Olá pessoal! Como vcs estão? Espero que bem.
Bom, não vou me aongar muito rsrs, e novamente, perdão pelo tempo gigantesco sem atualzação. Espero que gostem.
O Primeiro Passo
O silêncio durou pouco demais para alguém como o Léo.
Ele ficou alguns segundos encarando Valentina, depois olhou para o pastel abandonado, depois para a feira inteira, como se esperasse que alguém surgisse dizendo que aquilo era pegadinha.
— Tá. — disse por fim, soltando o ar de uma vez. — Tá. Ok. Certo. Deputada. Beijo. — Ele passou a mão pelo cabelo, rindo sem humor. — Meu cérebro pediu cinco minutos, mas eu vou ignorar.
Valentina afundou um pouco mais no banco.
— Léo, eu sabia que você ia reagir assim…
— Assim como? — ele interrompeu, rápido. — Eu tô calmo. Extremamente calmo. — Apontou para si mesmo. — Veja bem: não gritei, não caí pra trás, não derrubei o caldo de cana. Isso aqui é autocontrole.
Ela cobriu metade do rosto com a mão.
— Por favor…
— Não, não, deixa eu só organizar as informações. — Ele começou a contar nos dedos. — Um: mulher. Dois: mais velha. Três: casada. Quatro: deputada estadual. Cinco: sua ex-chefe. — Fez uma pausa dramática. — Seis: gostosa.
— LÉO! — Valentina sibilou, quase morrendo ali mesmo.
Ele riu, levantando as mãos em rendição.
— Desculpa. Reflexo nervoso.
Ela respirou fundo, tentando não rir, tentando não chorar, tentando não desaparecer.
— Eu tô falando sério.
— Eu sei. — Ele respondeu, mais baixo, sincero. — Dá pra ver pela sua cara de quem acabou de confessar um crime internacional.
Valentina fechou os olhos por um instante.
— Eu não devia ter falado.
— Devia sim. — Léo respondeu na hora. — Se você guardasse isso mais tempo, você ia explodir no meio do metrô e virar notícia do Datena.
Ela soltou um riso curto, involuntário, e se odiou por isso.
— Não tem graça.
— Tem um pouquinho. — Ele inclinou a cabeça. — Mas calma. Eu não tô te julgando. Tô só… processando.
Ele se recostou no banco, cruzou os braços e ficou olhando para o nada por dois segundos. Então voltou.
— Tá, agora vem a parte que vai te deixar com vergonha.
Valentina abriu um olho só.
— Léo…
— Eu sabia.
Ela arregalou os olhos.
— Sabia o quê?
— Que você gostava dela. — disse, simples. — Desde o começo.
— Não sabia, não! — Valentina protestou, o rosto já pegando fogo. — Ninguém sabia!
— Valentina… — Ele se inclinou para frente, sério demais para estar brincando. — Você ficava vermelha só de falar o nome dela. Vermelha. Do tipo tomate italiano.
Ela puxou o ar, indignada.
— Eu sou tímida!
— Você parecia apaixonada. — Ele corrigiu. — É diferente.
Valentina tapou o rosto inteiro agora.
— Meu Deus, que humilhação.
— E não para por aí. — Léo continuou, incapaz de segurar o sorriso. — Porque a Verena também não disfarçava.
Valentina congelou.
— Como assim?
— Amiga… — Ele fez um gesto vago com a mão. — Aquela mulher olhava pra você como se só existisse você no mundo.
— Não olhava, não.
— Olhava sim. — Ele afirmou. — Eu vi. No estágio, nas reuniões, nos eventos. Toda vez que você entrava numa sala, ela ficava meio… — procurou a palavra — desalinhada.
Valentina sentiu o coração errar o compasso.
— Você tá inventando isso pra me zoar.
— Eu jamais inventaria algo tão sério. — Ele colocou a mão no peito. — Aquilo ali era tensão pura. Só faltava trilha sonora.
Ela balançou a cabeça, desnorteada.
— Não faz isso comigo.
— Tô fazendo sim. — Ele sorriu, provocador. — Porque agora eu quero saber tudo.
— Não. — Valentina respondeu na mesma hora.
— Como não? — Ele arregalou os olhos. — Você joga essa bomba na mesa, quase me mata do coração, e agora quer guardar os detalhes?
— Eu não vou contar. — Ela cruzou os braços, defensiva.
— Vai. — Ele respondeu, tranquilo demais. — Você já começou.
Ela ficou em silêncio, mordendo o lábio, lutando contra a vontade absurda de falar.
— Onde foi? — Léo perguntou, baixinho, cúmplice. — Não precisa nem ser tudo. Só… o contexto.
— Léo…
— Estacionamento? — Ele arriscou. — Evento? Lugar chique? Ou lugar totalmente impróprio, que é a cara de vocês?
Valentina afundou no banco.
— Eu odeio você.
— Mas vai contar. — Ele sorriu. — Porque se você não contar, eu vou criar versões muito piores na minha cabeça.
Ela respirou fundo, derrotada.
— Você promete que não vai rir?
— Prometo rir por dentro. — Ele piscou. — Por fora, respeito total.
Valentina olhou para a feira, para o pastel frio, para a vida acontecendo normalmente ao redor. E percebeu, com um misto de desespero e alívio, que tinha aberto uma porta que não dava mais pra fechar.
— Foi num evento… — começou, baixinho.
Léo arregalou os olhos, triunfante.
— EU SABIA.
— Cala a boca! — ela riu, empurrando ele de leve, completamente sem graça.
Feira livre da Rua do Carmo – Centro de São Paulo, 14h36Léo franziu a testa.
— Evento tipo… institucional?
Ela assentiu, já arrependida de ter aberto a boca.
— Eu esqueci uma garrafinha. — explicou rápido, atropelando as palavras. — Voltei pra procurar e… ela tava lá.
— Claro que tava. — ele murmurou. — Verena não perde tempo.
Valentina fechou os olhos por um segundo.
— Léo, por favor…
— Tá, tá. — Ele fez um gesto de calma exagerado. — Continua. Evento. Garrafinha. Encontro cinematográfico.
Ela respirou fundo, sentindo o rosto inteiro pegar fogo.
— A gente começou a conversar. — disse, olhando para a mesa. — Nada demais. Só… ficou estranho.
— Estranho como? — ele perguntou, já se inclinando pra frente.
— Estranho de… silêncio. — Valentina respondeu. — Aqueles silêncios que não são silêncio.
Léo arregalou os olhos, deliciado.
— Meu Deus, isso é melhor do que série.
— Não é engraçado.
— Não, é maravilhoso. — ele corrigiu. — E aí?
Ela engoliu seco.
— Aí ela me beijou.
Léo levou a mão ao peito.
— Ela te beijou.
— Sim.
— Tipo… — ele baixou a voz, mas nem tanto quanto achava que estava baixando — beijo beijo?
