Você é Importante Pra Mim
O quarto estava mergulhado em silêncio. Apenas o som distante de um carro passando na avenida quebrava a imobilidade da madrugada.
Silvia dormia profundamente, virada de lado, o rosto parcialmente escondido pelo travesseiro. O ombro subia e descia num ritmo lento, quase infantil. A mão, que antes repousava na cintura de Verena, escorregara durante o sono — agora descansava solta sobre o próprio peito.
Verena, ao contrário, tinha os olhos bem abertos no escuro. Fixos no teto. A respiração presa. O beijo de horas antes ainda impregnava a boca. O cheiro do cabelo de Silvia ainda estava no seu pescoço. E mesmo assim — ou talvez exatamente por isso — a insônia tomou conta como uma febre.
Ela virou-se devagar para a esposa, observando o formato do rosto dela sob a penumbra. O amor ali era real. A história era real. A promessa também. Mas a inquietação… aquilo não desaparecia.
Verena deslizou milimetricamente para trás, só o suficiente para não tocar mais o corpo da esposa. A separação de dois centímetros pareceu abrir um abismo. Seu peito subiu num suspiro silencioso. Por um longo minuto, lutou contra a vontade — a vontade de olhar o celular.
Perdeu.
Estendeu a mão, devagaríssimo, como se qualquer movimento pudesse acender uma luz indesejada. Pegou o aparelho na ponta dos dedos, cuidadosamente, sem fazer o colchão tremer. Encostou a tela contra a coxa para não iluminar o quarto. Apertou o botão lateral. A tela acendeu.
1 mensagem não lida — há horas.
De Valentina.
Verena fechou os olhos por um instante. Sentiu o estômago contrair. O ar ficou pesado. Abriu a conversa. Uma única palavra sem resposta. Só isso. Mas a palavra entrou em seu corpo como um golpe quente, direto, impossível de ignorar. O tipo de mensagem que deveria ser fácil de esquecer — mas que, nela, incendiava tudo.
Verena passou a mão pelo rosto. Rolou de costas, virando-se ainda mais para longe de Silvia. O celular ardia na mão, como se estivesse quente demais. Ela tentou não responder. Tentou mesmo. Mas o silêncio da madrugada ampliava tudo: a culpa, o desejo, a saudade impossível.
E principalmente… aquela sensação brutal de que Valentina, do outro lado da cidade, tinha mandado aquela palavra tremendo. Verena digitou. Apagou. Digitou. Apagou. Respirou fundo, como quem está prestes a dar um mergulho profundo. E então escreveu, quase sem respirar.
"Não consegui dormir. Acho que você sabe o motivo."
Apagou.
Começou de novo.
"Eu vi sua mensagem. Desculpa não ter respondido antes."
Pausou.
Silvia se mexeu ao seu lado. Verena congelou, largando o celular ao lado da perna e fechando os olhos como se estivesse num sono profundo. Silêncio. Silvia estabilizou a respiração. Verena voltou ao aparelho. O coração batendo tão rápido que parecia querer atravessar o peito.
Fechou os olhos, largando o telefone entre a cama e a coxa, como se fosse proibido olhar de novo. Virou o rosto para o teto. E murmurou, sem voz, num fio de vergonha e desejo.
— O que eu estou fazendo…
Silvia, dormindo a dois centímetros de distância, não ouviu. Mas Verena ouviu cada palavra. E não dormiu mais. O celular ainda estava quente contra a própria coxa quando vibrou. Uma vez. Um som curto. Seco. Violento demais para aquela hora. O corpo reagiu antes da mente: um sobressalto mínimo, quase imperceptível, mas real. Verena abriu os olhos devagar, como quem teme a própria coragem, e levou a mão ao aparelho com o cuidado de um ladrão.
A tela acendeu. O nome?
Valentina.
A resposta veio sem aviso, sem preparo, sem lógica — como se a menina estivesse com o celular na mão, esperando cada respiração dela. A mensagem era curta.
"Eu não consigo dormir."
Verena sentiu o ar travar. A pulsação acelerou, quente, baixa, profunda — do estômago para o peito, do peito para a garganta. Ela ergueu o rosto por reflexo, olhando Silvia dormir, tão próxima que a respiração da esposa tocava seu antebraço.
Voltou para a tela. A segunda mensagem entrou cinco segundos depois.
"Achei que você não ia mais falar comigo."
Seu mundo parou. Não havia estratégia, nem cálculo, nem armadura possível diante daquilo. Só uma frase simples, leve e devastadora — dita com a vulnerabilidade perfeita de quem fala no escuro porque acredita que ninguém está vendo.
Verena levou a mão à boca, prendendo o som do impacto. A respiração ficou instável. Silvia se remexeu ao lado, virando-se de um jeito que obrigou Verena a afastar o celular para o travesseiro, escondendo-o como um crime recém-cometido.
Silêncio outra vez. Quando Silvia estabilizou a respiração, Verena voltou a olhar a tela — agora com os dedos trêmulos, as pernas tensas sob o lençol. Valentina enviou outra mensagem. Quase um sussurro escrito.
"Desculpa… eu não devia ter mandado aquele oi."
A frase entrou fundo, onde doía. Verena passou a mão pelo rosto, pelos cabelos, pelas pálpebras — e percebeu que estava tremendo. Digitou. Parou. Apagou. Tentou outra vez. Apagou. Respirou fundo — aquele tipo de respiração silenciosa que dói de tão contida — e escreveu enfim.
"Eu também não devia ter deixado você esperando."
Os dedos hesitaram. Mas a verdade veio antes da prudência.
"Não consigo fingir que não senti sua falta"
Ela enviou. A vibração quase fez seu coração sair pela boca. Silvia nem se mexeu. Mas Verena… Verena estava desperta como se fosse três da tarde, não três da manhã — o corpo inteiro em alerta, quente, vivo, perigoso. Esperando. Porque no fundo — no fundo profundo que ela nunca admitiria — estava rezando para que Valentina respondesse de novo. Esperou alguns segundos. Sentiu a garganta apertar. E acrescentou — quase num sussurro digitado, seco, direto, irreprimível.
“Não achei que você fosse falar comigo de novo.”
Silvia se mexeu atrás dela. Verena congelou, segurando o celular com firmeza, como se o objeto pudesse desaparecer da mão. Silêncio. A respiração da esposa voltou ao ritmo lento de antes.
Verena levou o aparelho para o lado, apoiando-o perto da coxa, ainda com a tela acesa. O rosto dela estava rígido, controlado — mas os olhos tinham outra temperatura. Um brilho inquieto. Um alerta. O celular vibrou de novo.
“eu não consegui não falar com você”
Verena ficou imóvel como uma estátua, mas com o coração batendo rápido demais para alguém que sabia exatamente o tamanho do perigo em que estava se colocando.
Devagar, com uma paciência quase cirúrgica, começou a se soltar do abraço que não existia mais, do calor que não conseguia aproveitar. Descolou o quadril do colchão, tirou o braço que estava preso entre o corpo e o lençol, moveu as pernas como quem desarma um campo minado. Cada pequeno movimento, um cálculo para não fazer o colchão afundar demais.
Silvia murmurou qualquer coisa incompreensível, virou apenas um pouco a cabeça no travesseiro. Verena congelou por um segundo inteiro. Quando o silêncio se restabeleceu, ela escorregou para fora da cama. Andou até a cômoda, voltou os olhos uma última vez para a esposa e saiu do quarto, fechando a porta com cuidado até ouvir o clique mais suave que conseguiu produzir.
Apartamento do casal — Sala, 03h30
Verena fechou a porta do quarto com a ponta dos dedos e permaneceu alguns segundos parada no corredor escuro, como se precisasse confirmar que Silvia continuava dormindo. Nada se moveu.
Atravessou a casa em silêncio, descalça, o piso frio despertando uma lucidez que o corpo não acompanhava. A sala estava tomada por uma penumbra azulada, recortada pelo brilho frio da lua. As janelas desenhavam retângulos pálidos no chão. Sentou-se no sofá, inclinada para frente, o celular entre as mãos como um objeto que carregava uma temperatura indevida.
O aparelho vibrou novamente.
“desculpa ter mandado mensagem essa hora”
Pronto. Ali estava a Valentina real: tímida, educada, aflita, sempre assumindo um erro que não cometeu. Verena passou o polegar sobre a tela, tocando o texto como quem toca um pulso. Apoiou o cotovelo no joelho e passou a mão devagar pelo rosto, sentindo uma coisa quente — quase doce — subir pela garganta. Aquele tipo de jeito que fazia qualquer defesa desmoronar. Respirou devagar — uma respiração que não estabilizava nada e respondeu com a naturalidade de quem não se permite vacilar diante de ninguém.
“Você não precisa se desculpar.”
Outra mensagem entrou, quase ao mesmo tempo.
