Vamos ser sinceras
LAURA
Pouco mais de meia hora depois que elas saíram, eu já me encontrava ansiosa, preocupada e estressada. Um dos nossos caminhões simplesmente desapareceu. O GPS estava fora de alcance e a carga que deveria ter sido entregue naquela manhã não havia chegado ao destino.
A central tentou contato com o motorista e os auxiliares diversas vezes, sem resposta.
Nesses casos, sempre existem três possibilidades. A primeira é simples e, apesar dos transtornos, fácil de resolver. A segunda é um possível roubo de carga. A terceira - e mais cruel - é a possibilidade de um acidente fatal.
Essa última sempre pesa diferente. São vidas sob minha responsabilidade. São famílias que podem perder seu ente querido - e, muitas vezes, seu sustento. Foi por isso que, depois de muita insistência, consegui que a empresa implementasse um seguro de vida para todos que transportam nossas cargas pelas estradas brasileiras.
Em regiões remotas, acidentes podem demorar a ser notificados. Às vezes nem há cobertura da PRF em determinados trechos, especialmente quando a rodovia é estadual ou atravessa áreas mais isoladas. Muitas ocorrências acabam sendo comunicadas por outros motoristas. E, em alguns casos, surgem em vídeo na internet antes mesmo de qualquer registro oficial.
Em meio à preocupação, fiz uma busca detalhada por possíveis acidentes ao longo de todo o percurso que ele faria. Atualizei as páginas várias vezes. Não encontrei nada.
Isso era um bom sinal.
Em seguida, procurei no mapa por pequenas cidades e vilarejos próximos ao último ponto registrado. Pedi que a equipe ligasse para todas as oficinas mecânicas da região.
Duas horas depois, finalmente tivemos resposta.
Nosso caminhão estava em um pequeno vilarejo escondido de tudo - inclusive do sinal de celular. Eles ainda usavam telefone fixo, porque, segundo o dono da oficina, as montanhas "não queriam essas coisas lá".
O caminhão estava quebrado. O conserto levaria dois dias.
Um pesadelo logístico.
Mas o motorista e os auxiliares estavam bem.
E isso era o que realmente importava.
Quando deu cinco horas, minha mãe entrou no escritório. Olhou para o computador, depois para a pilha de papéis espalhados pela mesa. Sem dizer nada, saiu e voltou com um balde de água.
- Você tem três segundos para desligar tudo e ir para a cama. Do contrário, tudo isso vai tomar um bom banho.
Havia algo familiar na forma como minha mãe agiu. Levei alguns segundos para perceber. A familiaridade era Joyce. De algum jeito, a imperatividade da minha mãe sobre mim era igual à dela. E assim como era com ela,eu sabia que era melhor obedecer.
Desliguei o computador e organizei os papéis. Quando me levantei, o mundo girou. Só então me lembrei de que não tinha comido nada o dia inteiro.
Ela me segurou antes que eu perdesse o equilíbrio e me levou até a cama.
- Eu te dei a vida. Não vou deixar que se mate trabalhando. A partir de amanhã, terá eu ou seu pai te vigiando o dia todo, até que receba alta.
- Mamãe... hoje foi uma situação atípica. Estou me cuidando direitinho.
- Não confio em você. Vamos tomar um banho e comer. Depois deixo você tentar me convencer.
Ela me colocou em uma cadeira de banho e abriu o chuveiro. A água morna escorreu devagar, e eu deixei que cuidasse de mim como quando eu era criança.
Lavou meus cabelos com cuidado.
- Isso aqui está uma bagunça. Esses antibióticos estão acabando com seu cabelo.
Depois de trocar os lençóis, me deitou na cama e voltou com uma bandeja que parecia alimentar uma família inteira.
- Não consigo comer tudo isso.
- Vou ter que colocar na sua boca? Posso fazer isso.
- Não precisa. Eu vou comer.
Ela puxou uma cadeira e sentou na minha frente.
- Laura, eu entendo que você tem muitas responsabilidades. A Sara me contou que o CD salvou a cidade, que trouxe os jovens de volta para suas famílias. Mas não vai ajudar ninguém se continuar agindo assim.
- Estou tentando mudar.
- Se a Sara não tivesse nos ligado, você estaria nesse hospital sozinha. Como se não tivesse família. Isso é tentar mudar?
- Desculpe...
- Não quero desculpas. Quero que pare se tratar dessa maneira .Você sabe o quanto meu coração fica aflito em saber que está longe? Eu te conheço. Sei que passa longos períodos sem comer, sem dormir. Todas as noites eu peço a Deus para não receber uma má notícia.