Valentina arregalou os olhos e olhou em volta num pânico imediato.
— Léo! Fala baixo!
— Amiga, a feira inteira já sabe do financeiro cantando Evidências. — Ele sussurrou mais ou menos. — Isso aqui é fichinha. Agora responde.
Ela passou a mão pelo rosto, derrotada.
— Foi beijo. Quer dizer, um selinho… eu acho.
— Com língua? — ele disparou, sem filtro nenhum.
Valentina sentiu um calor subir pelo corpo inteiro, como se fosse mesmo desmaiar.
— PELO AMOR DE DEUS! — sibilou. — Você quer que eu morra aqui?
Ele riu, levando a mão à boca, tentando conter.
— Desculpa, desculpa. — respirou fundo. — Mas eu preciso de parâmetros narrativos.
— Você é impossível.
— E você tá corada igual quando falou o nome dela pela primeira vez. — Ele apontou. — O que já responde a pergunta.
Valentina afundou no banco, cobrindo o rosto com as duas mãos.
— Eu vou embora.
— Não vai. — Léo respondeu, tranquilo demais. — Você acabou de me contar que beijou uma deputada num evento por causa de uma garrafinha esquecida. Isso cria vínculo.
Ela espiou entre os dedos.
— Léo, por favor, ninguém pode saber disso.
O sorriso dele suavizou um pouco.
— Eu sei. — disse. — E eu não vou contar. Mas agora você entende por que eu sempre soube, né?
Valentina suspirou, cansada.
— Sabia o quê?
— Que você gostava da fruta. — Ele deu de ombros. — E que ela também não ajudava em nada.
— Ela ajudava sim. — Valentina retrucou, automática. — Ela tentava ser profissional.
Léo fez uma careta.
— Tentava. — concordou. — Mas falhava bonito quando você aparecia.
O coração de Valentina bateu mais rápido.
— Você não pode saber disso.
— Eu sei porque eu observo. — Ele sorriu. — E porque tensão romântica é meu sexto sentido.
Ela balançou a cabeça, meio rindo, meio em pânico.
— Isso foi só um beijo. — disse, rápido demais. — Só isso.
Léo arqueou a sobrancelha.
— Só?
— Só. — ela repetiu, mas a palavra não saiu tão convincente.
Ele inclinou a cabeça, desconfiado, mas resolveu não avançar. Ainda.
— Tá. — disse. — Um beijo. A gente vai fingir que é só isso por enquanto.
Valentina soltou o ar, aliviada demais.
— Obrigada.
— De nada. — Ele sorriu de canto. — Mas aviso logo: eu ainda vou querer saber o resto da história.
Ela arregalou os olhos.
— Que resto?
— Valentina… — Ele se levantou, pegando a sacola. — Histórias assim nunca param no primeiro beijo.
Ela ficou sentada por um segundo, o coração disparado, sabendo exatamente do que ele estava falando. E odiando o quanto ele estava certo.
Centro de São Paulo — Caminho para a Estação São Bento, 15h11Valentina se levantou rápido demais, como se a feira tivesse lembrado de repente que ela tinha horário. Dobrou o guardanapo, empurrou o resto do pastel para o canto da mesa e já estava de pé antes mesmo de Léo terminar de beber o caldo de cana.
— A gente precisa ir — disse, ajeitando a mochila no ombro. — Eu tenho que chegar em casa antes de escurecer.
— Olha ela. — Léo provocou, levantando-se com calma excessiva. — A cidadã exemplar. A filha modelo. A garota do “volto antes das seis”.
— Não começa. — ela pediu, já andando.
Eles seguiram pelo meio da feira, desviando de pessoas, caixas, carrinhos. Valentina mantinha os olhos baixos, o passo rápido, como se quisesse atravessar o centro sem deixar rastros. Léo vinha ao lado, tranquilo demais para alguém que acabara de receber uma confissão daquela magnitude.
— Eu ainda tô tentando processar. — ele disse, do nada, alto demais para o gosto dela.
Valentina parou no meio da calçada.
— Léo. — sibilou. — Pelo amor de Deus.
— Calma, calma. — Ele baixou a voz só um pouco. — Mas vamos combinar uma coisa?
— Não.
— Você não pode simplesmente jogar isso no meu colo e esperar que eu finja normalidade.
Ela voltou a andar, quase arrastando ele junto.
— Finge. Por mim.
— Não consigo. — Ele fez uma pausa dramática. — Porque, assim… você.
Ela fechou os olhos por um segundo, já antecipando.
— Eu o quê?
— Você toda… — ele fez um gesto vago com a mão, apontando para ela de cima a baixo — certinha. Quietinha. Santinha.
— Eu não sou santinha — retrucou, automática.
— É, agora a gente sabe. — Ele sorriu, maldoso. — Mas eu ainda tô em choque que você pegou ela.
Valentina sentiu o rosto queimar.
— Léo, para de falar assim!
— Assim como? — Ele fingiu inocência. — Beijar. Pegar. Trocar saliva. Tudo sinônimo.
Ela olhou em volta, apavorada, certa de que alguém estava ouvindo.
— Você quer falar mais baixo?!
— Tô falando baixo. — Ele cochichou, que para ele ainda era alto. — Agora me responde uma coisa importantíssima.
— Não.
— Ela beija bem?
Valentina tropeçou no próprio passo.
— EU VOU TE MATAR.
— Então beija bem. — ele concluiu, satisfeito. — Anotado.
— LÉO! — Ela parou de novo, puxando o braço dele. — Você tá falando isso no meio da rua!
— Amiga, o centro de São Paulo já viu coisas muito piores. — Ele deu de ombros. — Mas tá, vou respeitar.
Respeitou por exatos cinco passos.
— Agora… — continuou, com um sorriso absolutamente indecente — se a deputada desse bola pra mim, meu amor, eu ficava com a boca dormente.
Valentina arregalou os olhos, horrorizada.
— NÃO FALA ISSO!
— O quê? Dormente? — Ele fez um biquinho exagerado. — Isso aqui é elogio técnico.
Ela levou a mão ao rosto, andando mais rápido.
— Você é um desastre ambulante.
— Um desastre sincero. — Ele corrigiu. — E convenhamos: ela é um desastre bonito.
Valentina mordeu o lábio, tentando ignorar a imagem que o comentário trazia à cabeça. Não precisava disso. Não ali. Não agora.
— Você não pode falar da Verena assim. — ela disse, mais séria.
Léo percebeu o tom na hora. Levantou as mãos, rendido.
— Tá. — disse, mais baixo de verdade. — Desculpa. Eu passo do ponto.
Ela respirou fundo, aliviada por pelo menos aquilo.
— Obrigada.
Eles caminharam mais alguns metros em silêncio, até a entrada da estação aparecer à frente, engolindo gente sem parar.