“eu só… não consegui dormir”
Verena prendeu um riso curto, baixíssimo. Não era deboche — era reconhecimento. Ela digitou com calma, escolhendo palavras que talvez não tivesse coragem de dizer olhando nos olhos da menina.
“Eu também não.”
Esperou um segundo. O corpo dela parecia inclinado para a tela. Digitou outra:
“É por minha causa?”
Parou. Releu. Enviou. Silêncio. Até que a resposta veio simples e direta.
“não sei”
Era a verdade. Simples, torta, delicada. Exatamente como Valentina. Verena encostou as costas no sofá, inspirando fundo. Era impressionante como aquela menina conseguia deixá-la sem eixo.
Ela digitou outra vez, mas dessa vez, resolveu aprofundar a conversa.
“Valentina, você sentiu medo de mim?”
Ficou olhando a pergunta como se estivesse lendo algo que não deveria ter sido escrito. Mas não apagou. Enviou. A resposta demorou. O que significava que Valentina estava olhando para a tela.
A frase era pequena, mas igualmente devastadora.
“eu tive um pouco aquele dia”
Verena fechou os olhos. A lembrança do carro veio inteira, nítida, brutal. O peso da culpa atravessou o peito — mas não era só isso. Havia também um calor, uma urgência, uma fome que nascia daquele silêncio obrigatório entre elas.Ela digitou com cuidado absoluto.
“Eu sei.”
E depois, enquanto sentia o peito contrair:
“E eu nunca deveria ter tratado você daquela forma.”
A mensagem correu pelo ar entre elas. A resposta não demorou muito e alguns segundos depois. Três pontinhos surgiram, desapareceram, voltaram.
“Tudo bem. Eu que pensei demais”
Verena quase sorriu. Tinha algo de familiar naquela tentativa de aliviar a responsabilidade de todo mundo, menos a própria. Mudou de posição no sofá, apoiando um braço no encosto, o celular na outra mão. Os ombros ainda estavam tensos, mas o jeito de segurar o aparelho já era outro: menos culpado, mais… entregue.
“Pensou em quê?”
Enviou antes que pudesse suavizar a pergunta. Dessa vez a resposta demorou mais. O suficiente para ela imaginar a menina encarando a tela, apagando, reescrevendo, com aquele cuidado desesperado de quem tem medo de dizer demais. Mas quando chegou, era pequena e a desmontou.
“em você”
A palavra pareceu maior do que tudo ao redor. Verena sentiu o estômago reagir, uma contração breve, quase imperceptível, mas que a fez puxar o ar um pouco mais fundo.
“Eu também pensei em você.”
Nada mais. Enviou. O eco daquela frase ficou pairando na sala, misturado ao tique distante do relógio. A resposta de Valentina veio em duas etapas, como se ela fosse empurrando a coragem aos poucos.
“eu achei q vc tivesse”
A segunda linha surgiu depois de alguns segundos.
“se arrependido de falar comigo”
Verena inclinou a cabeça, apoiando a testa na mão por um instante. Arrependida ela estava, mas não da forma simples que uma adolescente conseguiria nomear.
Digitou:
“Eu me arrependi do jeito que eu te tratei.”
Pausa. Os dedos pairaram mais um pouco sobre o teclado.
“Não de falar com você.”
Enviou. Podia quase imaginar a respiração do outro lado da tela. A resposta demorou. Quando veio, tinha a cara exata de Valentina.
“eu só me assustei. Você tava diferente”
Verena deixou a nuca encostar no encosto do sofá, olhando por um segundo para o teto antes de voltar os olhos para a tela. Agora, enfim, a pergunta que vinha ensaiando desde que levantou da cama, mas que só conseguia fazer protegida pelo brilho do celular.
“Você ainda sente medo de mim?”
O tempo que separou a pergunta e a resposta pareceu mais longo.
“agora não”
Mais alguns segundos.
“só fico nervosa”
Verena fechou os olhos um instante. Aquilo acendeu alguma coisa que vinha reprimindo há semanas. Quando voltou a encarar a tela, os dedos já estavam se movendo sozinhos.
“Nervosa como?”
A resposta veio fragmentada, como se a menina estivesse soltando cada pedaço com esforço.
“quando vc fala comigo”
“ou quando lembro de você perto”
E, depois de um intervalo maior:
“Quando lembro do seu beijo”
Verena engoliu em seco. Sentiu o corpo reagir de novo, um calor crescente subindo devagar, obrigando-a a cruzar a perna com elegância mecânica, como se estivesse numa reunião — embora estivesse de pijama, sozinha na sala.
A frase seguinte saiu extremamente simples, mas carregada de intenções.
“Você gosta dos meus beijos?”
Ela leu a pergunta duas vezes, não para conferir a ortografia, mas para confirmar se era isso mesmo que ia dizer. Era. Enviou. O silêncio que se seguiu tinha um peso ainda maior. Quando a resposta finalmente chegou, era a síntese perfeita de Valentina.
“gosto”
E, segundos depois, num impulso que quase parecia arrependido.
“é por isso q eu não esqueci”
Verena deixou o celular repousar por um instante na coxa, a mão ainda segurando, como se precisasse de contato físico para acreditar naquilo. Sentia a eletricidade correr sob a pele. Não era só desejo. Era a consciência nítida do que estava fazendo — de onde estava pisando — e, mesmo assim, não recuava. Ela voltou à tela. Digitou poucas palavras, mas que carregavam tudo o que ela não ousaria admitir em voz alta.
“Eu também não esqueci.”
Enviou. E ficou, pela primeira vez em muito tempo, com a sensação exata de que algo, em algum lugar, acabava de ser decidido — sem que nenhuma das duas tivesse coragem de dizer exatamente o que.
Verena ficou alguns segundos encarando aquilo como se não tivesse sido ela quem escreveu. Era simples demais para o tamanho do que sentia — e, ao mesmo tempo, mais do que já havia admitido desde que tudo começara.
O celular vibrou.
“eu tentei”
Mais alguns segundos.
“porque achei que vc tinha esquecido”
Verena respirou fundo, o peito se abrindo com um desconforto estranho, que misturava culpa e uma espécie de ternura incômoda. Os dedos se moveram antes da mente racionalizar.
“Não é tão fácil assim esquecer você”
Leu. Releu. Não apagou. Enviou. O silêncio depois da mensagem não era vazio. Era denso, cheio de coisas que nenhuma das duas ousaria nomear.
Ela imaginou, sem querer, a menina no quarto, deitada de lado, a luz do celular acesa no rosto, os cabelos bagunçados pelo travesseiro. A blusa do pijama torta, o lençol enrolado na perna. A imagem era simples — doméstica até demais — e justamente por isso atravessava qualquer defesa. O celular vibrou novamente.
“não sei o q dizer”
Outra linha surgiu logo depois, como se tivesse sido empurrada.
“eu não devia estar falando com você assim”
Verena deixou a cabeça encostar no encosto do sofá, os olhos fixos na tela iluminada.
“Eu também não devia”
Pausa.
“Mas estou”
Enviou.
A admissão, escrita daquele jeito seco e limpo, pesou mais do que qualquer declaração elaborada. Por um instante, ela sentiu a antiga versão de si mesma — a que sabia recuar na hora exata — bater à porta. Não atendeu.
Os dedos deslizaram de novo pelo teclado…
“Quando você disse que gostava dos meus beijos…”
…parou ali, avaliou o excesso de exposição, ajustou a frase.
“Quando você disse que gosta dos meus beijos, eu acreditei.”
Enviou e a resposta veio imediata.
“mas é verdade”
Mais alguns segundos.
“eu gosto”
Como se fosse necessário reforçar, como se ela tivesse medo de ser mal-interpretada até naquilo. Verena sentiu um calor intenso subir pelo peito. Uma pressão interna, firme, como se alguma coisa dentro dela estivesse sendo empurrada contra um limite antigo. Escreveu, com um cuidado quase clínico.
“Eu também gosto dos seus.”
A frase soou mais íntima na tela do que teria soado em qualquer corredor, em qualquer carro, em qualquer sala. Antes que Valentina respondesse, outra linha tomou forma sob os dedos dela, dessa vez sem tanto freio.
“Gosto muito da forma como você encosta em mim.”
Parou. O peso da frase recaiu inteiramente sobre os ombros. Apagou a segunda parte. Reescreveu:
“Gosto muito de quando você chega perto.”
Enviou.
Demorou para receber a resposta. Quando finalmente apareceu, era do tamanho exato da menina, do medo dela e da vontade atravessada.
“eu fico sem saber o q fazer quando você chega perto”
Outra linha, quase colada:
“mas eu gosto também”
Verena deixou escapar um riso baixíssimo, mais um sopro de incredulidade do que de humor. Estava com o corpo inteiro em alerta, mas o rosto permanecia sereno, quase neutro. Só os olhos entregavam um desejo latente.
