Capítulo 14

Epílogo

de Echoes of Larkhill , por Lady Texiana

Tamanho do texto
695 palavras367 leituras0 comentários

 

Lembranças

O homem loiro, de porte robusto e um sorriso sádico que não alcançava os olhos, materializou-se em sua mente. Ele empunhava um chicote de montaria. O brilho maligno em seus olhos era tão real que Irina sentiu o estalo do couro no ar.

- Sergei... - o nome escapou de seus lábios como um veneno.

As comportas se abriram. Sergei não era apenas seu marido; ele era seu carcereiro. Ela se lembrou das noites em São Petersburgo, onde o luxo do apartamento escondia o rastro de destruição deixado pelo vício dele. Sergei era um homem devorado pelo jogo. As cartas e as roletas eram seus verdadeiros deuses, e ele sacrificava tudo em seus altares: a fortuna da família, a segurança e, por fim, a dignidade.

Irina viu-se diante dele em uma memória vívida, implorando para que ele parasse. - Sergei, as dívidas... eles vieram à nossa porta hoje. Nikolai está assustado!

Ele apenas rira, aquele som metálico e desprovido de empatia, antes de desferir um golpe que a jogara contra a parede. Sergei não via o filho, Nikolai, como uma criança a ser protegida, mas como um estorvo, uma despesa que competia com suas apostas em clubes clandestinos. Irina se lembrou do descaso absoluto: Sergei esquecendo o menino na escola sob nevascas, ou pior, usando a herança que deveria ser o futuro do filho para cobrir um "blefe" mal calculado.

A memória mais dolorosa, porém, surgiu com uma clareza cortante: o momento em que Sergei decidiu vender o que não lhe pertencia. Ele havia acessado os arquivos sigilosos do hospital militar onde Irina trabalhava - os estudos sobre a manipulação genética.

- Você é brilhante, Irina - ele dissera, enquanto a mantinha sob a mira de seu desprezo e daquela força bruta. - Suas pesquisas valem mais do que qualquer cassino pode me dar. Pavel pagará milhões por isso.

Irina sentiu o corpo tremer ao recordar a traição. Ela não era apenas uma esposa para ele; era um ativo financeiro. Sergei a agredia não apenas fisicamente, mas psicologicamente, tentando convencê-la de que ela era cúmplice de sua ruína.

O estalo do chicote na memória transformou-se no som da chuva batendo na janela de Larkhill. Irina caiu de joelhos no tapete, abraçando o próprio corpo. Agora ela sabia por que sua mente havia se desligado. O trauma não era apenas o acidente ou a perseguição; era o peso de saber que o homem que deveria amá-la a havia transformado em uma mercadoria para a máfia russa.

- Nikolai... - ela sussurrou, as lágrimas finalmente vencendo a resistência.

A culpa por ter deixado o filho para trás, mesmo que para protegê-lo enquanto fugia com a maleta, era uma ferida aberta. Sergei estava morto, mas as cicatrizes que ele deixara em sua alma eram tão profundas quanto as que Giovana vira em seu corpo. Irina percebeu que a "amnésia" fora seu último mecanismo de defesa contra o horror de ser a posse de um monstro.

Lentamente, ela se levantou. A dor ainda estava lá, mas o vazio fora preenchido por uma fúria fria e necessária. Ela não era mais a vítima de Sergei. Ela era a Dra. Zakirova, e que tinha um filho para cuidar e um império de traições para derrubar.

***

Meses depois, as marcas em Larkhill eram apenas cicatrizes corroídas na paisagem. Mas para Giovana e Irina, sentadas na varanda da nova casa enquanto Nikolai corria pelo gramado com um dos filhotes dos cães de Jones, a vida era um livro em branco, o futuro surgia em cores brilhantes no horizonte.

Giovana segurou a mão de Irina, sentindo o calor da pele que um dia fora gelada pela neve. - O que você está pensando? - perguntou a texana.

Irina sorriu, o olhar azul turmalina brilhando sob o sol inglês, contrastando com o cobre derretido dos olhos de Giovana. - Estou pensando que a "Dra. Zakirova" talvez queira abrir uma clínica aqui por perto. E que a "Ellen Smith" deveria finalmente escrever aquele livro.

Giovana riu, puxando-a para um beijo que cheirava a café e a futuro. - Eu prefiro ser apenas a Giovana. E eu já tenho o meu final feliz.

Fim.

 

Fim do capítulo

Publicidade
Conversa

Comentários

0
Este capítulo ainda não recebeu comentários.
Informar violação das regras