— Mas só pra constar. — Léo acrescentou, já sorrindo de novo, incapaz de ficar sério por muito tempo — eu ainda não acredito que você beijou uma deputada e depois voltou pra casa como se tivesse ido comprar pão.
Valentina suspirou, exausta.
— Eu não voltei normal.
— Não. — Ele concordou. — Mas sobreviveu.
Ela olhou para as escadas do metrô, sentindo o peso do dia inteiro finalmente cair nos ombros.
— Léo…
— Oi.
— Obrigada por… — hesitou. — Por não me tratar como se eu fosse um ET.
Ele deu um meio sorriso, sincero.
— Você não é ET nenhum. — disse. — Só tá apaixonada.
Valentina engoliu seco.
— Pois é.
Eles desceram juntos em direção às catracas, o barulho da cidade ficando para trás. E, mesmo com o coração acelerado e a cabeça cheia, Valentina sentia algo novo ali, entre o constrangimento e o riso: ela agora tinha com quem desabafar.
Escritório de Silvia Alencar — Centro de São Paulo, 09h28Léo chegou dez minutos antes. Cedo demais para alguém que normalmente entrava nos lugares no último segundo possível. Sentou-se na recepção com a coluna ereta demais, a pasta apoiada no colo, o currículo impresso alinhado com cuidado exagerado. O ar-condicionado soprava frio constante, e o ambiente tinha aquele cheiro neutro de escritório bem-sucedido: café recém-passado, papel novo, limpeza recente.
Ele tentou respirar fundo.
Não adiantou.
A conversa com Valentina voltava inteira, sem pedir licença. A feira, o pastel pela metade, a garota vermelha até a raiz do cabelo, a frase jogada como uma bomba:
“Eu beijei a Verena.”
Léo apertou os lábios, tentando expulsar a imagem. Pensou no roteiro da entrevista, nas respostas ensaiadas, na vaga temporária para cobrir férias. Assistente administrativo. Rotina. Organização. Normalidade.
— Léo Azevedo? — chamou a recepcionista, educada.
Ele se levantou rápido demais.
— Sou eu.
Caminharam pelo corredor de paredes claras, quadros discretos, portas de vidro fosco. Tudo muito profissional. E então parou diante da sala principal.
A porta se abriu.
Silvia estava de pé, ao lado da mesa, revisando alguns papéis. Usava uma camisa clara de tecido impecável, mangas dobradas até o antebraço, relógio discreto no pulso. O cabelo preso de um jeito prático. A postura segura de quem manda sem precisar elevar a voz.
— Bom dia. — ela disse, estendendo a mão com um sorriso cordial. — Pode sentar.
Léo apertou a mão dela e, por um microssegundo imperdoável, seu cérebro traiu tudo, focando instintivamente na aliança no dedo anelar. Ele desviou o olhar rápido demais para não parecer estranho.
— Bom dia. — respondeu, tentando manter a voz firme. — Obrigado pela oportunidade.
Sentou-se à frente da mesa, ajeitou a pasta no colo, cruzou as pernas. Silvia se acomodou do outro lado, pegou o currículo, começou a ler com atenção profissional.
— Você se candidatou para a vaga de assistente administrativo. — Comentou. — Vejo aqui que você já trabalhou com organização de agendas, atendimento, planilhas…
— Sim. — Léo respondeu, automático. — Tenho facilidade com rotina, prazos, essas coisas.
Facilidade com segredos, pensou, e quase riu sozinho.
O olhar dele escapou novamente, sem querer, para a mão esquerda de Silvia. A aliança brilhava sob a luz branca do escritório, discreta, correta, no lugar certo.
Se você soubesse, pensou.
Se você soubesse que uma garota de calça jeans, mochila e vergonha crônica colocou um belo par de chifres aí…
Engoliu seco.
— Você parece um pouco tenso. — Silvia comentou, levantando os olhos do papel. Não havia acusação, apenas observação.
— Entrevista dá esse efeito. — ele respondeu rápido demais. — Mas tô tranquilo.
Mentira.
A imagem da cena voltava sem filtro. E agora ele estava ali, encarando a esposa da mulher que tinha beijado a sua amiga.
A vida tinha um senso de humor questionável.
— O trabalho aqui exige discrição. — Silvia continuou, profissional. — Lidamos com informações sensíveis, clientes exigentes. Você se sente confortável com isso?
Léo quase engasgou.
— Muito. — respondeu, sério demais. — Discrição é… essencial.
Ela assentiu, satisfeita.
— Juliana vai sair de férias por um mês. Preciso de alguém que segure a rotina sem sustos.
Sustos, pensou. Tipo descobrir que sua esposa anda beijando estagiária.
Ele mordeu a parte interna da bochecha para não sorrir.
— Eu dou conta. — disse, firme. — Pode ficar tranquila.
Silvia sorriu de leve e apoiou o currículo sobre a mesa.
— Ótimo. Vamos falar de horários e início.
Enquanto ela explicava, Léo assentia, fazia perguntas pertinentes, anotava mentalmente tudo. Por fora, profissional exemplar. Por dentro, um circo.
Cada vez que o olhar dele voltava, traidor, para a aliança, a cabeça completava sozinha:
Valentina Moraes, 16 anos, tímida, religiosa…
Beijou sua mulher.
Era cômico. Era trágico. Era absurdo demais para ser mentira.
— Você teria disponibilidade para começar já na semana que vem? — Silvia perguntou.
— Tenho, sim.
Ela fechou a pasta.
— Então acredito que podemos avançar.
Léo sentiu um frio na espinha.
Avançar, pensou. É isso que todo mundo nessa história faz.
Ele se levantou, apertou a mão dela novamente, desta vez sem deixar o olhar escapar.
— Obrigado, doutora Silvia.
— Eu que agradeço, Léo.
Quando saiu da sala e o corredor o engoliu de novo, ele soltou o ar de uma vez só, apoiando a mão na parede por um segundo. Pegou o celular no bolso. Abriu a conversa com Valentina. Digitou. Apagou. Digitou de novo.
Você não faz ideia de onde eu acabei de sentar.
Guardou o aparelho. Algumas coincidências não eram coincidência nenhuma. E ele tinha acabado de entrar no centro exato de uma história grande demais para ser só espectador.
Escritório de Silvia Alencar — Centro de São Paulo, 08h41O primeiro dia começou com excesso de informação.
Juliana falava rápido, apontando telas, pastas, rotinas. Léo acompanhava com atenção aplicada demais, anotando mentalmente tudo o que pudesse evitar que ele fizesse alguma besteira inaugural. Agenda digital, agenda física. Arquivo morto, arquivo ativo. Clientes que ligavam direto, clientes que só retornavam por e-mail. O tom de voz certo para cada um.
— Aqui é o controle de prazos. — Juliana explicava, deslizando a cadeira para o lado. — Se isso aqui atrasar, dá problema.