A conversa tinha escalado para algo íntimo, perigoso demais. Escalara nos detalhes. Na forma como a menina admitia gostar e ao mesmo tempo pedia desculpas por isso. Verena digitou, agora sem conseguir esconder tanto o que sentia.
“Se eu estivesse aí agora, você deixaria eu chegar perto?”
Leu. Era uma pergunta simples — mas não tinha nada de inocente. Enviou. O intervalo que se seguiu pareceu mais longo do que qualquer sessão na Alesp.
Ela imaginou Valentina olhando a tela, o coração descompassado, os dedos hesitantes, o medo de cruzar uma linha que não deveria existir. Imaginou também — e isso ela tentou não admitir para si mesma — o silêncio do quarto, o som distante de algum ônibus na avenida, o resto da casa dormindo enquanto a menina, sozinha, segurava o celular como quem segura um segredo grande demais.
Quando a resposta veio, havia apenas uma verdade crua, tímida, de doer.
“deixaria”
Mais alguns segundos.
“mas eu não sei se ia conseguir olhar pra você”
Verena fechou os olhos. Sentiu o impacto daquela frase num lugar fundo, onde culpa e desejo se tocavam sem se misturar completamente. Os dedos pousaram de novo sobre o teclado. Ela digitou devagar, com a elegância de quem sabe exatamente o que as palavras fazem.
“Eu ia olhar por nós duas.”
Enviou.
E, por alguns instantes, teve a impressão nítida de que, mesmo separadas pela cidade, por vidas, por anos, por tudo que as condenava, as duas estavam de pé no mesmo lugar — um espaço estreito entre o que não podia acontecer e o que, noite após noite, ficava cada vez mais impossível de negar.
O silêncio depois da última mensagem pareceu ganhar corpo. A frase ainda acesa na tela devolvia para Verena o próprio reflexo, mas num ângulo que ela mesma evitava. Ela encostou a nuca no encosto do sofá, os olhos presos no retângulo luminoso, o polegar imóvel. Por um instante, teve a impressão concreta de que se dissesse mais uma palavra, atravessaria um ponto sem retorno.
O celular vibrou. Demorou um segundo para ela ter coragem de olhar.
“eu não sei se devia ter dito isso”
Mais alguns instantes. Os três pontinhos apareceram, sumiram, voltaram.
“desculpa se eu falei alguma coisa errada”
Verena soltou o ar que nem lembrava ter prendido. Era tão Valentina aquilo — pedir desculpa por confessar algo que não era sua culpa, nem ofensa, nem nada parecido. Ela passou a mão pelo rosto, devagar, como se precisasse recolher o próprio juízo antes de responder.
Digitou.
“Você não falou nada errado.”
Apagou o ponto final. Recolocou. Enviou. Ficou mais alguns segundos olhando para a frase enviada, até acrescentar:
“Eu é que preciso tomar cuidado com o que digo.”
Essa doeu mais de admitir. Mas mandou assim mesmo.
O intervalo até a resposta seguinte esticou o tempo. A sala parecia ainda mais silenciosa, o relógio na parede de repente presente demais.
“eu não quero te atrapalhar”
Verena fechou os olhos por um momento. A frase carregava mais significado do que Valentina sabia — Silvia, o gabinete, a própria consciência dela. Quando voltou à tela, digitou mais devagar, escolhendo cada sílaba:
“Você não é um problema que eu preciso resolver.”
Pensou em apagar. Não apagou.
“Você é uma pessoa que eu preciso cuidar para não machucar.”
Enviou.
A reação veio mais rápida desta vez, como se a menina tivesse lido aquilo de uma vez só, com o coração já acelerado:
“eu não quero que você se sinta mal por minha causa”
Um intervalo maior. Depois:
“só não queria que você sumisse”
Verena inclinou o corpo para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, o celular seguro entre as mãos. O excesso de franqueza daquela frase apertou algo na altura do esterno.
A vontade imediata era responder exatamente o que o corpo pedia: eu também não quero ficar longe de você. Mas não foi o que escreveu.
Digitou:
“Eu não pretendo sumir.”
E, como se corrigisse a si mesma, acrescentou:
“Mas às vezes eu vou precisar me afastar um pouco pra não errar mais.”
Enviou. Os três pontinhos de digitação apareceram quase na mesma hora.
“eu entendo”
Mais alguns segundos.
“só não some sem avisar”
O pedido era infantil na forma, mas absolutamente adulto no que tinha de abandono acumulado. Verena sentiu. Ela olhou de relance para o corredor escuro que levava ao quarto. A imagem de Silvia dormindo, ainda com o cheiro de shampoo no travesseiro, entrou na cena com violência. Por alguns segundos, teve a consciência exata da vida partida ao meio que estava tentando sustentar. Quando voltou ao telefone, escreveu com uma sinceridade que lhe soou perigosa demais:
“Eu não vou desaparecer da sua vida assim.”
Pausa.
“Mesmo que eu fique em silêncio, eu vou lembrar de você.”
Enviou.
A resposta demorou um pouco mais agora, como se Valentina estivesse tentando organizar alguma coisa dentro do peito antes de tocar nas letras.
“eu não sei explicar”
Outro envio.
“mas ouvir isso de você… é importante pra mim”
Verena encostou a testa na mão, apoiando o cotovelo no joelho. O peso da frase assentou como uma pedra macia — pesada, mas estranhamente acolhedora.
Ela sabia que já tinha ido longe demais para chamar aquela madrugada de “nada”. Ainda assim, havia algo ali que não era só transgressão: era o reconhecimento de um impacto real que tinha na vida de alguém. De alguém muito mais jovem do que deveria.
Por isso, a próxima mensagem saiu menos incendiária, mais grave:
“Você é importante pra mim, Valentina.”
Ficou olhando para a frase, consciente do verbo que usara.
Não apagou.
Enviou.
Dessa vez, a resposta não veio rápido. Verena chegou a checar a hora — 03h53 — e por um instante pensou que a menina pudesse ter adormecido com o celular na mão. Quando a vibração finalmente veio, ela sentiu o corpo inteiro reagir.
“eu não sei o que fazer com isso”
Mais alguns segundos.
“mas eu tô chorando um pouco agora”
Verena ficou imóvel, os dedos apertando o aparelho sem perceber. Havia naquele confissão uma honestidade brutal — nada melodramática, nada teatral, só um registro simples do que estava acontecendo num quarto pequeno no Ipiranga enquanto ela, numa sala ampla no Jardins, encarava o próprio reflexo na tela. Ela levou um tempo antes de responder. Não queria suavizar nem dramatizar.
Escreveu:
“Não chora, por favor. Eu prometo que vai ficar tudo bem, tá bom?”
Enviou. A mensagem que veio em seguida era quase um sussurro em forma de texto.
“tá”
Depois:
“obrigada por falar comigo”
Verena sentiu uma fisgada no peito. A gratidão por tão pouco — por uma resposta às três e quarenta da manhã, depois de semanas de silêncio e um episódio que teria motivo de sobra pra virar rompimento definitivo.
Ela respirou fundo, sentindo o corpo enfim começar a reclamar do cansaço que a mente vinha adiando. Digitou:
“Vai tentar dormir um pouco agora?”
“vou”
Uma pausa.
“boa noite”
“quer dizer… bom dia já né rs”
Verena deixou escapar um sorriso mínimo, quase invisível, diante da tentativa tímida de humor. Respondeu:
“Boa noite, Valentina.”
Apagou. Reescreveu:
“Boa noite, meu anjo.”
Ficou alguns segundos encarando o apelido que, da última vez, tinha explodido como uma granada no meio do próprio casamento. O peso da palavra veio acompanhado da lembrança do hospital, da voz da esposa quebrada. Mesmo assim, enviou.
E, antes que se arrependesse, bloqueou a tela, apoiou o celular voltado para baixo no sofá e levou as mãos ao rosto, comprimindo as pálpebras com a ponta dos dedos. O apartamento voltou a ser apenas escuro e silencioso. Mas dentro dela, nada estava quieto.
Levou alguns minutos até conseguir se levantar.
Quando caminhou de volta para o quarto, já não era mais só uma mulher que não conseguia dormir, era alguém que, a cada madrugada, empurrava um pouco mais pra frente o limite entre o que sabia que não podia e aquilo que, no fundo, já não tinha certeza se conseguia — ou queria — evitar.
Assembleia Legislativa — Sala da Liderança, 09h12
A sala era comprida, paredes revestidas de madeira clara, uma mesa oval ocupando quase todo o espaço. Uma pasta de couro aberta à frente de cada cadeira, copos de vidro, garrafas térmicas de café e água, o notebook ligado em silêncio num canto, o ar-condicionado soprando gelado demais para uma manhã de dezembro.
