Capitulo 35
Por Bia:
Duas semanas fingindo que estava tudo bem. Duas semanas mergulhando no trabalho até não conseguir mais pensar. Duas semanas falhando miseravelmente em não pensar nela.
Tinha feito de tudo para me distrair. Aceitei ensaios fotográficos e publicidades que nem queria fazer. Passei horas na academia, exaurindo meu corpo até não sobrar energia para sentir. Saí com amigos, ri nas horas certas, disse as coisas certas.
Mas à noite, sozinha no meu apartamento, tudo voltava. A memória do corpo dela contra o meu. A forma como tudo tinha fluído gostoso entre a gente.
Ainda conseguia ver a tristeza que tomou conta dos olhos dela quando disse aquelas palavras. Eu achava que a irritaria, mas o que fiz foi machucá-la. E mesmo percebendo isso, continuei. Escolhi me proteger ao invés de ser honesta.
Porque ser honesta significaria admitir que havia me apaixonado por ela. Que naquela noite, enquanto ela dormia aqui em casa, observei cada detalhe do seu rosto, velei seu sono como quem guarda algo precioso.
Mas ela tinha deixado muito claro, naquela conversa que ouvi com Angela, exatamente o que pensava de mim.
E aquelas palavras ainda queimavam.
***
Na sexta-feira, Pietro apareceu no meu apartamento sem avisar, como sempre fazia quando achava que eu estava evitando seus telefonemas. E ele estava certo. Eu realmente estava.
— Bia, libera minha entrada! — ele disse no interfone.
Apertei o botão, suspirei e fui até a porta, abrindo-a com uma expressão que esperava que parecesse irritada.
— Você é insuportável, sabia?
— E você está me evitando — ele rebateu, entrando sem cerimônia e indo direto para a cozinha. — Coca-cola. Preciso de uma coca-cola geladinha para essa conversa.
— Que conversa? — perguntei, fechando a porta e o seguindo.
— A conversa sobre o que diabos aconteceu com você — ele disse, já mexendo na minha geladeira como se fosse a casa dele. — Você está estranha antes de ir para Vintervile. E na verdade, ficou mais estranha ainda desde que voltou de lá. O que aconteceu, hein?
— Nada aconteceu.
— Mentira, Beatriz Albuquerque — ele disse sem hesitar, me olhando por cima do ombro. — Você está… estranha.
— Estou apenas cansada — tentei, mas até para mim soou fraco.
— Bia — ele disse, pegando dois copos e servindo o refrigerante. — Sou seu amigo antes de ser seu empresário. Você pode falar comigo.
Peguei o copo que ele me ofereceu e sentei no banquinho da bancada da cozinha. Ele se sentou ao meu lado, esperando.
— Eu... — comecei, mas as palavras morreram. Como eu explicaria sem revelar tudo?
— Tem a ver com a Luísa? — ele perguntou.
Meu silêncio foi resposta suficiente.
— Ah, Bia — ele disse com um suspiro. — O que aconteceu? Ela foi grossa contigo de novo? As Fischer tem um gênio que vou te contar, viu…
— Nada que importe agora, Pietro — consegui dizer. — Mas falando nisso, segunda-feira tem reunião na PS.
— Eu sei — ele disse, e havia algo cuidadoso no tom dele agora. — Vai ser reunião de encerramento de contrato ou renovação. E, francamente, eu apostaria em renovação. Tudo está saindo absurdamente bem. As vendas deles aumentaram, o engajamento nas redes está nas alturas, vocês duas juntas, apesar de se odiarem, são ouro puro para a mídia.
Senti meu estômago revirar só de pensar em tudo. Em ter que fingir por mais meses. Em ter que estar perto dela sabendo o que ela pensava sobre mim.
— Eu ainda não sei se pretendo renovar — disse, olhando para o meu copo.
Pietro ficou em silêncio por alguns segundos.
— Por que não renovaria? — perguntou finalmente. — É a melhor coisa que aconteceu para sua carreira, Bia. Seus seguidores aumentaram consideravelmente e sua conta também.
— Eu sei.
— Então?
— Então... — respirei fundo. — Eu tenho outros planos. Lembra daquele ano sabático que eu sempre quis fazer? Viajar, conhecer lugares novos, sair um pouco dessa rotina louca?
— Lembro — ele disse devagar. — Mas você sempre empurrou isso para frente. Por que agora?
Porque preciso me afastar dela antes que me destrua completamente.
— Porque agora é o momento certo — disse em voz alta.
Pietro me observou por longos segundos, e eu sabia que ele não estava comprando minha desculpa.