— Problema jurídico ou problema do tipo “alguém vai surtar”? — Léo perguntou, tentando parecer funcional.
— Os dois. — ela respondeu, sem humor. — Principalmente o segundo.
Ele assentiu, sério.
O escritório ainda estava naquele clima inicial de manhã: telefone tocando baixo, impressora trabalhando, cheiro de café recente misturado com produto de limpeza. Tudo organizado demais para erros criativos.
Foi quando o ar mudou. Não de forma óbvia. Não com barulho. Mas como se alguém tivesse aberto uma outra camada do ambiente.
O cheiro de perfume tomou conta do ambiente.
Caro. Discreto. Presente.
Léo ergueu o olhar por reflexo no mesmo instante em que a porta da recepção se abria.
Verena entrou.
Camisa clara impecável, mangas ajustadas com precisão, o cabelo solto caindo de um lado só, do jeito que parecia casual e nunca era. Caminhava com passo seguro, sem pressa, como quem já conhecia cada centímetro daquele espaço. A presença ocupava antes mesmo da voz.
— Bom dia. — disse, clara, sem elevar o tom.
— Bom dia, doutora. — respondeu Juliana de imediato, automática.
Léo demorou meio segundo a mais para reagir.
— Bom dia. — Disse também, sentindo o próprio corpo travar num grau absurdo de autocontrole.
Verena lançou um olhar rápido na direção dele. Um segundo exato. O suficiente para reconhecê-lo. O estagiário da Alesp. O rosto que não era estranho. Ela não sorriu. Não franziu a testa. Apenas assentiu com um aceno mínimo de cabeça, educado, neutro, absolutamente institucional.
Em seguida, virou-se para a porta da sala ao fundo.
Duas batidas leves.
Entrou.
A porta se fechou atrás dela com um clique quase silencioso.
Léo ficou parado, sentindo o próprio coração acelerar como se tivesse corrido uma quadra inteira.
— Tá tudo bem? — Juliana perguntou, sem tirar os olhos da tela.
— Tá. — Ele respondeu rápido demais. — Normal. Rotina. Primeiro dia né.
Esperou alguns segundos. Contou mentalmente até cinco. Até dez. Fingiu que estava interessado em uma planilha qualquer.
Então não aguentou.
— Ela… — começou, baixando a voz. — Vem sempre aqui?
Juliana finalmente levantou os olhos para ele, avaliando a curiosidade.
— A Verena? — perguntou, prática. — Não muito.
— Ah.
— Só aparece quando precisa falar direto com a doutora Silvia. — Ela voltou a digitar. — E quando vem, entra direto. A não ser que a doutora peça reserva total, ela nunca passa por aqui pra anunciar nada.
Léo assentiu, absorvendo.
— Então é normal ela chegar assim.
— É. — Juliana respondeu.
Léo engoliu seco.
— Ela é… discreta — ele comentou, tentando soar neutro.
Juliana deu um meio sorriso profissional.
— Bastante. — respondeu.
Léo olhou para a porta fechada da sala de Silvia, sentindo um arrepio estranho, meio cômico, meio trágico. Primeiro dia de trabalho. E ele já estava no meio de uma história que definitivamente não constava no manual da empresa.
Sala da diretoria — Escritório de Silvia Alencar, 08h47A porta se fechou atrás de Verena com um clique baixo.
Silvia levantou o olhar no mesmo instante, interrompendo a leitura. Antes de qualquer palavra, Verena se aproximou da mesa, inclinou-se e deixou um selinho rápido nos lábios da esposa — um gesto íntimo, automático, de quem não precisa pedir permissão para existir naquele espaço.
— Bom dia — murmurou, ainda perto demais.
— Bom dia — Silvia respondeu, com um sorriso pequeno, quase distraído.
Verena seguiu para a bancada lateral, onde a cafeteira já estava ligada. Pegou uma xícara branca do armário sem perguntar, serviu-se com calma. O cheiro do café quente se espalhou pela sala, misturando-se ao perfume discreto que ela trazia consigo, invadindo o ambiente antes mesmo de qualquer conversa.
— Vim resolver uma coisa rápida aqui perto. — Disse, apoiando a xícara no pires. — E te ver.
Silvia assentiu, voltando aos papéis.
— Já te falei que a Juliana vai sair de férias semana que vem, né?
— Avisou.
Verena levou a xícara aos lábios, observando a sala como quem já a conhece de olhos fechados.
— Inclusive… — continuou, casual — vi que você contratou alguém pra cobrir esse período.
Silvia ergueu o olhar, interessada.
— Viu?
— Sim. — Verena tomou um gole curto. — Cruzei com ele lá fora agora há pouco.
— E o que achou?
Verena fez um pequeno gesto com a mão, como quem ainda está formando opinião.
— Ele já trabalhou na Alesp.
Silvia franziu levemente a testa.
— Trabalhou?
— No meu gabinete. — Verena respondeu, com naturalidade aparente. — Léo. Eu acho.
O nome produziu um efeito imediato, embora invisível.
Por dentro, algo se contraiu. Uma lembrança rápida demais para ser ignorada: o rapaz sempre por perto, rindo alto, a proximidade constante com Valentina. Não era uma memória nítida, mas era suficiente para provocar um desconforto seco no estômago.
Verena manteve o rosto impassível.
— Ele parecia competente — comentou, completando o gesto com outro gole de café.
Silvia inclinou a cabeça, avaliando.
— Então escolhi bem?
A pergunta veio simples, despretensiosa. Justamente por isso, mais perigosa. Verena hesitou por um microssegundo. O suficiente para beber de novo antes de responder.
— Não me lembro muito dele. — disse, com a voz firme, neutra. — Muita gente passa pelo gabinete. Estagiários, temporários… acaba tudo se misturando.
Silvia observou a esposa por um segundo mais longo.
— Mas nenhum problema, certo?
Verena apoiou a xícara no pires com cuidado excessivo.
— Nenhum. — respondeu. — Se tivesse, eu lembraria.
Era verdade.
Lembraria.
Mas não pelos motivos que importavam ali.
Silvia assentiu, satisfeita, e voltou aos documentos.
— Ótimo. Então fico mais tranquila.
O silêncio voltou a ocupar a sala. Do lado de fora, o escritório seguia seu ritmo normal, telefones tocando, passos no corredor. Dentro, Verena permaneceu de pé por mais alguns segundos, segurando a xícara agora fria demais para seu gosto.
O café tinha perdido o aroma.
E o dia, de repente, parecia longo demais para quem tinha vindo apenas “resolver uma coisa rápida”.
Escola Estadual Professor Luiz Roberto Pinheiro — Portão principal, 12h47O sinal tocou diferente naquele dia.
Talvez fosse só impressão, mas Valentina sentiu que o som durou mais do que o normal, ecoando pelo corredor como um aviso definitivo. Último dia. Última saída. Última vez atravessando aquele pátio com a mochila pesada demais para quem já tinha terminado as provas.
