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Entre Votos e Silencios por anonimo2405

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Palavras: 3557
Acessos: 285   |  Postado em: 09/03/2026

Enfim 17

Casa da família Moraes — Ipiranga, 08 de fevereiro, 06h07

Valentina acordou antes do despertador.

Não foi um susto, nem um sonho ruim. Foi aquela sensação estranha de que o corpo sabia a data antes da cabeça. Como se alguma engrenagem invisível tivesse girado durante a madrugada.

Ela ficou deitada alguns segundos, olhando para o teto baixo do quarto. A pintura branca tinha pequenas manchas que ela conhecia de memória. Uma delas parecia um mapa torto, outra parecia um peixe.

Dezessete.

A palavra passou pela cabeça sem peso.

No corredor, a casa ainda dormia. O único som era o zumbido antigo da geladeira na cozinha e um carro passando devagar pela rua lá fora. O céu começava a clarear, mas ainda era um azul indeciso entre noite e manhã.

Valentina virou de lado e puxou o cobertor até o queixo.

Havia algo diferente naquele dia. Não exatamente felicidade. Também não era tristeza. Era mais como um espaço novo dentro do peito, um lugar que ainda não tinha nome.

Ela pensou em como, um ano antes, tudo parecia muito maior do que ela. O estágio, a Assembleia, os corredores enormes, as pessoas que falavam rápido demais. E, no meio de tudo aquilo, Verena.

O nome veio de repente, como vinha sempre.

Valentina fechou os olhos por um instante, respirando fundo. Já fazia tempo desde a última vez que se viram. Dias suficientes para que a rotina voltasse ao lugar. Escola, casa, igreja, as pequenas responsabilidades de sempre.

Ainda assim, havia coisas que não voltavam para o lugar de antes. Ela virou o rosto para a janela. A cortina fina deixava entrar uma faixa de luz pálida, que já desenhava o contorno do guarda-roupa e da escrivaninha.

Dezessete.

Parecia pouco para quem queria ser adulta. Parecia muito para quem lembrava da menina que era no ano anterior.

Valentina esticou o braço até o celular sobre a mesa de cabeceira. A tela acendeu devagar. Algumas notificações de amigas da escola. Um grupo da igreja. Uma mensagem de Carol enviada às duas da manhã:

“Feliz aniversário, sua velha. Sobreviveu a mais um ano.”

Valentina sorriu de leve. Mas não abriu mais nada. Ficou ali, com o telefone na mão, observando o próprio reflexo apagado na tela escura, enquanto a casa continuava quieta. Por um segundo muito breve, pensou em quantas pessoas no mundo sabiam que aquele era o dia dela.

E, sem querer, o pensamento escorregou para um lugar perigoso.

Será que Verena lembraria?

Valentina bloqueou o celular e o colocou de volta na mesa. A casa começava a acordar agora. O som de passos leves no quarto ao lado, a torneira da cozinha abrindo, alguém tossindo no corredor. Ela se sentou na cama, puxando o cabelo para trás.

Dezessete anos.

Apoiou os pés no chão frio e ficou sentada na beirada da cama por alguns segundos. Ela abriu a gaveta pequena do criado mudo. Lá dentro havia algumas coisas simples: um elástico de cabelo, um marca-texto, um versículo dobrado num papel pequeno.

Pegou o papel.

Era antigo. As dobras já estavam gastas.

Ela abriu devagar.

"Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e o mais ele fará."

Valentina leu em silêncio.

Depois fechou os olhos por um instante e apoiou o papel contra o peito, como fazia desde criança sempre que começava um novo ano da vida. Não era exatamente uma oração. Era mais um pedido sem palavras. Quando abriu os olhos novamente, respirou fundo.

— Dezessete… — murmurou para si mesma.

Guardou o papel na gaveta outra vez. Mas ficou ali alguns segundos a mais. Porque, no fundo, havia um pedido que ela não sabia se tinha coragem de fazer em voz alta.

Casa da família Moraes — Ipiranga, 08 de fevereiro — 11h38

O cheiro de alho dourando no óleo já tomava conta da casa inteira.

