sorriu.
Dessa vez, era felicidade.
Não fuga.
***
Quando voltou para dentro, Moisés anunciou que haveria uma visita no almoço.
— Débora, faça um pouco mais de carne hoje. Teremos visita no almoço.
Não disse quem viria.
Quando chegou a hora da refeição, Débora se surpreendeu.
Janis estava sentada à mesa. Uniforme ainda levemente amassado da escola. Cumprimentou Débora com educação.
— Boa tarde, tia Débora.
— Boa tarde, Janis — Débora respondeu, observando mais do que falava.
Moisés entrou logo depois.
Camisa social trocada. Postura de quem ocupa o próprio território.
O almoço foi servido ao meio-dia.
A mesa estava posta com cuidado. Arroz, feijão, salada e a carne recém-preparada.
— Sentem-se.
As duas obedeceram.
Rebeca manteve as mãos sobre o colo.
Janis observava tudo com atenção tranquila.
Moisés serviu primeiro a esposa.
Depois, virou-se para Rebeca.
Colocou arroz.
Feijão.
Parou.
Passou direto pela travessa de carne.
Rebeca não disse nada.
O silêncio na mesa era espesso.
Moisés então serviu Janis.
Arroz.
Feijão.
E uma porção generosa de carne.
A diferença era visível.
Deliberada.
Rebeca sentiu o calor subir pelo pescoço.
Janis puxou o prato da mão de Moisés.
Sorriu — não com deboche.
Com clareza.
— Obrigada, pastor.
A voz saiu calma.
— Mas agora que vou me aproximar da igreja… acho que preciso expiar meus pecados junto com a Rebeca.
Um pequeno silêncio.
Janis continuou:
— Nada de carne pra mim.
Débora prendeu a respiração.
Rebeca ergueu os olhos devagar.
Moisés ficou imóvel por um segundo.
Não havia ironia no tom dela.
Não havia provocação.
Era coerência com o discurso que ele próprio usava.
Ele não poderia acusá-la de desrespeito.
Ela estava escolhendo disciplina.
Estava se alinhando.
Com a filha dele.
— Isso não é necessário — ele disse, finalmente.
— É justo — Janis respondeu, ainda serena. — Provavelmente Rebeca está sendo punida por alguma coisa que tenha feito comigo. Então, o castigo dela, pode ser para mim também.
A palavra justo ecoou de forma incômoda.
Moisés colocou o pedaço de carne de volta na assadeira.
Sem discussão.
A mesa voltou ao silêncio.
As duas comeram arroz e feijão lado a lado.
Não trocaram olhares.
Mas havia algo firme ali.
Não desafio.
Aliança.
Moisés percebeu, tarde demais, que o gesto tinha sido revertido.
O que deveria marcar diferença agora marcava união.
E ele não tinha argumento imediato para separar aquilo sem parecer arbitrário.
O almoço seguiu.
Mas a sensação era outra.
Não era mais ele contra uma filha distraída.
Era ele diante de duas meninas que aprendiam rápido demais.
***
A sala em que a Célula dos Jovens se reunia ficava nos fundos da igreja.
Cadeiras em círculo.
Uma caixa de som pequena.
Bíblia aberta sobre a mesa de plástico.
Rebeca entrou primeiro.
Não para se proteger.
Mas para anunciar presença.
Janis veio logo atrás, uniforme trocado por uma camiseta simples, o skate deixado do lado de fora.
O burburinho diminuiu meio tom.
Não silêncio total.
Mas suficiente.
Josué foi o primeiro a falar.
— Olha só quem resolveu aparecer.
O sorriso dele era cordial demais para ser espontâneo.
Rebeca sustentou o olhar.
— Eu falei que vinha.
Janis deu um passo à frente.
— Boa tarde.
Alguns responderam.
Outros apenas observaram.
Não havia hostilidade aberta.
Havia curiosidade.
E cálculo.
Uma das meninas cochichou algo no ouvido da outra.
Janis escolheu uma cadeira ao lado de Rebeca.
Não colada.
Mas próxima o suficiente.
Josué abriu a reunião com oração.
Quando pediu para que todos fechassem os olhos, Janis fechou.
Sem exagero.
Sem teatralidade.