— E tem outra coisa — continuei, desviando da análise dele. — Se eu não renovar, eu e Luísa vamos precisar terminar esse relacionamento fake. E já que a ideia brilhante foi sua — disse com um sorriso forçado — achei que você poderia me ajudar com isso também.
— Ah — ele disse, coçando a nuca. — Bom, existem algumas opções.
— Quais?
— Vocês poderiam fazer um comunicado conjunto nas redes sociais — ele começou, entrando em modo empresário. — Algo amigável, do tipo "decidimos seguir caminhos diferentes mas continuamos nos respeitando", essas coisas. Ou poderiam simplesmente... parar de aparecer juntas. Deixar as pessoas especularem e eventualmente esquecerem.
— Qual você acha melhor?
— Depende de como vocês querem que seja percebido — ele disse. — O comunicado conjunto é mais limpo, mais profissional. O desaparecimento gradual é mais... misterioso. Gera especulação, mas eventualmente passa.
Assenti, processando.
— Ou — ele disse, com aquele tom que indicava que estava prestes a dizer algo que eu não quereria ouvir. — Você poderia simplesmente renovar o contrato e continuar com algo que está funcionando perfeitamente.
— Pietro...
— Só estou colocando a opção na mesa — ele ergueu as mãos em rendição. — Mas, Bia, sério. Você está bem? Porque você não parece bem.
A preocupação na voz dele era genuína.
— Vou ficar — menti. — Só preciso de um tempo. Preciso de mudança.
Ele não pareceu convencido, mas não pressionou mais.
— Está bem — disse finalmente. — Mas se você mudar de ideia antes de segunda, me avisa. E se precisar conversar... sobre qualquer coisa... você sabe onde me encontrar. Não te convido para sair esse final de semana porque tenho um date. Ex do Róger.
— Ele vai te matar se souber — disse, rindo e depois forçando um sorriso. — E obrigada, Pietro.
Depois que ele foi embora, fiquei ali sentada na minha cozinha, com o refrigerante já quente no meu copo, pensando na reunião de segunda-feira.
Ia ver Luísa novamente. Ia ter que sentar na mesma sala que ela, olhar para ela, possivelmente falar com ela.
E ia ter que recusar a renovação enquanto mantinha minha compostura. Enquanto não deixava transparecer que cada segundo perto dela era uma tortura.
Queria ter tido uma chance de descobrir se o que sinto por ela e o que eu senti naquela noite era real para as duas.
Mas não podia. Não quando ela tinha deixado tão claro que tipo de pessoa eu era para ela.
***
Segunda-feira chegou rápido demais e devagar demais ao mesmo tempo.
Escolhi minha roupa com cuidado. Não queria parecer que estava tentando aparecer demais, mas também não queria parecer desleixada. Queria parecer... indiferente. Profissional.
Escolhi um conjunto de alfaiataria em tom nude rosado. Calça de cintura alta com corte impecável e blazer estruturado, sem blusa por baixo, apenas o blazer fechado estrategicamente. Meu cabelo solto em ondas suaves, maquiagem impecável mas não exagerada, base perfeita, olhos marcados com delineado preciso e sombra em tons terrosos, batom em tom rosado nude.
Brincos de argola dourados e delicados completavam o look.
O escritório da PS estava exatamente como eu lembrava. Lívia, a recepcionista, me cumprimentou com um sorriso animado e fez questão de me guiar até a sala de reuniões.
Pietro e Róger já estavam lá, conversando baixo com Angela. Quando entrei, todos levantaram os olhos e sorriram.
— Bia! — Róger disse, vindo me cumprimentar. — Pontual como sempre.
— Sempre — respondi, retribuindo o cumprimento.
Valéria entrou logo em seguida, e meu estômago se contraiu. Ela parecia bem. Melhor do que da última vez que a vi, na verdade. Havia mais vida nos olhos dela, mais energia no jeito de se mover.
— Está muito linda, Bia! — ela disse com um sorriso, me cumprimentando com beijinhos no rosto.
— Obrigada, Dona Valéria. A senhora também está radiante.
— Estou me sentindo muito melhor — ela disse, e havia gratidão na voz.
— Fico muito feliz em ouvir isso.
E então Luísa entrou.
Senti meu coração acelerar.
Ela usava um vestido midi azul marinho, elegante e profissional, que abraçava seu corpo de um jeito que me fez lembrar de coisas que eu estava tentando esquecer. Os cabelos estavam presos em um coque baixo impecável. A maquiagem era discreta mas realçava seus olhos de um jeito que me fez querer desviar o olhar.
Nossos olhos se encontraram por uma fração de segundo antes dela desviar rapidamente. Mas foi tempo suficiente para eu ver algo ali. Algo que parecia com... constrangimento? Tristeza?
