CAPÍTULO IX
Quando mais uma noite caiu, Maia se viu pela primeira vez em sua vida, sozinha e perdida. A fome fez o estômago doer, mas não conseguiu comida. Despistou a sede, que havia deixado a boca seca, quando encontrou água represada nas folhas de uma planta, na beira da estrada. Ao escurecer, procurou abrigo dentro de uma taverna, mas se arrependeu no instante em que entrou e dezenas de homens a encararam. Um deles se aproximou e sorriu mostrando dentes amarelados:
— Está perdida, docinho?
Percebendo a atenção de todos sobre si, Maia virou as costas e saiu quase correndo daquele lugar. Caminhou a esmo até parar num armazém de pilhas de feno, onde ficou desde então. Os cães latindo a noite toda não a deixaram pegar no sono, mas desconfiava que, mesmo se houvesse um completo silêncio, não seria capaz de desligar a mente nem por um minuto.
Mais um par de dias se passou daquela maneira, com Maia vagando pelas ruas da cidadela, cada vez mais magra e suja, vivendo de restos.
Estava vasculhando o lixo de uma das barracas de comércio quando ouviu o diálogo entre os comerciantes:
— Uma tragédia! Só o que conseguiram encontrar foi um pedaço do vestido…
O outro homem respondeu, embalando um pedaço de pão:
— A essa altura o corpo da rainha já virou comida de peixe.
*****
Quando Luísa viu a criada, que agora já havia gravado o nome, parada em frente à porta de seus aposentos, finalmente entendeu o quanto a morte de Maia tinha impactado a moça:
— Boa noite, Chiara.
Com uma reverência rápida, ela disse:
— Majestade.
Luísa se permitiu observá-la um pouco mais atentamente. Era uma moça jovem e bonita:
— Estava à minha espera?
Ela respondeu olhando para o chão, sem a urgência que tinha da última vez em que se encontraram:
— Sim, Majestade… se não for incômodo, gostaria de lhe falar um instante.
Luísa caminhou até a porta, que foi aberta por um guarda e disse para ela:
— Entre.
Quando as duas ficaram a sós, Luísa ofereceu:
— Quer beber alguma coisa?
Apesar de ter estranhado o tratamento incomum dela, Chiara agradeceu ao recusar:
— Obrigada… Na verdade, gostaria de falar com Vossa Majestade sobre o dia em que Maia…
Suspirou profundamente, proferindo o restante da frase em um tom baixo, quase sem forças:
— O dia em que ela morreu.
Luísa já esperava que esse seria o assunto:
— Pois não…
Chiara continuou encarando o chão ao falar:
— Eu estava com ela no bosque, naquele dia… de repente o rei Estefan chegou…
Chiara a olhou e Luísa percebeu que ela queria muito mostrar que estava falando a verdade:
— Ele agiu de forma estranha… foi quase agressivo ao levá-la com ele. Ela não queria ir, estava comigo.
Já sabendo de tudo o que havia acontecido, Luísa disse calmamente:
— Sim, Chiara, eles saíram para passear… e foi quando, infelizmente, o infortúnio aconteceu.
O desespero da criada ficou evidente quando ela contestou:
— Não, algo estava estranho! Eles não foram passear, o rei sequer se encontrava com Maia nos meses que antecederam a morte dela. Em uma ocasião ele até chegou a agredi-la.
Aquela informação, sim, era nova para Luísa. Apesar do ódio instantâneo que sentiu de Oton, manteve o semblante calmo:
— Você deve estar se confundindo, Estefan jamais faria isso.
Chiara respondeu veementemente:
— É verdade! Eu mesma vi a marca no rosto dela… eu disse que ela deveria ter falado com alguém, mas ela não quis… talvez tudo isso tivesse sido evitado…
Quando a moça caiu no choro, Luísa a observou atentamente. Toda aquela devoção por Maia, o quanto ela estava sofrendo, poderia ser apenas uma amizade muito antiga e exacerbada. Mas naquele instante Luísa enxergou algo mais. Aproximou-se dela, colocou a mão em seu ombro e perguntou com cautela:
— Chiara, me diga uma coisa… como era a sua relação com a rainha Maia?
Parecendo confusa com a pergunta, Chiara respondeu ainda chorando:
— Eu era a criada pessoal dela.
