Capitulo 33
Por Bia:
Acordei sentindo o calor do corpo de Luísa junto ao meu. Estávamos abraçadas. Nuas. Um sorriso surgiu involuntariamente nos meus lábios ao lembrar de tudo. De cada toque, cada gemido, cada momento em que nossos corpos se tornaram um só.
Havíamos dormido exaustas quando as primeiras luzes do amanhecer começaram a surgir no céu. Me movi lentamente até alcançar meu celular na mesinha de cabeceira, tentando não acordá-la. Quase duas horas da tarde.
A equipe já deveria estar na cidade. A equipe. A filmagem. O último ensaio. O fim do contrato.
Os pensamentos começaram a rolar pela minha mente como uma avalanche, apagando aos poucos as lembranças doces das horas anteriores e trazendo de volta a realidade.
"Você é o tipo de pessoa com quem eu jamais me envolveria."
As palavras de Luísa ecoaram na minha mente. Fechei os olhos com força, tentando afastar a memória daquela conversa que havia escutado.
Senti a raiva subir pela garganta novamente, misturada com uma dor que eu não queria admitir. Cedemos ao instinto, à vontade e à química na noite anterior. Era isso. Apenas isso. Tinha que ser apenas isso.
Porque se fosse mais, doeria muito mais quando acabasse.
Luísa se moveu ao meu lado e abriu os olhos devagar, piscando algumas vezes antes de focar em mim. Um sorriso pequeno e sonolento apareceu nos lábios dela, e meu coração apertou. Por que ela tinha que ser tão linda? Por que tinha que me olhar desse jeito, como se a noite anterior tivesse significado algo?
— Bom dia! — disse, sorrindo e abraçando meu corpo, pressionando-se contra mim de uma forma tão natural que quase me fez esquecer tudo.
— Bom dia! — retribuí o sorriso.
Ela olhou para o celular na minha mão, e a expressão dela ficou mais brincalhona.
— Já está trabalhando?
O tom era leve, de brincadeira. Mas a menção ao trabalho fez uma onda de realidade me percorrer inteira, trazendo de volta cada palavra que eu tinha ouvido. Cada julgamento. Cada vez que ela me tratou como se eu não fosse boa o suficiente.
— Sim, inclusive vou levantar e tomar uma ducha — disse, me afastando do abraço dela. — Logo tenho as gravações.
— Verdade — ela disse, se afastando do meu corpo também, mas mantendo o olhar fixo em mim. Havia algo vulnerável naquele olhar. — Mas antes você toma um café comigo, né?
— Tomo. Claro — disse, e a voz saiu mais seca do que eu pretendia. Mais fria.
Vi quando ela mordeu o lábio, como se estivesse nervosa.
— Ontem foi muito bom — ela começou. — Eu queria tanto isso. E tentei evitar, mas tudo estava me direcionando pra você. Já faz tanto tempo que eu venho sen...
— Ontem foi o que foi, Luísa — interrompi, incapaz de deixá-la terminar. Incapaz de ouvir palavras que não significavam nada de verdade. — O momento para fechar com nossa atração. Ambas tivemos o que queríamos.
Desviei meu olhar e me levantei da cama, sentindo o ar frio do quarto contra minha pele nua. Peguei uma toalha e me enrolei nela, depois comecei a juntar minhas roupas espalhadas pelo quarto. Cada peça era uma lembrança de como elas haviam sido arrancadas com urgência e desejo na noite anterior.
Luísa sentou na cama e cravou seus olhos em mim. Senti o peso do olhar dela, mas não tive coragem de encará-la.
— Bia...
— O quê? — disse, finalmente olhando para ela. Tentei manter minha expressão neutra, fria.
— Pra você ontem foi apenas um momento?
A pergunta me acertou em cheio. Claro que não tinha sido apenas um momento. Tinha sido a confirmação de tudo que eu sentia e tentava negar. Mas o que eu deveria dizer? Que eu tinha me apaixonado por ela? Que cada toque tinha significado tudo para mim?
— Sim — menti, e a palavra saiu mais fácil do que deveria. — E pra você também. Eu vou pro banho, se não me atraso e minha chefe não ia gostar disso, não é mesmo?
A palavra "chefe" saiu carregada de veneno.
Ela abriu a boca, fazendo menção de falar algo, mas me afastei antes que conseguisse. Precisava ficar sozinha. Tomar um banho, espairecer minha mente e colocar as ideias no lugar. Enterrar tudo que estava sentindo bem fundo, onde não pudesse me machucar mais.
Quando saí do banheiro, vestida e com a armadura de volta no lugar, Luísa já havia colocado uma roupa e separado sua toalha. Percebi seus olhos vermelhos, inchados, e algo em mim se contraiu. Quase perguntei o que tinha acontecido.
Mas então me lembrei das palavras dela.
Optei por me calar.
Luísa passou por mim sem dizer nada, e ouvi o som da porta do banheiro fechando e trancando. O click da tranca pareceu extremamente alto no silêncio do quarto.