Na cozinha pequena, Ana Paula mexia a panela com uma colher de madeira, soprando uma mecha de cabelo que insistia em cair sobre o rosto. O feijão borbulhava devagar no fundo do fogão, enquanto uma travessa de frango assado descansava sobre a mesa coberta por uma toalha de plástico estampada com flores já meio apagadas pelo tempo.

— Isa, pega os copos ali no armário de cima pra mim. — Pediu ela, sem olhar.

Isadora, já descalça, subiu na ponta dos pés para alcançar.

— Quantos?

— Uns oito. Sua tia Márcia já falou que tá chegando.

Na sala, Carlos terminava de arrastar a mesa um pouco mais para o lado para caber mais duas cadeiras. O pé da mesa raspou no piso com um rangido.

— Essa mesa diminuiu ou foi a família que aumentou? — resmungou, meio rindo.

— A família. — respondeu Ana Paula da cozinha. — E você que não quis comprar outra até hoje.

— Essa aqui ainda aguenta. — retrucou ele, dando dois tapinhas na madeira como quem elogia um cavalo velho.

No quarto, Valentina terminava de prender o cabelo num rabo de cavalo baixo diante do espelho pequeno pendurado na parede. A luz da janela caía de lado sobre o próprio rosto.

Dezessete.

Ainda parecia uma palavra meio estranha dentro da cabeça. Ela olhou para si mesma alguns segundos. A mesma menina de sempre. A mesma camiseta clara, o mesmo jeans simples.

Mas alguma coisa nela parecia diferente naquele dia.

— Val! — a voz de Isadora ecoou da sala. — A Carol chegou!

Valentina piscou algumas vezes e saiu do quarto. A amiga já estava encostada no batente da porta da sala, segurando um pacote embrulhado em papel azul meio amassado.

— Parabéns, idosa. — disse, abrindo um sorriso largo.

Valentina riu, abraçando a amiga.

— Obrigada.

— Dezessete já… — Carol analisou ela de cima a baixo. — Tá ficando adulta, hein.

— Nem começa.

— Eu trouxe presente. — disse Carol, estendendo o pacote. — Não é caro, mas é de coração.

— Carol…

— Abre depois, senão sua mãe vai falar que a comida vai esfriar.

Como se tivesse sido convocada pelo comentário, Ana Paula apareceu na porta da cozinha enxugando as mãos no pano.

— Carol! Que bom que você veio.

— Tia Ana! — Carol abriu os braços. — Vim ajudar a comer.

— Então chegou na hora certa.

Carlos apareceu logo atrás.

— Parabéns, filha.

Ele não era de gestos muito grandes, mas abraçou a filha com força, dando um beijo rápido na testa dela.

— Dezessete já… — comentou, como se ainda estivesse se acostumando à ideia.

— Pois é. — Respondeu ela, sorrindo de leve.

Aos poucos, a casa foi enchendo.

A tia Márcia chegou falando alto desde o portão, trazendo um refrigerante de dois litros e um bolo simples de padaria. Um primo pequeno corria pela sala com um carrinho de plástico, enquanto Isadora narrava tudo como se fosse uma repórter.

— Esse é o aniversário da minha irmã, ela tá ficando velha!

— Isa… — Valentina chamou, rindo.

A mesa logo ficou cheia. Arroz branco soltinho, feijão, o frango assado que Ana Paula havia preparado desde cedo, uma salada simples de tomate e alface.

Nada luxuoso.

Mas tudo feito com aquele cuidado silencioso que só existe em casas assim. Durante o almoço, a conversa corria solta.

— E a escola? — perguntou a tia Márcia.

— Tá indo bem. — respondeu a aniversariante.

— Já pensou no vestibular?

— Tô vendo ainda.

— Ela vai ser médica. — Disse Isadora com convicção.

— Médica? — Carlos ergueu as sobrancelhas.

— Ou politica — completou a menina. — Igual aquela deputada que ela conheceu.

Valentina sentiu o estômago dar uma pequena contração. Carol chutou de leve a perna dela por baixo da mesa.

— Isa, deixa a menina escolher. — disse Carol rapidamente.

— Eu só falei.

Valentina pegou o copo de água e tomou um gole devagar. A conversa seguiu. Mas por um segundo muito breve, o nome de Verena tinha passado pela mesa como um vento frio. Depois do almoço, Ana Paula trouxe o bolo. Pequeno, coberto com uma camada fina de chocolate.

