CAPÍTULO X
Apesar de estar, pela primeira vez em semanas, deitada em uma cama, alimentada e limpa, Maia demorou a ser vencida pelo cansaço. Todas as informações das últimas horas ainda ecoavam na sua cabeça. Estefan ia se casar com aquela mulher. Esse havia sido o motivo dele tentar matá-la. Não sentia ciúmes, pois há muito tempo não o considerava nada além de um estranho que um dia fez parte de sua vida. Mas sim se sentia uma tola. Como pôde ter caído tão facilmente na história de Luísa, na encenação de Estefan, na traição de Chiara…
Virou de um lado para o outro na cama, tentando não ser consumida por aqueles pensamentos, mas foi em vão. Todo o corpo já estava contaminado por aquela sensação horrível.
No dia seguinte, foi acordada por Fantina, que entrou no quarto e abriu as janelas:
— Bom dia… aqui começamos a trabalhar cedo.
Maia sentou na cama ainda tentando abrir completamente os olhos.
— Você ainda não está em exposição, mas para o trabalho da casa você está pronta.
Fantina se dirigiu até a porta e parou para falar, antes de sair:
— Hoje você limpa as latrinas.
*****
Luísa foi a última a entrar na sala do Conselho. Sentou em sua cadeira, ao lado de Oton, e imediatamente ele se levantou:
— Agora que estão todos aqui, gostaria de comunicar minha decisão. Vou me casar com a duquesa Olga assim que a primavera se iniciar.
Todos os presentes na sala se entreolharam, mas ninguém disse nada. Um dos conselheiros quebrou o silêncio:
— Minhas sinceras felicitações, Majestade.
E em um efeito manada, todos os outros homens fizeram a mesma coisa. Quando terminaram e deixaram a sala, apenas Luísa continuava sentada. Milo estava de pé, ao lado de Estefan, que trazia um sorriso abobalhado e satisfeito no rosto.
— Desde quando essa sua… essa mulher que você trouxe, sabe-se Deus de onde, é uma duquesa? E por que é que você não me disse nada sobre esse casamento antes?
Oton a olhou sem desfazer o sorriso:
— Ora, Luísa, eu sou o rei… tenho poder de nomear quem eu quiser, do jeito que quiser. Quem é que vai me contestar? Além do mais, sou viúvo. Posso me casar com quem desejar.
Luísa se levantou e se aproximou dele:
— Não acha que está cedo demais para esse disparate?
Oton olhou para ela e a desafiou como nunca havia feito antes:
— Cedo? Eu acho é que já perdi tempo demais.
Luísa observou a maneira com que ele manteve os olhos fixos nos dela. Depois olhou para a feição cínica de Milo. Sabia que aquele comportamento de Oton tinha influência dele:
— Faz pouquíssimo tempo que Maia faleceu. Não acho prudente…
Milo a cortou com a voz comedida que sempre irritava Luísa:
— Majestade, nada melhor que uma nova rainha para o povo superar e deixar de ser órfão.
Oton se levantou, mas não a olhou nos olhos quando falou:
— Tem mais uma coisa… A partir de hoje Milo será o Braço do Rei.
Não respondeu, olhou de um para outro entendendo que, se não tomasse providências, também seria descartada como Maia. Já tinha percebido que suas opiniões não eram mais levadas em conta nas decisões de Oton. Ela foi perdendo aos poucos o controle de Diamantora. Milo era uma víbora da pior espécie, que sabia ser persuasivo e não era leal a nada nem ninguém, a não ser aos próprios interesses.
*****
Depois de vinte e duas noites naquela casa, Maia já havia entendido, sem sombra de dúvidas, o tipo de trabalho que Fantina tinha mencionado dias atrás. O fluxo de homens — de todos os tipos, idades e classes — entrando e saindo, não parava. À noite em seu quarto ouvia os mais variados sons, que muitas das vezes até a preocupava.
Se sentia enojada com os olhares que recebia de vez em quando, com a ousadia de alguns em lhe tocar sem permissão, e da forma como Mirtes falava dela, como se realmente fosse um pedaço de carne em exposição.