Ela caminhou devagar, desviando dos grupos animados, dos gritos de comemoração, dos planos falados alto demais para quem ainda precisava digerir o ano inteiro. O calor da tarde já se acumulava no concreto, e o uniforme parecia mais incômodo do que nunca.
Carol apareceu ao lado dela, do nada, como sempre.
— Sobreviveu? — perguntou, empurrando de leve o ombro da amiga.
Valentina soltou um riso curto.
— Por pouco.
— Bio?
— Bio. — confirmou. — Passei na média.
Carol parou de andar.
— VALENTINA. — disse, solene. — Você tem noção do milagre?
— Tenho. — Valentina respondeu, sorrindo pequeno. — Eu praticamente fiz promessa.
— Eu sabia. — Carol abriu os braços e a puxou para um abraço rápido, apertado. — Sabia que você ia conseguir.
Valentina correspondeu, encostando o rosto no ombro da amiga por um segundo a mais do que o necessário. O abraço tinha gosto de alívio, mas também de despedida.
Elas voltaram a andar, agora mais devagar ainda, como quem tenta esticar o tempo.
— Amanhã cedo a gente viaja — Carol comentou, chutando uma pedrinha pelo caminho. — Meus pais resolveram sair de madrugada.
Valentina assentiu, já sabendo.
— Praia, né?
— Praia. — Carol suspirou. — Sol, gente feliz, família gritando… tudo aquilo.
— Vai ser bom.
— Vai. — Carol concordou, mas olhou para ela de lado. — Mas eu vou ficar pensando em você.
Valentina desviou o olhar, constrangida.
— Não fica.
— Fico sim. — Carol respondeu, firme. — Você anda meio… distante.
Valentina apertou a alça da mochila com mais força.
— É só cansaço.
Carol não insistiu. Nunca insistia quando percebia que a amiga estava no limite.
Elas pararam em frente ao portão. Do lado de fora, alguns pais esperavam, carros estacionados em fila dupla, vendedores ambulantes já se posicionando como se aquele fosse apenas mais um dia qualquer.
Mas não era.
— Último dia — Carol disse, quase para si mesma. — Estranho, né?
— Estranho. — Valentina concordou. — Parece que devia significar mais coisa.
— Talvez signifique. — Carol respondeu. — Só que a gente ainda não sabe o quê.
Valentina sorriu, fraco, mas sincero.
— Você me manda mensagem quando chegar?
— Mando. — Carol prometeu. — E você me promete que vai ficar bem?
A pergunta veio baixa demais para ser casual.
Valentina hesitou.
— Prometo tentar.
Carol puxou a amiga para mais um abraço, agora mais apertado, mais demorado.
— Qualquer coisa — murmurou — você me chama. Mesmo longe.
— Eu sei.
Elas se soltaram devagar. Carol acenou antes de atravessar o portão, andando de costas por alguns passos.
— Ei, Valen!
— Oi?
— Passar em biologia já é um ótimo presságio.
Valentina riu, de verdade dessa vez.
— Tomara.
Carol virou e foi, misturando-se à rua. Valentina ficou parada por alguns segundos, observando a amiga se afastar, sentindo aquele vazio específico que só aparece quando algo termina sem fazer barulho.
Depois respirou fundo.
Último dia. Aprovada. Sozinha outra vez. Ela ajeitou a mochila no ombro e atravessou o portão, sem saber ainda o que vinha depois — só sentindo que alguma coisa tinha mudado.
Clínica de Fertilidade — Paraíso, 06h55
Elas entraram de mãos dadas.
Não era um gesto teatral, nem de proteção ostensiva. Era simples, quase automático, como quem atravessa a rua cedo demais para soltar a mão no meio do caminho. Verena caminhava um meio passo atrás, segurando uma pasta fina de documentos com a mão livre. Silvia conduzia, bolsa grande no ombro, passos firmes, o olhar já procurando o balcão da recepção.
O hall estava claro, silencioso demais para aquela hora. Um ar frio constante, cadeiras claras alinhadas, o som baixo de um teclado ao fundo. A porta de vidro se fechou atrás delas com suavidade.
A recepcionista levantou os olhos e sorriu.
— Bom dia.
— Bom dia — Silvia respondeu, antes mesmo que Verena respirasse fundo. — Temos horário agora cedo. Punção.
A recepcionista digitou, conferiu a tela.
— Nome da paciente?
Silvia apertou de leve a mão de Verena antes de responder.
— Verena Castilho.
Verena manteve o olhar baixo, acompanhando o movimento da tela, o reflexo da luz no balcão. A pasta estava firme contra o corpo, como se aquilo fosse o único objeto que ainda a prendia ao mundo de fora.
— Certo. — a recepcionista assentiu. — Vou só confirmar algumas informações.
Ela falou olhando para a tela, mas a conversa parecia toda dirigida à Silvia.
— Medicação de disparo ontem à noite, horário?
— Vinte e duas e trinta — Silvia respondeu, sem hesitar.
— Jejum desde?
— Meia-noite.
— Alguma alergia conhecida? Uso de medicação contínua?
— Não — Silvia disse. — Nada.
A recepcionista assentiu, já separando uma prancheta.
— Vou pedir para assinar os termos do procedimento e da sedação.
Ela empurrou a prancheta pelo balcão. Silvia soltou a mão de Verena apenas o suficiente para pegar a caneta e posicionar os papéis. Virou a prancheta de modo que Verena pudesse assinar.
Verena pegou a caneta. A assinatura saiu reta, contida, sem pressa, mas diferente do habitual. Um pouco mais dura. Quando terminou, devolveu a prancheta e ficou ali, imóvel, esperando o próximo comando.
A recepcionista colocou uma pulseira de identificação no pulso dela, com cuidado.
— Acompanhante pode seguir até a sala de preparo. Depois aguarda aqui fora, tá?
Silvia assentiu.
— Tudo bem.
Elas voltaram a se dar as mãos sem comentar. Caminharam até as poltronas próximas ao corredor. Verena não sentou. Ficou de pé ao lado da cadeira, olhando para o relógio na parede como se o tempo tivesse decidido provocar.
A enfermeira apareceu no corredor e chamou, consultando a ficha:
— Verena Castilho?
Verena se moveu no mesmo instante. Silvia levantou junto, automaticamente.
— A partir daqui, só a paciente — a enfermeira explicou, com naturalidade. — Você aguarda aqui.
Silvia deu dois passos à frente antes que Verena tivesse tempo de pensar. Passou a mão rápida pelo rosto da esposa, num gesto curto, íntimo, como quem tira um fio invisível da pele. Encostou a testa na dela por um segundo mínimo e deixou um selinho breve, sem plateia.
— Vai dar tudo certo. — disse baixo. — Tô aqui te esperando.