Verena estava na metade da mesa, lado direito, caneta na mão, o blazer aberto sobre a blusa social, o cabelo preso de um jeito menos impecável do que o habitual. À esquerda, o líder do partido folheava uma planilha impressa, à direita, Rafaela, com o tablet apoiado sobre um bloco de notas, alternava entre o documento da pauta e olhares rápidos para a chefe.
— Então, vamos lá. — Começou o líder, ajeitando os óculos na ponta do nariz. — Recesso tá formalmente garantido a partir do dia vinte e três, mas a Casa quer que a gente sinalize hoje se topa convocação extraordinária em janeiro pro pacote fiscal.
Alguns resmungos baixíssimos percorreram a mesa.
— E, além disso, precisamos fechar prioridade da bancada pra agenda do primeiro semestre. Educação, saúde, clima, segurança… — ele girou a caneta entre os dedos. — Não dá pra sair com lista de supermercado. Temos que ter, vai, cinco grandes temas.
Verena anotava qualquer coisa num canto da folha sem registrar o que escrevia. O corpo estava ali, o gesto automático — a postura correta, o tronco inclinado, o olhar voltado pra mesa —, mas por baixo daquele verniz a mente ainda voltava, teimosamente, para a tela do celular na madrugada.
A palavra “anjo” voltava como se tivesse sido dita em voz alta. Ela apertou a caneta com força sem perceber.
— Verena? — A voz do líder atravessou o zumbido dos pensamentos. — Você chegou a olhar a minuta de calendário que a mesa diretora mandou?
Demorou um segundo a mais do que o aceitável para ela registrar que era com ela.
— Sim. — Respondeu, ajeitando a coluna, como se o corpo inteiro tivesse sido puxado de volta à sala. — Dei uma olhada de madrugada.
Rafaela girou ligeiramente o rosto na direção dela com um quase sorriso irônico que só quem a conhecia bem entenderia. De madrugada, claro.
— E aí? — Insistiu o líder. — Você sempre tem boas opiniões sobre isso.
Era verdade. Nas outras reuniões daquele tipo, Verena costumava ser a primeira a apontar incoerências de cronograma, choque de pauta, datas politicamente desastrosas. Hoje, no entanto, buscou as palavras como quem apalpa um cômodo escuro.
— Eu acho… — Começou, girando a caneta. — Que a gente precisa tomar cuidado pra não enfiar tudo em fevereiro como se março não existisse. — Ganhou alguns olhares atentos. — O decreto de reorganização da rede na educação e o plano de combate à fila de cirurgias vão disputar manchete com o pacote fiscal. Se a gente convocar extraordinária em janeiro pra votar tudo junto, vai virar uma bagunça.
O líder assentiu, satisfeito.
— Sugestão?
— Mantém o fiscal em janeiro, se for inevitável. Saúde e educação, a partir de março. E clima antes do meio do ano, antes de começar temporada de queimada, enchente, essas coisas. — O raciocínio era tecnicamente correto. Mas a frase parecia recitada de um lugar de reserva, não de combate.
— Tá. Vamos anotar isso como posição preliminar da bancada. — Ele fez sinal para uma assessora que tomava notas ao fundo. — Sobre o recesso em si: alguém tem objeção à convocação extraordinária?
O deputado do outro lado bufou:
— Desde que não inventem de chamar a gente dia dois de janeiro, tá ótimo.
Risos dispersos. A reunião seguiu, com discussão sobre relatorias que precisavam ser redistribuídas, composição de comissões para o ano seguinte, necessidades regionais.
Verena respondia quando chamada, mas não disputava a palavra como de costume. Sua atenção flutuava: uma frase sobre “comissão de juventude”, outra sobre “alinhamento com a liderança nacional”, e, entre uma coisa e outra, flashes — o celular na mão, o “você é importante pra mim”, o medo silencioso de Valentina atravessando a madrugada do outro lado da cidade.
Rafaela observava.
Viu quando Verena por pouco não ignorou a pergunta sobre a presidência da Comissão de Juventude. Viu o jeito como ela demorou dois segundos para entender o que o colega perguntava, o olhar um pouco mais opaco.
— Verena? Você mantém a presidência da Comissão de Juventude? — Insistiu o líder.
Ela sustentou o olhar, mas sem o brilho costumeiro.
— Eu mantenho. — A voz saiu firme, automática. — Não vou largar isso na véspera de ano eleitoral.
— Ótimo. Então, fechado. — Ele fez um risco grosso na pasta. — Depois a gente vê quem segura o vice.
Rafaela anotou alguma coisa no tablet, mais para fazer o gesto do que por necessidade. No rodapé da tela, notificações piscavam. Ela ignorou, focada na mulher ao lado.
Quando a reunião chegou à parte menos política e mais burocrática — cronograma interno, rodada de plantão da liderança no período de recesso, detalhes de estrutura, Verena já tinha se inclinado para trás na cadeira, os dedos tocando de leve o celular virado para baixo sobre a mesa.
Nunca usava o aparelho durante aquele tipo de reunião. Hoje, porém, o gesto de roçar as pontas dos dedos no corpo de metal parecia puramente mecânico, mas, para Rafaela, aquilo dizia muito.
Alesp — Corredor do 5º Andar, 10h23
A reunião se encerrou com cadeiras arrastando, papéis sendo empilhados, apertos de mão protocolares e promessas vagas de “mandar a versão final ainda hoje”.
Verena se levantou, guardou a caneta no bolso da pasta, cumprimentou o líder com um aceno breve e saiu para o corredor como quem sai de um mergulho longo, buscando ar.
Rafaela veio logo atrás.
— Vê. — Chamou, num tom neutro, assim que ficaram a poucos metros da porta, já fora do alcance direto de ouvidos alheios. — Um minuto.
Verena olhou por sobre o ombro, o corpo ainda naquele estado de alerta discreto.
— O que foi?
Rafa segurava a pasta com uma mão e, com a outra, ajeitou a alça da bolsa no ombro, como quem ganha tempo para medir as palavras.
— Você quer mesmo que eu finja que tá tudo normal? — Perguntou, sem rodeios, baixa o suficiente para que o eco não corresse pelo corredor.
Verena arqueou uma sobrancelha, irritação e cansaço misturados.
— Eu acabei de segurar uma reunião inteira sem mandar ninguém à merd*. Isso, pra mim, é normal o suficiente.
— Não é disso que eu tô falando. — Rafaela encostou o ombro na parede, de frente pra ela. — Você tá com uma cara de quem dormiu meia hora e brigou com o travesseiro. Se quiser eu passo um café intravenoso antes da próxima pauta.
Verena respirou pelo nariz, o canto da boca ameaçando um sorriso que não chegou a se completar.
— Só uma noite ruim. Acontece.
— Aham. — Rafaela estreitou os olhos. — Noite ruim tipo Silvia ou noite ruim tipo… outra coisa?
Havia uma diferença nos tipos de caos, e as duas sabiam. O tom dela não era debochado, mas também não era delicado. Verena desviou o olhar por um segundo, encarando o nada à frente: uma porta fechada, um quadro institucional, um servidor passando com uma pilha de processos debaixo do braço.
— Você anda curiosa demais, Rafa.
— Eu ando trabalhando com você demais. Dá pra ver quando o seu cérebro tá aqui e quando tá em outro CEP. — Ela inclinou um pouco a cabeça. — Hoje tá longe.
Verena soltou um suspiro curto, cansado. O corpo pedia café, banho frio, silêncio. A cabeça, alguma coisa que não sabia nomear.
— Eu só não dormi. — Respondeu, escolhendo a meia-verdade. — Acontece com gente normal, sabia?
Rafaela a encarou por um instante. Depois baixou os olhos para a pasta, fechou o elástico, ajeitou.
— Tá. — Disse, mais suave. — Só… se isso for virar rotina, me avisa. Alguém tem que estar afiado na mesa, e eu posso assumir o papel de brilhante do dia, mas cobro caro.
O comentário arrancou enfim um meio sorriso de Verena.
— Nem em sonho você rouba meu protagonismo assim fácil.
— Não duvida. — Rafaela deu dois passos, passou por ela e murmurou, já quase de costas: — E, se quiser desabafar sem parecer humana, eu te deixo fazer cara de monstro enquanto fala. Faço até que não tô com pena.
Verena acompanhou a amiga com o olhar enquanto ela se afastava pelo corredor.
Quando ficou sozinha de novo, encostou por um segundo as costas na parede, fechou os olhos e sentiu o peso da manhã somar à noite anterior. Uma reunião sobre recesso e agenda partidária tinha sido mais difícil de atravessar do que muitos embates em plenário. Mas sabia que não era o partido. Não era o recesso. Não era a pauta de educação, nem de saúde, nem de clima.
Todo o caos interno tinha nome e sobrenome. E a certeza incômoda de que, por mais que tentasse, já não sabia muito bem onde terminava a vida pública organizada e começava a bagunça que vinha construindo no escuro — uma mensagem por madrugada, um limite por vez.