— Bom dia — ela disse, a voz profissional e distante.
— Bom dia — respondi no mesmo tom.
Todos se sentaram ao redor da mesa. Valéria na cabeceira, Angela de um lado com Luísa e Róger, Pietro e eu do outro lado. A configuração era quase simétrica, como se estivéssemos em lados opostos de uma negociação.
O que, tecnicamente, estávamos.
— Bom — Valéria começou, assumindo controle da reunião com naturalidade. — Primeiro, quero agradecer a todos por estarem aqui. Esta reunião é para discutirmos os próximos passos da nossa parceria com a Bia.
Senti o peso do olhar de Luísa em mim, mas não levantei os olhos.
— Como todos sabem — Angela continuou, abrindo uma pasta com documentos e gráficos. — A campanha superou todas as expectativas. As vendas online aumentaram, o engajamento nas redes sociais triplicou, e a PS tem sido mencionada consistentemente na mídia de moda como uma marca em ascensão.
Ela deslizou alguns gráficos pela mesa, e eu fingi analisá-los com interesse.
— A presença de Bia como embaixadora e... — Angela hesitou por uma fração de segundo — ...parceira da Luísa tem sido absolutamente estratégica para esse sucesso.
— Os números falam por si — Róger acrescentou. — Vocês duas juntas criam uma narrativa que o mercado está claramente respondendo.
— Por isso — Valéria disse, se inclinando levemente para frente — gostaríamos de propor a renovação do contrato. Obviamente com termos ainda mais vantajosos para você, Bia. Reconhecemos o valor que você trouxe para a marca.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Senti todos os olhos na mesa se voltarem para mim. Especialmente os de Luísa.
Respirei fundo.
— Agradeço imensamente a proposta — comecei, mantendo minha voz firme e profissional. — E fico muito feliz que a parceria tenha sido tão bem-sucedida. Mas... — fiz uma pausa, escolhendo cuidadosamente as palavras. — Infelizmente, não poderei renovar o contrato.
Quando levantei os olhos, vi Luísa me olhando com uma expressão surpresa e… triste?
— Seria indiscrição eu te perguntar o motivo da recusa? — Valéria perguntou, e não havia acusação no tom, apenas curiosidade genuína.
— Não, Valéria. Tenho outros planos — disse, forçando um sorriso leve. — Há muito tempo venho planejando tirar férias… viajar, conhecer novos lugares, explorar outras possibilidades. E acho que agora é o momento certo para isso.
— Entendo — Valéria disse lentamente, mas havia algo no olhar dela. Algo analítico.
Pietro me lançou um olhar questionador, mas não disse nada.
— Há algo que pudéssemos fazer para mudar sua decisão? — ela tentou. — Poderíamos ajustar os termos, a carga de trabalho...
— Não é uma questão de termos — disse gentilmente. — É uma decisão pessoal. Uma que venho adiando há muito tempo.
— Compreendo — Valéria disse, e então trocou um olhar rápido com Pietro.
Foi breve, mas vi.
— Bom — Valéria continuou — se essa é sua decisão, obviamente a respeitamos. Mas isso nos leva a outra questão importante.
Esperei, sabendo o que viria.
— Como vocês pretendem proceder com... — ela fez um gesto vago entre mim e Luísa — ...o término do relacionamento? É preciso pensar na imagem pública, em como isso será comunicado para não prejudicar nenhuma das partes.
— Pietro e eu já discutimos algumas opções — disse rapidamente, grata por ter essa resposta preparada. — Podemos fazer um comunicado conjunto nas redes sociais, algo amigável e respeitoso. Ou podemos optar por um afastamento gradual, mais discreto.
— Eu acho — Valéria disse pensativamente — que o comunicado conjunto seria mais profissional. Mais limpo.
— Concordo — Angela disse.
— Luísa? — Valéria perguntou, olhando para a filha. — Você tem alguma preferência?
Foi a primeira vez que Luísa falou desde que a reunião começou.
— Acho que... — sua voz saiu um pouco rouca. Ela pigarreou. — Acho que a Bia poderia escolher.
— Prefiro o comunicado — Disse, olhando brevemente para ela.
— Então está decidido — Valéria concluiu. — Vamos preparar a documentação para o encerramento oficial do contrato. Bia, você ainda tem algumas obrigações contratuais pendentes — ela consultou alguns papéis. — Dois eventos programados nas próximas duas semanas. Depois disso, você estará livre para seus planos pessoais.
— Perfeito — consegui dizer.
— Bom — Valéria se levantou, indicando o fim da reunião. — Obrigada a todos. Angela, Pietro e Róger, vamos até meu escritório. Acredito que Bia e Luísa também precisam converar. Imagino que tenham algumas coisas a acertar.