— Hoje o violão será nosso companheiro nos louvores.
Ele pegou o instrumento, afinou rápido demais, tocou os primeiros acordes de um hino conhecido.
A execução era correta.
Mas insegura.
Janis ouviu em silêncio.
No segundo verso, ela inclinou a cabeça levemente.
Quando a música terminou, ela levantou a mão.
— Posso tentar?
O círculo reagiu com surpresa contida.
Josué hesitou.
— Você toca?
— Um pouco.
Ele entregou o violão.
Janis segurou o instrumento com naturalidade, ajustou a posição no colo e girou as tarraxas com precisão mínima.
Testou um acorde.
Depois outro.
O som saiu mais cheio.
Mais seguro.
Ela começou o mesmo hino.
Não acelerou.
Não exibiu virtuosismo.
Mas a harmonia estava limpa. A mudança de acordes suave. O ritmo firme.
Rebeca a observava sem disfarçar o orgulho.
Quando terminou, Janis não devolveu o instrumento.
— Posso puxar outro?
Josué assentiu, agora curioso.
Ela começou o segundo hino.
Depois um terceiro.
Sem partitura.
Sem consulta.
Alguns jovens começaram a cantar com mais força.
Outros apenas observavam.
O gesto não era desafio.
Era domínio.
Quando a última nota se dissolveu no ar abafado da sala, o silêncio foi diferente do anterior.
Não era desconfiança.
Era recalibração.
— Você aprendeu onde? — uma das meninas perguntou.
— Aprendi a tocar com a minha mãe. — Janis respondeu. — Ela frequentou a igreja quando era jovem e até hoje ela canta os hinos quando sente vontade.
A frase tinha peso.
Josué tentou retomar a condução da reunião.
— O importante é permanecer.
Janis pousou o violão no suporte.
— Permanecer onde?
A pergunta não tinha agressividade.
— Na fé — ele respondeu.
Ela assentiu.
— Não frequentar a igreja não é sinônimo de falta de fé.
O círculo ficou quieto.
Ela continuou, com a mesma calma:
— Às vezes é só sinônimo de não concordar com tudo.
Não havia ironia.
Não havia provocação.
Era afirmação tranquila.
Rebeca sentiu o ar mudar.
Não era rebeldia.
Era lucidez.
Josué tentou retomar o controle.
— A comunhão protege. Quando a gente se afasta, a gente se enfraquece.
Janis inclinou levemente a cabeça.
— Às vezes a gente não se afasta.
Alguns jovens trocaram olhares.
— Às vezes a gente é afastado.
O ventilador fez um ruído mais alto naquele instante, como se marcasse a pausa.
Josué franziu a testa.
— Como assim?
Janis manteve o tom neutro.
— Minha mãe não deixou de vir porque perdeu a fé.
Ninguém falou nada.
— Ela deixou de vir porque escolheu alguém que não era daqui.
O círculo ficou imóvel.
— Meu pai nunca a proibiu de continuar frequentando. Ele só não tinha o costume de ir à igreja.
Rebeca sentiu o próprio coração acelerar.
Janis continuou:
— O que afastou minha mãe foram os olhares. Os comentários. A mudança de tratamento.
Nenhum nome foi citado.
Nenhuma acusação direta.
— Chega uma hora que você percebe que está ocupando um lugar onde não é bem-vindo.
O silêncio agora era espesso.
Uma das meninas baixou os olhos.
Um dos meninos cruzou os braços.
Josué respirou fundo.
— A igreja é feita de pessoas imperfeitas.
— Eu sei — Janis respondeu. — É por isso que eu não confundo fé com instituição.
A frase caiu no centro do círculo como algo pesado e delicado ao mesmo tempo.
Rebeca não desviava os olhos dela.
Não era desafio.
Era lucidez tranquila.
Janis completou:
— Se minha mãe tivesse sido tratada com mais cuidado, talvez eu nunca tivesse saído.
Ninguém tinha resposta pronta para aquilo.
Não era ataque.
Era história.
— Minha mãe sente falta da igreja — Janis continuou. — Mas não sente falta de se sentir deslocada.
Rebeca sentiu o próprio pulso acelerar.
Janis continuou, agora com uma clareza quase dolorosa:
— E se minha mãe não tivesse ido embora… hoje eu não seria vista como problema.
