Oieee, boa tarde!
Espero que vcs estejam bem, que tenham passado um Natal maravilhosos e que o restinho do ano seja ainda mais maravilhoso, assim como o ano que vai vir.
Peço desculpa pela demora rsrs. Mas espero poder compensar.
Vou tentar voltar esse ano ano ainda rsrs. Abraço! S2
Confissão
Casa da família Moraes – Sala / Cozinha, 21h02
A televisão da sala ainda estava ligada num jornal qualquer, o som baixo, mais luz do que companhia. Na cozinha, a luz fria iluminava a mesa de fórmica, duas cadeiras ocupadas, uma terceira encostada na parede. Sobre a mesa, um copo com resto de suco, a caneca de Carlos pela metade e um envelope de laboratório dobrado ao meio.
Ana Paula passava o dedo pela borda do envelope, sem abrir. Já tinha lido o resultado de manhã, no posto, mas desde então voltava e mexia naquele papel como se as letras pudessem mudar de uma hora pra outra.
— As meninas já dormiram? — Ele perguntou, sem olhar para a esposa.
— Isadora já. — Ana respondeu, inclinando-se na cadeira pra tentar ouvir melhor algum barulho do corredor. — Valentina entrou pro banho.
Ele assentiu, mexendo na alça do copo vazio.
— Melhor assim.
Carlos apoiou os braços na mesa, entrelaçando os dedos, os olhos cansados, a barba por fazer.
— E aí? — Perguntou, depois de alguns segundos de silêncio. — Vai abrir de novo ou já decorou o que tá escrito?
Ana soltou um suspiro curto, meio riso, meio nervoso.
— Eu sei de cor. — Respondeu. — Só… parece que, se eu não olhar, ainda não é de verdade.
Ele esticou a mão e puxou o envelope para o lado dele, abriu, bateu os olhos na folha.
— “Positivo para gestação.” — Leu em voz alta, mas baixa. — E o médico disse que é o quê? Um mês, dois?
— Quase dois. — Ana respondeu. — Ele falou que, pelo exame, deve estar entre sete e oito semanas. Que depois a gente marca o ultrassom pra ver certinho.
Carlos encostou-se na cadeira, soltando o ar devagar.
— Quase dois meses… — Repetiu, como se precisasse ouvir de novo pra encaixar a ideia. — A gente já passa aperto com as meninas, agora, com mais um…
Ana Paula fez um gesto automático com a mão.
— Não fala assim. — Pediu. — Como se fosse… uma conta de água.
Ele a encarou, mais suave.
— Eu sei que não é. — Disse. — Tô tentando entender, só isso.
Carlos fez uma pausa, olhou em volta, como se checasse o tamanho da casa com os olhos.
— Você tá feliz? — Perguntou.
Ana demorou um pouco antes de responder. Passou as duas mãos pelo rosto, como se estivesse tirando o dia de cima da pele.
— Tô. — Disse, por fim. — Assustada, mas… feliz. — Deu um sorriso pequeno, tímido. — Eu sempre quis ter mais um, você sabe. Só não imaginei que fosse agora, desse jeito, com tudo do jeito que tá.
Carlos balançou a cabeça devagar.
— Eu também não. — Admitiu. — Mas não é culpa dele, né. Nem dela. — Apontou com o queixo para o ventre da esposa, meio sem jeito.
Ana riu baixinho.
— Não, né. — Concordou. — A culpa é da gente mesmo.
A piada mansa fez o clima amolecer um pouco. Do corredor veio um rangido leve de porta. Os dois instintivamente olharam na direção do barulho. Nada. Só o apartamento respirando.
— A gente vai ter que contar pra elas. — Ana disse, voltando o olhar pro marido. — Eu não quero esconder. A Valentina não é boba, vai perceber de qualquer jeito.
Carlos encarou a caneca, girando-a pela asa.
— É. — concordou. — Mas precisamos pensar no jeito certo de contar. E na hora certa.
— Eu pensei… — Ela começou, passando o dedo pela borda da mesa. — De esperar até o primeiro ultrassom. Ver se tá tudo bem, ouvir o coração. Aí a gente senta com as duas. Juntas.
Carlos fez uma careta leve de dúvida.
— A Isadora vai soltar rojão na sala. Ela vive falando sobre mais um neném em casa. — Comentou. — A Valentina… não sei.
Ana apertou os lábios.
— Eu também não. — Confessou. — Ela já tá tão… — Procurou a palavra certa. — estranha. Calada. Qualquer coisinha, já se fecha. Eu tenho medo de ela achar que… sei lá, que vai ser deixada de lado.
— A Valentina vai fazer dezessete anos, Ana. — Ele rebateu, mas sem dureza. — Não dá pra tratar ela como se tivesse a idade da irmã. Ela vai entender que não é… substituição, nem nada.
Ana o olhou por cima da mesa.
— Você anda meio longe dela, Carlos. — Disse, sem acusação aberta, mas sem desviar. — Não viu como ela tá esses dias. Ela entende muita coisa, mas tá fragilizada. Eu sinto.
Ele abaixou o olhar, mexendo na caneca.
— Eu sei. — Admitiu. — Tô preocupado também. Mas toda vez que eu tento puxar conversa, parece que ela levanta um muro. E eu já tô com tanta coisa na cabeça… — Fez um gesto vago com a mão. — A gente sem saber se vai dar pra pagar o aluguel todo, conta de luz atrasada, mercado apertado, aí briguei com aquele rapaz na obra… — Deu um meio sorriso amarelo. — Não sei ser pai direito e desempregado ao mesmo tempo, parece.
Ana se inclinou um pouco, apoiando o cotovelo na mesa.
— Não fala assim. — Pediu, em tom firme. — Você é pai dela desde antes dessas coisas todas. E não é pior pai porque tá sem emprego fixo.
Ele deu de ombros, mas o ombro caiu pesado.
— Eu penso nesse bebê… — Disse, apontando com o queixo pro envelope. — E penso em leite, fralda, remédio. E penso no material escolar das meninas ano que vem, e no cursinho que a Valentina vive falando que quer fazer. A matemática não fecha.
Fez uma pausa, esfregando o rosto com as mãos calejadas.
— Aí você pergunta se eu tô feliz… Eu estou. De verdade. Mas, ao mesmo tempo, dá um medo que você não faz ideia.
Ana deixou um silêncio pequeno existir, antes de responder.
— Eu faço ideia, sim. — Disse, baixo. — Eu também penso nessas coisas. Mas, se a gente for esperar a vida estar perfeita pra colocar alguém no mundo, ninguém nasce.
Os dois ficaram um momento só escutando o barulho da geladeira, o tic-tac discreto do relógio na parede.
— Tá. — Carlos suspirou. — Vamos falar delas.
Endireitou a postura. — Então, contamos pras duas, né?
Ana pensou.
— Isso. — Respondeu. — Mas quando a gente tiver alguma coisa mais concreta pra mostrar. Um ultrassom, sei lá. O exame de sangue… — tocou o envelope. — Elas não vão entender nada disso. A Isa vai querer ver “a foto do bebê”.
Carlos assentiu.
— Faz sentido. — Concordou. — E você fala ou eu falo?
Ela riu de leve.
— Os dois. — Devolveu. — A gente senta no sofá, chama as duas, eu começo e você ajuda. Senão elas vão achar que foi “acidente da mamãe” e que você nem tava na história.
Ele sorriu pela primeira vez de verdade naquela noite.
— Mas foi meio acidente, né. — Arriscou.
Ana levantou a sobrancelha.
— Se você começar com esse papo perto das meninas, eu te mato. — Avisou, mas o tom era afetuoso. — Elas não precisam saber de detalhes.
— Tá bom, tá bom. — Ele riu, levantando as mãos em rendição. — Sem detalhes.
Ela respirou fundo.
— O que me pega mais é a Valentina. — Confessou. — A Isadora vai ficar feliz. Vai querer ajudar, vai inventar nome, vai fazer desenho. A Valentina… já tá nessa fase de achar que o mundo tá pesado demais. E, com essa tristeza que ela anda carregando, tenho medo dela achar que a gente tá… sei lá, começando outra família, e ela ficando de lado.
Carlos franziu a testa.
— Você acha mesmo que ela pensa assim?
— Eu não sei o que ela pensa. — Ana respondeu, sincera. — É isso que me preocupa. Ela não fala. Só sei o que eu vejo: ela mais quieta, mais distante, cansada. A escola já chamou a gente uma vez, você lembra. — Olhou pra ele. — Eu não quero que ela ache que a gente tá “substituindo” ela ou que… sei lá, que vamos deixar ela de lado.
Ele apoiou a testa na mão por um instante.
— Então a gente tem que deixar bem claro que ninguém vai receber menos cuidado. — Disse, devagar. — Que ela vai ser importante, que a Isa vai ser importante, que nada muda o lugar delas. A gente fala. Se ela não acreditar de primeira… a gente prova com o tempo.
Ana assentiu, devagar.
— É isso. — Concordou. — E a gente vai precisar da ajuda dela. Não pra cuidar, como se fosse obrigação. Mas pra ela se sentir parte. Escolher uma roupinha, pensar num nome, sei lá.
Fez um meio sorriso.
— Vai que, ocupando a cabeça com isso, ela distrai um pouco desse peso que tá carregando.
Carlos a olhou por um tempo.
— Você reparou que, mesmo com medo e tudo, quando fala delas você já planeja a parte boa? — Perguntou.
Ana deu de ombros, sem graça.
— Elas são o maior presente que eu poderia ter na vida. — Confessou. — Elas e essa criança que vai chegar, são as nossas bênçãos.
Ana apertou a mão dele de volta.
— Promete que, na hora, não vai fazer piada? — Pediu. — A Isa até ri. A Valentina… não sei.
Carlos respirou fundo.
— Prometo. — respondeu. — Eu deixo pra fazer piada com fralda depois.
Os dois riram, brevemente. No corredor, ouviu-se um rangido leve de porta sendo aberta. Ana soltou a mão dele, instintivamente. Valentina apareceu na porta da cozinha, de camiseta larga e short, o cabelo preso num coque frouxo. Os olhos ainda tinham o cansaço do dia inteiro misturado a algo difícil de saber.
— Mãe… — Chamou, encostando-se no batente. — Tem macarrão ainda?
Ana Paula virou-se para ela, o coração dando um pequeno salto que não tinha nada a ver com o bebê.
— Tem sim meu amor. — Respondeu, levantando-se. — Senta ali que eu esquento pra você.
Carlos observou as duas em silêncio.
Enquanto Ana servia o prato, medindo mentalmente palavras que ainda não podia dizer, ele entendeu que aquela conversa sobre “como contar” não era só sobre o anúncio de uma gravidez. Era sobre aprender a falar com as meninas de um jeito que não as quebrasse mais do que a vida já vinha quebrando.
E, olhando a filha se sentar à mesa, mexendo distraída no celular, soube que, quando chegasse a hora, o cuidado teria que ser tão grande quanto a novidade que carregavam.
Apartamento do casal Castilho – Quarto, 21h36
O apartamento estava num silêncio que não combinava com a cidade do lado de fora. Lá embaixo, buzinas e motores subiam como um zumbido distante, filtrados pelas janelas amplas da sala. Lá dentro, o mundo parecia reduzido ao abajur aceso no canto do quarto, à cama arrumada demais e ao kit de injeção espalhado sobre a cômoda.
Verena estava sentada na beira da cama, de short de algodão escuro e uma camiseta antiga de campanha, com as mangas cortadas. Tinha as pernas ligeiramente afastadas, pés descalços encostados no tapete. O cabelo solto caía pelas costas, o rosto, sem maquiagem, parecia mais jovem e mais cansado ao mesmo tempo.
Ao lado do espelho, Silvia organizava os itens com o cuidado de quem monta um pequeno altar doméstico. A caixa branca da medicação, as agulhas descartáveis, o aplicador já regulado na dosagem do dia, o algodão, o frasquinho de álcool 70%, o coletor rígido para perfurocortantes que a clínica tinha orientado a manter em casa.