Sentei na cama que ainda cheirava a nós duas e pressionei as mãos contra o rosto. Me perguntei se havia tomado a decisão correta. Mas o que eu deveria fazer? Dizer que pensava nela desde a hora em que acordava até a hora de dormir? Que aquele momento que tivemos foi sexual, sim, mas também foi a explosão de sentimentos que eu vinha acumulando e tentando reprimir? Que cada toque dela tinha significado mais do que eu jamais admiti para mim mesma?
Não. Pra ela eu era uma pessoa desprezível. Ela nunca me deu o benefício da dúvida. Desde nosso primeiro encontro, sempre me julgou. Sempre me tratou como se eu fosse exatamente o que a mídia pintava… superficial, egoísta...
Respirei fundo, sentindo a raiva substituir a dor. Era mais fácil sentir raiva. A raiva não me deixava vulnerável.
Eu iria arrancar cada pedaço do que estava sentindo. Iria deixar apenas a mágoa e a raiva por aquelas palavras, e quando esse contrato encerrasse, riscaria a família Fischer da minha vida. Para sempre.
***
Luísa e eu trocamos poucas palavras até decidirmos, em consenso silencioso, que faríamos outro brunch no mesmo local de ontem. A ironia não passou despercebida. Ontem, naquele mesmo lugar, a tensão entre nós era de outro tipo. Elétrica.
Hoje, era apenas gelo.
Já havíamos organizado nossas malas. Agora ficaríamos na pousada que a produção havia reservado. No mesmo quarto, imaginei.
Pedi uma salada Caesar. Luísa pediu um sanduíche de frango grelhado. Comemos em absoluto silêncio, apenas o som dos talheres contra os pratos preenchendo o vazio entre nós. Cada garfada parecia pesar toneladas.
Bebi meu suco de laranja tentando não olhar para ela, mas era impossível não notar como ela também evitava meu olhar. Como seus ombros estavam tensos. Como ela mordiscava o lábio. Aquele mesmo lábio que eu tinha beijado, mordido, sugado na noite anterior.
Fiz sinal para o garçom, pedindo a conta.
Quando ele chegou, Luísa pegou a comanda da mão dele antes que eu pudesse alcançar.
— Hoje eu pago — disse, e havia algo definitivo no tom dela. — Ontem foi você.
Assenti com a cabeça, sem argumentar. Não valia a pena.
***
Entramos no carro e seguimos até o ponto de encontro com a equipe. O silêncio dentro do carro era sufocante. Liguei o rádio apenas para ter algum som além do motor e da respiração dela.
Quando chegamos ao local, nos deparamos com a equipe em um nível de empolgação que contrastava nitidamente com o nosso clima.
— Lu e Bia, que lindas vocês duas! — Róger disse se aproximando com seu entusiasmo característico. — Bia, já sabe sua posição — acrescentou, apontando para as meninas da maquiagem. — Vamos começar.
Vi de relance quando Luísa se afastou em direção à pousada, as costas retas e tensas. A equipe já havia realizado o check-in com as cópias dos nossos documentos. Provavelmente Luísa iria para o nosso quarto.
Nosso quarto.
Que irônia amarga. Ontem à noite não foi...
Balancei a cabeça com força, afastando o pensamento antes que ele pudesse se completar.
— Bia, tenta manter o rosto parado — Maira, que fazia minha maquiagem, pediu com um toque de frustração na voz.
— Desculpa — disse, tentando me concentrar. Tentando não pensar em Luísa. Tentando não pensar em como tudo havia desmoronado tão rápido.
Ainda teria uma infinidade de cliques, poses e sorrisos falsos pela frente. Pelo menos nisso eu era boa. Em fingir.
***
Quando subi ao quarto, já havia anoitecido. O céu estava tingido de laranja e roxo, e as primeiras estrelas começavam a aparecer. Peguei com Róger o outro cartão para acesso ao quarto. É apenas um quarto, afinal. E ainda precisávamos manter as aparências.
Ao entrar, me deparei com Luísa em frente ao notebook, trabalhando. Claro. O que mais ela faria? O trabalho sempre foi a prioridade dela.
— Oi — disse ao fechar a porta, minha voz soando cansada até para mim mesma.
Ela olhou rapidamente em minha direção, o olhar breve e distante.
— Oi — respondeu, antes de voltar a cravar os olhos no notebook.
— Vou tomar um banho e depois podemos descer para comer.
— Pode ser — ela disse sem nem me olhar, os dedos continuando a digitar no teclado.
Tomei um banho longo e quente, deixando ir pelo ralo toda a maquiagem e tentando deixar ir também toda a incerteza que ainda carregava. Me repeti mentalmente que estava tomando a decisão correta. Que era melhor assim. Que em apenas algumas horas isso tudo acabaria e eu poderia seguir em frente.
Mas meu peito continuava apertado.
Saí do banheiro já vestida com uma blusa de linho branca e uma calça jeans escura. Vi que Luísa me aguardava, já pronta também, com um vestido midi verde oliva e sandálias baixas.
— Descemos para comer ou prefere ficar no quarto? — perguntei, sabendo que ela não gostava de ficar junto à produção. Ela sempre preferia manter a distância profissional.