Por trás do drama havia amor verdadeiro.
- Eu sei que preciso mudar. E vou conseguir. Não se preocupe. Eu vou ficar bem.
Ela me observou por alguns segundos.
- Pelo menos a Luiza está aqui com você. E tem a Sara também.
- A propósito... sei o que está tentando fazer. Mas Sara e eu não vamos reatar.
- Vocês ainda se gostam. Por que não tentar de novo?
- Porque não somos boas como casal. Eu a amo, mas não como antes. Vamos ser boas amigas. É melhor assim.
Ela suspirou.
- Está bem. Vou respeitar essa decisão.
- Obrigada por entender.
Ela inclinou a cabeça.
- Você está apaixonada por outra.
- O quê?
- Seu pai me contou. Como é mesmo o nome dela? Joyce, não é?
- Papai está imaginando coisas.
- Não minta para sua mãe. Sua reação já respondeu.
Fiquei em silêncio por um instante.
- Está bem. Eu me sinto atraída por ela. Mas quero ir devagar. Entender direito o que estou sentindo.
Ela sorriu.
- Não demore tanto para se casar. Quero segurar meus netos antes da minha coluna piorar.
- A senhora já tem três netos. E mais cinco filhos além de mim. Por que essa cobrança só comigo?
- Porque, nos últimos dez anos, você foi a única que chegou perto de me dar mais um. A Sara sempre dizia que queria filhos logo.
Fiquei quieta.
Era impressionante como, no meio de caminhões desaparecidos, antibióticos e ameaças de hospital, minha mãe ainda conseguia transformar tudo em um plano para aumentar a família.
Mas, de algum jeito, aquilo também era cuidado.
Comer toda aquela comida me deixou sonolenta. Eu ainda tentava manter os olhos abertos quando a exaustão venceu. Adormeci sem perceber.
Luiza chegou pouco depois das oito, exausta, mas visivelmente satisfeita. Pelo jeito acelerado com que falava no corredor, tinha conseguido instalar todo o sistema. Ela estava elétrica, animada demais para alguém que também deveria estar cansada.
Entrou no quarto quase correndo.
- Lala, eu...
- Xiiiu! - minha mãe interrompeu antes que ela completasse a frase. - Seja lá o que tenha a dizer pode esperar até amanhã. Vá pra casa jantar e nada de comer besteira!
- Eu vou comer... - Luiza respondeu, tentando negociar. - Mas posso ficar com ela depois?
- Não. Ficarei com ela esta noite. Vá ficar com seu pai.
Mesmo de olhos fechados, eu podia imaginar a expressão contrariada da minha irmã.
- Mas mãe...
- Luiza.
O tom foi suficiente.
Alguns segundos de silêncio. Depois, passos se afastando pelo corredor.
Senti o colchão afundar levemente quando minha mãe se sentou ao meu lado. A mão dela pousou sobre minha testa, verificando algo que talvez só ela soubesse identificar.
- Dorme - ela murmurou.
Sonhei que Joyce e eu estávamos no lago. A água calma refrescava nossos corpos, enquanto a proximidade entre nós aquecia o ar ao redor. O silêncio era confortável, quase íntimo.
Ela segurava firme minha cintura. Não havia pressa. Nossos rostos se aproximaram devagar, como se o mundo inteiro tivesse desacelerado só para aquele instante. Seus lábios tocaram os meus de forma sutil, quase um teste... até que o beijo aconteceu de verdade.
Calmo. Quente. Inevitável.
Acordei assustada com o som do celular tocando. A luz branca do quarto substituiu o azul do lago. A enfermeira trocava o antibiótico com movimentos cuidadosos, enquanto o doutor Jaime conversava com meus pais ao pé da cama.
- Os exames dela ainda não estão bons, mas estão melhorando. Creio que poderá ter alta em três ou quatro dias.
- Isso é ótimo - minha mãe respondeu, aliviada.
Passei a mão pelos cabelos, tentando dissipar o sonho. Mas a sensação do toque ainda parecia real demais.
O mais desconcertante não era o beijo.
Era o fato de que, mesmo dormindo, eu não resistia a ela.
Devo ter ficado da cor de um pimentão quando Joyce, completamente desavisada das minhas visitas, entrou no quarto.
Ela parou por um instante, ainda segurando a maçaneta, claramente avaliando se recuava ou se encarava a cena: eu na cama, minha mãe ao lado, e o doutor Jaime - que, além de meu médico, era pai dela - de pé perto da janela.
- Bom dia, Joyce - minha mãe disse com naturalidade demais.
- Bom dia, senhora Leda... senhor Marcos...