— Lava a mão direito, Verena. — Lembrou, sem olhar para trás, ouvindo o barulho da torneira do banheiro.
— Já lavei duas vezes. — Veio a resposta, meio aborrecida, meio nervosa. — Qualquer coisa, eu desfaço minha digital de tanta água.
Silvia sorriu de leve, pegando um pedaço de algodão.
— Reclama, mas é a primeira a ficar perguntando se eu passei álcool no frasco.
Verena apareceu na porta do banheiro, secando as mãos em uma toalha pequena.
— Porque você é corajosa, mas não é imune a bactéria. — Retrucou, aproximando-se. — E porque eu tô em vias de virar acolchoado humano. Acho justo exigir assepsia.
Silvia virou-se, enfim, para encará-la. Havia nos olhos um brilho que misturava atenção clínica e ternura.
— Acolchoado humano não é um termo muito romântico pra “futura mãe do meu filho”. — Comentou.
— Você começou a falar de álcool. — Verena deu de ombros. — Romance tem limite.
Silvia não respondeu. Apenas estendeu a mão, chamando-a com um gesto suave.
— Deita um pouquinho, vai. Hoje é do lado direito.
Verena revirou os olhos para o teto, mas obedeceu. Deitou-se de costas, na metade da cama, puxando a barra da camiseta até expor o abdômen. A pele trazia alguns pontinhos roxos, discretos, das aplicações anteriores.
— Olha isso. — Resmungou, encarando as próprias marcas. — Se eu for pra praia, vão achar que eu tive uma guerra de paintball com agulha.
Silvia se sentou na beirada, ao lado, o corpo virado na direção dela. Passou o algodão embebido em álcool numa área limpa da pele, com movimentos circulares.
— Se a gente estiver na praia, as pessoas vão estar tão ocupadas relaxando que ninguém vai olhar pro seu abdômen. — Respondeu, num tom tão natural que a imagem quase se materializou no quarto.
Verena não comentou. Sentiu o frio do álcool, depois o ar quente de novo, e tentou concentrar a atenção em qualquer coisa que não fosse a agulha.
Silvia pegou a caneta de medicação, checou o visor — conferindo a dose como a enfermeira tinha ensinado —, dispensou uma gotinha no ar para garantir que o mecanismo não travaria. A cena tinha uma coreografia que, em poucos dias, já começava a parecer rotina.
— A doutora Beatriz mandou mensagem hoje. — Comentou, enquanto trocava a agulha pela ponta descartável nova. — Eu não sei se você chegou a ver.
— Eu vi a notificação, mas tava dirigindo. Depois… — Verena deu um meio sorriso. — Depois o mundo me engoliu.
— Como sempre. — Silvia respondeu, sem ironia, apenas constatando. — Ela falou do recesso da clínica, das datas que vão apertar em dezembro.
Verena franziu levemente a sobrancelha.
— Alguma mudança?
Silvia ajeitou a posição da caneta na mão.
— Ela disse que, se o seu corpo continuar respondendo bem, a punção dos óvulos deve cair bem em cima da semana do dia quinze. — Explicou. — Porque depois disso o laboratório começa a funcionar em esquema reduzido, e ela não quer arriscar. No recesso de fim de ano eles seguram ciclo, lembra?
Verena assentiu, mais pela memória da explicação do que porque quisesse pensar sobre isso.
— Uhum.
— E avisou que a gente precisa mesmo ir em todas as ultrassonografias de controle. — Continuou Silvia, com voz de quem está recitando um checklist. — Nada de adiar por causa de sessão, reunião ou “compromisso inadiável”. Ela escreveu isso, inclusive: “sem remarcações por motivos políticos”. — Sorriu rápido. — Acho que foi pra você.
Verena soltou um meio suspiro, meio riso.
— Ela não sabe como a Alesp fica em dezembro. — Murmurou. — Mas tá bom. Eu enrolo deputado, promotor, líder de bancada… menos endocrinologista de hormônio.
Silvia encolheu uma pequena prega de pele com a mão esquerda, pinçando o abdômen dela com firmeza suave.
— Pronta? — Perguntou, mais pelo ritual do que pela resposta, que já sabia.
— Não. — Verena respondeu, automática. — Mas vai assim mesmo.
— Respira fundo. — Silvia pediu.
Verena encheu os pulmões, os dedos agarrando o lençol.
Silvia introduziu a agulha com um movimento rápido, treinado, numa angulação correta. Para quem olhava de fora, não era quase nada, mas para Verena, era sempre mais do que a memória queria admitir. Um ardor discreto, a pressão da substância entrando, a sensação incômoda de invasão.
— Tá indo. — Avisou Silvia, apertando o êmbolo com cuidado. — Quase.
Verena virou o rosto para o lado, focando no abajur, como se estudar o desenho da cúpula fosse uma técnica de anestesia.
— Eu ainda acho absurdo eu ter… medo disso. — Comentou, entre dentes. — Já enfrentei gente berrando na minha cara em audiência pública, já fui processada por meia dúzia de macho ofendido… e uma agulha de três centímetros me desmonta.
Silvia sorriu, os olhos alternando entre o local da aplicação e o rosto dela.
— Cada um tem seu Golias. — Disse. — Esse é o seu.
— Meu Golias farmacêutico. — Verena murmurou. — Maravilha.
Silvia retirou a agulha com a mesma delicadeza com que tinha colocado, pressionando o ponto com o algodão. Uma gotinha quase invisível apareceu, sumindo em seguida.
— Pronto. — Anunciou. — Já foi.
Verena soltou o ar, só então percebendo o quanto tinha prendido. A mão relaxou no lençol.
— Um dia eu acostumo. — murmurou.
— Você já acostumou mais do que acha. — Silvia respondeu, descartando a agulha no coletor amarelo, fechando a tampa com um clique. — Na primeira aplicação, você quase desmaiou..
— Puro exagero. — Verena rebateu. — Foi uma queda de pressão leve.
Silvia riu.
Guardou a caneta na caixa, conferiu se tudo estava fechado, e só então voltou o foco inteiro para ela. Sentou-se mais perto, uma mão ainda apoiada de leve no ponto da injeção, o polegar desenhando um círculo pequeno sobre a pele, como se quisesse convencer o corpo a absorver melhor o hormônio.
— A Beatriz falou também… — recomeçou, num tom um pouco mais calmo. — Que essa fase é a mais chata, de esperar resposta do corpo. Que o importante é a gente não pirar com número de folículo, nem com nada disso. Porque cada pessoa responde de um jeito.
Verena olhou para cima, ainda deitada, os olhos encontrando o teto, não o rosto da esposa.
— Você tá pirando? — Perguntou.
Silvia deu um sorriso curto.
— Eu tô fazendo o que eu sempre faço: lendo tudo que ela manda, procurando artigo na internet e tentando não surtar com o Google. — Respondeu. — Mas, lá no fundo, eu tô… esperançosa.
A palavra ficou no ar.
Verena virou devagar o rosto, até conseguir encará-la. Silvia tinha o olhar úmido sem estar exatamente chorando, era como se a emoção estivesse sempre a um passo, pronta para romper.
— Quando eu li a mensagem dela hoje cedo… — Silvia continuou. — Sobre datas, laboratório, esse negócio de recesso… sabe qual foi a primeira coisa que eu pensei?
— O quê?
— Eu fiz a conta na cabeça. — Confessou, quase envergonhada. — Se tudo der certo, se a punção for na data que ela imagina, se os embriões evoluírem… eu fiquei tentando adivinhar em que mês o bebê nasceria.
Um sorriso pequeno, quase infantil, surgiu. — Fiquei brincando de calendário mental, tipo aquela música da igreja, “em janeiro, em fevereiro…” — Balançou a cabeça. — Eu, adulta formada, no meio de um parecer, fazendo conta de data provável de parto.
Verena sentiu algo se mover por dentro, parte ternura, parte aperto.
— E chegou em qual mês? — Perguntou, a voz mais baixa.
— Setembro. Talvez outubro. — Ela respondeu. — E aí eu imaginei a gente aqui, esse quarto todo bagunçado de brinquedo, você reclamando que não consegue achar a meia pra ir trabalhar, a gente atrasada pra escola, pra médico, pra tudo.
Verena a olhou por mais um tempo, sem falar nada. Depois ergueu a mão e pousou-a sobre a de Silvia, que ainda estava em seu abdômen.
— Você fala como se já tivesse vendo. — Disse.
— É que, na minha cabeça… — Silvia fez um gesto pequeno. — Eu já vi tantas vezes. Só faltava… isso começar a acontecer de verdade.
Olhou para o ponto da injeção. — E agora começou.
Verena engoliu em seco.
Era impossível não ser atravessada por aquela fé concreta — que não vinha de discurso religioso, mas de um tipo diferente de devoção: ao projeto de maternidade, a uma vida futura, a um “nós” que ela, tantas vezes, tinha colocado em segundo plano.
— Às vezes eu tenho medo de te decepcionar. — Deixou escapar, num desabafo quase involuntário. — Se meu corpo não responder, se der alguma coisa errada, se esse negócio de hormônio não funcionar como devia…
Silvia franziu a testa, aproximando-se ainda mais.
— Ei. — Disse, séria. — Isso nunca vai ser culpa sua. Você tá se enchendo de agulha, de exame, de consulta… se tiver alguma frustração, vai ser nossa. Não sua.
Verena desviou o olhar.
— Você fala isso agora. — Murmurou. — Mas eu te conheço. Sei o tamanho desse sonho.
Silvia a segurou pelo queixo com delicadeza, obrigando-a a encarar.
— E eu conheço o tamanho da mulher que eu escolhi pra viver esse sonho comigo. — Respondeu, firme. — Não começa a criar culpa antes da hora. A gente já tem problemas demais pra inventar mais.
A frase arrancou dela um sorriso pequeno, cansado.
— Tá bom, doutora. — Cedeu. — Vou me limitar aos problemas oficiais da pauta de hoje.
Silvia sorriu também, mas os olhos continuavam levemente brilhando.
— Falando em pauta… — Comentou, tentando aliviar o clima. — Você viu que, pelas contas da Beatriz, a punção cai bem na semana daquela audiência pública sobre educação?
Verena fechou os olhos por um instante.
— Eu vi. — Respondeu. — E eu já tô pensando em como não transformar isso num escândalo institucional.
— Você vai faltar. — Silvia disse, simples.
— Eu sou a autora do requerimento, Sil. — Protestou. — Não dá pra simplesmente…
— Dá, sim. — Cortou, com suavidade. — A Alesp vai continuar em pé se você faltar uma audiência. Nosso filho não pode ser punção remarcada por causa de deputado.
Passou a mão de leve na testa dela. — Se tiver que escolher, você já sabe qual é a prioridade.
Verena ficou em silêncio. Sabia. E era justamente isso que a assustava. Silvia se inclinou e depositou um beijo demorado na testa dela, a mão ainda repousando sobre o ponto da aplicação, como se pudesse abençoar o caminho do hormônio até os folículos.
— Pronto. — Murmurou. — Por hoje, acabou. Agora você só tem obrigação de ficar aqui comigo e ver qualquer série idiota que não envolva política nem reportagem de escândalo.
Verena abriu um olho.
— Isso inclui programas de entrevistas com colegas meus?
— Inclui. — Silvia decretou. — Hoje, no máximo, novela antiga ou documentário sobre cozinha. Escolhe.
Verena soltou um suspiro, deixando o corpo afundar um pouco mais no colchão.
— Documentário sobre cozinha. — Decidiu. — Pelo menos se eu passar mal, eu posso culpar a comida, não o hormônio.
Silvia riu, levantando-se da cama. Enquanto ela ia até a cozinha, Verena ficou alguns segundos sozinha no quarto, a mão ainda sobre a barriga, sentindo a leve ardência do ponto da agulha.