Senti um frio no meu estômago.
Róger e Pietro trocaram olhares antes de se levantarem. Valéria já estava na porta, mas parou e olhou para trás uma vez, seu olhar alternando entre mim e Luísa com uma expressão que não consegui decifrar.
E então saíram, fechando a porta atrás deles.
O silêncio que ficou era ensurdecedor.
Luísa continuou sentada, olhando para as mãos sobre a mesa. Eu permaneci do outro lado, tentando manter a calma.
— Bia — ela começou finalmente, sua voz baixa. — Eu... eu preciso te pedir desculpas.
Não era o que eu esperava. Levantei os olhos, surpresa.
Seus olhos finalmente encontraram os meus, e havia algo vulnerável naquele olhar.
— Eu te julguei — continuou, as palavras saindo com dificuldade. — Desde o primeiro dia. Assumi coisas sobre você, sobre quem você era, sobre seu caráter. E eu estava completamente errada.
Senti algo apertar no meu peito.
— Luísa...
— Não, por favor, me deixa terminar — ela interrompeu. — Eu... em Vintervile, eu vi. Eu vi como seus amigos te tratam, como as pessoas de lá gostam de você de verdade. E pela primeira vez eu ouvi sobre o que realmente aconteceu com aquele escândalo político. Você não tinha nada a ver com aquilo. Foi injusto o meu julgamento, e você não merecia.
Ela parou, respirando fundo como se estivesse reunindo coragem.
— E eu fiz a mesma coisa que eles — continuou, a voz ficando mais fraca. — Eu te julguei sem te conhecer. Sem te dar a chance de se explicar. E eu sinto muito. Sinto muito mesmo.
O silêncio voltou. Ela me olhava como se estivesse esperando que eu dissesse algo, mas eu não sabia o que dizer.
Parte de mim queria aceitar o pedido de desculpas. Queria dizer que estava tudo bem, que eu entendia.
Mas outra parte, a parte que ainda sangrava com as palavras que eu tinha ouvido, não conseguia.
— Luísa — comecei, mantendo minha voz firme. — Eu aceito suas desculpas. Mas... isso não muda nada.
Vi quando o brilho nos olhos dela vacilou.
— Bia...
— Você acha que eu recusei a renovação por sua causa? — perguntei, e mesmo eu pude ouvir a frieza na minha voz. — Não se preocupe. Não tem relação com você.
— Eu só... — ela tentou, mas eu a interrompi.
— Você só o quê? — perguntei, e havia uma ponta de raiva agora. — Achou que suas desculpas mudariam alguma coisa? Que fariam diferença?
— Eu pensei... eu esperava... — ela parecia perdida agora.
— Você esperava o quê, Luísa? — insisti, me levantando da cadeira. — Que eu ficasse feliz?
— Eu só queria que você soubesse que eu estava errada — ela disse, também se levantando. — Queria que você soubesse que eu... que eu vejo você diferente agora.
— Diferente como? — perguntei, e sabia que estava sendo cruel, mas não conseguia parar. — Como alguém que não é completamente desprezível?
Vi quando ela empalideceu, e soube que tinha acertado em cheio.
— Bia, eu não penso isso...
— Não minta— eu disse, pegando minha bolsa. — Não precisa falar mais nada. Você tinha todo o direito de pensar o que quisesse. De dizer o que quisesse.
— Por favor — ela disse, e havia lágrimas nos olhos dela agora. — Me deixa tentar explicar. A maneira como eu te tratava era errada. Depois de Vintereville, eu…
— Em Vinterville a gente transou. E a química não muda o caráter de ninguém, não é mesmo?— disse cruamente, e vi quando ela recuou como se tivesse sido esbofeteada.
Ela me olhou por longos segundos, e havia tantas coisas naquele olhar.
Mas eu estava machucada demais. Assustada demais. Tinha me protegido com frieza por tanto tempo que não sabia como parar.
— Eu preciso ir — disse, minha voz saindo quebrada agora. — Os eventos nas próximas semanas... faremos o que precisa ser feito. Profissionalmente. E depois disso, acabou. Vou te livrar dessa obrigação.
— Bia...
— Adeus, Luísa.
Saí da sala antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa. Antes que eu pudesse desmoronar completamente.
No corredor, Pietro me esperava, e a expressão no rosto dele me disse que ele sabia que algo tinha dado muito errado.
Mas não disse nada. Apenas me ofereceu o braço, e eu aceitei, deixando que ele me guiasse para fora daquele prédio.
Para longe dela.
Fim do capítulo
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