Capitulo 34
Por Luísa:
"O momento para fechar com a atração."
Essas haviam sido as palavras de Bia, e eu fiquei remoendo elas por tempo demais. Cada sílaba se repetia na minha mente como um disco arranhado, machucando um pouco mais a cada repetição.
Ela poderia não estar envolvida nesse escândalo de Vinterville. Eu poderia ter me precipitado no julgamento sobre o envolvimento dela com aquele político. Mas ela era o que era, além disso tudo. Alguém que queria apenas se divertir na vida e que não tinha nenhum sentimento afetivo por mim.
Era desejo. Apenas desejo.
Não aguentei passar o domingo ali assistindo ao ensaio. Ver ela se abraçando e rindo com as modelos era algo que eu não estava preparada para enfrentar. A forma como ela sorria para elas, descontraída, livre…
Como eu pude ceder e passar a noite ao lado dela? Como permiti que ela me tocasse daquele jeito? Como me entreguei completamente, sem reservas?
Mas tinha sido tão bom...
A memória vinha em ondas. A maneira como ela tocou meu corpo, como se estivesse memorizando cada curva, cada reação. Os beijos que me deixavam sem ar. O som dela gem*ndo meu nome às vezes surgia de repente nos meus pensamentos, causando um frio na minha barriga e uma pontada no baixo ventre que me fazia apertar as pernas involuntariamente.
A memória auditiva estava grudada em mim, assim como a sensação dos toques dela no meu corpo.
Balancei a cabeça com força, tentando afastar os pensamentos.
Eu deveria esquecer tudo isso. Esquecer o que estava sentindo. Já havia chorado tanto. No banheiro do hotel, escondida, com a água do chuveiro abafando os soluços. Provavelmente choraria mais. E ela estava lá embaixo, rindo, se divertindo como se nada tivesse acontecido. Como se a noite anterior não tivesse significado absolutamente nada.
Me sentia idiota. Uma idiota completa por ter acreditado, mesmo que por um segundo, que aquilo poderia ter sido mais do que apenas sex* para ela.
Se era apenas desejo, nós nos queimamos com ele e não sobrou mais nada. Esse sentimento passaria. Tinha que passar.
***
Peguei minhas coisas antes do ensaio terminar, mal me despedi da equipe e saí antes que Bia voltasse para o quarto. Não conseguiria olhar para ela de novo. Não naquele dia.
O caminho de volta para casa foi repleto de pensamentos confusos. Lutei para manter minha concentração na direção, mas minha mente insistia em voltar para aquele quarto. Para aquela cama. Para o jeito que ela tinha me olhado antes de me beijar naquela noite.
Havia algo ali. Eu sei que havia.
Mas talvez eu tivesse apenas visto o que queria ver.
Cheguei em casa perto do horário do almoço. O portão automático se abriu e estacionei na garagem com um suspiro de alívio por finalmente estar em casa. Em terreno seguro.
Na sala, encontrei minha mãe resolvendo palavras cruzadas no sofá, óculos de leitura na ponta do nariz, caneta na mão. A cena era tão familiar, tão reconfortante, que senti algo leve no meu peito.
Me senti feliz por ela. Me senti feliz por mim. Ela parecia com a Dona Valéria de sempre. Forte, presente, saudável. Tudo ali parecia o que sempre foi. Nada tinha mudado.
Pelo menos não ali. Dentro de mim, tudo tinha virado de cabeça para baixo.
— Olá, minha filha! — ela disse, levantando os olhos da revista e me observando com aquele olhar que nunca perdia nada. — Voltou mais cedo de Vintervile... Aconteceu algo? Espero que não tenha se preocupado comigo. Como você pode ver — ela disse, apontando para o próprio corpo com um gesto teatral — estou muito bem.
Forcei um sorriso.
— Não aconteceu nada de mais, mãe. Apenas me senti exausta com tudo. Esse casamento, o ensaio... foi demais pra mim.
Minha voz saiu cansada demais, carregada demais.
— Entendo — ela disse, me analisando com aquele olhar penetrante.
Tentei desviar o olhar, mas era tarde demais.
— O que foi? — perguntei, na defensiva.
— Luísa — ela começou, colocando a revista de lado e tirando os óculos. — Te conheço desde sempre. Mais do que qualquer um. Ainda não sei ao certo o que aconteceu, mas algo aconteceu... nitidamente.