Entre o silêncio do apartamento e o zunido distante da cidade, ela percebeu com nitidez desconfortável que aquela seringa pequena, repetida noite após noite, não mexia só com o corpo. Reorganiza o futuro, empurrando-a, centímetro por centímetro, para um lugar que, há pouco tempo, ela ainda pensava poder evitar.
Agora, com o som de talheres e o passo conhecido se aproximando, já não tinha tanta certeza se queria — ou se ainda podia — voltar atrás.
Apartamento do casal Castilho – Quarto, alguns minutos depois
A televisão emitia um brilho azulado e intermitente, projetando sombras dançantes nas paredes do quarto. Na tela, um chef francês explicava com paixão excessiva a textura correta de um crème brûlée, mas o som estava baixo, reduzido a um murmúrio que servia apenas para preencher o silêncio, não para ser ouvido.
Verena estava recostada na cabeceira estofada, os joelhos dobrados, o short subindo pelas coxas. Silvia havia voltado da cozinha com uma tigela de cerâmica fria nas mãos, contendo pedaços de mamão, melão e uvas verdes, brilhando, úmidos, sob a luz da TV.
Ela se acomodou ao lado da esposa, mas não manteve a distância regulamentar de quem apenas divide um sofá. Sentou-se perto, o quadril colado na lateral da perna da esposa, criando um ponto de calor imediato que contrastava com o ar-condicionado suave do quarto.
— Abre. — Silvia pediu, a voz baixa, espetando um pedaço de melão com o garfo pequeno.
Verena obedeceu automaticamente, abrindo a boca. A fruta estava gelada, doce, e explodiu na língua com uma frescura que a fez fechar os olhos por um instante. Mastigou devagar, sentindo o suco descer pela garganta.
— Bom? — Silvia perguntou, os olhos fixos nos lábios dela.
— Uhum. — Verena assentiu, engolindo. — Você colocou mel?
— Só um pouquinho. Pra tirar o amargo do dia.
Silvia levou um pedaço de uva à própria boca, mastigando devagar. Havia uma lentidão nos movimentos dela hoje que Verena conhecia bem. Não era a lentidão do cansaço, mas a de quem está deliberadamente desacelerando o tempo para saborear o que está ao redor.
Verena observou o movimento da mandíbula, a curva elegante do pescoço quando ela engoliu. Silvia era uma mulher linda, objetivamente linda, e aquela familiaridade de anos — o cheiro do hidratante de amêndoas, o jeito como o cabelo caía sobre o ombro — deveria ser um conforto absoluto. E era. Mas, naquela noite, parecia também uma acusação.
Silvia pegou outro pedaço de fruta, mas dessa vez, não levou à boca de Verena imediatamente. Deixou o garfo pairando no ar, roçando de leve no lábio inferior da esposa, desenhando o contorno com a ponta gelada da fruta.
— Você tá tensa. — Silvia constatou, num sussurro, os olhos subindo da boca para os olhos de Verena. — Ainda é a injeção?
Verena negou com a cabeça, incapaz de formular uma frase completa. O toque frio no lábio fez sua pele arrepiar, um choque térmico que desceu pela espinha.
— Não. — Conseguiu dizer. — Só… pensando.
— Para de pensar. — Silvia comandou, a voz rouca, abandonando o tom maternal de minutos atrás.
Ela inclinou-se para frente e capturou os lábios de Verena com os seus, num selinho demorado, que tinha gosto de mel e fruta. Quando se afastou, foi apenas por milímetros. Colocou a tigela no criado-mudo com um baque surdo, sem desviar o olhar, e voltou-se inteira para a esposa.
O documentário foi esquecido.
Silvia deslizou a mão pela perna nua de Verena, os dedos mornos subindo do joelho para a parte interna da coxa, com uma firmeza possessiva. A pele de Verena reagiu instantaneamente, os músculos da coxa contraindo sob o toque.
— Sil… — Verena começou, a voz falhando.
— Shh. — Silvia a calou, inclinando-se sobre ela. O peso do corpo da esposa sobre o seu era familiar, um encaixe que anos de casamento haviam aperfeiçoado.
Silvia beijou o pescoço dela, logo abaixo da orelha, um ponto sensível que ela sabia exatamente como explorar. A boca estava úmida, quente. Ela ch*pou a pele ali com suavidade, fazendo Verena soltar o ar com força pelo nariz. A culpa tentou gritar em sua mente — traidora — mas a sensação física era avassaladora, uma onda que a puxava para baixo, para o corpo, para longe da razão.
A mão de Silvia subiu pela camiseta larga, os dedos encontrando a pele quente da cintura, subindo pelas costelas até roçar a lateral do seio. O toque era ávido, faminto, movido por aquela esperança da gravidez, por uma necessidade de reafirmar que elas eram uma só carne, um só projeto.
— Eu senti sua falta. — Silvia sussurrou contra a pele do pescoço dela, a respiração quente batendo na clavícula de Verena. — Esses últimos dias a gente mal se tocou.
A frase foi como um gatilho. Verena, movida por um desespero que Silvia interpretou como paixão, levou as mãos aos cabelos da esposa, segurando com força, puxando-a para cima. Quando suas bocas se encontraram de novo, não houve delicadeza.
Verena abriu os lábios, convidando, e Silvia invadiu. Foi um beijo profundo, molhado, as línguas se encontrando com uma urgência quase dolorosa. Havia gosto de fruta, de saliva, de desejo represado. Silvia gem*u baixo, o som vibrando na boca de Verena, e pressionou o quadril contra o dela, o atrito dos tecidos sendo a única barreira.
Verena se perdeu naquilo. O beijo era um caos sensorial. Ela sentia os dentes de Silvia roçarem seu lábio inferior, a sucção forte da língua, a falta de ar que começava a queimar os pulmões, mas nenhuma das duas se afastava. Era uma tentativa de devorar e ser devorada.
O colchão cedeu quando Silvia subiu, os joelhos afundando na espuma macia, posicionando-se sobre o colo de Verena. Havia uma determinação feroz nos olhos da esposa, algo que misturava a saudade da semana com a ansiedade hormonal do tratamento. Ela sentou-se sobre os quadris de Verena, o peso do corpo dela se tornando uma âncora, prendendo a deputada ali, naquele momento, naquela realidade.
Verena soltou o ar com força, as mãos subindo automaticamente para segurar a cintura de Silvia, os polegares pressionando a pele macia por baixo da blusa de seda do pijama. O atrito era imediato. Silvia começou a se mover devagar, um roçar circular e deliberado do quadril que fez Verena fechar os olhos e jogar a cabeça para trás, batendo na cabeceira estofada.
— Olha pra mim. — Silvia ordenou num sussurro rouco, mordendo o lóbulo da orelha, a respiração quente arrepiando a nuca.
Verena obedeceu, abrindo os olhos turvos. A culpa estava lá, arranhando a garganta, mas o desejo — aquele desejo antigo, construído em anos de toques e intimidade — falava mais alto. Era uma fuga. Se ela se perdesse naquele corpo agora, talvez a imagem de Valentina desaparecesse.
Num impulso que surpreendeu as duas, Verena segurou os quadris da esposa com firmeza, cravando as unhas, e impulsionou o corpo para cima. Com um movimento brusco, girou as posições. O mundo girou, o teto virou chão, e em um segundo Verena estava por cima, prendendo Silvia contra o colchão.
Silvia soltou um gemido surpreso que logo se transformou em um suspiro de aprovação. Ela sorriu, os olhos brilhando na penumbra da TV. — É assim que eu gosto de você... — Sussurrou, as mãos subindo para arranhar as costas da esposa por cima da camiseta. — No comando.
A frase bateu em Verena como uma bofetada irônica, mas ela não parou. Precisava daquilo. Precisava sentir que ainda pertencia àquela cama. Ela desceu a boca para o pescoço de Silvia, beijando com força, ch*pando a pele sensível, enquanto uma das mãos descia com pressa, tateando a barra da blusa da esposa.
— Tira. — Verena murmurou contra a pele, a voz falhando. — Tira isso agora.
Não houve paciência. As mãos de ambas se atrapalharam por um segundo, dedos buscando a pele, tecido sendo puxado para cima. A blusa de Silvia foi jogada para fora da cama, aterrissando em algum lugar no tapete. O sutiã de renda veio em seguida, os seios se libertando, a pele clara marcada levemente pelo elástico, os mamilos já rígidos reagindo ao ar condicionado e à excitação.
Verena não esperou. Tirou a própria camiseta num puxão único, jogando-a longe, e desabou sobre a mulher. O contato pele com pele foi elétrico. O calor dos seios se encontrando, o ventre pressionando contra o de Silvia, o suor fino começando a brotar entre os corpos.
Silvia arfou alto, as pernas se abrindo automaticamente e subindo para envolver a cintura da esposa, os tornozelos cruzando nas costas da deputada, puxando-a para baixo, forçando o encaixe perfeito de suas pélvis.
— Mais perto. — Silvia pediu, a voz embargada, as mãos segurando o rosto de Verena, puxando-a para um beijo que tinha gosto de posse.
Verena a beijou com uma fome desesperada. As línguas batalhavam, explorando cada canto, as respirações descompassadas se tornando uma só. Verena começou a ditar o ritmo, movendo o quadril contra o de Silvia com força, um atrito úmido e constante, tecido do short contra calcinha, pressão contra pressão.
Silvia gemia dentro da boca dela, as unhas cravando nos ombros de Verena, o corpo arqueando para buscar mais contato. — Verena... — Ela chamou entre os beijos, a voz quebrada. — Amor...
A palavra "amor" fez o estômago de Verena revirar, mas ela usou essa turbulência para intensificar o movimento. Desceu os beijos para os seios sensíveis a boca quente abocanhando um mamilo com avidez, a língua trabalhando ao redor da aréola enquanto a mão descia decidida para o elástico da calcinha da esposa.
— Eu tô aqui. — Verena disse, quase como um mantra para si mesma, enquanto deslizava a mão para dentro do tecido, encontrando a umidade excessiva que denunciava o quanto a mulher sob si a desejava. — Eu tô aqui com você.
Silvia jogou a cabeça para trás, os cabelos espalhados no travesseiro branco, o pescoço exposto, vulnerável e entregue. — Me faz sua. — Silvia implorou, as pernas apertando a cintura de Verena com uma força impressionante. — Não para.
Verena não parou. Ela se moveu com a urgência de quem está prestes a perder tudo, transformando a culpa em prazer, o medo em atrito, tentando calar, com o corpo da esposa, o grito silencioso que Valentina havia despertado em sua alma.
Aumentou o ritmo, os dedos movendo-se com uma precisão quase técnica, buscando aquele ponto exato que ela conhecia na memória, mas aplicando uma urgência nova, quase bruta. A respiração de Silvia se quebrou em pedaços, transformando-se em gemidos sôfregos, contínuos, que vibravam contra o peito de Verena.
O suor fazia a pele das duas grudar, o atrito dos corpos se tornando a única realidade possível. Verena enterrou o rosto na curva do pescoço da esposa, sentindo o cheiro de sal e perfume, mordendo a pele de leve, tentando se cegar para o mundo, tentando existir apenas ali, naquele encaixe. Silvia jogou a cabeça para trás, as unhas cravando com força nas escápulas de Verena, as pernas apertando sua cintura num espasmo.
— Eu tô quase... — Silvia engasgou, a voz rouca, os olhos fechados com força. — Verena, eu vou...
Foi nesse instante que o som cortou o quarto.
O celular de Verena, esquecido em cima da cômoda no outro canto do quarto, começou a vibrar e tocar. O toque era estridente, invasivo, um som agudo que não combinava em nada com o calor úmido da cama.
Verena travou por uma fração de segundo. O músculo da mandíbula saltando. O barulho parecia uma sirene dentro da própria cabeça, uma lembrança física de tudo o que estava errado fora daquele quarto.
Silvia, no entanto, sequer abriu os olhos. Sentindo a hesitação mínima na mão da esposa, ela reagiu com desespero. — Não! — Implorou, as mãos descendo para segurar o punho de Verena, forçando-o a continuar o movimento. — Não para, amor, por favor, não para...
