Capitulo 11
Com um inimigo capturado e dois à solta, a fazenda deixou de ser um refúgio para se tornar uma armadilha mortal. Giovana sabia que o tempo era um luxo que eles não possuíam.
O caos na cozinha foi substituído por uma eficiência fria. Enquanto a Sra. Jones, ainda trêmula, abraçava o marido ferido, Giovana e Irina agiam em sintonia.
- Irina, ajude a Sra. Jones a levar o Jones para o banco de trás do utilitário preto deles. É mais espaçoso que o meu carro - ordenou Giovana, enquanto arrastava o prisioneiro baleado pelos calcanhares, deixando um rastro de sangue no assoalho. - Eu vou levar este lixo no Aston Martin. Encontrem o médico local em Larkhill. Eu sei onde vocês estarão - disse, colocando um capuz preto que achara em um dos armários da entrada no mercenário ferido.
Irina assentiu, os olhos fixos nos de Giovana por um segundo eterno. Havia medo, mas também uma confiança recém forjada pela situação. - Tome cuidado, Giovana. Se ele morrer, não teremos respostas.
- Ele não vai morrer - Giovana destravou a arma e olhou para o prisioneiro com um sorriso sombrio. - Não antes de eu arrancar as informações que preciso. Ai eu mesma posso terminar com ele.
O utilitário partiu em disparada rumo à cidade, levando a vida de Jones nas mãos de Irina. Giovana, por sua vez, jogou o invasor no porta-malas do Aston Martin e arrancou em direção oposta, entrando em uma trilha de terra escorregadia, que levava a um antigo celeiro de armazenagem de feno, abandonado há décadas.
***
O vento uivava através das frestas das tábuas de madeira podre do celeiro. Giovana jogou o homem no chão poeirento. O tiro no ombro ainda sangrava, e o frio intenso de Larkhill começava a cobrar seu preço. Ela o amarrou a uma viga de sustentação, as mãos presas acima da cabeça.
Giovana retirou o capuz do homem. Ele era jovem, com traços rústicos e um olhar que oscilava entre o desafio e o pânico. Ela não perdeu tempo com sutilezas. Aproximou-se, pressionando o polegar exatamente sobre o ferimento de bala no ombro dele.
O grito do homem ecoou pelas vigas vazias do celeiro.
- Vamos pular a parte em que você finge que é corajoso - disse Giovana, a voz gélida, quase inexpressiva. - Você mencionou o nome Pavel. Mencionou o filho da Irina. Como Pavel sabe onde estamos? Quem é o traidor em Londres?
O homem cuspiu sangue nos pés de Giovana. - Você... você não entende. Pavel já ganhou. O agente... o inglês... ele é apenas um dos muitos que recebem em rublos.
Giovana sentiu o estômago revirar. Ethan. A confirmação doía mais do que ela esperava. - Onde Pavel está agora? Ele está vindo para cá?
- Ele já está em solo inglês - o homem riu, uma tosse seca interrompendo o som. - Ele não quer apenas a maleta. Ele quer a mulher que é sua obsessão. E ele vai queimar esta cidade inteira para chegar até ela. Se você me matar, outros virão. Nós somos apenas a vanguarda de um verdadeiro exército de mercenários.
Giovana inclinou-se, o rosto a centímetros do dele. - Eu não vou te matar agora. Vou te deixar aqui para o frio cuidar de você enquanto eu vou buscar o seu patrão. Mas antes... me diga o canal de rádio que vocês estão usando.
Larkhill - no hospital
Enquanto isso, na pequena clínica da cidade, o cenário era de guerra. O médico local, um homem idoso chamado Dr. Miller, foi acordado aos gritos pela Sra. Jones. Irina, com o jaleco emprestado e as mãos ainda manchadas com o sangue de Jones, assumira o comando da pequena sala de cirurgia improvisada.
- Preciso de lidocaína injetável e um kit de sutura profunda! Agora! - Irina gritava, sua voz não deixando espaço para contestações. O Dr. Miller, surpreso com a autoridade daquela "turista", apenas obedecia.
Enquanto limpava o ferimento de Jones, Irina sentiu as lágrimas caírem. Cada ponto que dava, cada vaso que pinçava, trazia uma nova imagem de seu passado. Ela se viu operando sob fogo de artilharia... o cheiro de antisséptico misturado ao de pólvora. Ela era, de fato, uma cirurgiã militar.
- Aguenta firme, Jones - sussurrou ela, enquanto o velho agente lutava para manter os olhos abertos. - A Giovana está vindo. Nós vamos sair dessa.
A porta da clínica se abriu com estrondo. Não era Giovana. Era o comissário local, com uma expressão confusa e assustada. - Recebemos chamados sobre tiros na fazenda dos Jones. O que está acontecendo aqui?
Irina olhou para ele, os olhos injetados. - O que está acontecendo é uma invasão estrangeira, policial. E se o senhor quiser que esta cidade continue de pé amanhã, é melhor bloquear as estradas de acesso, principalmente a do lado norte. Agora!
***
O cerco se fechou sob o céu de chumbo de Larkhill. A pequena cidade, antes um refúgio de pastores e névoa, transformou-se no marco zero de uma caçada implacável.
A estrada de acesso ao norte de Larkhill tornou-se um corredor de fogo. Pavel não enviou apenas capangas; enviou uma unidade de extração profissional sob seu comando pessoal. Dois utilitários pretos surgiram da neblina, avançando em direção à clínica do Dr. Miller.
Giovana, vindo da direção do celeiro abandonado, atravessou o pasto com o Aston Martin em rota de colisão. Ela não parou. Usou o carro como um projétil, jogando-o contra o primeiro veículo inimigo em um impacto de metal e vidro que ecoou por todo o vale. Antes que a poeira baixasse, ela saltou, a Five-SeveN cuspindo fogo.
- Irina! Tranque a porta! - gritou Giovana, usando a carcaça do Aston Martin como cobertura.
Três homens saltaram do segundo veículo. Pavel estava entre eles, observando de longe, protegido pela blindagem e pelo ódio. Os disparos rasgaram as janelas da clínica. Dentro, Irina protegia o corpo de Jones com o próprio peso, enquanto o Dr. Miller se encolhia sob a mesa de carvalho.
Giovana moveu-se com a precisão de uma sombra. Ela não lutava mais como uma agente; lutava como alguém que defendia sua casa. Abateu o primeiro homem com um tiro certeiro na garganta e flanqueou o segundo, finalizando-o em um combate corpo a corpo brutal sob a neve que voltava a cair. Os demais, atordoados, ficaram em um fogo cruzado com a polícia local.
Sobrou Pavel. Ele desceu do carro, uma pistola Makarov em punho, os olhos fixos na porta da clínica onde Irina estava.
- Ela é minha, Major! - Pavel rugiu, a voz embargada pela obsessão.
- Ela não é de ninguém, seu desgraçado - Giovana surgiu de trás de um pilar, a arma apontada para o peito dele.
O duelo durou segundos. Pavel disparou, atingindo o ombro de Giovana, o mesmo lugar onde ela já fora ferida antes. Ela não vacilou. Disparou duas vezes. A primeira bala atingiu a perna de Pavel, derrubando-o; a segunda, o peito. O "Boss" desabou na neve, o sangue escuro manchando o branco puro do inverno inglês. O império de Pavel terminava ali, no chão frio de Larkhill.
Fim do capítulo
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