Senti meu estômago revirar. Claro que ela sabia. Ela sempre sabia.
— Dona Valéria... — comecei, tentando manter a voz firme. — Tenho que fingir um relacionamento feliz o tempo todo quando estou com a nossa contratada. Isso causa fadiga, não acha? O que explicaria perfeitamente o que nitidamente aconteceu.
As palavras saíram mais defensivas do que eu pretendia.
Ela inclinou a cabeça, e havia algo quase divertido em sua expressão.
— Tanta explicação e tanta justificativa só arremata o que eu pensava.
Senti meu rosto esquentar.
— Mamãe, por favor! — disse, mais alto do que pretendia. — Meu final de semana foi esgotante. Mudemos de assunto... me conte como foi o seu. Na empresa quinta e sexta… Alguma novidade?
Ela me observou por mais alguns segundos antes de suspirar e aceitar a mudança de assunto.
— Sim, uma novidade. Sua tia Verônica virá passar um tempo conosco. E na empresa, tudo na mais perfeita ordem, como sempre foi ao meu comando — disse, e havia orgulho justificado na voz dela. — Inclusive, tive uma conversa séria com a Ângela...
— Que ótimo que a tia Verônica vem. Já deve fazer um ano desde a última vez que nos vimos. Ah... — disse, tentando soar casual enquanto meu coração acelerava. — E sobre a conversa com a Ângela… como foi?
— Esclarecedora. Ela comentou sobre o momento em que tentou te colocar de lado e não seguir sua orientação. Relacionado à Bia, não é mesmo?
— Isso, mãe — respondi rapidamente, agarrando-me à deixa. — Na verdade ao contrato, né? Imagina que ela queria colocar cláusulas adicionais a essa altura do campeonato. Levaríamos um processo. Por isso me preocupei.
— Sim, entendo a Angela nisso tudo, mas ela exagerou um bocado — minha mãe disse, e havia algo pensativo em seu tom. — Até o momento não houve escândalos e imagino que não haverão, não é?
— Nenhum — confirmei, e a palavra saiu tremida da minha boca.
Porque o único escândalo havia sido o que aconteceu entre mim e Bia. E esse ninguém precisava saber.
— Sabe... — minha mãe continuou, e havia algo suave em sua voz agora. — Às vezes olhava para essa moça, a Bia, e não conseguia ligá-la a escândalos políticos.
Algo se contraiu no meu peito. Claro que ela não conseguia. Porque Bia não tinha nada a ver com aquilo.
— Seu julgamento está mais uma vez correto, Dona Valéria — disse, e havia amargura na minha voz.
— Como? — ela perguntou, se inclinando para frente com interesse renovado.
— Eu não entrei nesse assunto com ela — admiti, olhando para as próprias mãos. — Mas ouvindo os amigos dela e vendo a maneira como a Bia era tratada em Vintervile, pude perceber que houve um ataque midiático contra ela... ela não tinha nenhum envolvimento com o corrupto.
Dizer aquilo em voz alta fez tudo parecer pior. Fez minha culpa crescer até quase me sufocar.
— Hum... — minha mãe disse, pensativa. Depois de uma pausa que pareceu durar uma eternidade, ela perguntou: — E você?
— Eu o quê? — fingi não entender.
— Já pediu desculpas a essa moça?
— Não — respondi, com minha voz saindo mais fraca. — Por que pediria?
— Você mais do que ninguém a julgou.
E aí estava. A verdade nua e crua. Sem rodeios, sem suavizações. Do jeito que só minha mãe conseguia dizer.
Senti meus olhos arderem, a visão ficando embaçada. As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto antes que eu pudesse controlá-las. Toda a pressão, toda a dor, toda a confusão que eu tinha tentado segurar durante todo esse tempo… finalmente transbordou.
— Luísa... — minha mãe disse, a voz imediatamente mudando de tom, ficando preocupada. Ela se levantou do sofá. — Querida...
— Mãe — consegui dizer entre os soluços que eu não conseguia mais controlar. — Eu estou com enxaqueca e preciso descansar um pouco. Desço para almoçar depois.
Não esperei por uma resposta. Não conseguiria aguentar o olhar dela. Não conseguiria falar sobre nada disso sem desmoronar completamente.