Verena obedeceu, retomando o ritmo, agora mais rápido, mais forte. O toque do celular persistia, ecoando nas paredes, misturando-se aos gemidos cada vez mais altos de Silvia. Era uma cacofonia enlouquecedora: a respiração ofegante, o som úmido do contato íntimo, a voz da esposa pedindo por mais, e aquele toque digital insistente, berrando que a realidade estava chamando.
— Ignora... — Silvia choramingou, o quadril se movendo freneticamente contra a mão de Verena, buscando o atrito final. — Ignora isso!
Verena fechou os olhos com força, a irritação crescendo no peito. Quem ligaria àquela hora? Seria o partido? Alguma emergência? Ou seria a própria consciência materializada?
Ela descontou a raiva no movimento. Intensificou a pressão, os dedos firmes, implacáveis. — Eu não vou parar — Ela rosnou contra o ouvido de Silvia, a voz grave, quase irreconhecível.
Silvia arqueou as costas, saindo do colchão, o corpo todo retesado como uma corda de violino prestes a arrebentar. — Isso... isso... — Silvia balbuciava, perdida no prazer. — Amor, Verena, mais...
O celular parou. Silêncio por um segundo. E então, começou a tocar de novo. Imediatamente. Insistente.
A dissonância era brutal, mas Silvia já estava além do ponto de retorno. Ela gritou o nome da esposa, um som longo e trêmulo, enquanto o corpo convulsionava contra o de Verena, ondas de prazer percorrendo cada músculo, apertando a mão da deputada, prendendo-a ali enquanto o clímax a tomava por completo.
Verena segurou a esposa, sentindo os tremores dela, a respiração errática, o coração batendo descompassado contra o seu próprio peito. Mas, mesmo com o corpo colado ao da mulher, os ouvidos de Verena estavam focados em outra coisa.
O celular ainda tocava.
Silvia desabou sobre o colchão, o corpo mole e pesado. Seus braços deslizaram dos ombros de Verena, e ela se aninhou, sem força, na curva do pescoço da esposa, o rosto afundado na pele suada e quente. Seus gemidos deram lugar a respirações ofegantes, rápidas e superficiais, como se estivesse voltando de uma corrida extenuante.
Verena continuou sobre ela por um instante, o peso de seu próprio corpo amortecido pela inércia de Silvia. Sua pele estava quente, úmida, e o coração ainda martelava furiosamente no peito. Ela tentava recuperar o fôlego, o ar pesado queimando nos pulmões, enquanto os ecos do celular insistente desapareciam na névoa do prazer recém-atingido.
O quarto estava bagunçado: lençóis amarrotados em volta de seus quadris, o short de Verena pendurado em algum lugar, e as roupas íntimas de Silvia espalhadas. O cheiro de sex*, de suor e do perfume de amêndoas pairava no ar gelado do ar-condicionado.
Verena se moveu minimamente, sentindo a necessidade de aliviar o peso, mas não querendo quebrar o contato. Ela girou o corpo de lado, deitando-se junto a Silvia. A esposa estava grudada nela, a perna enlaçada na sua, o braço jogado por cima de seu peito.
— Tá quentinha. — Verena murmurou, a voz rouca, quase um sussurro.
Silvia riu, um som fraco e rouco, quase um chiado, vindo do fundo da garganta. Ela apertou o corpo de Verena.
— Você me deixa assim — Ela conseguiu balbuciar, a frase entrecortada pela respiração ainda irregular. — Toda... mole.
Verena sorriu, um sorriso genuíno que relaxou as feições tensas do rosto. Ela deslizou o braço por baixo de Silvia e a trouxe para mais perto, beijando o topo da cabeça molhada da esposa. Não havia política, nem escândalos, nem a sombra de Valentina ali, havia apenas o calor familiar e reconfortante de sua mulher.
— Amor, você tá muito suada. — Verena constatou, passando a palma da mão nas costas de Silvia, sentindo a umidade da pele. — Quer água?
— Não me solta. — Silvia pediu, a voz de repente infantil, apertando o abraço. Era o medo, a fragilidade pós-orgasmo que a fazia se agarrar assim.
— Não vou soltar. — Verena garantiu, e de fato, ela não se moveu. Ela acariciou a lateral do corpo da esposa, fazendo um desenho suave com os dedos na cintura, depois subindo para as costelas.
— Foi... — Silvia começou, sem conseguir terminar a frase.
Verena entendeu. Era um momento de validação, de reafirmação. — Foi ótimo. — Verena completou para ela, o tom sincero. — A gente precisava disso.
Silvia suspirou satisfeita, um som longo e profundo. Ela ergueu a cabeça apenas o suficiente para beijar o queixo de Verena. O beijo foi doce, um selinho de lábios cheios de saliva.
— A injeção amanhã não vai doer tanto agora. — Silvia brincou, voltando a esconder o rosto no ombro dela.
Verena riu baixinho, mas o sorriso sumiu rápido. Amanhã. A palavra a atingiu. Ela estava segurando Silvia, o corpo exausto e feliz, e preparando-se para trair a promessa desse momento.
Ela fechou os olhos, respirando o cheiro bom da esposa, e tentou se concentrar apenas no toque de pele. Tentou armazenar o máximo de Silvia que pudesse, como se isso servisse de proteção, ou como se fosse uma penitência.
O braço que a abraçava estava dormente, e ela sentiu a ponta do nariz da esposa roçar seu seio.
— Quem será que era no celular? — Silvia perguntou, a voz abafada.
Verena hesitou. — Parou. Não deve ser nada.
A verdade era que ela estava grata pelo toque ter parado. Se fosse Silvia quem tivesse atendido, ou se a chamada fosse importante, o feitiço teria se quebrado de forma catastrófica. Ela afastou o pensamento e beijou o cabelo desgrenhado.
— Vamos levantar para tomar um banho? Estamos grudando. — Verena sugeriu com carinho.
Silvia resmungou, protestando, mas não se moveu. Ela apenas apertou o corpo de Verena em um último abraço possessivo.
Apartamento do casal Castilho – Quarto, 00h41
O quarto estava quase completamente escuro, só a faixa de luz do corredor cortava o chão até metade da cama. Do lado de fora, a cidade seguia em ruído baixo: um carro mais apressado na avenida, um ônibus atrasado, alguém rindo alto na calçada antes de o som se perder na altura do prédio.
Silvia dormia virada de frente para Verena, um braço pesado jogado por cima da cintura dela. O cabelo ainda um pouco úmido do banho espalhava-se pelo travesseiro e pelo ombro da esposa, com aquele cheiro bom de shampoo misturado ao perfume de sempre e a algo mais íntimo, recente.
Verena estava de olhos abertos.
Sentia a respiração quente de Silvia bater de leve na clavícula, em intervalos regulares, quase infantis. Tinha o corpo relaxado de quem tinha finalmente cedido à exaustão, uma perna passada por cima de suas coxas, como se tentasse garantir, dormindo, que ela continuaria ali.
Verena apertou o abraço por um segundo, fechando os olhos, quase num reflexo de culpa.
Tentou se concentrar só naquilo: pele, cheiro, calor. Guardar aquele momento como quem grava um trecho de oração, repetindo mentalmente para ver se se torna verdade. É aqui. É isso. É ela.
Mas, atrás do conforto, havia um fio de inquietação insistente: o toque interrompido mais cedo, a tela acendendo na mesa de cabeceira pelo breve segundo em que conseguiu ver antes de deixar cair de novo, com medo de qualquer ruptura.
Silvia se mexeu, num meio suspiro.
Verena, com cuidado de cirurgiã, começou a desfazer o encaixe. Levantou devagar o braço da esposa, deslizando para fora do abraço sem acordá-la, ajeitou o travesseiro de Silvia sob a cabeça, puxou o lençol até a altura dos ombros dela. Parou um segundo, observando o rosto macio, relaxado, sem as rugas de expressão que apareciam nos dias de briga.
O contraste doeu.
Inclinou-se, depositou um beijo leve na testa dela — um gesto automático, treinado — e só então esticou o braço na direção da mesa de cabeceira. O celular estava onde tinha caído: meio atravessado sobre um livro, a tela virada pra cima. Bastou encostar a ponta dos dedos para o aparelho acender.
O choque veio como um soco silencioso.
No topo da tela, o histórico de chamadas perdidas piscava com insistência fria:
“Valentina – 23h58”
“Valentina – 00h02”
Abaixo, uma notificação do WhatsApp, ainda não lida.
Por alguns segundos, Verena só encarou o nome. Sentiu o estômago afundar, o peito apertar, a nuca esquentar, tudo ao mesmo tempo. A memória fez o resto: naquela hora, ela lembrava exatamente onde estava, o corpo entrelaçado ao de Silvia, a cabeça em outra dimensão, o mundo reduzido a outro tipo de esquecimento.
“Ela ligou enquanto eu…”
Não terminou o pensamento. Olhou ao lado: Silvia continuava dormindo, alheia ao pequeno terremoto a menos de um palmo de distância.
Verena apertou o aparelho na mão e respirou fundo, devagar, tentando não fazer barulho. A luz da tela desenhava um retângulo azul-claro em seu rosto, acentuando as olheiras, deixando o olhar ainda mais exposto.
Deslizou o dedo e abriu a conversa.
A mensagem de Valentina tinha sido enviada pouco depois da última ligação:
“desculpa
eu não devia ter ligado
ignora por favor”
A culpa vinha em camadas.
Primeiro, a mais óbvia: duas chamadas ignoradas de uma menina que, há poucas semanas, tinha saído chorando do carro dela com uma marca no pescoço que nunca deveria ter existido.
Depois, a outra: o fato de que essas ligações tinham acontecido enquanto ela buscava, no corpo de Silvia, uma espécie de redenção que nem ela acreditava mais ser possível. Passou a mão pelo rosto, demorando-se na ponta do nariz, como fazia quando tentava pensar.
A parte racional começou a listar argumentos:
“Você não é obrigada a estar disponível vinte e quatro horas.
Você não sabia quem era na hora.
Ela mesma disse pra ignorar.”
Nenhum deles encaixava bem.
Abriu a caixa de texto. Os dedos pairaram sobre o teclado.
Digitou:
“Valentina, eu vi agora suas ligações.”
Parou. Apagou.
Tentou outra coisa:
“Meu anjo, você tá bem?”
O apelido acendeu um alerta dentro dela. A frase ficou piscando na tela, crua demais. Apagou de novo.
Respirou fundo.
Era madrugada, na cama onde a esposa dormia após uma noite em que tinha se entregado a ela com uma intensidade que Silvia andava implorando há meses. E, ainda assim, as mãos tremiam por causa de uma notificação no canto da tela.
Eu tô doente, pensou, com uma lucidez amarga.
Digitou devagar, escolhendo cada palavra como se fosse cláusula de contrato:
“Acabei de ver suas ligações.
Me desculpa por não ter atendido.
Você tá bem?”
Leu. Não era perfeito, mas era o mais honesto que conseguia sem se trair inteira. Ficou alguns segundos com o polegar sobre o botão de enviar. A imagem de Valentina, talvez já dormindo, talvez acordada, atravessou de novo a mente.
Enviou.
A mensagem subiu na tela, criando mais um bloco de texto naquele histórico já perigoso demais. Olhou o relógio do celular: 00h52. Era tarde. Provavelmente, nenhuma resposta viria. Talvez fosse até melhor assim.
Encostou-se na cabeceira, deixando a cabeça pender para trás, os olhos fechados. O quarto cheirava a madeira encerada e um pouco de perfume de Silvia ainda no ar, trazido pelo banho recente.
Ela permaneceu ali, em silêncio, o aparelho esquecido no colo, tentando organizar a confusão de lealdades que construíra para si. Silvia a poucos centímetros, em pleno processo para se tornarem mães. Valentina no Ipiranga, sozinha com um celular e coragem suficiente para ligar duas vezes.