Dezessete velinhas coloridas tortas espetadas no meio.

— Vai, assopra logo antes que derreta tudo — Carlos orientou dando risada.

Todos começaram a cantar.

— Parabéns pra você…

Valentina sorriu.

Olhou para cada um ali.

A mãe.

O pai.

Isadora cantando alto demais.

Carol batendo palmas fora do ritmo.

Aquela casa simples. Aquela mesa apertada.

Era a vida dela.

Ela fechou os olhos por um segundo antes de apagar as velas. E, sem saber exatamente porquê, um pensamento atravessou sua mente no meio do coro desafinado:

"Que Deus tire de mim o que não for certo."

As velas se apagaram e a fumaça subiu fina no ar da sala.

Igreja Batista Esperança Viva — Ipiranga, 08 de fevereiro — 19h12

A igreja já estava quase cheia quando Valentina e a família entraram.

O salão era simples, paredes claras, cadeiras de plástico alinhadas em fileiras longas. No púlpito de madeira clara, um arranjo de flores artificiais tentava dar cor ao ambiente. As caixas de som já soltavam uma música instrumental baixa enquanto as pessoas se acomodavam.

— Boa noite, irmã Ana! — cumprimentou uma mulher de vestido florido quando Ana Paula passou.

— Boa noite, Marta.

Carlos seguiu na frente procurando lugares. Isadora vinha pulando um degrau imaginário a cada dois passos, até a mãe segurar levemente o braço dela.

— Isa, comportamento.

— Tô andando normal.

Helana, uma moça do grupo de jovens, já estava sentada duas fileiras mais à frente e acenou quando viu Valentina.

— Aqui! — sussurrou.

Valentina passou pelas pessoas com aquele sorriso educado que aprendeu desde pequena.

— Boa noite…
— A paz do Senhor…
— Deus abençoe…

Sentou ao lado da colega, que se inclinou imediatamente.

— Feliz aniversário Valen! — cochichou.

— Obrigada.

— Seu presente tá separado lá em casa viu.

Valentina riu baixo. As luzes diminuíram um pouco quando o grupo de louvor subiu ao palco. O teclado começou primeiro, suave. Depois o violão.

A igreja inteira se levantou.

— Vamos louvar ao Senhor nesta noite. — Disse o líder do louvor ao microfone.

As primeiras músicas eram conhecidas. Quase todos cantavam de olhos fechados, algumas mãos levantadas. Valentina cantava também. Mas naquele dia, a voz saiu mais baixa.

De vez em quando ela olhava para frente sem realmente enxergar nada. A mente parecia distraída, vagando por pensamentos que ela evitava encarar diretamente. Helana percebeu.

— Tá tudo bem? — Murmurou.

— Tá.

A jovem não insistiu.

Depois de três músicas, o pastor se aproximou do púlpito. Era um homem de uns cinquenta anos, cabelo grisalho nas laterais e uma voz calma, mas firme.

— Boa noite, igreja.

— Boa noite. — Respondeu o salão quase em coro.

Ele abriu a Bíblia sobre o púlpito e passou os dedos pelas páginas.

— Hoje eu quero conversar com vocês sobre algo que todos nós enfrentamos em algum momento da vida.

Valentina apoiou os braços no colo.

O pastor continuou:

— O coração humano.

Algumas pessoas assentiram.

— A Bíblia diz em Jeremias que o coração é enganoso. Mais do que todas as coisas.

Ele levantou os olhos para a igreja.

— E isso significa que nem tudo que sentimos… vem de Deus.

Valentina piscou.

num gesto quase automático. O pastor caminhou devagar pelo pequeno espaço do púlpito.

— Existem desejos que parecem amor… — continuou. — desejos que parecem destino… desejos que parecem inevitáveis.

Algumas pessoas murmuraram um “amém”.

— Mas nem tudo que o coração deseja é o que Deus planejou para nós.

Valentina sentiu o estômago apertar. Sem perceber, ela entrelaçou os dedos com força sobre o colo. O pastor virou uma página da Bíblia.

— Às vezes Deus permite que a gente sinta certas coisas… não para vivê-las, mas para aprender a renunciar.

A palavra ficou ecoando na cabeça dela.