Escola Estadual Prof. Luiz Roberto Pinheiro — Rua lateral, 11h57
O sol do meio-dia batia em cheio no capô, aquecendo o metal a uma temperatura pouco razoável. Verena baixou um pouco mais o vidro, tentando deixar o ar circular. Estava parada na rua lateral da escola, onde quase ninguém estacionava — a maioria dos pais e vans concentrava-se no portão principal.
Reconhecia o lugar. Tinha vindo ali uma vez, meses antes, quando ainda se dava ao luxo de transformar curiosidade em gesto impulsivo. Dessa vez, o impulso tinha outro peso.
O painel marcava 11h58. Se a memória não a traísse, Valentina sairia às 12h00. O motor desligado deixava o silêncio ainda mais evidente. Dava para ouvir, ao fundo, o barulho da quadra — gritos soltos, uma bola quicando, apito de professor. O som atravessava o muro e chegava abafado até o carro.
Verena apoiou as mãos no volante, os polegares batendo num ritmo quase imperceptível. Era uma loucura. Sabia. Estava a dois bairros do gabinete, com uma reunião marcada para a tarde, um casamento em frágil estado de trégua, uma maternidade próxima e uma adolescente com a qual havia trocado mensagens íntimas na madrugada. E, ainda assim, estava ali.
Pegou o celular no painel, destravou a tela sem precisar olhar. A última conversa ainda brilhava na tela. O peito apertou. Guardou o aparelho no console de novo, como se o gesto pudesse devolver alguma dignidade à cena. Olhou pelo retrovisor.
A rua lateral tinha um fluxo estranho de gente: uma senhora com sacolas passando apressada, um motoboy encostado mais adiante, dois alunos fumando escondidos atrás de um carro, fingindo que não sabiam que estavam visíveis para metade do quarteirão.
Do lado de dentro do muro, o sinal tocou. O som metálico se espalhou pelo pátio, seguido do movimento reconhecível: vozes aumentando, cadeiras arrastando, passos correndo. Verena sentiu o corpo inteiro ficar em alerta, como antes de uma votação importante em plenário. Mas ali não havia pauta, não havia fala, não havia registro em ata.
Havia apenas a expectativa de ver um rosto específico emergir daquele fluxo indistinto de uniformes. Ela ajeitou os óculos no rosto, endireitou a postura no banco, mesmo sabendo que ninguém ali tinha a menor ideia de quem ela era. O blazer pendurado no encosto do banco traseiro deixava o conjunto menos formal: camisa clara, mangas dobradas, cabelo solto com leve ondulação. Elegante, mas deslocada daquele cenário de mochilas, garrafas d’água e tênis surrado.
Os primeiros alunos começaram a sair pelo portão principal — um mar de camisetas brancas, calças azuis, mochilas de cores variadas. Alguns iam direto para carros parados em fila dupla, outros dobravam a esquina em direção ao ponto de ônibus, outros ainda se dispersavam em grupos, falando alto demais para o horário.
Verena a procurava como quem procura um detalhe conhecido num quadro cheio demais. Sabia que, aos olhos de alguém de fora, era tudo igual — adolescentes magros demais ou pesados demais, cabelos compridos ou curtos, todos parecidos na pressa de ir embora. Mas quando Valentina apareceu, não houve dúvida.
Ela desceu o pequeno lance de degraus do portão segurando a alça da mochila com uma das mãos, o celular na outra, o cabelo claro solto caindo pelos ombros, a camisa do uniforme por dentro da calça jeans, o casaco amarrado na cintura apesar do calor.
Para qualquer outra pessoa, era só mais uma menina saindo da escola. Para Verena, era o centro do universo bem ali a poucos metros. O estômago apertou como se tivesse levado um soco interno. Ela a viu olhar primeiro para a rua da frente, depois para o ponto de ônibus, como se checasse alguma coisa invisível. Falou algo com uma colega, acenou um tchau rápido, e seguiu sozinha pela calçada.
Em direção à esquina onde a rua lateral começava. Verena sentiu o coração disparar com uma precisão desagradável. O corpo reagia antes da cabeça. Pegou o celular outra vez, destravou a tela, abriu a conversa. O nome “Valentina” ao topo parecia maior do que o resto da interface.
O plano, em teoria, era simples: esperava vê-la, confirmava que estava bem, ligava. Nada de descer do carro, nada de cena, nada de absurdo. Só… ouvir a voz. Estar ali, perto, ancorando alguma coisa que não sabia mais como equilibrar.
Os passos de Valentina se aproximavam, ainda a uma certa distância, pelo lado oposto da rua. Verena apertou em “ligar” antes que o bom senso tivesse chance de entrar na discussão. Levou o aparelho ao ouvido.
Um toque. Dois. Três.
Ela a viu parar por um segundo, enfiar a mão no bolso, pegar o celular, olhar a tela. Mesmo do outro lado da rua, dava pra perceber a hesitação — o reconhecimento imediato, o susto que endireitou seus ombros, a dúvida entre atender e fugir.
Atendeu.
— Alô? — A voz saiu mais baixa do que Verena lembrava, mas com o mesmo timbre suave que a perseguia há meses.
Ela engoliu em seco.
— Oi, meu anjo.
Na calçada, Valentina parou de andar. Olhou rapidamente em volta, como se o chamado pudesse atrair olhares que não existiam.
— Tá saindo da escola? — A voz de Verena veio limpa, firme, mas um pouco mais baixa do que o costume.
Valentina engoliu em seco.
— Tô. — Olhou para o portão, para a rua, para o ponto de ônibus. — Acabei de sair.
— Eu sei. — Verena respondeu, com uma sinceridade que só funcionava porque não vinha acompanhada de riso. — Eu tô aqui perto.
Houve um silêncio curto.
— Perto… como assim perto? — A menina perguntou, já sabendo que não ia gostar da resposta e, ao mesmo tempo, sentindo um impulso absurdo de gostar.
Verena apertou um pouco o volante com a mão livre.
— Na rua lateral. — Disse, sem rodeios. — Quase na curva.
Valentina virou o corpo instintivamente, procurando com os olhos. Viu primeiro um caminhão pequeno estacionado, depois um carro prata mais antigo, outro escuro mais adiante. Quando o olhar pousou no carro de Verena, o reconhecimento veio não pelo modelo, mas pela sensação.
O peito apertou.
— Você… — Começou, sem conseguir montar a frase inteira. — Tá aqui?
— Tô. — Verena confirmou. — Eu sei que não é exatamente o cenário ideal, mas…
Fez uma pausa mínima, escolhendo a menor ousadia possível:
— Você consegue vir aqui por cinco minutos?
Valentina olhou de novo ao redor, o coração batendo num ritmo que parecia errado para um meio-dia em frente à escola. Crianças passavam correndo, um menino chutou uma garrafa plástica vazia, duas mães conversavam mais adiante, um rapaz vendia bala no sinal. Ninguém prestava atenção nela. Ainda assim, tudo parecia barulhento demais.
— Não sei se é uma boa ideia. — Murmurou, com honestidade bruta.
— Eu também não sei. — Verena respondeu, sem enrolação. — Mas eu prometo que não vou fazer nada que te deixe com medo. Nem encostar em você, se você não quiser. Só… quero te ver. Um minuto, se cinco for demais.
O tom não era sedutor. Era grave, cansado, verdadeiro.
Valentina fechou os olhos por um segundo, respirou fundo. Desde a madrugada, a sensação de estar num limbo a acompanhava: nem perto, nem longe, nem fim, nem começo. A ideia de olhar Verena “ao vivo” de novo dava pânico e alívio em partes quase iguais.
Abriu os olhos.
— Tá. — Disse, antes que o medo vencesse. — Mas é rápido.
— É o suficiente. — Verena respondeu, e havia um cuidado novo na forma como dizia tudo.
Valentina atravessou a rua na faixa, andando rápido demais, quase tropeçando no meio-fio. A cada passo, tinha a impressão de que alguém iria gritar seu nome, de que alguma professora apareceria na porta chamando atenção, de que um conhecido da igreja surgiria na esquina.
Ninguém surgiu.
À medida que se aproximava do carro, sentia o rosto esquentar. O veículo parecia maior de perto. Reconheceu de imediato o brilho da pintura, o leve reflexo escuro do vidro, o cheiro discreto de carro novo misturado ao perfume que parecia sair de dentro.
Parou ao lado da porta do carona, sem encostar. Por um segundo, não soube o que fazer com as mãos. Verena baixou o vidro lentamente. O rosto dela apareceu enquadrado pela janela: óculos escuros, cabelos soltos caindo por um lado, a pele cansada de quem não dormiu, mas ainda assim impecável. Havia uma suavidade tensa naquele momento, como se qualquer gesto brusco pudesse espantar o que acabara de acontecer.
— Oi meu anjo. — Disse Verena, com um sorriso pequeno, contido.