Quarto da Valentina – 13h57
Valentina estava sentada na beira da cama, o uniforme ainda pela metade — calça jeans, camiseta antiga, cabelo preso num coque frouxo. O celular descansava na palma da mão, a conversa com Verena aberta.
“Acabei de ver suas ligações.
Me desculpa por não ter atendido.
Você tá bem?”
Ela já tinha lido aquelas linhas umas dez vezes desde a madrugada. O polegar deslizava de cima para baixo, como se o movimento pudesse arrancar uma resposta de dentro dela.
“Responde, Valentina”, pensou, sentindo o peito apertar. “Fala qualquer coisa. Que tá tudo bem. Que não tá. Que você não devia ter ligado…”
Tocou no campo de digitação. O teclado subiu, mas, junto, a tela deu um pequeno soluço. Travou por um instante.
— Ah, não… — murmurou, irritada.
Tentou voltar. O celular não respondeu. Tocou no canto superior para sair da conversa. Nada. Tocou duas vezes, três, em outro ponto — o aparelho, enfim, destravou, mas não como ela esperava.
A tela escureceu por um segundo e, de repente, o nome “Verena” apareceu no topo, acompanhado do ícone verde:
LIGANDO…
Valentina gelou.
— Não, não, não… — sussurrou, apertando freneticamente o botão virtual de encerrar chamada.
A interface travou de novo, o pequeno círculo girando preguiçoso no meio da tela. O “ligando” continuava. Ela apertou o botão físico, tentou bloquear a tela, tentou tudo que sabia.
Nada.
O som do próprio coração batia mais alto do que qualquer toque.
— Desliga… por favor… — pediu, como se o aparelho fosse alguém.
Quando, enfim, a tela piscou e o “chamada encerrada” surgiu, Valentina estava com os ombros tensos, respirando curto. Ela ficou olhando para o retângulo aceso, estática, imaginando Verena naquele exato momento. Sozinha? Com alguém? Na Alesp? Em casa?
O celular vibrou de leve, sinalizando “chamada não atendida”. Valentina apertou os olhos, apertando o aparelho com força.
— Eu disse pra você ficar longe, Deus… — murmurou, num meio desespero, meio oração. — E até o celular resolve me contrariar.
Gabinete da Deputada Verena Castilho – Sala de reuniões interna, 14h00
A sala de reuniões do gabinete parecia menor quando ficava só com as duas. A mesa retangular, com seis cadeiras de cada lado, estava tomada por pastas abertas, cópias de ofícios, pareceres impressos e um bloco amarelo de anotações cheio de setas e interrogações. A luz branca do teto realçava o cansaço de ambas, sem permitir sombras generosas.
Verena estava na ponta da mesa, mangas da camisa azul-clara dobradas até o meio do antebraço com os primeiros botões abertos, óculos mais baixo no nariz. Tinha o blazer pendurado nas costas da cadeira. A caneta marcava um ritmo irregular contra o papel — três toques, pausa, mais dois — enquanto ela lia, pela terceira vez, o mesmo parágrafo de um relatório interno.
Rafaela, à esquerda, folheava a cópia das movimentações orçamentárias. O cabelo preso num rabo de cavalo alto, uma caneta vermelha entre os dedos e um copo de café já frio esquecido ao lado do notebook fechado.
— Esses dois últimos depósitos entram essa semana ou a gente empurra pro ano que vem? — Rafaela perguntou, sem tirar os olhos da movimentação bancária impressa. — Se deixar pra depois do recesso, a contabilidade da ONG vai ter que inventar milagre pra fechar relatório anual.
— Entra agora. — Respondeu, sem hesitar. — Última semana útil, ninguém tá prestando atenção em nada. Auditor interno já tá pensando na praia.
Passou o dedo por uma linha específica.
— A gente fecha o ciclo desse “projeto” esse ano. Ano que vem, se o Carmona ainda estiver com sangue no olho, não vai achar fluxo irregular recente. Só trilha velha.
Rafaela assentiu, fazendo uma anotação rápida.
— E a contrapartida deles? — Perguntou. — Aqueles eventos de fachada que a ONG tinha que fazer… vão entregar o quê? Festa de fim de ano com panetone e palestra motivacional?
Verena deu um meio sorriso torto.
— Entregam o PDF com foto recortada de banco de imagem. Ninguém lê mesmo. — Respondeu. — O que importa é nota fiscal, relatório de presença, carimbo e assinatura. O resto é consciência. E essa, você sabe, não entra na prestação de contas.
Rafaela a olhou por cima do papel, um brilho ácido no olhar.
— Você fala desse jeito e depois fica chocada de te chamarem de fria. — Comentou.
— Eu não sou fria. — Verena rebateu, automática. — Eu sou pragmática.
— Tanto faz o adjetivo. — Rafaela devolveu. — O fato é que metade desse esquema foi você que desenhou.
Verena não contestou. Sabia que era verdade. O celular estava próximo, ao lado do bloco de notas, virado com a tela para cima. Por reflexo, ela mantinha o aparelho ali, sempre ao alcance da mão — vício de quem vive à base de ligação de liderança, pauta de urgência, assessoria de imprensa.
Rafaela apontou para outra planilha.
— Esse repasse da ONG “Cidade em Movimento”… — Começou. — Ele tá redondinho demais. — Circulou um trecho. — Mesmo CNPJ, mesmo contador, mesmo escritório jurídico de três entidades diferentes. Se algum promotor pegar isso num dia inspirado, vai ver que a mesma meia dúzia de CPF tá comendo nos três pratos.
— A gente paga pelo risco que corre. — Verena disse, baixando o olhar para a ponta da própria caneta. — Se eu quisesse vida tranquila, tava dando aula em universidade.
— E não desviando verba de emenda. — Rafaela completou, sem rodeio.
Verena ergueu um canto da boca, cansada.
— Eu prefiro “redistribuindo recursos mal planejados”. — Corrigiu. — Tem escola que só existe no papel, mas recebe verba. Eu só… desvio o desvio.
— E garante que uns conhecidos não passem aperto, né. — Rafaela comentou, sem maldade explícita, só constatando a cadeia de favores.
A discussão não tinha tom de confissão dramática. Era quase burocrática: duas profissionais experientes afinando a engrenagem de algo que já funcionava, mas precisava ser revisado antes de qualquer férias.
Foi quando o celular de Verena começou a tocar. O som ali dentro sempre parecia mais alto do que era. Ela olhou por reflexo. O nome no visor a atingiu como uma pancada mal calculada:
Valentina
Por um instante, a sala ficou menor.
Verena sentiu primeiro no corpo: um calor súbito no estômago, subindo à garganta, o couro cabeludo formigando. O coração acelerou num ritmo descompassado, a boca secou. O tempo de identificar o nome foi o mesmo de sentir o peso de tudo o que vinha junto: as chamadas ignoradas na madrugada, a mensagem enviada às pressas, o silêncio que se seguiu.
Virou o celular de costas, num gesto rápido, quase brusco, como quem apaga um fósforo antes da chama crescer.
— Não vai atender? — Rafaela perguntou, automática, sem tirar os olhos da planilha.
— Agora não. — Verena respondeu de pronto, rápido demais.
Esse “rápido demais” fez Rafaela levantar a cabeça.
Ela não tinha visto o nome na tela, a distância e o ângulo não permitiam. Mas conhecia bem a amiga para perceber a micro fração de pânico que atravessou o rosto dela antes de se recompor.
— Deve ser importante pra te deixar branca desse jeito. — Comentou, com uma ironia suave.
— Branca eu já nasci. — Verena tentou desviar, resgatando um humor breve. — O resto é culpa da luz fluorescente.
O toque continuou insistente, preenchendo o espaço entre as duas. Rafaela largou a caneta, encostando-se na cadeira.
— Se for do partido, você vai ter que atender de qualquer jeito. — Disse. — Se for algum jornalista, melhor saber logo o tamanho da encrenca. Se for a Silvia… — Deu de ombros. — Você sabe que não é bom deixá-la chamando três vezes.
O olhar de Verena vacilou um milímetro.
— Não é o partido. — Disse. — Nem jornalista. Nem a Silvia.
Rafaela arqueou uma sobrancelha.
— Então é quem?
Verena apertou o botão lateral, cortando o toque. O silêncio caiu de novo com um peso quase audível. Ela largou o aparelho virado para baixo e voltou a segurar a caneta, como se nada tivesse acontecido.
— É… um assunto meu. — respondeu, enfim.
Rafaela sustentou o olhar por alguns segundos.
Ali, naquela pausa, cabiam anos de convivência. Sabia dos desvios, sabia das noites mal dormidas, sabia da linha tênue em que Verena vivia entre o público e o privado. Sabia também que havia alguém que deixava a deputada nesse estado de nervos estranhamente exposto.
Não precisava de nome na tela para entender que o telefone tocando tinha tudo a ver com essa zona proibida.
— Tá bom. — Disse, por fim, recolhendo a caneta. — Fica com o seu “assunto”. Eu fico com as notas fiscais.
Voltou a se debruçar sobre as planilhas, mas o tom estava menos leve. O celular vibrou de novo, silencioso desta vez. A mesa absorveu o tremor, mas o bolso do blazer de Verena, onde ela o enfiara quase por reflexo, pareceu amplificar cada vibração.
— Você vai deixar tocar até cair? — Rafaela perguntou, agora abertamente curiosa.
Havia algo de diferente naquele toque. Ela tinha trabalhado tempo demais ao lado de Verena para não perceber a leve mudança no modo de segurar a caneta. O jeito como o maxilar apertava. O silêncio.
A deputada apertou o botão de silenciar de novo, mais firme.
— Eu tô no meio de uma reunião sobre desvio. — Justificou, olhando de volta para os papéis. — Eu não vou atender ligação pessoal agora.
— Desde quando você não atende ligação pessoal no meio de reunião? — Rafaela retrucou, cruzando os braços. — Eu já vi você sair no meio de audiência pra falar com a Silvia.
O nome da esposa no ar provocou outra contração, ainda mais incômoda.
— Esse não é o tipo de comparação que eu quero ouvir hoje. — Verena respondeu, a voz baixa, cortante.
Rafaela inclinou a cabeça de lado, estudando o rosto da chefe. Os olhos escuros, por trás dos óculos, tinham aquele brilho que ela já aprendera a reconhecer: não era raiva, nem cansaço. Era pânico controlado.
Verena sustentou o olhar, agora, por pura defesa.
— Uhum, entendi. Só lembra de respirar beleza? — Rafaela murmurou. — Senão daqui a pouco você desmaia em cima do comprovante de TED e vão achar que é culpa do Tribunal de Contas.
Verena soltou o ar, sem perceber que o prendia.
— Eu tô respirando. — Respondeu.
— Tá, sim. — Rafaela retrucou, seca. — Do mesmo jeito que você “não tá se envolvendo”.
— Você tá insinuando o quê exatamente, Rafaela? — Perguntou, a voz baixa, perigosa.
Rafaela recuou um pouco, mas não tanto quanto deveria.
— Eu tô insinuando que você anda atolada até o pescoço em problema por todos os lados. — Respondeu. — E que, se tiver mais algum que eu não saiba, eu preciso pelo menos ter noção do tamanho. Porque, no fim, quem apaga incêndio no gabinete sou eu.
A sinceridade crua, dita sem rodeio, cortou mais fundo do que qualquer acusação.
— Não tem mais nenhum incêndio além dos que você já conhece. — Disse, por fim, escolhendo as palavras como se fossem dinamite. — E essa conversa, por enquanto, termina aqui.
Rafaela segurou a língua por um segundo. Abriu a boca, fechou. A vontade de provocar, de arrancar mais alguma reação, lutava com a noção clara da linha que não podia cruzar.
Ergueu as mãos num gesto teatralmente rendido.
— Você é a deputada. — murmurou. — Só não esquece que, quando estourar alguma coisa, vão bater na minha porta também.