O silêncio se adensou.
— E a Rebeca não estaria sendo punida por minha causa.
A frase ficou suspensa no ar.
Josué reagiu rápido demais.
— Você está enganada.
Janis inclinou a cabeça.
— Estou?
— O castigo dela não tem nada a ver com você.
Janis sustentou o olhar.
— Então o castigo dela não faz o menor sentido.
Nenhuma elevação de voz.
Nenhuma acusação direta.
Apenas lógica.
Se não é por ela, por quê?
O círculo ficou desconfortável.
Uma das meninas mexeu no celular. Um dos meninos pigarreou.
Josué abriu a Bíblia com mais força do que precisava.
— A disciplina é para crescimento espiritual.
Janis assentiu.
— Então que seja aplicada com coerência.
A palavra coerência caiu pesada.
Ela completou:
— Não frequentar a igreja não é sinônimo de falta de fé. E frequentar também não é sinônimo de justiça.
Agora o silêncio era completo.
Não havia resposta pronta.
Nem mesmo para Josué.
Estevão foi o primeiro a ter coragem de perguntar:
— E como é na sua casa?
— Minha mãe impõe regras — Janis respondeu.
— Mesmo sem igreja?
— Mesmo sem igreja.
Janis explicou:
— A diferença é que na casa as regras vêm com explicação. Minha mãe não impõe as coisas, ela negocia.
Rebeca sentiu o impacto.
Tiago arregalou os olhos.
— E você pode discordar dela?
— Posso.
— E o que acontece disso?
— A gente conversa até alguém ceder.
— Isso existe? — Ana perguntou, quase incrédula.
Risos leves.
— Lá em casa teve um escândalo semana passada.
Alguns riram baixo.
— Escândalo por quê? — perguntou Ana.
— Eu estava lendo um livro de fantasia.
— Que absurdo — Janis murmurou, sem esconder o sarcasmo.
Tiago continuou:
— Meu pai disse que era coisa do diabo. Que dragões são símbolos demoníacos. Que eu estava abrindo brecha espiritual.
— Qual livro? — perguntou Estevão.
— Eragon. Reino medieval, espada mágica, profecia… nada demais.
— Dragões são só dragões — Estevão disse. — Não são demônios disfarçados.
— Pois lá em casa quase virei herege por causa de um dragão — Tiago respondeu.
Risos mais abertos dessa vez.
Ana entrou na conversa:
— Minha mãe implicou porque eu assisti um filme de terror. Disse que eu estava “alimentando o espírito errado”.
— O meu pai confiscou um baralho comum — outro garoto disse. — Disse que carta leva à perdição.
Janis inclinou a cabeça.
— Que perigo. Um dois de copas pode destruir uma família inteira.
A gargalhada veio mais solta.
Rebeca permaneceu quieta.
Observava.
Pela primeira vez, não via aqueles meninos como fiscais da moral alheia.
Via como iguais.
Garotos tentando respirar dentro de casas pequenas demais.
Josué tentou organizar:
— Pais têm medo. Às vezes exageram por zelo.
Foi quando alguém soltou, quase sem pensar:
— E quando o zelo vira controle?
O círculo ficou em silêncio.
A pergunta não era mais sobre dragões.
Estevão olhou diretamente para Rebeca.
— De todos nós aqui… você é a mais julgada.
Um riso nervoso atravessou o grupo.
— Principalmente pela irmã Dalila — alguém completou.
Rebeca quase sorriu.
Quase.
Então veio a pergunta que mudou o ar da sala:
— É verdade que seu pai deixa você sem comer?
O ventilador pareceu mais alto.
Rebeca ergueu o rosto devagar.
Alguns olharam para o chão.
Outros olharam diretamente para ela.
— Eu como — respondeu, com uma calma que surpreendeu até ela mesma. — Só não com fartura suficiente para chamar de refeição.
Silêncio.
Pesado.
Josué empalideceu.
— Gente… talvez seja melhor encerrarmos por hoje.
Mas ninguém se levantou.
Porque naquele instante todos entenderam.
O problema nunca foi o dragão.
Nem o livro.
Nem o baralho.
Era quem puxava a corda com mais força.
Rebeca olhou ao redor do círculo.
