Capitulo 12
Enquanto Giovana cambaleava em direção ao corpo de Pavel, sangrando e exausta, o som de um helicóptero cortou o ar. Não era o resgate que ela esperava.
Ethan saltou da aeronave antes mesmo que os patins tocassem o solo. Ele vestia o uniforme tático do MI6, acompanhado por uma equipe de intervenção que ele mesmo selecionara. Ele caminhou até Giovana, que estava caída de joelhos ao lado do corpo de Pavel.
- Bom trabalho, Major - disse Ethan, a voz desprovida de qualquer emoção. - Você eliminou o alvo. Facilitou muito a minha vida.
Giovana olhou para ele, a visão turva. - Eu sei sobre os rublos, Ethan. Eu sei sobre a maleta.
Ethan parou e sorriu - um sorriso triste, quase paternal. - Eu sei que você sabe. É por isso que o relatório de amanhã dirá que a Major Giovana Baxter, agindo sob um surto psicótico causado pelo estresse da missão, executou Irina Zakirova e os Jones, e depois tentou me matar. Eu serei o herói que teve que abater a própria colega para conter o massacre.
Ele sacou sua arma de serviço, silenciada.
- Onde está a maleta com o soro, Giovana? Diga-me e talvez eu faça ser rápido para a russa.
Dentro da clínica, Irina viu a cena através do vidro quebrado. Ela reconheceu em Ethan o perigo visceral que corriam. Reconheceu a arma e a expressão do agente, um contato que vira várias vezes com seu marido. E, naquele momento, a última peça do seu quebra-cabeça mental se encaixou. Ela não era apenas uma médica. Ela era a mulher que havia roubado as informações do marido para derrubar homens como ele.
Irina pegou a submetralhadora UMP de Jones e o carregador sobressalente que havia trazido junto, que estavam sobre o balcão. Com o braço ainda ferido e o rosto manchado de sangue, ela se postou na porta.
- Afaste-se dela, seu desgraçado - a voz de Irina ecoou, fria e russa como o gelo da Sibéria.
Ethan girou, surpreso pela intervenção. O impasse estava montado. O traidor, a major ferida e a médica que recuperara a sua memória e junto com ela, a fúria desesperada de quem ama e quer proteger a amada.
***
O ar gelado de Larkhill parecia estagnar enquanto o som das pás do helicóptero diminuía para um zumbido grave. Ethan caminhou até Giovana, que pressionava o ferimento no ombro, a neve ao redor dela tornando-se um rosa pálido pelo sangue.
- Você sempre foi dedicada demais, Giovana. É o seu maior defeito - disse Ethan, chutando a pistola de Pavel para longe. - No Texas, seu pai ensinou a você sobre impérios, mas esqueceu de ensinar sobre a sobrevivência do mais forte. Sim, eu sei tudo sobre você - falou, ante a surpresa estampada no rosto de Giovana.
Giovana cuspiu sangue, encarando-o com desprezo. - O MI6 vai descobrir, Ethan. Você não pode apagar todos os rastros.
Ethan soltou uma risada seca, ajustando as luvas táteis. - O MI6? Giovana, eu nunca fui deles. Sou um investimento de longo prazo que a Inteligência Russa plantou em Londres antes mesmo de você sair da faculdade. Mas o Estado é um patrão ingrato. A máfia de Pavel... eles pagam melhor. Muito melhor. Eu facilitei a entrada deles, vendi a localização e, agora, vou herdar os segredos que estão na cabeça da Zakirova, que não tive tempo de extrair daquele inútil do marido dela.
Ele apontou a arma silenciada para a testa de Giovana. - O relatório será perfeito. "Heroica tentativa de resgate termina em tragédia quando a Major Baxter cede à instabilidade emocional". Ninguém questiona um herói, e ninguém procura por uma russa desaparecida que o mundo pensa estar enterrada sob os escombros desta clínica. Sim, eu vou explodi-la após finalizar com você.
- Você é um covarde - sibilou Giovana, fechando os olhos, esperando o impacto.
- Eu sou um homem de negócios. - disse, ignorando Irina que permanecia com a arma apontada para ele.
O som que se seguiu não foi o "puff" abafado de um silenciador, mas o trovão seco e ensurdecedor de uma rajada de UMP a curta distância.
Irina estava de pé na entrada da clínica, as pernas afastadas para compensar o recuo da arma, os olhos fixos e gélidos. Ela não disparou apenas uma vez; ela despejou todas as balas do pente no peito de Ethan. O impacto das balas de 9mm jogou o corpo do traidor para trás, fazendo-o tombar sem vida sobre o capô amassado do Aston Martin.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Irina soltou a submetralhadora fumegante, que caiu pesadamente na neve, e correu em direção a Giovana.
- Giovana! - Ela se jogou ao lado da Major, as mãos médicas agindo por puro instinto para estancar o sangue do ombro.
- Você... você o pegou - sussurrou Giovana, sorrindo apesar da dor.