Pegou a caneta, voltou a marcar um trecho da planilha, mas o olhar, mais duro, demorou-se um pouco mais em Verena antes de baixar para o papel. A reunião retomou seu curso — números, datas, nomes de ONGs, encaminhamentos para o jurídico. Por fora, tudo voltava ao script técnico.
Por dentro, não.
Foi assim, nesse equilíbrio estranho — entre o crime calculado nas planilhas e o descontrole de um nome piscando na tela — que as duas voltaram a falar de porcentagens, prazos, carimbos e recessos, onde afinavam os últimos detalhes de um esquema que não podia falhar. Por dentro, Verena tentava ignorar o fato de que uma ligação quase tinha escancarado, sem querer, a parte mais perigosa de sua vida, que Rafaela já sabia que existia, mas que ainda não tinha noção da gravidade.
Estacionamento subterrâneo da Alesp – 16h39
A garagem cheirava a gasolina velha e concreto úmido. O eco distante de um carro manobrando em outra ala, um portão abrindo, alguém falando ao telefone perto do elevador. No box reservado ao gabinete, o sedã escuro de Verena descansava num retângulo de luz amarelada de neon.
Ela entrou no carro, jogou a pasta de couro no banco do passageiro e bateu a porta com um pouco mais de força do que pretendia. O silêncio que veio depois foi quase agressivo.
Por alguns segundos, ficou só ali, com as mãos no volante, respirando. O eco da reunião com Rafaela ainda latej*v* na cabeça: números, ONGs, repasses, a frase “você anda atolada até o pescoço em problema” martelando mais do que qualquer porcentagem.
O peso no bolso interno do blazer chamou a atenção.
Verena suspirou, tirou o celular e apoiou-o sobre a coxa. A tela acendeu com uma fila de notificações. No topo, o que ela já sabia que viria:
WhatsApp – Valentina (3 mensagens)
O coração apertou num reflexo. Ela tocou na conversa.
As mensagens tinham chegado pouco depois das ligações que interromperam a reunião:
“me perdoa pelas ligações
eu juro que não foi de propósito”
Mais abaixo:
“meu celular travou e começou a chamar sozinho
eu tava tentando sair da conversa”
E, por fim:
“tá tudo bem
não precisa se preocupar comigo
desculpa de novo”
Não havia emoji, nem dramalhão, nem ponto de exclamação. Só aquela educação excessiva de quem se sente sempre em falta, mesmo quando o erro não é seu. Verena encostou a cabeça no encosto do banco, fechando os olhos por um instante, o celular ainda aberto na mão.
Era tão fácil imaginar o resto da cena: Valentina xingando o aparelho, tentando encerrar a ligação que não queria fazer, desesperada com a possibilidade de aparecer como “a menina que não sabe a hora de parar”.
Ela voltou a olhar para a tela.
As palavras “não precisa se preocupar comigo” provocaram um incômodo quase físico. Porque ela se preocupava. Mais do que deveria, mais do que era saudável, mais do que conseguia admitir se olhando no espelho.
O polegar desceu devagar até a caixa de texto.
Digitou:
“Você não precisa pedir desculpa por nada.”
Apagou.
Tentou outra frase:
“Se eu soubesse que era você, eu tinha atendido.”
Apagou de novo.
O problema não era encontrar o que dizer; era todo o resto que vinha pendurado em qualquer palavra. Do lado de fora, alguém passou empurrando um carrinho de meta,; o ruído das rodas no cimento atravessou a bolha de silêncio dentro do carro.
Verena respirou fundo, endireitou a postura e forçou a cabeça a ficar fria. Digitou, enfim, com a sobriedade que sabia construir quando queria:
“Eu vi suas mensagens agora.
Fica tranquila, eu entendi.
Ainda bem que você tá bem.”
Leu a sequência, avaliando cada verbo, cada pronome. Era mais frio do que ela sentia, menos do que queria dizer. Talvez fosse exatamente isso que precisava ser.
Os olhos subiram sozinhos, encarando o topo da tela, onde o nome de Valentina aparecia ao lado da foto de perfil. Verena hesitou um segundo com o polegar sobre o botão de enviar. Por um momento, uma outra frase lhe atravessou a cabeça, quase como um reflexo:
“Eu me preocupo com você.”
Mas ficou só na cabeça.
Ela apertou “enviar”.
As três linhas subiram, alinhadas à direita, com o pequeno tique simples ao lado, ainda cinza. Mensagem entregue, não lida.
Verena colocou o celular virado para baixo sobre a perna, apoiou o cotovelo na janela e passou a mão pelo rosto, devagar, como se estivesse limpando algo mais pesado do que cansaço.
Ali, cercada por carros oficiais e concreto, com a agenda da semana um caos na cabeça e uma vida inteira se reorganizando ao redor do sonho de um filho com Silvia, ela tinha plena consciência de que não podia mais tratar aquelas notificações como um detalhe.
E, mesmo assim, continuava respondendo.
Girou a chave, ligando o motor. O ronco do carro encheu o box, empurrando a reflexão alguns centímetros para trás na mente.
Engatou a marcha, olhou rápido pelo retrovisor.
Por um instante, o próprio olhar a encarou de volta, mais velho do que a foto no perfil de WhatsApp, mais cansado do que o discurso em plenário, mais honesto do que qualquer nota oficial.
Então ela virou o volante, saiu da vaga e subiu a rampa da garagem, levando no bolso um telefone que talvez não devesse tocar mais e, no entanto, ela sabia que ainda ia esperar que tocasse.
Casa da família Moraes – Quarto da Valentina, 17h00
O quarto estava num fim de tarde que já começava a virar noite. A luz amarelada do poste entrava pela fresta da cortina, recortando o chão em linhas tortas. De algum apartamento vizinho vinha um louvor ao vivo, microfonado demais, misturado ao barulho de panela da cozinha.
Valentina estava sentada no chão, encostada na cama, as pernas cruzadas, o caderno aberto ao lado com uma matéria de biologia que ela não conseguia ler fazia meia hora. O celular descansava no colchão, a tela virada para baixo, como se aquilo fosse capaz de diminuir o peso que carregava.
Quando finalmente criou coragem, virou o aparelho.
A notificação estava lá.
Verena – 1 mensagem.
O coração deu um salto bobo. Sentiu o rosto esquentar antes mesmo de abrir.
Tocou na conversa.
“Eu vi suas mensagens agora.
Fica tranquila, eu entendi.
Ainda bem que você tá bem.”
Leu uma vez. Duas. Três.
Cada frase parecia simples, neutra. Mas, para Valentina, vinha carregada de coisas que ela nem conseguia entender direito. “Eu vi suas mensagens agora” – ela imaginava Verena no meio do dia corrido, parando por um instante pra voltar numa conversa com ela. “Fica tranquila” – como se fosse possível. “Ainda bem que você tá bem” – essa, especialmente, fez o peito apertar.
Ela se importa, pensou, quase irritada consigo mesma por sentir tanta coisa em três linhas.
Passou a mão pelo rosto, tentando dar um jeito na expressão, mesmo sozinha. Sabia que estava sorrindo de um jeito idiota, o mesmo sorriso que tentava esconder na escola quando lembrava do carro, da voz grave chamando seu nome, dos beijos que não conseguia apagar da memória mesmo querendo.
Ao mesmo tempo, a culpa veio rápido, como sempre.
A imagem de Silvia voltou à cabeça: mulher adulta, bonita, casada com Verena, em algum lugar da cidade, dividindo cama, casa, planos. A palavra “esposa” pesava como um versículo do culto. Aquilo não era só errado – era um tipo de pecado que ela tinha ouvido pregação a vida toda sem saber que um dia estaria no centro.
“Você é louca”, pensou, sentindo o olho marejar. “Ela é casada, é mais velha, é… tudo o que eu não posso querer.”
Mas bastava imaginar que, em algum lugar de São Paulo, Verena também estava sob o mesmo céu, talvez olhando o celular, talvez pensando nela, para a lógica afundar em dois segundos.
Ela queria contar. Queria dividir aquele turbilhão com alguém: o medo, a vergonha, a sensação de estar escorregando para um lugar sem volta… e, por cima de tudo, a felicidade pura, absurda, de ser notada por Verena Castilho. Não pela deputada da televisão, mas pela mulher dos toques, dos beijos, das mensagens de madrugada.
Pensou em Carol.
Lembrou do banheiro da escola, das palavras duras, da amiga dizendo que aquilo já tinha ido longe demais, que ela precisava se afastar, que Verena era covarde. A amizade tinha voltado ao eixo, mas por cima de um terreno rachado. Puxar aquele assunto de novo parecia pedir outra briga.
Valentina sabia que, se mostrasse aquelas mensagens, a amiga não ia suspirar e dizer “que lindo”. Ia perguntar o que ela estava fazendo da própria vida.
Engoliu em seco.
Olhou de novo para o celular na mão.
O silêncio do quarto parecia maior. Na sala, dava pra ouvir Ana Paula falando alguma coisa com Isadora sobre a tarefa de casa. Um “amém” solto no final denunciava que a mãe tinha emendado a bronca com uma recomendação sobre Deus ver tudo.
Valentina abaixou a cabeça.
— Eu sei que o Senhor vê. — murmurou, quase sem voz. — É isso que mais me assusta.
Quis chorar. Não chorou. As lágrimas estavam gastas demais desde que tinha saído do estágio, numa sequência de dias em que nada parecia encaixar direito. Foi então que lembrou de Léo.
O rosto dele surgiu na memória com clareza irritante: o jeito leve de levar a vida, o reencontro no banco, semanas antes. Lembrava de ter anotado o número dele às pressas no verso de uma folha de rascunho, dentro do estojo. “Vai que um dia você precisa”, ele tinha dito, brincando. Na hora ela achara exagero. Agora, aquela frase parecia quase profética.
Valentina se levantou devagar, as pernas um pouco bambas pelo tempo que ficou sentada. Abriu a gaveta da mesa, puxou o estojo, revirou canetas, marca-textos, um santinho amassado da igreja.
Achou o papel dobrado em quatro. Desdobrou com cuidado. No meio de anotações tortas de matemática, lá estava: “Léo – estágio” e um número de celular escrito em azul, com a caligrafia dele.
Sentiu uma onda de hesitação.
“O que você tá fazendo, Valentina?”
Não queria paquerar ninguém. Não era isso. Só precisava de alguém que estivesse meio fora daquela bagunça toda, mas que, ao mesmo tempo, entendesse alguma coisa sobre o mundo em que Verena existia. Alguém que soubesse o que era gabinete, assembleia, liderança, Verena, mas que não fosse nem Carol, nem igreja, nem família.
Alguém com quem pudesse ser só ela mesma, e não a filha mais velha, a menina da igreja, apaixonada por uma mulher proibida. Sentou de novo na cama, o papel numa mão, o celular na outra.
Abriu o WhatsApp, tocou no ícone de nova conversa, digitou os números devagar, conferindo duas vezes para não errar. O nome ainda não aparecia na agenda. Ninguém salvo com aquele número. Ficou alguns segundos com o cursor piscando no campo de mensagem.
Poderia apagar tudo e fingir que não tinha chegado até ali. Que nunca tinha visto o bilhete. Que estava exagerando. Que dava conta sozinha. Mas a solidão daqueles dias — a forma como o peito parecia sempre cheio demais, como se ela estivesse carregando um segredo grande demais pra idade que tinha — empurrou o dedo um pouco mais à frente.
“oi, aqui é a valentina”
Escreveu em letras minúsculas, como sempre fazia quando estava com vergonha.
Olhou, achou formal demais. Acrescentou:
“do estágio”
Pensou em colocar um “desculpa sumir” embaixo. Digitou. Apagou. Parecia íntimo demais para um começo. Respirou fundo. Por um instante, teve vontade de jogar o celular longe, abraçar o travesseiro e fingir que o mundo inteiro tinha sumido.
Em vez disso, com o coração disparado e a sensação clara de que estava atravessando mais uma linha invisível, apertou enviar. As mensagens foram, uma abaixo da outra. Duas setas cinzas apareceram.