O doutor Jaime a observou por alguns segundos.
- O que faz aqui tão cedo?
- Oi, pai... bom dia... eu...
Eu precisava ajudá-la antes que o silêncio virasse um interrogatório clínico.
- Ela veio me trazer os relatórios de ontem.
Joyce piscou uma vez, entendendo imediatamente.
- Exatamente.
O doutor Jaime arqueou levemente a sobrancelha. Médico acostumado a detectar inconsistências.
- Relatórios... - repetiu, ainda analisando o rosto dela. - Você está bem? Parece um pouco pálida.
- É porque acabei de acordar - Joyce respondeu rápido demais.
Minha mãe, percebendo a tensão crescente, segurou o braço dele.
- Vamos deixar as meninas trabalharem. O senhor nos acompanha para um café?
- Claro... Filha, venha fazer uns exames qualquer dia.
- Virei, doutor Jaime.
Ele estreitou os olhos.
- É pai, Joyce Carolina.
_Eu virei fazer os exames,PAPAI.Estão te esperando, vá logo - minha mãe insistiu, já conduzindo-o até a porta.
Eles saíram, e o silêncio tomou conta do quarto como se fosse uma presença física.
Joyce foi a primeira a quebrá-lo.
- Você está vermelha.
- Está calor.
Ela olhou em volta.
- Nem tanto.
Cruzei os braços.
- Veio me visitar ou me questionar?
Ela deu um passo mais perto da cama.
- Não pode ser os dois?
- Por que realmente veio?
Ela sustentou meu olhar por alguns segundos. Sem ironia. Sem fuga.
- Eu queria te ver.
O ar pareceu ficar mais denso.
_Por que?
Ela se aproximou da cama. Foi rápido, mas para mim pareceu em câmera lenta. Havia algo diferente no olhar dela. Determinação. Como se estivesse prestes a dizer algo muito importante... mas ainda decidindo se deveria.
Parou a poucos centímetros de mim.
- Você quer a resposta ensaiada? Ou a verdadeira?
Tentei manter a firmeza.
- Qual delas eu quero ouvir?
- Isso depende de você.
Ela se afastou de repente, como se estivesse se protegendo de algo que estivesse prestes a atingi-la. De certa forma, achei aquilo quase fofo. Parecia uma criança contrariada tentando fingir que não se importava.
- Eu não disse que não queria ouvir, Joyce.
- Também não mostrou que está pronta.
- Nem sempre estamos prontos quando algo bom e novo chega.
Ela soltou um suspiro impaciente.
- Vamos continuar usando metáforas ou vamos falar abertamente sobre isso? Sobre nós.
Nós.
Uma palavra tão pequena. Tão simples. E ainda assim, capaz de deslocar o eixo do meu mundo.
Eu tinha responsabilidades. Ela era minha subordinada. Existiam protocolos, ética, olhares atentos. Existiam motivos - muitos - para não seguir por aquele caminho.
Mas a quem eu queria enganar?
Eu a queria.
- Joyce...
- Eu sei o meu nome. - A voz dela endureceu. - Está tudo bem se você não sentir o mesmo.
- Pare de ficar na defensiva. E de me interromper.
Ela arqueou uma sobrancelha.
- Isso é um pedido ou uma ordem?
- Tem diferença?
- Claro que tem. Uma ordem eu recebo da minha chefe. - Ela deu um passo à frente outra vez. - Um pedido eu recebo da mulher por quem estou apaixonada.
E ali estava.
Não metáfora. Não ensaio. Não subtexto.
Confissão.
Se eu disser... e quando eu disser... vai tornar tudo complicado demais para nós duas.
Joyce não recuou.
- Eu não tenho medo do que virá. Só preciso saber que você deseja isso tanto quanto eu.
Eu estava me esforçando para manter a postura. A responsável. A racional. Mas as palavras dela me atravessavam, me desmontando por dentro. Eu já queria estar nos braços fortes dela, como se ali fosse possível silenciar o mundo inteiro.
Respirei fundo.
- Eu quero você. Não sei como vamos fazer dar certo... mas eu quero muito que dê.
Foi simples. Cru. Verdadeiro.
E então, claro, o universo decidiu rir da minha cara.
A porta se abriu com energia demais para aquele momento.
- Bom dia, meu casal favorito!!
- Luiza!
- O que foi? Ainda estão fingindo que não se gostam?
Joyce ficou vermelha na mesma velocidade em que eu perdi a capacidade de formular frases coerentes.
- Conversamos depois.
Ela saiu estrategicamente do quarto, deixando para trás um rastro de tensão e promessa.