Aproveitou o momento em que Fantina, a única das mulheres da casa que conversava com ela, entrou no quarto e perguntou:
— Há quanto tempo você está aqui?
A moça riu e pareceu pensar um pouco:
— Já não me lembro como era minha vida fora desta casa.
Maia estava realmente curiosa:
— Você não tem vontade de ir embora?
Dessa vez ela gargalhou:
— Todos os dias. Mas aí eu lembro que preciso sobreviver, e lá fora as coisas são muito piores. Aqui dentro pelo menos Mirtes coloca regras. E os homens respeitam.
Maia não pareceu convencida:
— E se você arrumar outra função?
Fantina a olhou ao responder:
— Que tipo de função uma mulher como eu vai conseguir? Já não sou tão jovem, não tenho família, não tenho economias…
Maia falou com a única certeza que tinha naquele momento:
— Você tinha razão… essa vida realmente não é pra mim. Vou embora daqui.
Fantina a encarou por alguns segundos em silêncio. Meneou a cabeça afirmativamente e caminhou até a porta, mas não a abriu. Ficou parada de costas para Maia como se pensasse se saía ou não daquele quarto. Quando decidiu se virar, falou baixo:
— Não sei se deveria te falar isso, mas… se você quer ir embora, é melhor ir logo… E escondida.
Maia ficou de pé, assustada:
— Por que diz isso?
Fantina se aproximou dela, quase sussurrando:
— Mirtes não vai aceitar de bom grado que você vá embora depois de comer da comida dela, ficar sob o teto dela… de graça. Não pense que ela faz caridade. Desde o momento em que te trouxe pra cá, só estava pensando em ter lucros com você.
Maia estava perturbada, mas a única opção que tinha era confiar em Fantina:
— Você me ajudaria?
Se esgueirando pelo escuro que a noite de lua nova proporcionava, Maia seguiu Fantina, as duas cobertas por capas e capuzes que não permitiam a quem olhasse distinguir se tratavam-se de homens ou mulheres.
Caminharam em silêncio por alguns minutos, até chegarem em uma carroça parada em um canto distante da cidadela. Um homem desceu assim que elas se aproximaram:
— Achei que tivesse desistido.
Fantina falou baixo:
— Foi difícil conseguir sair sem que ninguém nos visse…
Olhou para Maia e disse para o homem:
— Essa é minha amiga. É só levá-la até Altameres. De lá ela seguirá sozinha.
Maia sentiu um frio percorrer sua espinha, pois estava prestes a se lançar em uma viagem desconhecida, com um completo desconhecido.
Fantina virou-se para ela e disse como quem fala com uma criança:
— Não saia da carroça antes de chegar em Altameres. No embornal tem comida e água suficiente pra te alimentar durante a viagem. E tome cuidado, não é um lugar muito amigável.
Depois voltou-se para o homem:
— Eu confio em você, não me desaponte. E quando voltar pode ir até a casa de Mirtes me cobrar o favor.
Uma hora depois, sacolejando na parte de trás da carroça, no meio de sacos do que ela julgava ser grãos de milho, Maia tentava organizar os pensamentos e definir seus próximos passos. Mas era uma tarefa praticamente impossível, levando em conta que sabia apenas o nome do lugar para onde estava indo.
*****
Enquanto esfregava nas mãos as roupas pesadas, o pensamento estava de novo naquele bosque, mais de um mês atrás. Chiara já havia passado os acontecimentos daquele dia várias vezes na mente, sempre voltando em cada detalhe, e se martirizando por não ter feito nada que tivesse impedido o que aconteceu.
Estava tão absorta nos seus pensamentos que não percebeu a aproximação de Luísa:
— Como você está?
Manteve o olhar no pano, sem parar seu trabalho:
— Bem, Majestade, obrigada.
Também não fez a reverência. Sabia que não era um comportamento adequado, mas depois da última conversa que tiveram, estava evitando ao máximo qualquer contato com ela.