Subi as escadas praticamente correndo, as lágrimas caindo livremente agora. Ouvi minha mãe me chamar, mas não parei.
Entrei no meu quarto e fechei a porta, apoiando as costas nela e deslizando até o chão. Abracei meus joelhos contra o peito e finalmente permiti que tudo saísse.
Chorei por ter julgado Bia tão rapidamente. Chorei por ter sido covarde demais para perguntar, para dar a ela o benefício da dúvida. Chorei pela noite maravilhosa que tivemos e que terminou de forma tão cruel. Chorei porque ela tinha deixado claro que tudo não passava de desejo, enquanto para mim tinha sido muito mais.
Chorei porque eu tinha me apaixonado por ela.
E para ela, eu havia sido mais uma.
Eu sabia que essa dor não ia passar tão cedo.
Porque pela primeira vez na vida, eu tinha me permitido sentir algo real. Algo profundo. Algo que me assustava e me completava ao mesmo tempo.
E a pessoa por quem eu sentia tudo isso me via apenas como mais uma conquista. Um momento para "fechar com a atração".
Me levantei do chão com as pernas trêmulas e fui até a janela, olhando para o jardim lá embaixo. O mesmo jardim onde a Bia havia estado.
E agora eu não sabia como tirar as lembranças dela ali. De tirá-la de dentro de mim.
***
Duas semanas. Haviam se passado três semanas desde Vintervile, e eu ainda não conseguia parar de pensar nela.
Sentei à minha mesa na PS. e abri o notebook, olhando para a tela sem realmente ver nada. Minha agenda do dia estava cheia. Reunião com o departamento financeiro às nove, análise dos relatórios de vendas às dez e meia, almoço com um potencial investidor ao meio-dia.
Tudo perfeitamente organizado. Tudo perfeitamente controlado.
Mas por dentro, eu estava em pedaços.
Foquei no relatório de vendas à minha frente. Os números eram impressionantes. As vendas online tinham aumentado 57% desde o início da campanha com Bia. O engajamento nas redes sociais tinha triplicado. A PS estava em todos os lugares, sendo mencionada em revistas de moda, blogs, até em programas de televisão.
Tudo graças a ela.
Bia.
Fechei os olhos com força, mas foi inútil. A imagem dela surgiu imediatamente na minha mente. Não a Bia das fotos profissionais, toda produzida e glamurosa. Mas a Bia da manhã seguinte àquela noite, com os cabelos bagunçados e aquele sorriso sonolento.
Meu celular vibrou na mesa, me trazendo de volta à realidade. Uma mensagem de Ângela sobre a reunião da tarde. Respondi no automático, digitando palavras que nem registrei direito.
Nos últimos dias, tudo tinha sido assim. No automático. Mais ainda do que já era antes.
***
A reunião financeira foi exatamente como esperado. Números, projeções, estratégias. Participei, dei minha opinião quando necessário, aprovei orçamentos.
De volta à minha sala, sentei e girei a cadeira em direção à janela. Lá embaixo, a cidade se movia em ritmo frenético. Pessoas indo e vindo.
E eu estava presa aqui, pensando nela.
"Adoro ver você irritadinha."
A memória veio sem aviso. Bia tinha dito isso mais de uma vez, depois de me provocar sobre algo que eu nem lembrava mais o que era. Só lembrava do sorriso dela quando disse, aquele sorriso de canto que fazia meu estômago revirar.
Na época, tinha interpretado como arrogância. Como se ela estivesse se divertindo às minhas custas, me fazendo de idiota.
Mas agora, repassando cada interação que tivemos, percebia que estava completamente errada.
Não era maldade. Era o jeito dela. Talvez era... flerte.
Ela estava flertando comigo desde o início, e eu estava ocupada demais julgando-a para perceber.
Peguei o celular, abri o WhatsApp e fui até o nome dela nos contatos. Meus dedos pairaram sobre o teclado.
"Bia, precisamos conversar."
"Bia, me desculpe por..."
"Bia, eu estava errada sobre..."
Apaguei todas as tentativas. Tranquei o celular e o coloquei longe de mim na mesa.
Não podia fazer isso por mensagem. E não sabia se tinha coragem de fazer pessoalmente.