Mas Luísa insistiu:
— Não é isso que quero saber… eu quero que você confie em mim e me diga… como realmente era a relação de vocês duas? A intimidade de vocês…
O choro de Chiara foi automaticamente interrompido. Olhou para Luísa incrédula, sem entender por que ela estava fazendo aquele tipo de pergunta. Ninguém jamais havia desconfiado dos sentimentos secretos que nutria por Maia. Nem mesmo a própria:
— Não entendi o que Vossa Majestade quer dizer.
Luísa viu, na forma com que ela desviou o olhar, limpou o rosto com pressa e se afastou: a resposta era óbvia.
— Tudo bem, Chiara. Eu conheço esse tipo de relação… se é que você me entende…
A criada a olhou surpresa, desviando os olhos em seguida:
— Não sei do que está falando, Majestade... Acho melhor eu ir agora.
Caminhou em direção à porta, mas Luísa se pôs em seu caminho:
— Tenho certeza que sabe. Mas não se preocupe, o segredo de vocês está bem guardado comigo.
Chiara falou com toda a sua verdade:
— Nunca aconteceu nada entre Maia e eu.
Informação que fez Luísa entender:
— Então o sentimento não era recíproco? Uma pena…
Aproximou a boca do ouvido de Chiara e disse baixo:
— Vocês fariam um belo casal.
*****
Nos dias que se seguiram, Maia ainda tentou várias vezes fazer com que alguém a ouvisse. Mas as pessoas sequer a olhavam com aquelas roupas rasgadas e sujas. Quando passou em frente a uma das vendas, e viu sua imagem refletida em uma peça, percebeu porque ninguém jamais acreditaria nela. Não lembrava em nada a rainha que eles um dia conheceram, sempre limpa, bem vestida e com os cabelos perfeitamente arrumados.
Não podia simplesmente aparecer nos portões do castelo, pois primeiro achava que os guardas também sequer a olhariam, pensariam que era uma aldeã qualquer, fora de si. E se, por algum milagre, a reconhecessem, iriam direto para o rei… e Maia tinha medo do que Estefan poderia fazer com ela novamente.
Viveu os dias seguintes de migalhas e restos que encontrava nos lixos, vagando pela cidadela.
Até que um dia, uma senhora que aparentava idade avançada, se aproximou dela com um pedaço de pão fresco:
— Está com fome, criança?
Maia acenou positivamente com a cabeça. Na mesma hora desconfiou daquela atenção repentina, mas a fome era maior, muito maior, que qualquer cautela que pudesse ter naquele momento.
A senhora estendeu a comida e Maia a pegou da mão dela devagar. Mas a vontade com que colocou o alimento na boca foi quase desesperada. Quase não conseguiu responder quando a mulher perguntou, a observando:
— Você está sozinha?
— Sim.
Enfiou mais um pedaço de pão na boca, quase engasgando com a pressa de se alimentar.
— Eu posso conseguir mais comida pra você, querida. Está com muita fome, não é?
Maia a olhou ainda desconfiada. Era a primeira vez, em dias, que alguém sequer olhava para ela. E mais ainda… alguém lhe dava comida, coisa que — ela já havia entendido — era batalhada por cada uma das pessoas que viviam ali.
— Estou…
A mulher disse, mostrando um sorriso que faltava um único dente:
— Meu nome é Mirtes. Venha comigo, querida, vou te levar para comer mais.
Completamente abatida pela fome e pelo cansaço, Maia não pensou, apenas a seguiu, cega pela proposta.
Andaram por alguns minutos até a senhora parar em frente a uma carroça onde uma outra mulher a esperava. Maia hesitou quando a senhora estendeu a mão para que ela subisse:
— Não se preocupe, nós vivemos em um dos reinos vizinhos, é bem perto. Venha, se não gostar, te trago de volta.
Devagar, subiu na carroça, sem saber se o que estava fazendo era o certo. A carroça seguiu por um bom tempo, levando-a a desconfiar da gentileza gratuita da mulher.
Quando já cogitava pular e sair correndo, finalmente entraram em uma cidadela que ela nunca havia ido antes. Pararam em frente à uma casa bem grande, mas bastante deteriorada. Assim que as três entraram, várias mulheres — de idades variadas, olharam diretamente para Maia. A senhora a puxou pela mão e disse:
— Meninas, essa é…
Olhou para ela novamente e perguntou:
— Qual é mesmo o seu nome, criança?