Valentina sentiu as pernas ficarem estranhas.
— Oi. — Devolveu, a voz quase um sussurro. — Você… veio mesmo.
Verena tirou os óculos, como se aquela fosse a forma mínima de respeito diante da presença dela. Os olhos estavam levemente vermelhos, mas lúcidos.
— Eu venho mesmo quando não devia. — Disse, sem ironia. — É um defeito antigo.
Valentina mordeu o lábio inferior, desviando o olhar por um instante para a rua, como se precisasse se lembrar de onde estava.
— Se alguém me vir aqui… — Começou.
— Você pode dizer que é um Uber. — Verena sugeriu, com um humor quase invisível. — Ou que veio reclamar do carro parado em lugar errado.
Valentina soltou um sopro de riso, curto, nervoso.
— Não tenho essa coragem toda.
— Eu sei. — Verena respondeu, com uma doçura que não era melosa, apenas precisa. — Por isso eu te pedi só cinco minutos.
Valentina ajeitou a alça da mochila no ombro, como se isso a ancorasse. Verena fez um gesto com a cabeça em direção ao banco ao seu lado.
— Entra um minutinho. — Pediu, a voz baixa, controlada. — Assim você não fica exposta na calçada.
Valentina hesitou. A imagem de si mesma entrando naquele carro, em plena luz do dia, na rua ao lado da escola, acendeu todos os alarmes internos.
— Eu não vou ligar o carro. — Verena completou, sem afastar o olhar. — Vai parecer que você só tá falando com alguém e vai embora. Se você se sentir mal, pode sair na hora, tá? Eu não vou te segurar.
A menina respirou fundo. Abriu a porta devagar, entrou, fechou com cuidado. A mochila no colo, as mãos segurando a alça como se ela fosse um cinto de segurança particular. De perto, o cheiro de Verena voltou com força: o perfume conhecido, discreto, misturado ao leve aroma de café, menta e ar-condicionado.
— Você tá mesmo aqui. — Valentina murmurou, mais para si do que para ela.
Verena a observou por alguns segundos, como se estivesse tentando registrar cada detalhe atualizado: o cabelo solto, a olheira leve da noite mal dormida, o uniforme amarrotado, a maneira como ela evitava olhar diretamente por muito tempo, mas sempre voltava.
— Tô. — Confirmou. — E você também.
Um silêncio caiu, denso, mas não hostil. Verena apoiou melhor as costas no banco, virando o corpo alguns graus na direção dela, sem invadir demais o espaço.
— Conseguiu dormir depois? — Perguntou, referindo-se à madrugada, sem precisar nomeá-la.
Valentina balançou a cabeça, um sorriso quase envergonhado surgindo por um instante.
— Um pouco. — Respondeu. — Mas aí eu acordei antes do despertador.
— Eu também. — Verena disse. — O que é difícil de admitir, porque eu costumo ser fã de dormir.
A tentativa de humor foi pequena, mas verdadeira. Valentina soltou um riso breve, quase incrédulo, que se desfez rápido.
— Eu não esperava te ver aqui. — Confessou, olhando para frente, não para ela. — Quer dizer… você tem tanta coisa pra fazer.
Verena a observou de perfil.
— Eu tenho. — Concordou. — Mas, estranhamente, nada disso me impediu de estacionar aqui.
Ela viu o rubor subir pela pele clara da menina.
— Valentina… — Chamou, mais suave. — Você tá com medo agora?
A pergunta não tinha tom de censura. Era mais um termômetro do que um julgamento. Valentina pensou por um segundo.
— Tô. — Admitiu. — Mas… — Procurou outra palavra. — Menos do que da outra vez.
Verena assentiu, devagar.
— Menos é um começo. — Disse.
A culpa ainda morava ali, entre uma frase e outra, mas não era a única coisa. Havia também um desejo quase físico de atravessar aquele espaço e tocá-la, e justamente por isso permanecia imóvel, como se o corpo estivesse sob uma ordem rígida.
— Eu queria te pedir desculpa olhando pra você. — Continuou, sem rodeios. — Não só pela marca no seu pescoço. Mas por ter deixado você se sentir daquela forma. Assustada. Eu nunca deveria ter deixado as coisas chegarem naquele ponto.
Valentina apertou mais a mochila.
— Eu também… — Começou, a voz falhando um pouco. — Eu também deixei.
— Não. — Verena a interrompeu, calma. — Você confiou em mim.
A frase caiu entre elas com um peso manso. Do lado de fora, um carro passou, lento, sem prestar atenção às duas figuras dentro do sedã preto. O mundo seguia indiferente.
— Eu não vim aqui pra te pedir nada hoje. — Verena disse, enfim. — Não pra você decidir nada, escolher nada, nem prometer nada. Eu vim porque… — Respirou fundo. — Foi a única forma que encontrei de não fingir que nada da noite passada existiu.
Valentina virou o rosto na direção dela, finalmente, e sustentou o olhar por mais de dois segundos. Havia medo ali. Mas havia também outra coisa, mais profunda: uma espécie de paz torta em finalmente ver a pessoa que a deixava sem dormir, em carne, osso e erro.
— Eu achei que… — Ela começou, engolindo as palavras. — Que você ia se arrepender de tudo que escreveu.
Verena soltou um meio sorriso, triste.
— Se eu for me arrepender de tudo que eu sinto, vai sobrar pouco de mim. — Respondeu. — E, sinceramente, não sei se quero ser essa versão mínima.
Outra pausa. O ar parecia mais espesso dentro do carro.
— E você? — Perguntou, num tom um pouco mais baixo. — Se arrepende de ter falado comigo de novo?
Valentina demorou a responder. Olhou pela janela, para a rua vazia, para a árvore, para a sombra marcada no asfalto. Depois voltou os olhos para ela.
— Eu me arrependo de… — Começou, escolhendo. — De deixar você entrar tanto na minha cabeça.
Fez um meio sorriso sem graça.
— Mas eu não me arrependo de você.
Verena sentiu a frase chegar num lugar que os remorsos não alcançavam. Ela não se mexeu. Não esticou a mão. Não pediu nada. Apenas deixou que o silêncio seguinte fosse o que era: um intervalo entre o que nenhuma das duas podia dizer em voz alta e o que, ainda assim, as arrastava uma em direção à outra.
O relógio do painel piscou 12h15.
— Você vai perder o ônibus. — Verena alertou, não por formalidade, mas como uma forma de devolver um pouco de realidade à cena. Valentina respirou fundo.
— Eu pego o próximo. — Disse. — Não é o primeiro que eu perco por sua culpa.
O comentário saiu tão espontâneo que até ela pareceu se surpreender. Verena riu, dessa vez de verdade, o som preenchendo o carro de um jeito estranho, quase doméstico.
— Que honra. — Respondeu. — Eu posso, pelo menos, ter a presunção de achar que valeu um pouco a pena?
Valentina a olhou de lado, ainda corada, mas com o traço tímido de um sorriso.
— Um pouco. — Admitiu. — Só não… faz isso muitas vezes.
— Vir até aqui? — Verena perguntou.
— Me deixar assim. — Ela corrigiu, baixinho.
Verena assentiu, sério.
— Eu vou tentar não te bagunçar mais do que você já está. — Disse. — Mas não vou prometer desaparecer. Isso eu não consigo.
O peito de Valentina apertou. Havia uma honestidade ali que doía, mas era preferível à fantasia. Ela checou o horário no canto da tela do celular.
— Eu tenho que ir. — Murmurou, enfim.
— Eu sei. — Verena respondeu.
Nenhuma das duas se mexeu por um segundo. Então Valentina abriu a porta, o calor da rua entrando num sopro, o barulho distante da cidade invadindo o habitáculo de silêncio. Antes de sair, virou-se uma última vez.
— Eu mando mensagem quando chegar em casa. — Disse.
— Eu vou esperar. — Verena respondeu.
Ela desceu, fechou a porta com cuidado e começou a andar na direção oposta, rumo ao ponto. Não olhou para trás. Verena ficou observando pelo retrovisor até o momento em que o uniforme branco e azul desapareceu no fim da rua.
Só então respirou fundo, encostando a cabeça no encosto do banco, a mão ainda firme no volante. Por cinco minutos, tinha conseguido o que queria: estar perto sem tocar, ouvir sem se justificar, ver sem se esconder. O problema é que, para alguém como ela, cinco minutos não eram alívio — eram vício.
Girou a chave, ligou o motor. Quando o carro se afastou da calçada, levando junto o cheiro, a voz e a presença dela em alguma dobra da memória, Verena teve a nítida sensação de não estar apenas dirigindo para o trabalho, mas cruzando, mais uma vez, uma linha que já não sabia se teria volta.