***
Eram quase seis da tarde quando minha mãe apareceu na porta da minha sala. Ela tinha passado a tarde na empresa, parte da sua rotina de voltar gradualmente ao trabalho.
— Luísa, você vai ficar aí até que horas? — perguntou, apoiando-se no batente da porta.
— Só mais uns vinte minutos — menti. Provavelmente ficaria mais uma hora, talvez duas.
Ela entrou e fechou a porta atrás de si, o que imediatamente me deixou em alerta. Conversas com porta fechada no escritório nunca eram casuais.
— Podemos conversar? — perguntou, mas já estava se sentando na cadeira em frente à minha mesa.
— Claro.
Ela me observou por alguns segundos, aquele olhar analítico que eu conhecia tão bem.
— Você está bem? — perguntou finalmente.
— Estou — respondi rápido demais. — Por que?
— Porque você está operando no automático, Luísa. Mais ainda do que já era antes.
— Estou apenas... focada no trabalho, mãe. Tem muita coisa acontecendo com a campanha, os números...
— Os números estão excelentes — ela interrompeu. — A campanha foi um sucesso absoluto. Você deveria estar celebrando, não parecendo que está carregando o peso do mundo.
Não soube o que responder. Olhei para o notebook, para os papéis espalhados na mesa, para qualquer lugar que não fosse os olhos dela.
— Aliás — ela continuou, e havia algo diferente no tom agora. Mais casual. Quase casual demais. — Tem alguma coisa programada para o final de semana? Alguma saída entre você e a Bia? Para manter as aparências, sabe…
Meu coração disparou. Levantei os olhos imediatamente e a encontrei me observando com atenção excessiva.
— Não — respondi, tentando manter a voz firme. — Nada programado no momento. Mas ela tem postado fotos que dão a entender que estamos juntas, então isso deve bastar.
— Hm — ela murmurou, e o som carregava camadas de significado. — Vocês têm estado bem... distantes ultimamente.
— E isso é o melhor, não é? — rebati, mais defensiva do que pretendia. — Manter tudo profissional, controlado.
— Luísa.
A forma como ela disse meu nome. Suave, mas firme… me fez parar e olhar para ela.
— O quê?
— O que aconteceu em Vintervile?
Senti meu estômago afundar.
— Nada aconteceu.
— Será? — ela perguntou. — Você voltou daquele fim de semana completamente diferente. E desde então tem estado... apagada.
— Estou apenas cansada...
— E não olha para o celular com aquela expressão ansiosa sempre que ele vibra — ela continuou, como se eu não tivesse falado. — E não fica distraída no meio de reuniões. E não suspira quando acha que ninguém está prestando atenção.
— Mãe...
— Aconteceu alguma coisa com a Bia, não foi?
Não era uma pergunta. Era uma afirmação.
Senti minha garganta apertar. Tentei manter a compostura, mas era inútil.
— Eu... — comecei, mas a voz falhou.
Ela esperou, paciente. Apenas me observando com aquela expressão que era ao mesmo tempo compreensiva e implacável.
— Eu estraguei tudo — admiti finalmente, e as palavras saíram quase como um sussurro. — Eu a julguei desde o primeiro dia. Assumi coisas sobre ela, sobre o caráter dela, sobre quem ela era. E eu estava errada.
— E ela te disse isso?
— Não — balancei a cabeça. — Ela nunca disse nada. Nunca se defendeu, nunca tentou me convencer do contrário. Ela só... era quem ela era. E eu estava ocupada demais com meus preconceitos para ver.
Minha mãe ficou em silêncio por um momento, processando.
— E agora? — perguntou suavemente.
— Agora eu não sei o que fazer — admiti. — Não sei se devo pedir desculpas, não sei se ela vai querer ouvir, não sei se já é tarde demais para consertar qualquer coisa.
— Vocês... vocês mantiveram tudo na parte profissional? — ela perguntou, e havia algo cuidadoso na forma como formulou a pergunta. — Ou tem algo mais aí?
Senti meu rosto esquentar. Não consegui encará-la.
— Não sei — menti pela milésima vez. — Não sei explicar o que aconteceu. Não sei se quero tentar explicar.
Mas mesmo enquanto dizia isso, lembrava do jeito que ela tinha me tocado naquela noite. Do jeito que ela tinha sussurrado meu nome.