Verena assentiu, mas não falou nada. Os olhos piscaram uma vez a mais do que o normal. Silvia soltou a mão dela devagar, sem pressa, observando a esposa virar para o corredor. A pasta continuava firme contra o corpo.
A enfermeira aguardava.
— Pode vir.
E Verena foi.
Sem olhar para trás.
O corredor interno tinha uma acústica diferente, abafada, onde o som dos passos emborrachados dos funcionários parecia ser engolido pelas paredes cor de creme. O ar condicionado ali era agressivo, um frio cirúrgico que atravessava a blusa de seda de Verena como se ela estivesse nua.
Ela foi guiada até um box de preparação, separado do resto por uma cortina grossa de tecido lavável.
— Pode tirar tudo, inclusive sutiã e calcinha. Coloca esse avental com a abertura para trás. Os pertences ficam neste armário — a enfermeira, cujo crachá dizia "Solange", recitou o mantra com a eficiência de quem já disse aquilo trinta vezes antes das nove da manhã.
Verena ficou sozinha. O espaço era claustrofóbico. Ao se despir, sentiu-se despindo também a armadura. Sem o blazer, sem a postura política, ali dentro ela era apenas um corpo biológico prestes a ser invadido. O avental de tecido rústico, com aquela estampa genérica de losangos azuis desbotados, tinha o dom democrático de anular qualquer autoridade. Ao amarrar as tiras nas costas, sentiu-se ridícula e exposta.
Sentou-se na poltrona reclinável, as pernas cobertas por um lençol fino, a pasta de documentos agora trancada no armário. Estava desarmada.
A cortina se abriu. Não era Solange, mas a médica, Dra. Helena, acompanhada por outra enfermeira que trazia uma bandeja metálica. O som do metal tilintando fez o estômago de Verena contrair.
— Bom dia, Verena. — a médica nem levantou os olhos do computador móvel que empurrava num carrinho. O tec-tec-tec das unhas no teclado era rápido, seco. — Confirmando: jejum ok, medicação ok. Sentiu algum desconforto abdominal ontem à noite? Inchaço excessivo?
— Um pouco de pressão. — Verena respondeu. A voz saiu firme, mas as mãos estavam agarradas aos braços da poltrona com uma força desproporcional. — Nada insuportável.
— Ótimo. Sinal de que os ovários responderam bem.
Enquanto a médica digitava, a segunda enfermeira, uma mulher mais velha com óculos pendurados numa corrente, se aproximou do braço esquerdo de Verena. Ela trazia o garrote e um jelco para o acesso venoso.
Foi aí que a fachada de "Dama de Ferro" trincou.
Verena não recuou o braço, mas seu corpo inteiro virou pedra. Ela girou o pescoço rigidamente para a direita, encarando com fascínio absoluto um quadro genérico de um campo de lavanda na parede oposta, recusando-se terminantemente a olhar para a bandeja prateada. Sua respiração, antes normal, tornou-se curta, superficial, apenas o suficiente para não desmaiar.
A enfermeira experiente, Bete, notou imediatamente. Ela já tinha visto aquilo mil vezes: CEOs, advogadas criminais, mulheres que pariram três filhos de parto normal, todas virando estátuas de sal diante de uma agulha calibre 22.
A mulher sorriu de canto, um sorriso maternal e divertido, enquanto passava o algodão com álcool na dobra do braço de Verena. O cheiro de álcool subiu, gelado.
— Veia boa, saltada — Bete comentou, num tom casual, enquanto amarrava o garrote. Ela sentiu o bíceps de Verena duro como mármore. — Relaxa o braço, querida. Se você travar o músculo, a gente briga com a veia e ela esconde.
Verena não olhou. Continuou encarando a lavanda. — Eu estou relaxada — mentiu, com a dignidade de um chefe de estado negando uma crise econômica evidente.
— Claro que está. — Bete concordou, a ironia sutil na voz, dando dois tapinhas leves na veia para fazê-la subir. — Respira fundo. Solta o ar devagar. Imagina que está na praia.
— Eu odeio praia. — Verena soltou, num sussurro tenso.
A médica parou de digitar por um segundo e olhou por cima do monitor, segurando um riso. — Então imagina que você acabou de aprovar uma lei complexa, Verena.
— Melhor. — Verena concordou, fechando os olhos com força.
— Picadinha de formiga. — avisou a enfermeira.
Verena trincou os dentes. Sentiu a picada fria e aguda invadir a pele, o desconforto ardido da cânula entrando. Ela não emitiu som, mas os dedos dos pés se encolheram dentro das sapatilhas descartáveis.
— Pronto. Já foi. — Bete fixou o esparadrapo com agilidade, conectando o soro. — Pode abrir os olhos, a tortura acabou. Por enquanto.
Verena abriu os olhos, soltando o ar que nem sabia que estava prendendo. Olhou para o acesso no braço com desconfiança, como se fosse um dispositivo alienígena.
— Tudo certo. — Dra. Helena disse, fechando o computador. — O anestesista já vem conversar com você. Vai ser rápido, Verena. Um sono profundo de vinte minutos e você acorda na sala de recuperação.
— Eu quero saber quantos... — Verena começou, tentando recuperar o controle da situação através da informação. — Quantos folículos vocês esperam aspirar.
— O ultrassom mostrou doze promissores — a médica respondeu, checando o soro. — Mas só vamos saber a qualidade depois que o laboratório analisar. Não se apegue aos números agora. Sua única tarefa é dormir.
Bete ajustou o lençol sobre as pernas de Verena e deu uma piscadela cúmplice. — E vê se relaxa esse braço, senão vai ficar roxo e você vai culpar a minha mão leve.
Verena assentiu, recostando a cabeça no travesseiro de papel. O frio da sala parecia ter aumentado, ou talvez fosse apenas a solidão do procedimento começando a bater. Sem a mão de Silvia, sem a pasta de documentos, e com uma agulha espetada na veia, Verena Castilho estava, pela primeira vez em muito tempo, apenas à mercê da sorte e da biologia.
O anestesista entrou no box trinta segundos depois, trazendo consigo aquela aura irritantemente calma que só as pessoas que controlam a consciência alheia possuem. Era um homem jovem, Dr. Murilo, com uma touca estampada com caveiras coloridas — um detalhe que Verena julgou profundamente inadequado para o momento, mas decidiu não protocolar uma reclamação formal mentalmente. Pelo menos não agora.
— Bom dia, Verena. — Ele checou o prontuário pendurado no pé da maca. — Vi aqui que você não tem alergias. Jejum ok. Peso conferido. Vamos fazer uma sedação venosa com Propofol. Você apaga rápido, acorda rápido e sem ressaca.
— Propofol. — Verena repetiu, a voz técnica. — O tal "leite dos anjos".