— Vi pela janela que não tem tanta gente aqui na fazenda — ela disse, finalmente me olhando. — Então acredito que vai estar tranquilo lá embaixo.
— Está bem tranquilo sim.
Descemos em silêncio. A pousada era encantadora. Uma antiga fazenda convertida, com paredes de taipa pintadas de branco, móveis rústicos de madeira de demolição e muitas plantas espalhadas por todos os cantos. Havia varandas amplas com redes balançando suavemente na brisa e luminárias pendentes criavam uma iluminação suave e acolhedora.
Sentamos em uma mesa para duas no canto da varanda. Algumas pessoas da equipe de produção estavam nas mesas ao nosso entorno, mas respeitaram nossa distância. Ou talvez percebessem a tensão.
O garçom veio até nós com um sorriso simpático e nos recomendou o prato típico da região. Frango caipira com quiabo e angu, acompanhado de couve refogada. Pedimos isso e uma garrafa do vinho tinto local que ele sugeriu entusiasticamente, dizendo que era produzido na vinícola a poucos quilômetros dali.
O silêncio entre Luísa e eu era incômodo e pesado. Comemos em silêncio. Bebemos em silêncio. Mal nos olhávamos.
Não aguentei mais.
— Pelo bem da nossa atuação até aqui — comecei, fixando meu olhar no dela até que ela não teve escolha senão me encarar. — Acho que seria importante nós conversarmos.
— Então vamos fazer isso — Luísa disse, forçando um sorriso forçado e erguendo o olhar de encontro ao meu.
— O ensaio de hoje à tarde foi ótimo — disse, sem saber bem por onde começar.
— Que bom — ela respondeu, mecânica. — A contratação dos seus serviços está alavancando as vendas na internet. Estava olhando os balancetes e está tudo ótimo.
Serviços. A palavra me cortou, mas mantive a expressão neutra.
— Excelente.
— Perfeito.
O silêncio voltou, mais pesado. Tentei encontrar algo, qualquer coisa para dizer.
— O tempo está ótimo — consegui dizer, patético. — Uma noite mais fresca. Ontem estava quente.
Luísa quase se afogou com um gole do vinho, tossindo repetidas vezes. Seus olhos arregalaram e seu rosto ficou vermelho.
— O que eu quis dizer foi que... — pigarreei, sem saber que palavras usar, sentindo meu próprio rosto esquentar. Merda.
— Está tudo bem — ela disse quando finalmente conseguiu parar de tossir, a voz ainda rouca. — Estava quente sim, mas passou. Esse frescor trouxe novos ares.
— Sim, verdade.
Bebi um gole generoso do vinho, querendo que ele me desse alguma coragem ou pelo menos entorpecesse um pouco a dor.
— Aliás — Luísa disse, olhando de canto para algumas modelos da equipe na mesa ao lado. — Pela janela vi que suas fãs estavam animadíssimas à tarde.
— A produção estava em um clima bom e contribuiu para o sucesso do ensaio — respondi.
— Imagino a animação delas.
Algo em mim estourou. A forma como ela disse aquilo, com aquele tom...
— Olha, Luísa... não que seja da sua conta — disse, e vi quando ela ergueu as sobrancelhas. — Mas não tenho nenhum caso com nenhuma dessas mulheres. Eu venho te respei... — parei, reformulando. — Venho respeitando este acordo.
— Assim espero — ela disse, e havia frieza na voz. — Além do mais... como você disse. O prazo de validade se aproxima cada vez mais.
— Claro — foi tudo que consegui dizer.
Terminamos de comer em silêncio e voltamos ao quarto sem trocar mais palavras.
Revezamos o uso do banheiro como estranhas educadas. Eu fui primeiro, escovei os dentes e vesti um pijama.
Quando saí, Luísa entrou sem dizer nada.
Deitei na cama, no meu lado, e peguei o celular apenas para ter algo para fazer com as mãos. Ouvi o som da água do chuveiro, e minha mente traidora começou a imaginar a água correndo pelo corpo dela. O corpo que eu tinha tocado. Beijado. Adorado.
Sacudi a cabeça, afastando os pensamentos.
Quando ela saiu do banheiro, também de pijama, deitou no outro lado da cama. O espaço entre nós parecia um abismo.
Ontem, nossos corpos estavam tão conectados que era impossível dizer onde um terminava e o outro começava. Hoje, criamos uma distância física que refletia perfeitamente a distância emocional.
Desliguei a luz do meu lado.
— Boa noite — murmurei.
— Boa noite — ela respondeu.
Fiquei ali, olhando para o teto que mal conseguia ver na escuridão, sentindo o calor do corpo dela a poucos centímetros de distância mas completamente inacessível.
E me perguntei, pela milésima vez, se tinha feito a escolha certa.
Mas eu conhecia a resposta. Eu tinha ouvido as palavras dela. Eu sabia o que ela realmente pensava de mim.
Fechei os olhos e fingi dormir, esperando que o dia seguinte trouxesse o fim de tudo isso.
E talvez, com o fim, viesse algum tipo de paz.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Sem comentários
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook: