CAPÍTULO XI
Três luas cheias já haviam aparecido no céu de Diamantora desde a morte de Maia. Chiara contava cada noite como se fosse um corte feito em sua carne. A saudade e a culpa a consumiam perversamente. Não mais vivia, apenas sobrevivia, sem nenhum tipo de estímulo ou razão.
— O que você procura lá em cima?
Apesar da surpresa, olhou para Luísa, com o semblante abatido:
— Só estou admirando a lua, Majestade.
Ela parou ao seu lado e também olhou para o céu:
— Está esplêndida.
Chiara curvou os lábios, na tentativa de um sorriso.
Luísa encostou o corpo no peitoral da sacada, ficando de frente para ela:
— Você precisa deixar isso pra trás. Não foi culpa sua.
Baixando o olhar, ela respondeu:
— E se eu não quiser deixar pra trás?
Depois olhou para Luísa e completou:
— Essa dor é a única coisa que ainda me liga à ela. Eu sinto que… se eu não alimentar esse sofrimento, eu vou perdê-la de vez.
O silêncio que seguiu foi quebrado quando Luísa falou:
— Você a amava, não é?
Se existia uma certeza na sua vida, era essa. A amava, com todo o seu ser. E continuaria amando, enquanto sua alma existisse — nesse ou em outro plano, amaria Maia.
Invadida por lembranças boas, Chiara sorriu de verdade:
— Mais que tudo nessa vida.
Luísa sabia. Via. Era nítido. Chegou a sentir inveja. Não que quisesse ser a pessoa por quem Chiara nutria aquele sentimento, mas sim por querer, ao menos uma vez na vida, dar um sentido tão sublime à própria existência.
Tomada por uma espécie de emoção, sentiu a necessidade de verbalizar:
— Eu sinto muito pela sua perda. Sinto mesmo.
Chiara a analisou por um instante. Não sabia se deveria falar sobre aquilo, mas agora já não faria diferença, nada poderia trazê-la de volta:
— Maia achava que você estava envolvida em um complô contra ela.
Luísa não mentiu, apenas omitiu muitas coisas ao responder:
— Eu não tenho nada a ver com a morte dela. Se realmente não foi um infortúnio, como você insiste em dizer, eu não fazia ideia de que aconteceria.
*****
Mastigou um pedaço de pão quase tão duro como uma pedra, mas para a fome que estava sentindo, parecia um macio brioche. Terminou de comer e levou os dedos à boca, um por um, não querendo desperdiçar um farelo sequer.
Ainda mastigando, deixou o esconderijo que chamava de casa. Aquela tinha sido a única refeição do dia e, se quisesse comer mais alguma coisa antes do sol nascer de novo no dia seguinte, precisaria ir atrás.
Caminhou poucos metros, até se deparar com a mulher que a tinha pegado em flagrante um par de dias antes. Paralisou na frente dela, que sorriu. Ia sair correndo, mas ela foi mais rápida, segurando seu braço:
— Calma, rapazinho… não vou te machucar. Qual é o seu nome?
Como ninguém havia feito aquela pergunta antes, Maia precisou pensar rápido:
— Bento.
A moça parou um instante, ainda a encarando. Aproximou o rosto do dela:
— Você é…
Maia gelou. Alguém havia lhe reconhecido. E se fosse uma enviada de Estefan? E se estivessem procurando por ela por todos os lugares?
— Uma menina!
Sentiu alívio e medo ao mesmo tempo. Não respondeu, apenas olhou para baixo.
— O que uma mocinha está fazendo vestida desse jeito? Roubando por aí…
Manteve o olhar no chão, sem responder.
— Está com fome? Posso conseguir comida pra você.
Maia não disse nada, se mantendo visivelmente acuada. Lembrou que foi daquela maneira — seduzida pela promessa de alimento fácil — que acabou na casa de Mirtes.
Sentiu a mão dela segurar e erguer seu queixo:
— Ei… não vou te machucar. Eu quero te ajudar. Me identifiquei com você.
Ela tinha prendido a atenção de Maia, que agora a olhava.
— Eu também já vivi nas ruas, sabia? Antes de encontrar o meu pessoal…
A moça apontou para os homens que estavam conversando em uma roda a alguns metros delas.
— Vem comigo...
Caminhou com a mão espalmada nas costas de Maia.
— Há quanto tempo você não come uma refeição de verdade?
Lambendo as pontas dos dedos, Maia havia deixado o prato à sua frente completamente vazio. Tinha se esquecido de como era a sensação de total saciedade, já que há tanto tempo vinha se alimentando com sobras e restos que encontrava ou conseguia roubar.
— Vai me dizer seu nome agora?
Olhou para a mulher que ficou sentada ao seu lado o tempo inteiro enquanto comia.
Sem entender o porquê, sentia que podia confiar nela. Na verdade, a sensação era de que não tinha nada a perder. Já estava em uma situação tão ruim que, se piorasse, não mudaria muito.
Seria difícil alguém a reconhecer pelo nome, pois estava bem longe de casa, se é que podia considerar que ainda tinha uma. E ninguém imaginaria que uma rainha estaria vivendo daquela maneira, por isso falou a verdade:
— Maia.
A mulher sorriu e estendeu a mão direita:
— Meu nome é Zahra.
Apertou a mão dela com cautela, pois apesar de ter um bom pressentimento, tinha aprendido a estar sempre com todos os sentidos alertas.
— Onde você vai passar a noite hoje, Maia?
Demorou um pouco para responder, sem entender onde ela queria chegar. Mentiu:
— Ainda não sei.
Ela sorriu ao dizer:
— Então agora já sabe: vou providenciar um quarto pra você na hospedaria.
Achando completamente incomum toda aquela gentileza gratuita, Maia se pôs de pé:
— Obrigada, mas eu preciso ir embora.
Zahra também se levantou:
— Ei, ei…
Levantou ambas as mãos:
— Preciso de um favor seu. Uma troca… pela refeição que acabou de ter, compreende?
Ali estava. Maia sabia que aquilo tudo não seria de graça. Tremeu diante do que poderia acontecer. Olhou disfarçadamente em volta, tentando localizar uma maneira de fugir.
A mulher se aproximou dela devagar:
— Escute, eu não vou te machucar… prometo… só preciso que você me ajude em algo…
Ela estava perto demais. Tinha se aproximado devagar enquanto falava. Se não agisse imediatamente, não conseguiria mais fugir.
Empurrou a cadeira na direção de Zahra e correu para, quase que imediatamente, sentir os braços dela a segurando com força. Sem nenhuma dificuldade, ela levantou Maia, tirando os pés dela do chão. Se debateu, gritou, tentou mordê-la, mas foi tudo em vão. Zahra continuou a carregando como se ela não fosse nada. Algumas pessoas ao redor olharam para elas, mas ninguém fez menção de intervir.
Sentiu os braços de Zahra a levantarem ainda mais, colocando Maia sobre um dos ombros. Foi assim, meio de cabeça para baixo que viu ela se aproximar dos homens que tinha apresentado como “seu pessoal” um pouco mais cedo.
*****
Estava quase tremendo. Apesar de já ter se acostumado a furtar pela cidade, aquilo era diferente. Não sabia exatamente no que estava envolvida. Poderia custar a sua vida, inclusive. Andou devagar, tentando agir naturalmente. Quando se aproximou do homem bem vestido, disse baixo:
— Senhor…
Não foi ouvida. Limpou a garganta e disse um pouco mais alto:
— Senhor!
O homem olhou para ela com uma cara nada amigável:
— Não tenho moedas, menino…
Conforme fora instruída, e usando toda a experiência que tinha adquirido naquelas ruas, fez sua melhor cara de piedade:
— Por favor, minha mãe morreu… meu irmãozinho precisa comer…
O homem não a olhava mais. Ela continuou, puxando de leve as vestes dele:
— Por favor, senhor… Uma pequena ajuda…
Conseguiu atenção. Não por ele estar compadecido, mas por estar visivelmente irritado:
— Eu já disse que não tenho, saia daqui.
Empurrou Maia com força, fazendo com que caísse no chão. Ela olhou para os lados e lembrou do que Zahra tinha dito:
“Só corra quando vir uma confusão se formando”.
Nem sinal de nenhuma confusão. Isso a fez se levantar e voltar para o lado do homem, que já parecia furioso:
— Mas, senhor…
Ele se levantou da cadeira, mostrando que tinha três vezes o tamanho de Maia. Ela engoliu em seco. Ele levantou a mão direita, quase gritando. Maia fechou os olhos, esperando o impacto da mão grande no seu rosto, mas só ouviu o barulho de vozes e coisas se quebrando. Quando voltou a abrir os olhos, percebeu a “confusão” que Zahra tinha mencionado. O homem já tinha se esquecido dela e corria, enquanto gritava:
— Ei… segurem… larápios, segurem eles…
Maia correu como nunca tinha corrido em sua vida. Passou esbarrando em algumas pessoas, pulou muros, tropeçou, e enfim chegou no lugar que tinha sido o ponto de partida deles mais cedo, onde Zahra lhe explicou o plano:
— Nós precisamos de uma isca… uma distração. E você é a pessoa perfeita.
Ficou sozinha por quase uma hora, esperando. Achou que nenhum deles apareceria de volta. Provavelmente já estavam bem longe, com as coisas que conseguiram roubar. Quando estava quase indo embora, ouviu o rangido da porta pesada. Eles entraram conversando. Ouviu a voz de Zahra:
— Maia?
Titubeou no canto escuro. Poderia ficar quieta e sair furtivamente dali. Mas e depois? E se eles a achassem de novo? Seria melhor voltar sozinha para as ruas? Ou fazer parte de um grupo como aquele? Acabou saindo devagar das sombras. Quando a viu, Zahra abriu um sorriso:
— Muito bem…
Bateu palmas devagar:
— Você se saiu muito melhor do que esperávamos.
Tirou um pequeno embrulho do bolso:
— Sua recompensa.
Estendeu para Maia que pegou e abriu. Pão. Fresco. Macio. Cheiroso. Uma maçã. E duas moedas cintilantes.
Não foi difícil para Maia se adaptar àquela nova rotina. Ao lado do grupo — como ela passou a se referir à Zahra, Martelo, Rino, Gualter e Ramon — a vida ficou um pouco mais fácil. Comida todos os dias. Às vezes uma cama e um banho. Eles faziam o que Maia considerava o trabalho pesado. Ela era a incumbida de ser a distração ou, por não levantar suspeitas, de reconhecer o lugar e o inimigo previamente. Em uma noite questionou Zahra se ela não sentia vergonha de viver tirando dos outros. A própria Maia fazia o mesmo antes de conhecê-los, mas era por sobrevivência. Só roubava comida, o suficiente para fazer uma refeição e passar despercebida. Sem trazer grandes transtornos. O grupo era diferente. Roubavam também coisas de valor… relógios, colares, joias, sapatos…
A resposta de Zahra veio depois de uma risada:
— Só tiramos de quem tirou de alguém antes. Essas pessoas só são assim tão abastadas porque pagam migalhas para quem faz o serviço de verdade.
Maia não respondeu nem questionou mais nada. Pensou nos próprios privilégios enquanto morava em Diamantora. Sempre teve comida, bebida, água, roupas… tudo em abundância. E se lembrou de como viu o povo nas ruas da cidadela depois que Estefan se tornou rei.
Os homens do grupo pareciam ainda estar se acostumando com sua presença. Falavam palavras de baixo calão e olhavam de soslaio para Maia. Mas não se desculpavam. Na hora de dormir, quando precisavam achar um lugar qualquer pela cidadela, ficavam em um canto e Zahra e Maia ficavam em outro. Mas várias vezes Maia quase viu o que não queria, ao se deparar com um deles em pé, urinando por perto.
Tinham conseguido ficar em uma hospedagem naquela noite. Maia e Zahra sempre dividiam o mesmo quarto, para economizar. Assim como os homens, que ficavam dois em cada. Maia tinha acabado de se banhar quando a porta se abriu. Apertou o pano com que se enxugava contra o corpo. Zahra sorriu ao entrar e fechar a porta:
— Sou só eu… Não se preocupe, você não tem nada que eu já não tenha visto antes.
Maia não sorriu com ela. Estava verdadeiramente encabulada. Apenas Chiara e Fantina já a tinham visto nua em toda sua vida.
Zahra pareceu se divertir com a introspecção dela. Se aproximou devagar e passou as pontas dos dedos pelo braço de Maia:
— Você está ganhando peso. Mas ainda está sem força… precisa usar esses músculos. Aí será promovida do “menino das iscas” para uma de nós de verdade.
Maia se virou de costas e se vestiu da forma mais rápida que pôde. Colocou as roupas de baixo e depois a mesma roupa que estava vestida antes. Quando se virou para frente novamente, Zahra a analisava sentada na cama:
— Quantos anos você tem mesmo?
Ela havia feito a pergunta como se tivesse se esquecido da resposta, mas Maia sabia que nunca havia lhe falado sua idade:
— Dezoito.
Zahra sorriu e a analisou ainda por alguns segundos. Depois deitou-se na cama, dando espaço para que Maia se deitasse também:
— Vamos dormir.
Fim do capítulo
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Zanja45
Em: 21/02/2026
Maya está na trupe certa agora. Ela pensando que o pai que recebeu seria de graça, tudo na vida tem um preço a se pagar. Rsrsrs! Ela está funcionando bem como isca, heim?
Ela foi descoberta por Zahra enquanto assumia o papel de um menino, mas há algo surgindo nessa parceira com Zahra, algo despontou ao ela ver Maya sem roupas, ela a achou magra, que ainda precisa recuperar e tudo mais, mpitem rolou um interesse por parte de Zahra, os olhos dela brilhou de algo mais. E aquele fato dela perguntar a idade de Maya já diz tudo. Os sentidos dela provavelmente irão ficar mais aguçados a partir de agora. E aí da partilhando a mesma cama vai ficar difícil não rolar alguma coisa entre elas
AlphaCancri
Em: 22/02/2026
Autora da história
Maia enfim podendo contar com outras pessoas nas ruas, né?
Também acho que pintou um clima entre ela e Zahra… será que vai dar em algo?
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HelOliveira
Em: 19/02/2026
Bom agora Maia não está mais sozinha e parece que agora mesmo em uma situação delicada ela não está mais só...até eu já estou confiando na Zahra...
AlphaCancri
Em: 22/02/2026
Autora da história
Parece que finalmente ela vai ter alguém em quem confiar, né? Tomara que não esteja errada…
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AlphaCancri Em: 22/02/2026 Autora da história
Será que o interesse de Luísa é verdadeiro? Ou ela só está interessada em se aproveitar de Chiara?