O rapaz riu, injetando uma solução salina no acesso para testar a permeabilidade. — Exatamente. Mas sem a parte mística. É química pura. Você vai sentir uma leve ardência no braço, um gosto metálico na boca e, em dez segundos, vai estar sonhando com as próximas eleições.
— Eu prefiro sonhar que estou num lugar deserto onde não pega sinal de celular — Verena retrucou, observando o líquido transparente entrar na veia.
— Justo. Vamos nessa?
Bete, a enfermeira das "mãos leves", ajudou Verena a se levantar. A caminhada até a sala de procedimento foi curta, mas humilhante na medida certa. Segurando a abertura do avental nas costas com uma mão e empurrando o suporte de soro com a outra, Verena se sentiu desprovida de qualquer dignidade parlamentar.
A sala de procedimento era ainda mais gelada. O centro das atenções era a cadeira ginecológica, que parecia mais um instrumento de tortura medieval modernizado com estofamento de couro sintético. Havia um monitor multiparamétrico apitando ritmicamente e uma tela de ultrassom virada para a Dra. Helena, que já estava paramentada com avental estéril, máscara e luvas, sentada num banquinho baixo na extremidade da cadeira.
— Vamos lá, Verena. Pode subir. — instruiu Bete, indicando o degrau da cadeira. — O bumbum bem na pontinha, por favor.
Subir naquilo exigia uma coordenação motora que o nervosismo estava tentando sabotar. Verena sentou-se, sentindo o papel descartável amassar barulhentamente sob ela.
— Pernas aqui nos apoios. — Bete guiou os calcanhares de Verena para as perneiras acolchoadas.
A posição era a definição universal de vulnerabilidade: deitada, pernas abertas e elevadas, exposta para uma equipe de estranhos sob uma luz de foco cirúrgico que não perdoava nenhum poro. Bete foi rápida e cobriu as pernas de Verena com um campo cirúrgico verde, preservando o mínimo de pudor restante, mas a sensação de invasão iminente persistia.
Dra. Helena ajustou a luz. — Tudo certo aqui embaixo. O transdutor está pronto. Murilo, quando quiser.
Verena olhou para o teto. Havia uma mancha minúscula de infiltração num dos azulejos brancos. Ela focou naquilo. Uma falha estrutural. Manutenção predial. Orçamento. Tentar racionalizar o ambiente era seu mecanismo de defesa.
Dr. Murilo apareceu no seu campo de visão, segurando uma seringa grande com um líquido branco e leitoso. Ele a conectou na torneirinha do acesso venoso no braço esquerdo de Verena.
— Verena, escuta. — Murilo disse, o tom agora profissional. — Vou começar a injetar. Vai arder um pouquinho no braço, é normal. Respira fundo.
— Avise quando eu for apagar. — Verena ordenou, tentando manter o controle até o último milissegundo.
— Estou avisando agora — ele sorriu por trás da máscara. — Boa viagem.
Verena sentiu o líquido entrar. Primeiro, o frio. Depois, uma queimação súbita e aguda subindo pelo antebraço, como se tivessem injetado fogo líquido. Ela abriu a boca para reclamar, para dizer "Isso dói mais do que disseram", mas a frase se perdeu no caminho entre o cérebro e a língua.
O gosto metálico, como se tivesse lambido uma moeda velha, inundou o fundo da garganta.
O som do monitor cardíaco — bip, bip, bip — começou a ecoar, parecendo vir de dentro de um túnel longo. A mancha de infiltração no teto se duplicou, depois triplicou, girando lentamente.
Seus braços ficaram pesados, feitos de chumbo. As pálpebras, de repente, pesavam toneladas.
— Respira... — a voz de Murilo parecia vir debaixo d'água.
Verena tentou lutar. Tentou focar na mancha. Manutenção... predial... Mas o teto se dissolveu num branco absoluto. Não houve transição lenta. Foi como se alguém tivesse simplesmente puxado o cabo de energia da Deputada Verena Castilho.
Escuro. Silêncio. Nada.
Sala de Recuperação Pós-Anestésica (RPA) — Clínica Paraíso, 07h45
A volta não foi como acender uma luz. Foi como emergir de um poço de piche quente e espesso.
Primeiro, veio a audição. Sons abafados, metálicos. O tilintar de uma bandeja. Uma voz feminina que parecia vir do final de um túnel longo. — Verena? ...rena? Pode abrir os olhos, querida. Acabou.
Verena forçou as pálpebras. Elas pesavam toneladas. A luz branca do teto feriu suas retinas, obrigando-a a fechar os olhos de novo imediatamente. Sua boca estava seca, árida como um deserto, e aquele gosto metálico de moeda velha ainda impregnava a língua.
Ela tentou levantar a cabeça, mas o pescoço parecia feito de borracha. — Onde... — A palavra saiu pastosa, arrastada, a língua enrolando dentro da boca.
— Calma, não levanta a cabeça rápido. Você está na sala de procedimento ainda. Vamos te passar para a cadeira de rodas.
Mãos fortes a seguraram. Bete e outro enfermeiro. — No três. Um, dois... vem.
Verena sentiu seu corpo ser manipulado como um boneco de pano. Ela não tinha força no tronco. Foi transferida da mesa ginecológica para uma cadeira de rodas larga. O movimento fez sua cabeça latejar e girar, e uma pontada aguda, uma cólica profunda e surda, irradiou do baixo ventre.
— Ai... — ela gem*u, a mão indo instintivamente para a barriga.
— Cólica é normal. Já te demos analgésico na veia. Vai passar — Bete explicou, cobrindo-a com um lençol grosso até o pescoço. — Segura as mãos no colo. Vamos te levar até sua esposa.
O trajeto pelo corredor foi um borrão de luzes e tontura. Verena via o chão passar rápido demais. Ela queria perguntar quantos óvulos foram, queria saber se tinha corrido tudo bem, mas seu cérebro processava os pensamentos numa velocidade muito mais lenta do que sua capacidade de fala.
A cadeira de rodas virou à esquerda e entrou na área de repouso, onde as cortinas dividiam os espaços. Silvia estava sentada na poltrona de acompanhante, roendo a unha do dedão, a perna balançando num tique nervoso. No momento em que a cortina se abriu e a cadeira de rodas apareceu, Silvia levantou-se num salto, a bolsa escorregando do colo para o chão, esquecida.
— Verena! — A voz da esposa foi a primeira coisa nítida que a deputada ouviu.
Silvia cruzou o pequeno espaço em dois passos largos, chegando antes mesmo de Bete travar as rodas da cadeira. O rosto dela estava pálido de preocupação, os olhos varrendo Verena em busca de qualquer sinal de perigo.
— Ela está bem? Ela está muito pálida. — Silvia perguntou para a enfermeira, a mão já buscando o rosto da esposa, tocando a bochecha fria.