Escritório de Silvia Alencar — Centro, 16h07
A tarde entrava esmaecida pelas janelas amplas do oitavo andar, deixando o escritório num tom de cinza elegante. O barulho do centro da cidade chegava filtrado: buzinas longínquas, ônibus freando, alguém gritando uma oferta de rua que se perdia na altura.
Sobre a mesa de Silvia, pilhas de processos organizados em blocos milimetricamente alinhados, um código civil aberto com marcações em post-its coloridos e uma xícara de café pela metade, já fria. O blazer claro estava pendurado nas costas da cadeira, usava apenas uma camisa de seda azul-marinho com as mangas dobradas até o cotovelo. O coque, preso sem muita paciência, deixava escapar alguns fios na nuca.
Mariana estava sentada de frente para ela, atravessada na cadeira como quem já se sentia em casa. Deixara os óculos escuros sobre a mesa, ao lado da própria xícara intacta. Folheava distraidamente uma revista de decoração que havia encontrado na recepção.
— Então ele já tá falando melhor? — Perguntou, sem levantar os olhos, como se falasse de um cliente comum, não do pai da amiga.
Silvia recostou na cadeira, girando a caneta entre os dedos.
— Sim, ainda trava na maioria das palavras, mas a gente já consegue entender bem mais. — Respondeu. — A médica falou que com o tempo ele pode se recuperar sem sequelas, com retorno, fisioterapia, acompanhamento… esse combo todo.
— Bom sinal. — Mariana fechou a revista e a empurrou de lado. — Quando eu te vi aquela primeira semana, jurava que você ia desmontar no meio do hospital.
Silvia deu um sorriso curto.
— Eu quase desmontei mesmo.
Houve um pequeno silêncio. O ar-condicionado sussurrava, a luz do monitor marcava uma faixa azul no rosto de Silvia.
— E o escritório? — Foi a vez de Silvia perguntar, tentando empurrar a conversa para um terreno neutro. — Conseguiu resolver a novela da partilha daquela família insuportável?
Mariana revirou os olhos.
— Consegui um acordo ontem. Se eu sobrevivi à mãe histérica, ao advogado do ex-marido e à filha dramática, acho que posso oficialmente colocar “mediação de caos” no meu currículo.
Silvia riu com sinceridade pela primeira vez naquela tarde.
— Deve ser contagioso. — Comentou, mexendo na pilha de processos. — Ultimamente, tudo ao meu redor parece um pouco caótico.
— Hm. — Mariana inclinou a cabeça, estudando a amiga. — “Tudo ao meu redor”, tipo… pai, trabalho, trânsito, inflação… ou estamos incluindo gente específica nessa categoria?
Silvia não levantou os olhos, mas o jeito de reorganizar a caneta sobre a mesa a denunciou.
— Você não cansa, né? — murmurou.
— De você? Não. — Mariana apoiou os cotovelos na mesa, aproximando-se. — E já faz alguns minutos que você fala de todo mundo, menos de uma pessoa.
Silvia respirou fundo, comprimindo os lábios.
— A gente pode, por uma vez, ter uma tarde sem o nome da Verena no meio, Mari?
— Podia. — Mariana deu de ombros. — Mas aí não seria a sua vida.
Silvia a encarou, meio séria, meio cansada.
— Meu pai quase morreu, eu tô virando noites tentando atualizar prazos, reorganizando tudo pro recesso, e você acha mesmo que o centro da minha vida é…
— Ela. — completou Mariana, sem hesitar. — Sim, acho. E se eu te disser que não é, eu tô desrespeitando a realidade.
Silvia se calou. O silêncio durou alguns segundos. O barulho de um ônibus arrancando lá embaixo subiu como fundo sonoro involuntário.
— A gente tá… — Começou, escolhendo as palavras com cuidado demais. — Num momento melhor.
— Melhor? — Mariana repetiu, arqueando uma sobrancelha. — Melhor em relação a qual escala? “Antes dela te chamar de outro nome” ou “antes de te ignorar por semanas”?
Silvia fechou os olhos por um instante, vencida.
— Você é impossível.
— Eu sou a pessoa que você chama pra almoçar quando precisa fingir que só quer falar de vinho e decoração. — Mariana cruzou os braços. — E, adivinha? Funciona por meia hora. Depois a verdade aparece.
Silvia girou a cadeira de leve, desviando o olhar para a janela, onde se via apenas um recorte de prédios e céu opaco.
— Ela tem tentado. — Disse, por fim, mais baixa. — Tá mais presente, mais… carinhosa.
A palavra saiu com cuidado, como se fosse frágil demais.
— Mais carinhosa como? — Mariana insistiu. — “Bom dia” acompanhado de beijo na testa? Mensagem no meio do dia? Fala de atos, não de impressões.
Silvia sorriu de leve.
— Mensagens. Ligações. — Enumerou. — Ela tá… mais atenta. Pergunta do meu pai, pergunta de mim. Segunda ela veio aqui me buscar depois de uma audiência que acabou tarde, me levou pra jantar. Aos poucos, parece que eu… tenho uma esposa de novo.
Mariana ouviu sem interromper. Apenas a expressão endureceu um pouco.
— E em qual momento dessa descrição você deixa de sofrer? — Perguntou, com calma demais.
Silvia franziu a testa.
— Não é assim.
— É exatamente assim. — Mariana recostou na cadeira, cruzando as pernas. — Você descreve gestos básicos como se fossem milagres. “Ela me buscou”, “ela me ligou”, “ela perguntou de mim”… Silvia, qualquer relacionamento minimamente saudável tem isso como ponto de partida, não como prêmio.
Silvia pousou a caneta, finalmente irritada.
— Você não precisa diminuir tudo que ela faz.
— Alguém precisa colocar isso na proporção certa. — Retrucou Mariana, sem elevar a voz. — Porque, pelo que eu vejo, você continua se virando em mil pra sustentar o mundo inteiro, incluindo ela. E, quando ela finalmente aparece, você trata como se fosse uma graça do universo.
Um silêncio seco caiu sobre a mesa. Silvia entrelaçou as mãos, os dedos apertando um ao outro.
— É muito fácil falar de fora. — Murmurou. — Você não vive com ela. Não sabe como é quando as coisas estão bem. Não sabe o quanto eu… — parou, engolindo metade da frase. — o quanto eu ainda amo aquela mulher.
O olhar de Mariana suavizou um pouco, mas não recuou.
— Eu não duvido do que você sente. — Disse. — O que eu questiono é o que você aceita.
Silvia puxou o ar, mirando um ponto qualquer da mesa.
— Você acha mesmo que é tão simples assim? — Perguntou, com uma amargura contida. — Levantar da cama num belo dia, olhar pra tudo que construímos, pro que passamos juntas, pro jeito como eu conheci a vida ao lado dela, e dizer “não quero mais”? Como se fosse rescindir um contrato de aluguel?
— Não é simples. — Mariana respondeu, firme. — Mas também não é digno você continuar se dobrando em mil pedaços pra caber num espaço mínimo que ela resolve te dar quando convém.
Fez uma pausa breve, antes de ir mais fundo:
— Eu não entendo por que você continua se humilhando pra salvar esse casamento.
A frase pousou sobre a mesa com um peso diferente. Silvia piscou, uma vez. A palavra “humilhando” pareceu ecoar dentro do escritório, maior do que o espaço.
— Humilhando. — Repetiu, devagar. — É assim que você vê?
Mariana percebeu o limite que acabara de tocar, mas não recuou completamente.
— Eu vejo você engolindo coisas que, se fosse sua melhor cliente te contando, você chamaria de violência emocional. — Respondeu, sem rodeios. — Vejo você se encolhendo, pedindo migalha de atenção e chamando de reconciliação. Se isso não é uma forma de humilhação… é o quê?
Silvia recostou, cruzando os braços, num gesto raro nela.
— Você não sabe de tudo. — Disse, seca. — Não sabe das conversas que tivemos. Das coisas que ela me disse. Não sabe como foi… quando a gente se reencontrou depois do…
Não terminou. A palavra “briga” pareceu pesada demais para resumir tudo o que aconteceu. Mariana observou a amiga por um instante longo.
— Eu não sei de tudo. — Concordou. — Mas sei o suficiente pra ver que, cada vez que o assunto é ela, você fica diferente.
Silvia apertou os olhos, lutando contra algo que subia pela garganta, não exatamente choro, mas um misto de exaustão e defesa.
— Eu estou tentando, Mari. — Disse, por fim, a voz mais baixa. — Você sabe que eu sou orgulhosa. Se eu tivesse certeza de que não vale a pena, eu já tinha ido embora. Mas eu olho pra ela e… — Parou, respirou fundo. — Eu ainda vejo a mulher por quem me apaixonei. Ela não é só aquilo que você enxerga de fora.
— E você não é só essa que vive em função dela. — Devolveu Mariana, com igual firmeza. — E é aí que eu empaco.
O silêncio se estendeu, espesso.