Renunciar.

Valentina baixou o olhar.

"...não para vivê-las..."

A voz do homem continuava.

— Existem caminhos que parecem certos aos nossos olhos. Caminhos que o coração insiste em seguir. Mas a Palavra diz que o fim deles pode ser destruição.

Ela tentou prestar atenção.

Mas as frases começaram a chegar em pedaços.

"...desejos que afastam..."
"...prova de fé..."
"...nem tudo que parece amor é amor verdadeiro..."

Valentina sentiu o calor subir pelo rosto. O salão parecia menor de repente. Ela olhou discretamente ao redor. As pessoas escutavam normalmente. Algumas até anotavam em cadernos.

Mas dentro dela, parecia que alguém tinha aberto uma porta que ela vinha mantendo fechada havia muito tempo. A voz do pastor ficou mais firme.

— Jovens principalmente precisam entender isso.

O coração de Valentina bateu mais forte.

— O mundo diz que devemos seguir o coração. Mas a Bíblia diz algo diferente.

Ele ergueu a mão levemente.

— O coração precisa ser guiado por Deus. Porque sozinho ele pode nos levar para lugares que nunca deveríamos ir.

Valentina sentiu os olhos arderem. Piscou rápido.

A amiga olhou de lado.

— Val?

Valentina balançou a cabeça de leve, sem encarar. O pastor continuava.

— Às vezes a prova de maturidade espiritual é simples… — disse ele. — É olhar para um desejo dentro de nós e dizer: isso não me pertence.

A frase caiu dentro dela como uma pedra. Valentina respirou fundo. Mas o ar parecia não entrar direito.

"...isso não me pertence."

A garganta apertou. Ela apertou ainda mais os dedos entrelaçados. A voz do pastor ficou mais suave agora.

— O Senhor não nos chama para viver qualquer sentimento. Ele nos chama para viver aquilo que é santo.

Uma lágrima escapou antes que ela percebesse. Valentina abaixou a cabeça rapidamente. Helana tocou o braço dela.

— Ei…

Valentina se levantou.

— Eu já volto. — Murmurou, quase sem voz.

Saiu da fileira com cuidado para não chamar atenção. Caminhou pelo corredor lateral enquanto o sermão continuava ao fundo, abafado pelos alto-falantes. Entrou no banheiro feminino.

A luz branca refletiu no espelho grande. Ela parou diante da pia, apoiando as duas mãos no mármore frio. Respirou fundo. Mas os olhos já estavam cheios. Valentina abaixou a cabeça.

Uma lágrima caiu na pia.

Depois outra.

Ela fechou os olhos com força.

— Deus… — sussurrou, quase sem som.

A voz falhou.

— Me perdoa.

O banheiro ficou em silêncio. Mas dentro dela, o conflito parecia mais alto do que nunca. Porque no fundo, muito no fundo, o pedido que o coração queria fazer, era outro, completamente diferente. E esse… ela não tinha coragem de dizer. 

Igreja Batista Esperança Viva — Ipiranga, 08 de fevereiro — 19h41

Valentina demorou alguns segundos antes de abrir a porta do banheiro.

O barulho do culto voltou a invadir o corredor imediatamente — a voz do pastor ecoando pelas caixas de som, um leve rangido das cadeiras quando alguém se mexia, o choro abafado de um bebê em algum lugar do salão.

Ela respirou fundo.

Passou a mão rapidamente sob os olhos, conferindo no espelho ao lado da porta se o rosto ainda denunciava alguma coisa. Os olhos estavam um pouco vermelhos. Mas dava para disfarçar.

Valentina saiu para o corredor lateral, caminhando devagar para não chamar atenção. A porta do templo estava entreaberta, deixando escapar a luz quente do salão e a voz firme do pastor.

— …porque nem tudo que parece amor, irmãos… é aquilo que Deus separou para nós.

Ela parou por um segundo. A frase atravessou o ar como uma agulha fina. Valentina baixou o olhar e entrou. O culto continuava como se nada tivesse acontecido. As pessoas sentadas, algumas inclinadas sobre a Bíblia, outras ouvindo com atenção.

A amiga foi a primeira a notar quando ela voltou.

Levantou os olhos rapidamente. Valentina apenas fez um gesto pequeno com a cabeça, quase imperceptível, como quem diz tá tudo bem.