Tinha sido real ali. Eu sabia que tinha sido real.
Mas talvez só para mim.
— Luísa — minha mãe disse, se inclinando para frente. — Acho que você precisa conversar com ela.
— Eu sei.
— E precisa se desculpar.
— Eu sei — repeti, sentindo meus olhos arderem.
— E precisa ser honesta. Não só sobre o que você fez de errado, mas sobre o que você está sentindo.
Essa parte me fez levantar os olhos para ela, assustada.
— Eu não.. Eu não posso...
— Por que não?
— Porque — comecei, e minha voz saiu trêmula. — Porque para ela foi só... foi só um momento. Uma atração física. Ela deixou muito claro que não significou nada mais do que isso.
Minha mãe me observou por longos segundos, e havia algo no olhar dela. Algo como... pena? Compreensão?
— E para você? — ela perguntou suavemente. — Significou o quê?
Eu poderia mentir. Poderia desviar, mudar de assunto, erguer minhas defesas de novo. Não queria ter essa conversa com a minha mãe, mas não tinha mais ninguém ali para me ouvir. E eu já estava guardando por tanto tempo.
Estava cansada. Tão cansada de fingir.
— Tudo — sussurrei, e senti uma lágrima escapar. — Significou tudo.
Minha mãe se levantou e contornou a mesa, me puxando para um abraço. Eu me permiti afundar nele, deixando que mais lágrimas caíssem.
— Então você precisa dizer isso a ela — ela murmurou, acariciando meus cabelos como fazia quando eu era criança. — Precisa dar a ela a chance de saber a verdade.
— E se ela não sentir o mesmo?
— Então pelo menos você saberá — ela disse. — E poderá seguir em frente de verdade. Mas ficar nesse limbo, nessa incerteza... isso vai te consumir, minha filha.
Ela me soltou e segurou meu rosto entre as mãos, limpando minhas lágrimas com os polegares.
— E olha — ela disse com um pequeno sorriso. — Pelo menos algumas coisas boas estão acontecendo. Meu novo tratamento está funcionando muito bem. Sua tia chegará amanhã de manhã.
Consegui esboçar um sorriso fraco.
— Eu sei. Você está incrível, mãe. E acho que a tia Vê vai trazer uma energia nova.
— O Neurologista está otimista — ela continuou. — O Lecanemab parece estar realmente fazendo efeito. Meus testes cognitivos melhoraram, estou me lembrando melhor das coisas, as terapias estão ajudando... é quase como voltar no tempo.
— Estou tão feliz por você — disse, e era verdade. Em meio a todo o caos, a melhora da minha mãe era um alívio.
— Então use essa energia positiva — ela disse, me soltando e voltando para a cadeira. — E conserte as coisas com a Bia. Ou pelo menos tente.
Assenti, mesmo não tendo certeza se teria coragem.
— Agora — ela disse, voltando ao tom mais profissional. — Tem a reunião na segunda-feira que vem para discutirmos a possível renovação do contrato com ela. Será uma boa oportunidade. Essa moça conseguiu um milagre na nossa empresa.
Meu estômago apertou só de pensar.
— Será uma ótima oportunidade— concordei, minha voz saindo fraca.
Depois que minha mãe saiu, fiquei ali sentada por longos minutos, olhando para o celular.
Bia.
Peguei o aparelho e abri nossa conversa. A última mensagem era de duas semanas atrás, dela confirmando o horário da nossa saída para Vintervile.
Meus dedos começaram a digitar antes que eu pudesse me deter:
"Bia, precisamos conversar. Eu preciso te pedir desculpas por tantas coisas. Por favor, vamos nos encontrar?"
Reli a mensagem três vezes. Meu dedo pairou sobre o botão de enviar.
E então apaguei tudo.
Não por mensagem. Isso merecia ser cara a cara.
Ela merecia que eu fosse corajosa o suficiente para olhar nos olhos dela e admitir tudo.
Três dias. Em três dias eu a veria novamente.
E então, de um jeito ou de outro, eu teria que encontrar coragem para dizer tudo que estava preso dentro de mim.
Mesmo que ela não quisesse ouvir.
Mesmo que fosse tarde demais.
Eu tinha que tentar.
Fim do capítulo
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