— Trouxe uma coisa pra você.
Olhou para ela pelo canto do olho, desconfiada. Luísa tirou do bolso interno das vestes o pequeno pedaço de pano do vestido de Maia, que os aldeões tinham levado até Oton quando acharam perto do rio.
Assim que viu o objeto, Chiara parou o que estava fazendo e a olhou de verdade:
— Isso pertence ao rei Estefan.
Luísa baixou o olhar até o pano que tinha entre as mãos:
— Eu acho que ficará melhor guardado com você.
Estendeu a mão direita para ela, mas Chiara não se moveu:
— Por que Vossa Majestade está fazendo isso?
Ainda com a mão estendida, Luísa respondeu:
— Porque eu sei o quanto significa pra você. Pegue… te garanto que Estefan não sentirá falta.
*****
Durante todo o trajeto, tanto Maia quanto o homem mantiveram silêncio. Ele só falou quando entraram na cidadela, horas depois, com o dia amanhecendo:
— O que uma moça como você vai fazer sozinha por aqui?
Já esperta e cheia de recomendações de Fantina, mentiu:
— Não estou sozinha, vou encontrar meu irmão. Ele está à minha espera.
O homem balançou a cabeça em afirmação:
— Bom ouvir isso… porque esse lugar te engoliria antes de anoitecer.
Assim que desceu da carroça, já sem a capa, agradeceu ao homem que não sabia sequer o nome. Estava completamente assustada e perdida, ainda mais depois do que ele havia dito. Começou a caminhar devagar, mas rapidamente a multidão a fez andar com mais pressa. Nunca tinha visto uma concentração tão grande de pessoas no mesmo lugar. O barulho de vozes, sons de animais, ferramentas, sinos, se misturavam fazendo sua cabeça latejar.
A única coisa que conseguiu pensar em fazer foi procurar um lugar para ficar. Tinha as poucas moedas, que Fantina gentilmente havia lhe dado, guardadas no embornal. Naquele momento se lembrou que não havia comido nada durante a viagem, pois o nervosismo não permitiu que sentisse fome. Abriu a pequena bolsa e tirou um pedaço de pão enrolado num pano. Quando levou-o até a boca para dar a primeira mordida, sentiu um empurrão nas costas, o pão soltou-se de sua mão e três pessoas passaram correndo por ela. Olhou para o chão em sua volta procurando pelo alimento mas não achou nada. O fluxo de pessoas passando por ela, de todos os lados, não permitiu que ficasse agachada procurando. Se pôs de pé e caminhou, espremida no meio de outras pessoas, até chegar em um pequeno beco com espaço. Respirou fundo e voltou a tatear a cintura em busca do embornal, tentando finalmente comer. Foi aí que percebeu que o objeto já não estava com ela.
Os dias seguintes foram um verdadeiro inferno. Sem moedas e sem comida, muitas vezes pensou se tinha feito a escolha certa em deixar a casa de Mirtes. Algumas noites chegou até a desejar que Estefan tivesse tido sucesso em seu plano. Passou fome, sede, frio… Mas a pior parte foi ficar vigilante durante todo tempo, pois várias vezes, vários homens a seguiam pelas ruas. Com coisas que achou no lixo, improvisou uma faca, com um pedaço de lâmina quebrada, amarrando-a com arames em um pedaço de madeira. Carregava a ferramenta pendurada na cintura e, muitas das vezes, foi o que repeliu aproximações indesejadas.
Depois de algumas semanas, percebeu que seu maior risco era ser mulher. E quando quase foi capturada por um homem, que chegou a prendê-la nos braços, decidiu que precisava fazer alguma coisa.
A primeira providência foi cortar os cabelos, bem curtos, quase rentes ao coro cabeludo. Depois, furtou roupas de meninos que achou penduradas secando em varais, e passou a se vestir com elas. A diferença de tratamento e de atenção foi instantânea, quando começou a ser tratada como um pobre menino das ruas. Não que os problemas tivessem sido resolvidos, mas pelo menos não precisava mais se esquivar de olhares de cobiça.