A moça não insistiu.

Valentina passou pela fileira devagar e voltou ao lugar entre a amiga e Isadora. Sentou. As mãos foram imediatamente para o colo, dedos entrelaçados, como se precisassem ocupar algum lugar.

O pastor continuava falando.

— Às vezes Deus permite que certos sentimentos apareçam dentro de nós… não para que a gente os viva, mas para que a gente aprenda a entregá-los.

Valentina manteve os olhos fixos no chão. Ela tentou ouvir. Tentou entender. Mas as palavras chegavam fragmentadas.

"...entregar..."
"...confiar..."
"...renunciar..."

Ao seu lado, Isadora mexia distraída na barra do vestido. Depois de alguns segundos, a menina virou um pouco o corpo na direção da irmã.

Observou.

Valentina não percebeu de imediato. Isadora inclinou a cabeça. Olhou melhor. Então, com cuidado, esticou a mão pequena e segurou a mão da irmã. Valentina sentiu o toque e levantou o olhar. Isadora estava olhando diretamente para ela.

— Val… — sussurrou.

Valentina piscou.

— Oi?

A menina aproximou um pouco mais o rosto, como se compartilhassem um segredo.

— Você tá chorando?

Valentina respondeu rápido demais.

— Não. Tá tudo bem.

Isadora franziu levemente a testa, sem parecer convencida. Ficou olhando alguns segundos. Depois apertou um pouco mais a mão da irmã.

— Quando eu fico triste… — disse baixinho — eu peço pra Deus ajudar.

Valentina sentiu algo apertar no peito de novo. Forte. Aquela frase tão simples. Tão limpa. Engoliu em seco.

— Eu sei. Obrigada Isa. — respondeu, quase num sussurro.

Isadora deu um pequeno sorriso satisfeito, como quem resolveu o problema. Depois voltou a olhar para frente, prestando atenção no pastor como se nada tivesse acontecido. Mas Valentina permaneceu imóvel.

A mão da irmã ainda presa na dela. Os olhos fixos em algum ponto do chão. Porque, no fundo, muito no fundo… tinha acabado de pedir à Ele alguma coisa no banheiro. E agora, não sabia mais se estava pedindo perdão… ou ajuda para continuar sentindo.

Casa da família Moraes — Ipiranga, 08 de fevereiro — 21h03

O portão rangeu baixo quando Carlos empurrou. A rua estava tranquila, iluminada apenas pelos postes amarelados e pelo som distante de um cachorro latindo. Isadora entrou primeiro, já tirando o sapato no meio da sala.

— Mãe, posso pegar bolo?

— Amanhã — respondeu Ana Paula, fechando a porta. — Já tá tarde.

— Mas é aniversário da Val!

— Amanhã continua sendo — disse Carlos, rindo.

Valentina entrou por último. Fechou o portão devagar. O ar da noite estava fresco, e por um momento ela ficou parada no quintal olhando o céu escuro acima das casas do bairro. O sermão ainda ecoava dentro dela.

"Nem tudo que o coração deseja vem de Deus."

Ela respirou fundo e entrou. A rotina da casa começou a se dissolver no silêncio de domingo à noite. Ana Paula foi para a cozinha guardar as últimas coisas. Carlos ligou a televisão por hábito, mas o volume baixo indicava que ele também já estava cansado. Isadora desapareceu no quarto.

Valentina caminhou logo atrás. Quando abriu a porta, encontrou Isadora já deitada.

A menina estava atravessada na cama, metade do corpo coberto pelo lençol fino, o cabelo escuro espalhado pelo travesseiro como se tivesse caído no sono no meio de um pensamento.

A luz do corredor ainda entrava pela porta entreaberta.

— Val? — murmurou Isadora, com a voz pesada de sono.

Valentina entrou devagar.

— Oi.

— Você ainda tá triste?

— Não, Isa.

A menina abriu os olhos só um pouco.

— Mesmo?

Valentina demorou um segundo para responder.

— Mesmo.

Isadora pareceu satisfeita com a resposta. Virou para o lado e puxou o lençol até o queixo.

— Feliz aniversário de novo… — disse quase dormindo.

Valentina sorriu de leve.

— Obrigada.