— Está ótima. A pressão está 11 por 7. A palidez é do jejum e da sedação. É normal ela ficar grogue assim por uns vinte minutos — Bete explicou, travando as rodas ao lado da poltrona reclinável. — Vamos passar ela para a poltrona. Pode ajudar segurando o braço esquerdo? Cuidado com o soro.
Silvia obedeceu prontamente. — Vem, amor. Apoia em mim. — Silvia passou o braço pela cintura de Verena, puxando-a com firmeza e delicadeza.
Verena tentou ajudar, firmando os pés no chão, mas os joelhos cederam. Ela praticamente despencou nos braços de Silvia, enterrando o rosto no pescoço da esposa. O cheiro de lavanda e amaciante foi o melhor anestésico que ela poderia ter sentido.
— Eu te peguei. Tá tudo bem — Silvia sussurrou, manobrando o corpo mole até a poltrona reclinável.
Assim que Verena sentou e encostou a cabeça para trás, Bete ajustou o suporte de pernas e cobriu-a novamente. — Vou deixar ela acordar um pouco mais. Daqui a pouco trago um suco e bolachas. A Dra. Helena vem falar com vocês em dois minutos.
Bete saiu, fechando a cortina, criando um casulo de privacidade.
Verena estava com os olhos semicerrados, a respiração pesada. Ela sentia o mundo girar devagar. — Sil... — ela chamou, a mão tateando o ar.
— Tô aqui. — Silvia pegou a mão dela imediatamente, entrelaçando os dedos e beijando o dorso da mão onde não havia o acesso venoso. — Tô bem aqui, meu amor.
Silvia puxou uma cadeira para ficar bem de frente para a esposa. Com a mão livre, ela começou a afastar o cabelo de Verena, que estava grudado na testa por causa da touca cirúrgica. Os dedos de Silvia eram frescos e gentis, penteando as mechas rebeldes para trás da orelha, limpando o rosto da amada.
— Você tá gelada. — Silvia comentou, a voz embargada de carinho. Ela esfregou os braços de Verena por cima do lençol para gerar calor. — Como você tá se sentindo? Muita dor?
— Cólica... — Verena murmurou, franzindo a testa sem abrir os olhos. — Parece... parece que tem uma pedra na minha barriga.
— É, eu imagino. Eles mexeram bastante aí dentro. — Silvia se inclinou e beijou a testa de Verena, demorando os lábios ali. — Mas já acabou. Você foi muito corajosa.
A cortina se abriu novamente. Era a Dra. Helena, já sem a máscara, segurando a prancheta. Silvia endireitou a postura, mas não soltou a mão de Verena.
— Tudo correu perfeitamente. — a médica disse, baixando o tom de voz. — Conseguimos aspirar os doze folículos que vimos no ultrassom. Desses, o laboratório já confirmou que temos dez óvulos maduros. É um número excelente para a idade e para o protocolo.
Verena, ouvindo "dez óvulos", tentou abrir os olhos e focar na médica. — Dez...? — ela perguntou, a voz fraca.
— Dez, Verena. Dez chances. — a médica sorriu. — Agora, orientações pós-alta: repouso absoluto hoje. Nada de trabalho, nada de estresse, nada de subir e descer escadas correndo. Bastante líquido. Gatorade, água de coco. Se a dor aumentar, Dipirona ou Tylenol. Se tiver febre ou sangramento intenso, me liguem. Mas o sangramento leve, tipo final de menstruação, é normal por causa da agulha.
Silvia absorvia cada palavra como se fosse lei. — Pode deixar. Eu vou amarrar ela na cama se precisar. E a progesterona?
— Continua conforme a receita. Amanhã o laboratório liga para falar da fertilização. Agora, deixe ela comer algo e, se não enjoar, está liberada.
A médica saiu. Silvia voltou a atenção total para Verena, observando a esposa suspirar fundo, uma lágrima solitária de alívio — e de efeito residual da anestesia — escorreu pelo canto do olho.
Silvia viu. Com o polegar, ela secou a lágrima delicadamente. — Ei... por que o choro? Dez óvulos, amor. Dez. É um time de futebol quase completo.
Verena riu, um som fraco e rouco. — Eu tô... tô muito mole. Odeio... ficar assim. Sem controle.
Silvia sorriu, um sorriso cheio de ternura, e se aproximou ainda mais, o rosto a centímetros do de Verena. — Eu sei que você odeia. Você gosta de mandar no mundo. Mas hoje, só por hoje, deixa eu cuidar de tudo? Você não precisa controlar nada agora. Seu trabalho acabou.
Silvia começou a fazer um carinho suave na bochecha de Verena, descendo para o queixo. — Você tá com uma cara de amassada linda.
— Mentirosa. — Verena rebateu, fechando os olhos, entregue ao toque.
— É sério. — Silvia deu um beijo suave na ponta do nariz da esposa, depois outro na bochecha, e finalmente um selinho demorado e cuidadoso, sem peso. — Obrigada por fazer isso. Eu sei o quanto você odeia agulha e hospital. Eu tô tão orgulhosa de você.
Verena sentiu o aperto no peito diminuir. A cólica ainda estava lá, a tontura também, mas a presença sólida e materna de Silvia preenchia todas as lacunas de medo.
— Me leva pra casa? — Verena pediu, a voz de criança pequena.
— Levo. Assim que você comer a bolacha de água e sal mais seca do mundo que a enfermeira vai trazer, eu te levo pra casa, te coloco na nossa cama, ligo o ar condicionado e fico te fazendo cafuné até você enjoar de mim.
Verena apertou fraco a mão de Silvia. — Impossível enjoar.
Silvia sorriu, encostando a testa na dela novamente, fechando os olhos e respirando fundo, finalmente permitindo que o seu próprio medo se dissipasse agora que sua esposa estava ali, acordada, imperfeita, grogue, mas viva e inteira.
Fim do capítulo
Até amanhã!
Abraços!
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Zanja45
Em: 28/02/2026
Bia tarde, Autora, seja bem vinda de volta!
Depois de algum tempo senti o chamado da notificação, mas a princípio não averiguei, pois estava descansando pós - almoço. No entanto assim que levantei do descanso, fui verificar as mensagens e tive uma surpresa agradável, uma das minhas autoras favorita atualizou a história. Fique entre o sono e a vigília, pensei até que não estivesse enxergando direito, mas, enfim, olhei para o horário que o link chegou a minha caixa de email exatamente às 15:06. Confirmado, hoje mesmo. Parece até que injetaram em mim "o leite dos anjos" Estava me sentindo como Verena ao acordar da anestesia, fora de órbita. Meio grogue. Kkk!
Um abraço, Autora!
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anonimo2405 Em: 09/03/2026 Autora da história
Oiee!
Obrigada pelo carinho e por continuar aqui!
Espero compensar por ter te feito esperar tanto ao ponto de achar que era uma miragem rsrsrs.
Abraço!