Foi sobrevivendo, um dia de cada vez, aprendendo com as outras pessoas que viviam pelas ruas, truques e pequenos furtos, como o que sofreu no primeiro dia que havia chegado ali. E assim, sem que se desse conta, passou mais de quarenta dias.
Em mais um dia procurando o que comer, entrou na taverna que já frequentava há um tempo. Considerava um bom lugar para os larápios, já que as pessoas estavam sempre bêbadas lá dentro. Se aproximou furtivamente de um grupo que ria e cantava — visivelmente embriagados — como já estava acostumada e tinha até certa destreza em fazer.
Assim que estendeu a mão para pegar o pedaço de pão, foi surpreendida pelo movimento rápido da pessoa, que prendeu sua mão contra a mesa:
— Você sabe qual é o castigo pra quem rouba por aqui, rapazinho?
Assustada, fez que não com a cabeça, ainda com a mão direita presa.
A mulher tirou uma espada do coldre antes de dizer:
— Cortam a mão do ladrãozinho…
Completamente apavorada, Maia tentou se soltar, mas foi em vão, pois apesar de não ser muito grande, a mulher era muito mais forte que ela.
A moça sorriu de repente, antes de dizer e finalmente soltá-la:
— Você está com sorte… hoje estou de bom humor.
Quando se viu livre, Maia saiu correndo o mais rápido que pôde, sentindo o coração quase sair pela boca.
Fim do capítulo
Pra quem tá acompanhando, muito provável que eu não consiga postar o próximo capítulo no domingo. Voltamos na próxima quinta :) Bom carnaval!
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Zanja45
Em: 13/02/2026
E Maya, o que acontecerá com ela agora que consegui escapar da cidadela em que Mirtes a mantinha no bordel?
Pelo visto ela está conseguindo viver a duras penas nessa nova cidadela em que se refugiou. Essa nova faceta que ela arranjou para se esconder como s e fisse um menino, foi bem pensado, haja visto que como mulher sozinha, ela seria uma presa fácil numa terra desconhecida e bem populosa pelo visto. Ela até já aprendeu a arte de furtar para se manter viva. Mas com riscos diários. E quase que ela se dá mal nessa empreitada, porém fazer o quê se ela precisa conseguir o mínimo para continuar de pé? Conseguir o alimento, o pão de cada dia não é nada fácil, principalmente num mundo em que a riqueza está concentrada nas mãos da realeza. Ela agora vai ampliar o olhar sobre essas pessoas que vivem a margem para compreender melhor a dinâmica dessa população, porque ela é uma princesa, mesmo que a gira esteja despojada de sua realeza.
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Zanja45
Em: 13/02/2026
Qual é va verdadeira intenção de Luisa ao entregar aquele pedaço de tecido a Chiara? Ela já que perdeu o controle sobre o rei Estefan e possa ser que justamente ela tente ajudar no sentido de retomar o poder de Diamantora Porque Estefan agora rei se acha no direito de fazer qualquer coisa, já que não há nada que o impeça. - Luisa acabou virando uma peça sem valor. Ainda mais agora que Mili se uniu ao rei.
AlphaCancri
Em: 19/02/2026
Autora da história
O feitiço virou contra a feiticeira, né? Será que Luísa consegue a fidelidade de Oton de volta?
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HelOliveira
Em: 13/02/2026
Uffa que bom a Maia ter fugido, mesmo a vida continua difícil, mas ela está aprendendo a sobreviver...
Luisa já perdeu o poder é com certeza já está se preparando para dar o troco...
Bom carnaval
AlphaCancri
Em: 19/02/2026
Autora da história
Maia agora não tem escolha, tem que enfrentar o mundo real se quiser sobreviver.
Luísa provando do próprio veneno, né?
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AlphaCancri Em: 19/02/2026 Autora da história
Maia está tendo que encarar a realidade fora do castelo para sobreviver, né? Ela não tem escolha. E até agora contou também com a sorte.
Realmente, ela agora está vendo o mundo fora da sua bolha de princesa.