- Ele ia tirar você de mim - respondeu Irina, a voz rouca. - Eu me lembro agora, Giovana. De tudo. E eu não vou deixar ninguém mais nos machucar.
Giovana olhou para cima, para o canto superior da fachada da clínica do Dr. Miller. Uma pequena câmera de segurança de luz vermelha piscava, protegida por uma redoma de vidro.
- Aquela câmera... - Giovana apontou com dificuldade. - O Dr. Miller... ele é paranoico com remédios roubados. Instalou um sistema de circuito fechado com backup em nuvem mês passado - a assistente do Dr. Miller, apesar de muito assustada, falou.
Irina olhou para o dispositivo e depois para o corpo de Ethan. A prova da traição, a confissão do agente duplo e o legítimo cumprimento do dever estavam todos gravados. O plano de Ethan de incriminá-la acabara de se tornar sua própria sentença póstuma.
***
Moscou | Operação "Ninho de Pássaro" - 48 horas depois
A extração não foi feita com tiros, mas com a precisão de cirurgiões. Graças aos dados fornecidos por Irina e à pressão diplomática gerada pelo vídeo de Ethan, uma unidade de elite russa localizou o cativeiro onde estava o menino, filho de Irina.
Giovana estava no blindado quando a porta do apartamento agora seguro se abriu. Irina impulsionou-se à frente, ignorando o protocolo de segurança. O pequeno Nikolai, ainda abraçado ao seu urso de pelúcia puído, não sabia nada sobre a geopolítica do momento; ele apenas buscou o abraço e o conforto da mãe.
Giovana observou de longe, sentindo uma paz que nenhuma medalha jamais lhe proporcionara. Elas estavam completas.
***
Londres | Quartel-General do Comando Conjunto - 15 dias após o incidente
Giovana entrou na sala de conferências com o braço ainda em uma tipoia, mas a postura era a de quem havia vencido uma guerra solitária. À sua frente, uma banca de oficiais de alta patente do MI6 e observadores do Pentágono aguardava o veredito. Sobre a mesa, o drive com as imagens da clínica de Larkhill era a prova irrefutável que a livrara da corte marcial.
- Major Baxter, prossiga com o resumo do conteúdo recuperado - ordenou o General.
Giovana manteve o olhar firme. - As informações que o marido de Irina Zakirova pretendia vender à máfia russa não eram apenas segredos de Estado; eram o projeto de um Soro de Manipulação Genética Avançada. Um catalisador capaz de reescrever cadeias de DNA para aprimoramento físico e cognitivo em níveis militares. O marido dela, em sua dívida de jogo, foi o vetor; Irina, a barreira que impediu que o código-fonte caísse nas mãos de Pavel e seus financiadores em Moscou. Pretendiam vender o código no mercado negro internacional.
Ela fez uma pausa, enfatizando a conclusão: - Irina Zakirova não é apenas uma sobrevivente. Ela é a única razão pela qual este protocolo de bioguerra permanece sob nosso controle.
***
Houston, Texas | Mansão dos Baxter
O pôr do sol tingia os campos da fazenda de um laranja profundo. Peter Baxter estava em sua varanda, o charuto apagado entre os dedos, observando a filha se aproximar. O silêncio entre eles sempre fora uma barreira, mas desta vez, Giovana não veio como a Major, mas como a mulher que finalmente sabia quem era.
- O relatório foi aceito, senhor - disse ela, encostando-se no parapeito ao lado dele.
- Eu soube. O MI6 enviou uma nota oficial de agradecimento. Eles não fazem isso por qualquer um - o velho Baxter murmurou, o orgulho lutando com sua rigidez habitual. - E agora? Vai voltar para o serviço ativo?
Giovana olhou para a edícula, a pequena casa de hóspedes onde Irina e Nikolai descansavam. - Me ofereceram um posto junto a CIA. Esse trabalho todo foi um maldito teste.
- E você aceitou?
- Não... Eu pedi licença por tempo indeterminado. Tenho... outras prioridades agora.
Peter virou-se para ela, a expressão severa. - Prioridades? Você está falando da russa?
- O nome dela é Irina, pai - Giovana sustentou o olhar dele, sem recuar. - E eu a amo. Não é apenas uma consequência da missão ou gratidão. É algo que eu nunca senti, nem mesmo aqui, nesta casa. Ela é minha paz, meu universo inteiro. E se o senhor não puder aceitar isso, eu entendo. Mas não vou esconder quem eu sou para manter as aparências do império dos Baxter.
O silêncio que se seguiu durou um ano galáctico. Finalmente, Peter Baxter olhou para as próprias mãos calejadas e depois para a filha, vendo nela a mesma determinação que o fizera construir tudo o que possuíam.
- Ela salvou sua vida - disse ele, finalmente. - E você salvou a dela. E para mim isso significa família. Se ela te faz feliz, Giovana... então este rancho tem espaço para mais duas pessoas.
Giovana sentiu o peso de anos de expectativas desmoronar. Ela sorriu, os olhos marejados, e pela primeira vez em décadas, abraçou o pai.
Fim do capítulo
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