Tiago, quase condenado por uma criatura imaginária.
Ana, policiada por medo de filme.
Estevão, vigiado por cartas de papel.
Ela, por amizade.
Era tudo o mesmo mecanismo.
E pela primeira vez, ela percebeu algo que a deslocou internamente:
Talvez tivesse passado tempo demais se defendendo.
Talvez aqueles meninos não fossem plateia.
Talvez fossem aliados.
***
A comida já estava servida quando Josué comentou:
— A Janis foi à célula hoje.
Rute levantou os olhos do prato.
— Eu sei.
— Foi diferente.
Ela o esperou continuar.
— Ela toca bem.
— Sempre tocou.
Josué mexeu no arroz com o garfo, pensativo.
— Não é só isso.
Silêncio breve.
— Ela fala com segurança demais.
Rute inclinou levemente a cabeça.
— Segurança incomoda?
— Depende do que sustenta essa segurança.
Ela pousou o garfo.
— E o que sustentava hoje?
Josué respirou fundo.
— Questionamento.
— Questionar não é errado.
— Não quando há submissão.
— Submissão a quê?
Ele levantou os olhos.
— À estrutura. À liderança. À doutrina.
Rute manteve a voz calma.
— Estruturas não deveriam temer perguntas.
Josué apoiou os cotovelos na mesa.
— Nem todo mundo está preparado para certas falas.
— Ou talvez a gente subestime as pessoas.
Ele a observou com atenção nova.
— Ela sugeriu que a mãe dela foi afastada.
Rute não demonstrou surpresa.
— Foi?
Josué hesitou.
— Houve comentários.
— Comentários podem ser afastamento.
Ele não respondeu imediatamente.
— Ela disse que, se a mãe não tivesse ido embora, hoje ela não seria vista como problema.
Rute respirou devagar.
— E está errada?
— Ela também disse que o castigo da Rebeca não faria sentido se não tivesse relação com ela.
O silêncio que se seguiu foi mais longo.
Rute voltou a pegar o garfo.
— Quando a fé é verdadeira… nada pode abalar.
Josué a encarou.
— Às vezes não é sobre abalar.
— Então é sobre o quê?
— Sobre deslocar.
Rute mastigou devagar antes de responder.
— Fé não se desloca por causa de lógica.
— Mas pessoas se deslocam.
Ela sustentou o olhar dele.
— Pessoas também se fortalecem.
Josué passou a mão no rosto.
— Eu só não quero que aquilo vire instabilidade.
— Instabilidade ou amadurecimento?
Ele não respondeu.
A pergunta ficou sobre a mesa junto com o prato quase vazio.
Depois de alguns segundos, Josué falou mais baixo:
— Você acha que ela acredita no que diz?
Rute respondeu sem hesitar.
— Acredito.
— E isso não te preocupa?
Ela pensou por um instante.
— Me preocuparia se ela falasse por raiva.
— E não foi isso que ela fez?
Rute inclinou levemente o rosto.
— Não. Ela falou por convicção.
Josué ficou em silêncio.
A conversa não era sobre Janis.
Era sobre o tipo de fé que resiste à análise.
E o tipo que se precisa evitar.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
menteincerta
Em: 15/04/2026
Rebeca ver que todos têm seus problemas com o excesso de zelo e controle que a religião traz pode ser uma maneira nova de ver as pessoas ao redor.
A segurança da Janis vai trazer problemas, tô só aguardando
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HelOliveira
Em: 10/03/2026
Uma super jogada da Janis ....mas não creio que o pastor vai deixar isso passar...vai procurar outros motivos
Elin Varen
Em: 12/03/2026
Autora da história
Você está pensando exatamente como a Janis pensaria!
O Moisés não costuma perder o controle do jogo por muito tempo…
Vamos ver qual vai ser a próxima estratégia dele.
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Elin Varen Em: 15/04/2026 Autora da história
Gostei muito da sua leitura
Acho que a Rebeca realmente começa a enxergar as pessoas de um jeito diferente quando percebe que ninguém ali é simples ou “perfeito”.
E sobre a Janis…
A segurança dela é uma força, mas como toda força, também pode trazer consequências.
Obrigada por acompanhar com esse olhar tão atento!