Luiza me encarou com um sorriso perigoso.
- Interrompi algo importante?
- O que você está fazendo aqui?
- Lógico que vim te ver antes do trabalho. E avisar que o Luan está vindo buscar nossos pais. Mas isso não é importante agora. Me conta tudo! Vocês brigaram?
- Não! Estávamos apenas tendo uma conversa sincera... sobre nós.
Ela levou a mão ao peito, dramática.
- Você finalmente está assumindo o que sente! Já posso contar para todo mundo que você arrumou uma nova namorada?
- Claro que não! Isso vai ter que ser segredo por enquanto. Pelo menos até as coisas no CD se acertarem. Eu não posso perder o foco agora.
Luiza me analisou com aquele olhar que misturava implicância e carinho.
- Ela te deixa totalmente fora do eixo. Nunca vi ninguém fazer isso. Nem mesmo a Sara.
O nome caiu como um lembrete incômodo.
- Droga. Me esqueci da Sara. Como ela vai reagir quando souber de mim e da Joyce?
- Vai ficar feliz. Ela sempre quis que você fosse feliz.
- Como sabe? Vocês ainda estão...
- Não. - A expressão dela ficou séria. - Eu disse que ia me afastar. Que não ia trair sua confiança novamente.
Respirei fundo antes de admitir:
- Não vou negar que me incomoda um pouco e que vai ser muito estranho . Mas não tenho a intenção de ser a vilã que impede as pessoas de ficarem juntas nessa história. Se vocês querem... eu não vou impedir. Nem reclamar.
- Laura... - Luiza suspirou. - A Sara só estava confusa. No fundo, ela não via a mim. Via você. Buscava em mim o que não estava conseguindo em você.
Aquilo doeu. Porque fazia sentido.
- Eu conheço você como você me conhece, Luiza. Sei que se apaixonou por ela.
Ela assentiu.
- Sim. Mas me afastei. Nunca foi nada além de conversas.
- Eu sei. - Passei a mão pelo rosto. - Fiquei com raiva quando soube. Quis nunca mais olhar para vocês duas. Mas, olhando para trás... a culpa de tudo isso foi minha. Ela só queria atenção. Que eu fosse mais presente. Eu coloquei minha carreira à frente dela. E isso machuca muito. O abandono machuca.
Luiza ficou em silêncio por alguns segundos.
- Imagina como isso vai soar para todos. Ela era minha cunhada.
Soltei um suspiro breve.
- Parece anormal porque muitas vezes somos mesquinhos. Não queremos mais a pessoa... mas nos ofendemos se alguém próximo decide fazê-la feliz.
- É humano.
- Sim. Infelizmente...O que você vai decidir?
Ela me olhou com mais seriedade. Eu precisava desafiá-la, como ela sempre fazia comigo. Era a nossa forma de empurrar uma à outra para frente.
- Fingir que não sente nunca resolveu nada.
Ela balançou a cabeça, tentando clarear os pensamentos.
- É muito complicado. Tem nossos pais... o que vão dizer? Vão achar que eu a roubei de você.
Respirei fundo.
- Mamãe ama a Sara. Vai ficar feliz de tê-la de volta na família. E papai... mais do que ninguém sabe que eu não fui uma boa esposa para ela.
Luiza franziu a testa.
- O que quer dizer?
Passei a mão pelos cabelos antes de responder.
- Uma noite ele me ligou. Estava sério. Disse que precisava falar comigo.
- Isso já é assustador. O que ele disse?
Eu nunca tinha contado aquilo em voz alta.
- Ele disse: "Não se case se não tem a pretensão de se dedicar a fazer sua esposa feliz. Casamento é mais que sex* ou sentimento. É presença. Luta. Parceria. É saber que pode contar com o outro em qualquer situação."
Fiz uma pausa antes de continuar.
- E no final ele disse: "Se separe e a deixe encontrar alguém que esteja disponível para dar tudo isso a ela."
Luiza ficou em silêncio.
- Uau...
- Eu também fiquei assim. Passei dias pensando nisso. Algumas semanas depois, Sara e eu tivemos uma briga horrível. Naquele momento eu entendi as palavras dele. Eu não estava presente. Eu estava ocupada, ambiciosa, distante. Então decidi que era hora de separar.
O quarto ficou quieto.
- Então eu sei que você entende o que está em jogo - ela disse por fim.
Engoli em seco.
- Estou com medo.
- Eu entendo. Também estou da minha situação com a Joyce. Mas... eu vou arriscar. Mesmo que dê tudo errado. Tenha coragem também.
Fim do capítulo
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