Ela fechou a porta com cuidado para não fazer barulho.

A única luz agora vinha do abajur pequeno na mesinha entre as duas camas. Valentina desligou e o quarto mergulhou numa penumbra azulada que entrava pela janela.

Ela sentou na própria cama. Por alguns segundos ficou apenas ouvindo o som suave da respiração da irmã. A casa inteira parecia ter desacelerado. O pai provavelmente já tinha desligado a televisão. A mãe arrumava alguma coisa na cozinha.

Valentina pegou o celular.

A tela iluminou seu rosto na escuridão. Notificações. Mensagens de amigas da escola. Figurinhas de aniversário. Um áudio da Carol. Ela abriu o WhatsApp. Rolou as conversas devagar. Sabendo exatamente o que procurava.

Verena.

Valentina abriu a conversa antiga mesmo assim. A tela mostrou mensagens de dias atrás. Ela passou o dedo pela tela devagar. Talvez fosse bobagem esperar. Ela não tinha postado nada. Verena podia nem saber que era hoje.

Mesmo assim… alguma parte dela tinha esperado.

A frase do pastor voltou à cabeça.

"Nem tudo que o coração deseja vem de Deus."

Valentina bloqueou o celular. Deixou o aparelho sobre o colchão. Ficou olhando para o teto escuro. Mas o silêncio do quarto parecia sufocante demais. Ela pegou o celular de novo. A tela acendeu. O nome de Verena continuava ali.

Por um segundo muito breve, o polegar parou sobre o campo de mensagem. Ela imaginou escrever algo simples.

"Oi."

Nada mais. Só isso. Mas não escreveu. Porque, na cama do outro lado do quarto, Isadora se mexeu e soltou um pequeno suspiro de sono. Valentina olhou para ela. A irmã dormia tranquila. Sem conflitos. Sem perguntas difíceis. Ela voltou os olhos para a tela iluminada. E ficou ali. Entre o silêncio do quarto… as palavras do pastor ecoando na memória… e aquela esperança teimosa de uma menina de dezessete anos, que ainda insistia em perguntar, bem baixinho dentro dela:

 

"Será que ela esqueceu?"

Fim do capítulo

Notas finais:

Oiee!

Boa tarde pessoal!

Até breve! :) S2

 


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Comentários para 43 - Enfim 17:
Zanja45
Zanja45

Em: 09/03/2026

A chegada aos 17 anos significa que ela está no periodo de transição agora, pois é o limiar para que ela atinja a maioridade. Significa que ela vai ter que assumir mais responsabilidades, porque vai escolher que carreira ela vai seguir, se dedicar mais aos estudos se ela for prestar vestibular. No entanto há ainda essa paixão por Verena que ninguem sabe no que irá resultar e como influenciará  o futuro de Valentina.

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Zanja45
Zanja45

Em: 09/03/2026

Qual profissão Valentina irá seguir? Médica ou Politica igual a Deputada? KKKK! Isadora está interada com as coisas. — Deixou a irmã sem ação.


anonimo2405

anonimo2405 Em: 15/03/2026 Autora da história
Kkkkkkkk olha, eu já imagino rsrs, mas sem spoiler


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Zanja45
Zanja45

Em: 09/03/2026

o sermão do pastor serviu para que Valentina fizesse uma reflexão sobre os sentimentos dela em relação a Verena. Quando ele mostra através da frase, quando diz "nem tudo que o coração deseja vem de Deus". Acrescentaria aí, porém vem dos anseios da alma que deseja experimentar, ter certas vivências. — E Valentina está bem nessa fase.


anonimo2405

anonimo2405 Em: 15/03/2026 Autora da história
Gostei do seu ponto de vista. E olha, eu entendo bem o que a Valentina tá passando. Bem até demais rsrs. E não é nada fácil.


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Zanja45
Zanja45

Em: 09/03/2026

oi, boa noite!

Eis a questão, " Será que ela esqueceu?". Ela está tão envolvida com o processo de inseminação,mas não acredito que ela vai esquecer tão facilmente a Valentina não. 


anonimo2405

anonimo2405 Em: 15/03/2026 Autora da história
Acho mais fácil a Rafaela começar um namoro sério do que a Verena esquecer a Valentina rsrs


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