Valentina deixou o celular ao lado, com a tela virada para baixo, como se isso diminuísse a ansiedade. Encostou a cabeça na parede, os joelhos dobrados, o caderno de biologia aberto e esquecido no colchão.
Lá fora, uma música emendava um refrão sobre um coração partido.
Lá dentro, o dela batia rápido demais, dividido entre a culpa que conhecia de cor e uma felicidade silenciosa — quase clandestina — por saber que, em algum lugar da cidade, Verena tinha pensado nela o suficiente para se preocupar em responder.
E, agora, pela primeira vez em muito tempo, ela tinha arriscado estender a mão pra alguém que não fazia parte daquele labirinto. Léo não sabia, mas acabava de ser puxado para o círculo de uma história que ele nem imaginava que existia.
Quarto da Valentina – 17h04
O celular estava virado para baixo havia exatos três minutos e meio.
Valentina sabia, porque olhava pro relógio digital no criado-mudo a cada trinta segundos, fingindo que estava tentando decorar fórmulas, quando na verdade só fazia contas inúteis: se ele estivesse com o celular na mão, se estivesse no ônibus, se estivesse trabalhando.
Virou o aparelho.
Nada.
As duas setas continuavam cinzas, imóveis. Nenhum “digitando…”, nenhuma reticência salvadora. Ela girou a caneta entre os dedos, apertando o plástico até doer. Uma parte dela torcia pra ele não responder — seria mais uma desculpa pra recuar, dizer a si mesma que aquilo tinha sido só um impulso. Outra parte… outra parte queria ouvir qualquer coisa que não fosse a própria cabeça.
Quando finalmente decidiu levantar para ir até a cozinha beber água — um alívio falso — o celular vibrou na cama. Ela congelou no meio do movimento, voltando devagar, como se qualquer gesto brusco pudesse espantar a mensagem.
Na tela:
“Valentinaaa 👀
achei que vc tinha virado deputada de novo e esquecido dos pobres mortais do estágio”
Um sorriso escapou antes que ela conseguisse controlar. Léo tinha aquele jeito leve até digitando: o excesso de vogais, o emoji brincalhão, a piada pronta. Só de ler, sentiu um pouco do peso no peito afrouxar.
Outra mensagem entrou logo em seguida:
“tá viva então, né?
graças a Deus pq eu já ia ligar na Alesp e pedir busca e apreensão rs”
Valentina mordeu o lábio para segurar o riso. A imagem dele reclamando no gabinete, teatral, quase se materializou.
Respirou fundo e respondeu:
“tô viva kkk
desculpa sumir”
Olhou. Apagou o “kkk”. Reescreveu.
“tô viva sim
desculpa ter sumido”
Mandou assim mesmo. Simples. A resposta veio quase imediata, como se ele estivesse esperando do outro lado:
“relaxa
vida de quase adulta é assim msm, né
a gente some, surta, volta”
Mais uma:
“mas confesso que senti falta de ter com quem reclamar do Carmona na hora do almoço 😔”
Valentina riu sozinha, baixinho.
“eu tbm senti falta de vcs”
Digitou, sem pensar demais.
“foi tudo muito rápido”
Dessa vez, o “digitando…” demorou um pouco mais.
“eu imagino
só deu tempo de vc sumir e começar a rolar boato de que tinha rolado treta com o colégio
essas coisas de corredor vc sabe né”
O coração dela afundou um pouco.
“que boato?”
Os três pontinhos apareceram, sumiram, voltaram.
“ah, nada mto grave não
só gente falando q tinha dado rolo com a escola
q mandaram e-mail reclamando do programa
essas fofocas de sempre
eu nem dei bola pq o pessoal inventa coisa de tudo”
Valentina sentiu a palma da mão suar. Sentiu um desconforto agudo só de imaginar que seu nome circulava por corredores que ela não via mais, ecoando em bocas que não conhecia. Demorou alguns segundos para responder.
“é
teve umas coisas sim
mas tá tudo resolvido”
Meia mentira. Resolvido não estava. Mas não sabia por onde começar se fosse contar a verdade. Léo não insistiu na brecha. Em vez disso:
“qualquer dia se vc quiser desabafar eu tô por aqui, viu
não sou tão bom quanto psicólogo do plano da Alesp
mas cobro mais barato 😌”
Ela sorriu de novo, nervosa.
“valeu
é que aqui em casa tá meio corrido tbm”
Pensou em acrescentar “eu não sei o que tô fazendo da minha vida”, “tô apaixonada por uma mulher casada que foi minha chefe”. Mas não acrescentou nada.
A resposta veio com mais leveza:
“normal
final de ano é correria pra todo mundo”
Pausa.
“vc ainda tá indo na igreja todo dia?
ou deu uma sumida geral do mundo?”
Valentina hesitou.
“dei uma sumida geral”
Mandou. Sabia que, por si só, já dizia mais do que queria. Léo demorou um pouco, depois respondeu:
“ah
às vezes faz bem
respirar um pouco longe de tudo”
Os três pontinhos voltaram antes que ela pudesse pensar em outra coisa.
“mas ó
se vc quiser um dia vir almoçar no centrão um sábado desses
a gente marca
vou te pagar aquele pastel q eu te prometi e nunca cumpri”
A lembrança veio rápido: a piada dele, no gabinete, falando de um pastel de feira “que mudava vidas”, e ela dizendo que só ia se ele parasse de aumentar a história. Nunca tinham ido.
“não sei ainda
mas obrigada por lembrar rs”
Escreveu o “rs” quase com culpa, como se rir fosse algum tipo de traição a tudo o que sentia por Verena. Na cozinha, a voz da mãe a chamou, abafada:
— Valentina? Vem lavar a mão pra jantar!
— Já vou! — ela respondeu, ainda com o celular na mão.
Outra mensagem de Léo entrou antes que bloqueasse a tela:
“sem pressão, sério
eu só achei bom vc ter mandado mensagem
tava com medo de vc ter sumido de verdade
essas coisas da alesp mexe com a cabeça, eu sei”
Valentina prendeu a respiração por um segundo. Ele não fazia ideia do tamanho da frase que tinha escrito. “essas coisas da alesp mexe com a cabeça” soava quase como uma legenda da vida dela nos últimos meses.
Digitou:
“mexeu sim
mais do que eu pensei”
Ficou olhando a frase por alguns segundos, o polegar tremendo.
Enviou.
Não era uma confissão. Mas, pela primeira vez, ela tinha dado um passo em direção a alguém que não estava dentro do labirinto.
— Valentina! — a mãe chamou de novo, mais firme.
— Tô indo! — ela respondeu, guardando o celular no bolso do short.
Levantou-se, sentindo as pernas estranhamente leves e pesadas ao mesmo tempo.
Enquanto caminhava pelo corredor em direção à cozinha, pensou em como, poucos meses antes, sua maior preocupação era prova de matemática, escala de louvor e se ia ter dinheiro pro lanche na cantina.
Agora, dividia o coração entre uma mulher inacessível, uma culpa que não largava e um ex-colega de estágio que, sem saber, tinha acabado de ser escolhido como a pessoa para quem talvez, um dia, ela teria coragem de dizer pelo menos uma parte da verdade.
E a certeza silenciosa — quase um segredo entre ela e o teto do quarto — de que, em algum lugar de São Paulo, Verena tinha parado o dia para escrever “ainda bem que você tá bem”.
Ipiranga — São Paulo, 08h10
Valentina escolheu as palavras com cuidado.
Não foi uma decisão impulsiva. Ela ensaiou mentalmente enquanto dobrava uma blusa, enquanto organizava a mochila, enquanto esperava o café esfriar sobre a mesa. Sabia que qualquer erro de tom, qualquer argumento frouxo, faria tudo ruir.
— Mãe… — começou, apoiando o cotovelo na mesa, a voz neutra demais para parecer mentira. — Eu preciso ir ao centro hoje.
Ana Paula levantou os olhos do pano de prato, imediatamente alerta.
— Centro pra quê, Valentina?
— Pro Sebo do Messias.
O nome saiu firme, ensaiado. Funcionava quase como um selo de credibilidade.
— A professora de literatura comentou de uma edição específica de um livro que pode cair na Fuvest — continuou, sem pressa. — Eu procurei na internet, mas o frete tá muito caro. Lá costuma ter essas edições mais antigas.
Carlos, sentado à ponta da mesa, cruzou os braços.
— E por que tem que ser hoje?
Valentina respirou fundo, sem teatralidade.
— Porque se deixar pra depois, alguém compra. — Deu de ombros. — E não é passeio, pai. É ir direto, comprar e voltar.
Ana Paula trocou um olhar rápido com o marido. O Sebo do Messias tinha peso. Não era shopping, não era rua à toa, não era “ficar rodando”. Era livro, estudo, tradição.
— Você vai sozinha? — a mãe perguntou.
— Vou encontrar um colega lá. — Valentina respondeu com cuidado, sem dar nome. — Só pra procurar o livro.
O efeito foi imediato.
Ana Paula franziu a testa.
— Amigo?
Carlos inclinou levemente o corpo para frente.
— Que amigo?
Valentina percebeu tarde demais. Aquela frase não ajudara. Pelo contrário.
— Um menino que também tá estudando pro vestibular. — explicou, tentando manter o tom neutro. — A gente ia só procurar o livro.
Ana Paula cruzou os braços.
— Desde quando você sai sozinha com menino, Valentina?
— Não é sair mãe. — Ela respondeu, defensiva. — É só se encontrar lá dentro.
— Você sempre saiu com a Carol. — a mãe rebateu, firme. — Nunca teve esse negócio de “amigo”.
Carlos assentiu, sério.
— Isso não tá me cheirando bem.
Valentina sentiu o rosto esquentar. Não era culpa. Era exposição.
— A Carol não pode ir hoje. — disse, num fio de sinceridade que escapou sem querer.
O silêncio que caiu sobre a mesa foi pesado. Não havia grito, nem acusação direta. Apenas aquele clima de desconfiança contida que Valentina conhecia bem.
— Valentina. — Carlos falou por fim — Não sei não hein.
— Pai. — Ela respondeu baixo. — Eu preciso desse livro.
Ana Paula sustentou o olhar da filha por alguns segundos longos.
— Que horas você pretende ir?
— Depois do almoço. O metrô fica cheio, mas é mais seguro.
Carlos a olhava com seriedade.
— E volta que horas?
— Antes de escurecer. — Valentina respondeu rápido, sem hesitar. — Eu mando mensagem quando chegar e quando sair.
Carlos observou a filha por alguns segundos longos, avaliando não só o pedido, mas o jeito como ela se mantinha firme.
— Nada de ficar rodando pelo centro — disse, por fim. — Vai, resolve o que tem que resolver e volta. E manda mensagem quando chegar e quando sair.
— Mando sim. — Valentina respondeu rápido, segurando o alívio no peito.
— E sem escurecer — completou Ana Paula.
— Eu volto antes disso.
Feira livre da Rua do Carmo – Centro de São Paulo, 14h00Eles já tinham andado a feira inteira quando Valentina percebeu que os pés começavam a doer.
As sacolas pesavam um pouco mais do que deveriam, o cheiro de fritura misturado com fruta madura e caldo de cana impregnava o ar, e o barulho era constante: feirantes gritando preços, gente discutindo troco, crianças puxando os pais pelo braço. Tudo vivo demais. Tudo exposto demais.
Léo parecia em casa.
— Eu juro por tudo que é mais sagrado — dizia, andando de costas por alguns passos, equilibrando a sacola com o livro dentro — que essa confraternização foi um erro coletivo.
Valentina riu baixo, ajeitando a alça da mochila.
— Você foi convidado?
— Não. — Ele respondeu com orgulho. — Fui de penetra. Que é sempre onde estão as melhores histórias.
Ela balançou a cabeça, já prevendo.
— Léo…
— Não, escuta essa — ele insistiu, parando em frente a uma barraca de pastel. — Vamos sentar aqui porque essa história exige acompanhamento gastronômico e porque eu te prometi um pastel.