Do lado de fora, alguém passou no corredor, o barulho de salto ecoando brevemente. Uma secretária riu distante. O telefone na mesa de Silvia piscou uma luz discreta — chamada interna, ignorada. Mariana suspirou, suavizando um pouco o tom.
— Olha, se você quer tentar mais uma vez… eu vou estar aqui. — Disse. — Só não me pede pra achar bonito o que te diminui.
Silvia baixou o olhar para as próprias mãos. As unhas impecavelmente feitas contrastavam com a pele dos dedos, marcada de leve pela pressão.
— Às vezes eu só queria que alguém dissesse que vai dar certo. — Admitiu, num fio de voz. — Que eu não tô sendo idiota. Que… vale a pena tentar.
Mariana a encarou, os olhos úmidos sem chegar a brilhar.
— Eu adoraria poder dizer isso. — Respondeu, sincera. — Mas eu prefiro ser a amiga que te olha nos olhos e diz: se não der, não foi porque você faltou com amor. Foi porque a outra parte não soube honrar.
Silvia respirou fundo, desviando o rosto, como se precisasse de um segundo para não desmontar ali mesmo, em cima dos autos do processo.
— Você tá com raiva dela por mim. — Disse, tentando um meio sorriso.
— Alguém tem que fazer o serviço. — Mariana respondeu, enfim, com um humor leve. — Você tá ocupada demais tentando salvá-la de todos os incêndios que ela mesma provoca.
O clima afrouxou um pouco. Silvia estendeu a mão por cima da mesa, tocando de leve a ponta dos dedos da amiga.
— Eu sei que você fala assim porque se importa. — Murmurou. — Mas… eu preciso que você confie em mim também, tá? Se um dia eu não aguentar mais, eu prometo que você vai ser a primeira a saber.
Mariana apertou a mão dela, firme.
— Eu confio em você. — Disse. — É nela que eu tenho minhas reservas.
Silvia riu baixinho, ainda com os olhos brilhando.
— Justo.
O celular de Silvia vibrou sobre a mesa, tela voltada para baixo. As duas olharam para o aparelho.
— Pode atender. — Mariana fez um gesto com a cabeça. — Vai que é algum incêndio jurídico.
Silvia hesitou por um segundo antes de pegar o telefone. Viu o número na tela, reconheceu de relance, e sentiu um frio breve na barriga. Não atendeu. Bloqueou a tela e colocou o aparelho de volta, ao lado da pilha de processos.
— Era só coisa do escritório. — Mentiu com naturalidade treinada.
Mariana percebeu o micro desvio no olhar, mas não insistiu. Tinha aprendido a distinguir quando a amiga estava pronta para abrir uma porta e quando ainda não.
— Então vamos fazer assim. — Disse, levantando-se, ajeitando a alça da bolsa. — Hoje eu vou fingir que acredito. Que ela tá sendo a esposa dos seus sonhos. Que vocês vão passar um Natal civilizado e que ninguém vai acabar dormindo no sofá.
Silvia se levantou também, contornando a mesa para abraçá-la. O abraço foi apertado, demorado, com um silêncio que dizia mais que qualquer piada.
— Obrigada por continuar vindo, mesmo quando eu irrito você. — Murmurou.
— Você me irrita desde a faculdade. Já tô acostumada. — Mariana respondeu, abraçando mais forte. — Só não deixa essa história engolir quem você é, Sil. O resto… a gente resolve depois.
Quando a amiga saiu, o escritório voltou a ficar quieto demais. Silvia ficou alguns segundos em pé, entre a mesa e a porta, até voltar à cadeira. Sentou-se, pegou o celular de novo. A notificação ainda estava lá, intacta, vinda da clínica que ela preferira não mencionar. Abriu. Leu duas linhas sobre “ajuste de datas para próxima etapa”. O coração bateu diferente. Fechou a mensagem. Encostou o aparelho na mesa. Respirou fundo.
Entre o futuro que insistia em planejar com Verena e o presente que continuava a doer, ela tinha a sensação desconfortável de estar equilibrada num fio muito fino — e, por mais que Mariana a alertasse do abismo, ainda não sabia se queria atravessar… ou se, no fundo, já tinha caído.
Fim do capítulo
Oiee pessoal! Espero que todos estejam bem e que nossa semana seja ainda mais abençoada. Vou dar meu máximo pra voltar aqui ainda essa semana de novo. Não quero mesmo deixar tanto tempo sem atualizar.
Abraços e vejo vocês em breve! S2
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Sem cadastro
Em: 18/12/2025
O caminho uma da outra se cruzou de forma avassaladora
Dessas coisas da vida inevitaveis.
Não importa idade, gênero, classe social
É puramente químico
Valentina e Verena nasceram uma para outra
Meu casal favorito
Está na hora Verena admitir e assumir a responsabilidade
Que a Silvia acorde e faça ela engolir essas verdades( sem violências kkkkk)
Querida autora, você consegue transmitir de forma tão única os detalhes
Quando leio sua história, me transporto pra dentro
Sem cadastro
Em: 18/12/2025
O caminho uma da outra se cruzou de forma avassaladora
Dessas coisas da vida inevitaveis.
Não importa idade, gênero, classe social
É puramente químico
Valentina e Verena nasceram uma para outra
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Em: 16/12/2025
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Em: 11/12/2025
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Em: 10/12/2025
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Em: 09/12/2025
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N@ty
Em: 09/12/2025
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Em: 08/12/2025
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Em: 08/12/2025
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Zanja45
Em: 08/12/2025
Silvia tem que entender que as feridas que não foram saradas adequadamente vai continuar a doer, pois vai estar sempre expostas. - Por mais que ela tente se convencer do contrário. Mas se existe uma linha mesmo que frágil então há uma chance de chegar a algum lugar. - Então há caminhos a escolher. - Mesmo que ela seja atraida para as profundezas, até mesmo lá pode encontrar a luz que falta para encontrar o caminho de volta.
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Zanja45
Em: 08/12/2025
Foi muito brutal e verdadeiro o que Mariana disse para Silvia. - O fato dela se humilhar para ter o amor de Verena - Sendo que não é recíproco. - Ela não aliviou pra cima da amiga, não filtrou a verdade. - Para a pessoa falar o que falou para Silvia é porque tem um nível de amizade muito grande para aceitar sem dar uma parada.
Confesso que gostei da honestidade dessa conversa. - Mariana tocou em pontos que ela( Silvia) tem que lidar no dia a dia com clientes quando fala em abuso emocional. - E ainda quando Silvia diz que Verena liga para saber como está o pai dela, pega ela no trabalho que é o mínimo que ela pode fazer. - Que isso não é uma métrica para se dizer que está tudo bem.
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Zanja45
Em: 08/12/2025
Valentina foi bem direita nessa troca de mensagem. - sem filtros - Revelou os sentimentos que iam no íntimo dela. Como " Não consegui dormir", " achei que não ia mais falar comigo". Já Verena foi bem verdadeira em relação as falas dela, apesar de ponderar um pouco nas mensagens. No entanto não deixou de expor o que estava sentindo.
Do jeito dela, ela consegui dialogar com Valentina, dando os espaços necessários para interpor o que ela queria. - respeitando cada etapa - sabendo o tempo de falar cada coisa. - Ainda mais sabendo que Valen é apenas uma adolescente. - Foi o timing perfeito para ajustar as pontas do que estava soltas do " desastroso" último encontro.
Verena agora consegui aparentemente fazer as pazes com as duas mulheres da vida dela. - Mas para isso ela teve que se esforçar muito. Kkkkk!
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Zanja45
Em: 08/12/2025
"Não consegui dormir. Você sabe o motivo". - Já pensou se ela mandasse essa mensagem para Valentina? Seria muito direta. - Ainda bem que ela voltou atrás, se não estaria revelando demais para um contato depois de um período sem se falar. - Ela teria teria que ter mais cautela só falar para um adolescente que não reagiu bem as investidas do último encontro. - Por isso ela mudou a mensagem.
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N@ty
Em: 08/12/2025
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Hanna28
Em: 07/12/2025
Minha alma anda em frangalhos por não conseguir te enxergar com minha percepção de agora.
Insisto em te ver com mesmos olhos apaixonados de uma adolescente em sua descoberta
Você aparece
Some e
eu fico
Esperando pequenos pedaços de esperança cega
No que deveria ser certeza
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Hanna28
Em: 07/12/2025
Entre o doar e receber existe uma rachadura enorme...
Eu te amo ou amo o que eu tenho de si?
Partes soltas do que um dia foi abrigo,lar,um lugar de amparo;
Meu medo é no fim enxergar que nunca te tive de verdade
Que meu medo de não te ver partir
Me fez refém de migalhas homeopáticas do que diz ser amor...
Até quando irei doar amor e em troca receber
Um eco ensurdecedor do que me fazia suspirar,brilhar os olhos
E te amar...
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