Capitulo 10
Larkhill. 12:00 PM.
Após terminarem o café, Giovana avistou um telefone público de cabine, um tanto gasto pelo tempo, a poucos metros do café. O vento lá fora parecia carregar lâminas de gelo.
- Fique aqui no calor, Irina. Eu volto em dez minutos - pediu Giovana, com o instinto de proteção falando mais alto.
Ao entrar na cabine, o silêncio foi substituído pelo som do vento uivando nas frestas do vidro. Ela discou o número internacional, o coração batendo num ritmo diferente. No terceiro toque, a voz suave de Maria atendeu.
- ¡Hola! Residência dos Baxter. - Oi, mãe... Feliz aniversário - disse Giovana, e por um segundo, ela não era a Major do serviço secreto, mas apenas a filha que sentia falta de casa. - Giovana! Minha filha, você ligou! Seu pai jurou que você estaria ocupada demais com "seus deveres". Como você está? Onde você está?
Giovana olhou pelo vidro da cabine e viu Irina através da vitrine do café, observando a neve começar a cair. - Estou bem, mãe. Só... em uma missão longa. Mas não podia deixar de dizer que amo você. Dê um beijo no papai, mesmo que ele esteja de mau humor.
- Ele está aqui do lado, fingindo que não está ouvindo - Maria riu, mas o tom logo mudou para uma prece baixa. - Tome cuidado, mi amor. Sinto algo estranho no peito hoje. Volte para casa logo.
- Eu voltarei. Prometo.
Ao desligar, Giovana sentiu o peso do mundo retornar. O momento de ternura foi interrompido por um movimento no reflexo do vidro: o utilitário preto que estava estacionado ao lado do seu Aston Martin acabara de dar a partida bruscamente.
***
O trajeto de volta para a fazenda foi silencioso. Irina percebeu a mudança no semblante de Giovana - a mandíbula travada, os olhos escaneando o retrovisor a cada cem metros.
- Aconteceu alguma coisa na ligação? - perguntou Irina, preocupada. - Não. Só um pressentimento. Segure-se. Giovana acelerou. O Aston Martin rugiu pela estrada sinuosa, os pneus desafiando a camada fina de gelo. Quando os portões de madeira da propriedade dos Jones surgiram entre a névoa, a visão foi desoladora.
Um dos cães estava caído perto da entrada, imóvel.
- Não... - sussurrou Irina, cobrindo a boca com as mãos.
Giovana não parou o carro na frente da casa. Ela manobrou lateralmente, usando a estrutura do celeiro como cobertura. Sacou a Five-SeveN do coldre, o movimento agora era puramente instintivo. - Fique no carro. Abaixe-se e não saia por nada!
Ela saltou do veículo antes mesmo que ele parasse totalmente. O cheiro de pólvora ainda pairava no ar úmido, misturando-se ao odor de terra molhada. A porta dos fundos da cozinha estava escancarada, batendo erraticamente com o vento.
- Jones! - gritou Giovana, mantendo-se agachada, a arma varrendo o ambiente em 180 graus.
Não houve resposta vocal, apenas um gemido abafado vindo de trás do balcão de carvalho. Giovana avançou, o coração martelando.
Ali, sentado no chão frio, o Sr. Jones pressionava um pano de prato contra o abdome. O sangue, de um vermelho vivo e assustador, empapava sua camisa de flanela e escorria pelos dedos calejados. Ao seu lado, a submetralhadora UMP estava vazia, o ferrolho aberto indicando que ele havia lutado até a última bala.
- Droga, Jones! Onde eles estão? - Giovana ajoelhou-se ao lado dele, verificando a ferida. Era uma entrada limpa, mas profunda. - Foram... desceram para o porão... - ele tossiu, um filete de sangue sujando o canto da boca. - Eram três. Eles... eles não queriam me matar de imediato. Estavam procurando por algo... ou esperando por vocês.
Jones segurou o pulso de Giovana com uma força surpreendente para quem estava perdendo a consciência. - A minha velha... eles a levaram para o porão. Estão armados, Giovana. Saia daqui com a russa. Agora!
Giovana olhou para a escada que levava ao porão. A paz de Larkhill fora definitivamente assassinada. O "Boss" não estava mais apenas vigiando; ele havia invadido o santuário.
- Eu não vou a lugar nenhum sem vocês - disse Giovana, seus olhos frios como o gelo lá fora. - Irina! - chamou alto. - Preciso de você aqui! Agora!
Irina entrou correndo, ignorando o perigo. Ao ver o estado de Jones, sua postura mudou. O bloqueio de memória pareceu estremecer diante da necessidade médica. Seus dedos tocaram o pulso do velho agente inglês com precisão profissional. - Ele precisa de compressão constante. Giovana, pegue o estojo de primeiros socorros no armário de cima. Rápido!
Enquanto Irina assumia o controle do ferido, Giovana levantou-se, a pistola em punho, os olhos fixos na porta do porão. O jogo de gato e rato terminara. Era hora de caçar.