Eles se acomodaram em dois banquinhos de plástico meio tortos. Valentina colocou a sacola no colo, cruzou as pernas com cuidado, tentando ocupar o menor espaço possível. Léo pediu dois pastéis de queijo e um caldo de cana grande, como se fosse uma decisão óbvia e irrevogável.
— Então. — Ele apoiou os cotovelos na mesa de metal. — Empresa da amiga da minha amiga. Climinha corporativo, gente fingindo que gosta do chefe, essas coisas. Até aí tudo bem.
Valentina assentiu, segurando o sorriso.
— Aí o quê?
— Aí o gerente do financeiro bebeu demais. — Ele fez um gesto largo com a mão. — E quando eu digo demais, é nível subir em cima da mesa pra discursar sobre “espírito de equipe”.
Valentina levou a mão à boca, tentando conter o riso.
— Não…
— Sim. — Léo confirmou, saboreando cada palavra. — E não satisfeito, ele resolveu cantar.
— Meu Deus.
— E não era qualquer música. Era Evidências.
Ela fechou os olhos por um segundo, já imaginando a cena.
— Para.
— No refrão, alguém chorou. — Ele continuou, impassível. — Não sei quem. Mas chorou de verdade. E a esposa do chefe filmou tudo achando que era fofo.
Valentina abaixou a cabeça, rindo sem som, o rosto já quente.
— Isso é horrível.
— Isso é histórico. — Ele corrigiu. — E calma que piora.
O pastel chegou, estalando de quente. Valentina esperou alguns segundos antes de morder, como se aquilo fosse um ritual de contenção. Léo não teve a mesma paciência.
— A estagiária do RH — ele disse, mastigando — ficou com o gerente de projetos atrás do palco.
Valentina engasgou.
— Léo!
— Relaxa, não tinha palco. — Ele corrigiu rápido. — Era só um espaço improvisado com caixa de som. O que torna tudo ainda mais triste.
Ela levou a mão ao rosto, morrendo de vergonha por ele, por ela, por todo mundo.
— Você sabe de tudo, né?
— Eu observo. — Ele deu de ombros. — E pergunto. As pessoas contam coisas incríveis quando acham que você não vai julgar.
Valentina mordeu o pastel, o queijo escorrendo um pouco. O gosto simples, quente, parecia ancorá-la ali, naquele banco desconfortável, longe de casa, longe da própria cabeça.
— Você devia escrever um livro — ela comentou, baixo.
— Já pensei. — Léo respondeu. — Mas acho que ninguém acreditaria.
Ela sorriu, sincera. Depois ficou em silêncio por alguns segundos, mastigando devagar, olhando o movimento da feira. A vida acontecendo sem pedir permissão.
— E você? — Léo perguntou, de repente, mais suave. — Valeu a fuga?
Valentina demorou a responder.
— Valeu. — disse por fim. — Eu precisava sair um pouco.
Ele assentiu, sem fazer piada dessa vez.
— Às vezes o centro ajuda. — falou. — É caótico o suficiente pra dar uma arejada.
Ela concordou com a cabeça.
— Só não conta isso lá em casa — ela disse, quase rindo. — Meus pais iam surtar se soubessem que eu parei pra comer pastel.
— Fica tranquila. — Léo piscou. — Isso aqui é segredo de feira.
Valentina sorriu de novo, sentindo o peito menos apertado. Por algumas quadras, por alguns risos, por aquele banco desconfortável… ela não estava explodindo.
Feira livre da Rua do Carmo – Centro de São Paulo, 14h25Valentina parou de comer no meio da mordida.
O pastel ficou apoiado no guardanapo de papel, dobrado de qualquer jeito, o queijo já frio escorrendo um pouco pela lateral. Ela não percebeu. O olhar tinha se perdido em algum ponto indistinto da feira, além das pessoas passando, além das vozes dos feirantes, além da própria mesa de metal.
Léo continuou falando por alguns segundos, embalado pela própria história.
— …aí quando eu achei que não tinha como piorar, a mulher do marketing tropeça no fio da caixa de som e derruba tudo—
Ele percebeu o silêncio.
— Oi. — disse, inclinando um pouco o corpo. — Você morreu?
Valentina não respondeu.
Ela estava imóvel demais. As mãos pousadas no colo, os ombros levemente curvados, como se algo tivesse pesado de repente dentro dela. O pastel, pela metade, parecia um objeto estranho agora. Um resto.
Léo fez uma careta exagerada.
— Se você estiver passando mal, eu juro que paro de falar mal da confraternização. — tentou, em tom leve. — Pelo menos por cinco minutos.
Nada.
Ele riu, mas o riso morreu rápido quando percebeu que não era brincadeira. Valentina respirava curto. O maxilar travado. O olhar fixo demais.
— Valen… — chamou, agora mais baixo. — Ei.
Ela piscou devagar, como se estivesse voltando de muito longe. Olhou para o pastel. Depois para as mãos. Depois para ele.
— Eu não consigo mais comer. — murmurou, quase pedindo desculpa.
— Tudo bem. — Léo respondeu, imediato. — A gente para. Pastel é democrático, não obriga ninguém.
Ela assentiu com um movimento mínimo de cabeça, mas continuou sem tocar no guardanapo. O barulho da feira parecia distante demais, como se tivesse sido baixado por alguém invisível.
— Você quer ir embora? — ele perguntou, com cuidado.
Valentina inspirou fundo. O ar entrou, mas não pareceu chegar onde precisava.
— Não. — disse. — Eu só… — a frase ficou suspensa. — Eu preciso falar uma coisa.
Léo ficou quieto.
Quieto de verdade. Encostou as costas no banquinho, descruzou os braços, deixou o espaço aberto. Não brincou. Não apressou.
— Tá. — disse apenas. — Tô aqui.
Valentina apertou os dedos um no outro, no colo. O gesto denunciava o quanto aquilo estava preso.
— Eu pensei muito em como te contar isso. — começou, olhando para o pastel como se ele pudesse ajudá-la a organizar as palavras. — Mas… sei lá. Eu acho que ficar pensando só piora.
Ela engoliu seco. O coração batia tão alto que parecia invadir o ouvido.
— Eu beijei alguém.
Léo arqueou uma sobrancelha, surpreso, mas ainda leve.
— Ué. — sorriu de canto. — Finalmente vivendo.
Valentina balançou a cabeça devagar.
— Não.
O sorriso dele diminuiu.
— Não… como?
Ela fechou os olhos por um segundo, longo demais para ser só vergonha. Quando abriu, falou de uma vez, como quem se joga de um lugar alto:
— Eu beijei a Verena.
O nome caiu na mesa como um objeto pesado. Léo piscou. Uma vez. Duas.
— A… — ele tentou. — A Verena?
Valentina assentiu, sem olhar para ele.
— A deputada Verena Castilho.
O silêncio que veio depois não foi constrangedor. Foi denso. Léo não riu. Não fez piada. Não falou nada por alguns segundos.
— Tá. — disse por fim, lentamente. — Agora a gente vai com calma.
Ela soltou um riso nervoso.
— Eu sabia que não devia ter falado.
— Você não tá brincando. — ele constatou, observando o jeito como ela se encolhia. — Nem um pouco.
— Não. — Valentina respondeu. — Eu queria que fosse brincadeira. Mas não é.
Ela apertou os olhos, como se a luz tivesse ficado forte demais.
— A gente não… — parou. Respirou. — Não era pra ter acontecido. E mesmo assim aconteceu.
Léo passou a mão pelo rosto, absorvendo.
— Você gosta dela.
Não era uma pergunta. Valentina assentiu, quase imperceptível.
— Muito.
Ele soltou o ar devagar.
— E isso tá te deixando desse jeito.
Ela olhou para ele então. Os olhos brilhavam.
— Tá me quebrando.
Léo ficou em silêncio outra vez. Depois puxou o guardanapo com o pastel e empurrou um pouco para o lado, como se abrisse espaço na mesa para aquela conversa existir.
— Valen… — disse, com uma suavidade que contrastava com o jeito espalhafatoso de antes. — Você confia em mim?
Ela assentiu.
— Então tá. — ele falou. — A gente vai falar disso. Mas sem você se machucar mais, tá?
Ela respirou fundo, sentindo pela primeira vez que alguém tinha ouvido aquilo e não tinha julgado. Ainda. A feira seguia barulhenta ao redor. Pastéis fritavam. Pessoas riam. A vida não tinha parado. Mas, naquela mesa pequena, algo tinha mudado para sempre.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
lidi
Em: 30/12/2025
Sempre ignorei essa história, mas agora fui dar uma olhada e não tem nada de normal nesse enredo, se fosse um macho, velho, nojento e casado, indo atrás de uma adolescente que mal consegue formar um diálogo, todo mundo acharia ruim
Por mais de uma vez eu vi print no twitter dessa história falando mal e honestamente, essa história é muito queima filme, do site e da gente mesmo... o único jeito disso tudo ter um final "feliz", é essa nojenta sendo exposta e perdendo tudo, esposa, carreira, reputação
Crika
Em: 30/12/2025
Realmente,vivemos rodeados de se...mas ótimo que não seja um macho,muito menos velho,mesmo pq nas casa dos 20 ou 30, não se é considerado velho, nojento fica a critério de cada um, enquanto a ser casada que é o erro,e quantas filmes e livros tem casos extras conjugais,com diferença de idade muito maior que elas,meu avô tem diferença de 20 anos de minha avó,meus tios 14, minha irmã 18, eram todos adolescentes quando começaram,e daí,de menores sim,mas com idade que não é considerado crime.
Enquanto a história é sim uma garota menor, imatura,não vivida,com uma família acolhedora,mas até quando irão acolher ela.
Uma adulta cheia de dúvidas e erros, mas não vejo uma pessoa má,quem nunca errou.
Twitter é uns dos piores local pra se tirar algum proveito,isso sim que vejo comentários.
Espero um final bom pra elas,de maneira justa para todas.
lidi
Em: 30/12/2025
Foda-se seu avô, no mundo todo com a guinada dos extremistas eles tentam associar nós LGBTs com a pedofilia e você vem com esse discurso esquisito, me poupe
Crika
Em: 30/12/2025
Discurso esquisito o meu? Kkkkkk kkkkk
Ok fofinha....
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Zanja45
Em: 29/12/2025
O celular de Valen dando "Bug" foi exasperante, cheguei a pensar que Silvia iria atender. - Já passei por isso também de perder o controle sobre ele, mas não como foi para Valentina. Mas ainda bem que foi só um ajuste de Rafa e Verena. - Não impactou muito nas relações. No entanto Rafa tirou de letra quem poderia ser, apesar de não falar absolutamente nada.
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Zanja45
Em: 29/12/2025
Que na hora de Valentina mandar mensagem para Verena, bem na hora "h". Kkkk. Mas também bela pediu por isso, ficou colocando pensamentos em Valentina que não deu outra . - Ela chamou a menina atendeu, mandou mensagem, ligou - Ela atrai essas situações, porque ela fica pensando. Kkkk!
No entanto, Valen não atrapalhou de tudo Verena, pois ela consegui dar o que Silvia queria.
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Zanja45
Em: 29/12/2025
Essa gravidez de Ana Paula, heim? Isadora já com 10 anos.
E o momento deles não é nada oportuno, porque as condições financeiras está muito ruim e a iminência de se perder o emprego. Apesar de tudo cooperar para que dê errado. - Para que o casal entre em desespero com a situação - No entanto que eles vivam as preocupações de cada dia.
Quero saber porque eles temem o fato de Valentina descobrir que vai ter mais um irmão. - Ela precisa de todo esse protecionismo deles?
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Zanja45
Em: 29/12/2025
Bos tarde, Autora!
Passei muito bem esse natal.
Vou estar no aguardo dessa compensação. S2
Quero esse presente ainda esse ano!
Abraços!
P S .: Você que nos trouxe esse fio de esperança, mas se não der, está tudo certo da mesma forma. Rsrsrsrs!
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