***
O ar na cozinha estava saturado com o cheiro metálico de sangue e o odor acre de pólvora. Enquanto o vento fustigava a casa, o drama se dividia entre a vida que se esvaía no chão e a ameaça que espreitava nas sombras do porão.
Irina ajoelhou-se no chão frio, suas mãos movendo-se com uma destreza que ela não lembrava que possuía. Ao tocar o ferimento do Sr. Jones, flashes de luz branca cruzaram sua mente - imagens de mesas de cirurgia, luzes de hospital e o som rítmico de monitores cardíacos.
O bloqueio em sua memória não caiu, mas seu corpo sabia o que fazer. - Jones, olhe para mim! Fique focado na minha voz - ordenou Irina, a voz rouca agora firme e autoritária. Ela rasgou a própria camiseta para criar uma bandagem de emergência, pressionando o abdome do velho com força. Jones soltou um arquejo de dor, e ela não recuou. - Respire devagar. Giovana, o estojo de primeiros socorros, agora!
Giovana deslizou pelo piso de madeira, os sentimentos sobre a família, o peso da herança recusada, o pai e sua insistência, a vida de outrora em Houston agora esquecidos. Ela era uma arma carregada e engatilhada, o treinamento militar assumindo o controle. Alcançou o kit médico sob a pia, retornou ao piso térreo e o lançou para Irina sem desviar os olhos da porta do porão.
Com a Five-SeveN em punho, ela testou a maçaneta. Estava trancada por dentro. Giovana não hesitou; um chute preciso perto da fechadura fez a madeira estalar e a porta ceder. Ela mergulhou na escuridão da escadaria, as costas coladas à parede fria, o silêncio lá embaixo sendo interrompido apenas pelo choro abafado da Sra. Jones.
- Ele está entrando em choque, Giovana! - gritou Irina, a testa suada apesar do frio. Ela abriu o kit, encontrando gazes e soro. Com as mãos trêmulas, mas precisas, ela começou a limpar a entrada da bala. - A pressão está caindo. Eu preciso de luz e de mais recursos!
- Sra. Jones... onde ela está? Jones tentou falar, mas apenas bolhas de sangue surgiram em seus lábios. Irina inclinou a cabeça dele para o lado. - Não tente falar. Apenas lute. Você não vai morrer na minha frente, ouviu bem? - Ela estava desesperada para salvar o homem que a acolhera e arriscara a vida por ela, sentindo que cada segundo ali era uma batalha contra o seu próprio passado esquecido.
No fundo da escada, Giovana parou. A penumbra era cortada por uma única lâmpada amarelada ao fundo. Ela viu a Sra. Jones amarrada a uma cadeira, a boca amordaçada, e um homem alto, vestindo um sobretudo escuro, com uma arma encostada à têmpora da mulher.
Era o mesmo homem que ela vira no café. - Largue a arma, Major Baxter - a voz do homem era calma, com um sotaque de algum lugar do Leste Europeu. - Ou a velha morre antes de você puxar o gatilho. Giovana não abaixou a pistola. Sua mente calculava a distância, o ângulo e a trajetória. - Você cometeu um erro vindo aqui - disse Giovana, a voz gélida. - Você feriu um dos meus. E agora, você não tem para onde ir.
Irina fechou os olhos por um segundo enquanto aplicava a compressa improvisada acima da ferida de Jones. Uma lembrança vívida a atingiu: ela mesma, vestindo um jaleco branco, sendo chamada de "Dra. Zakirova" em um hospital militar em São Petersburgo. O choque da realidade presente a trouxe de volta.
Jones segurou sua mão, os dedos frios. - Salve... a... - ele sussurrou. Irina sentiu uma lágrima escorrer, mas não parou o trabalho. - A Giovana está lá embaixo. Ela vai trazê-la de volta. Concentre-se em respirar, Jones. Só respire.
No porão, o homem sorriu, um gesto cruel que não chegou aos olhos. - Pavel mandou lembranças para a Irina. Ele disse que o filho dela sente saudade. O nome "Pavel" e a menção ao filho atingiram Giovana como um soco físico, mas ela não vacilou.
No momento em que o sequestrador relaxou levemente o braço para ajustar a mira, Giovana disparou. O estalo seco da Five-SeveN ecoou no espaço fechado. A bala atingiu o ombro do homem, arremessando-o para trás. Giovana avançou como um raio, desarmando-o com um chute e prendendo-o ao chão com o joelho em sua garganta. - Onde está o Pavel? E onde estão os outros dois homens que estavam com você? - ela rosnou, o cano da arma pressionado contra o olho do invasor. - Fale agora, ou eu garanto que você não vai precisar de uma ambulância.
Giovana desamarrou a Sra. Jones rapidamente, ajudando-a a subir as escadas enquanto arrastava o prisioneiro ferido. Ao chegar na cozinha, encontrou Irina coberta de sangue, mas com um olhar de determinação feroz. Jones estava pálido, mas ainda respirava.
As duas mulheres se entreolharam por cima do corpo ferido do velho agente. O tempo das meias palavras tinha acabado e a guerra começado.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
[Faça o login para poder comentar]