Nos segundos que se seguiram, Maia pensou se deveria contar e tentar fazer com que acreditassem em quem ela era. Olhou para as moças quase seminuas, com os rostos exageradamente pintados, e não teve uma boa impressão. Por isso mentiu:
— Diana.
A mulher mais velha sorriu e continuou:
— Essa é Diana. Vai ficar conosco a partir de agora.
Depois virou-se para Maia e disse apenas para ela:
— Você pode tomar um banho, sim? Depois coloco mais comida pra você, querida.
Chamou uma das moças e pediu:
— Fantina, leve Diana até um dos quartos, prepare um banho e dê roupas limpas à ela.
A moça não pareceu contente com o pedido, mas levantou-se sem dizer nada, andando na direção de Maia. Antes que pudessem subir, a porta da frente se abriu e um homem velho entrou. Imediatamente Mirtes foi até ele, com a simpatia que Maia já havia percebido ser forçada e usada com todo mundo:
— Olá, querido… Quanto tempo... Como tem passado?
O homem respondeu, olhando para as moças que estavam no cômodo:
— Fiquei fora por uns dias.
Parou o olhar em Maia e perguntou:
— Peça nova?
Sorrindo, Mirtes respondeu:
— Acabou de chegar, mas ainda não está pronta. Que tal uma das que você já conhece?
Colocou a mão nas costas do homem, conduzindo-o para perto de uma das moças, enquanto, com a outra mão fez um sinal para que Fantina subisse as escadas com Maia.
A moça a conduziu até uma das várias portas que preenchiam um grande corredor. Abriu e deu espaço para que Maia entrasse:
— Vou preparar a banheira.
Maia olhou para o pequeno círculo de madeira no canto do quarto, preenchido quase até a borda com água, e entendeu que aquela era a banheira.
— Você não tem nada? Chegou de mãos vazias?
Olhou para Fantina e apenas acenou com a cabeça.
Ela colocou alguma coisa com um cheiro forte dentro da água, que estava visivelmente turva, e disse para Maia:
— Pode tirar a roupa.
Envergonhada, Maia começou a se despir devagar. Quando ficou completamente nua, colocou os braços na frente do corpo, tentando esconder o máximo da sua pele.
Fantina pareceu não se importar, apenas disse:
— Entre.
Só então lhe ocorreu que depois de um banho, com os cabelos penteados, alguém poderia, enfim, lhe reconhecer, por mais que estivesse em um reino diferente. Já não sabia se era uma coisa boa ou ruim, pois se sentia frágil e desprotegida. Poderiam usar dessa informação em benefício próprio, ou mesmo se a levassem até o castelo, já não sabia se queria voltar. Afundou o corpo na água, enquanto Fantina voltou a falar:
— Vou deixar algo pra você vestir… vai ser um pouco difícil achar alguma coisa do seu tamanho.
Passando a mão pelo próprio corpo para se lavar, Maia percebeu como estava magra, pois sentia os ossos pontudos sob a pele. Sempre havia sido pequena e franzina, mas depois dos últimos dias deploráveis no castelo e os dias nas ruas, estava com um aspecto quase cadavérico.
Tirando-a de seus pensamentos, Fantina perguntou:
— Você fala?
A olhou surpresa com a pergunta.
— Desde a hora em que chegou aqui não abriu essa boca.
Contendo a vontade de apenas menear a cabeça novamente, respondeu baixo:
— Falo.
A moça se aproximou dela:
— Veja bem, não sei como você veio parar aqui, mas… isso aqui não é pra qualquer uma. Dizem que somos mulheres de vida fácil, mas de fácil essa vida não tem nada.
Maia apenas balançou a cabeça.
— Então você precisa começar a falar… entendeu?
— Sim…
A moça pareceu mais satisfeita:
— Ótimo! Quantos anos você tem?
De novo, achou melhor ocultar a verdade. Como sempre aparentou ter menos idade do que realmente tinha, respondeu:
— Dezesseis.
Fantina fez uma careta enquanto procurava por roupas dentro de um enorme cesto:
— Eu comecei bem mais nova…
Parou e virou-se para ela:
— Ou você não está começando agora? Já fez isso antes?
Maia a olhou sem saber se estava entendo aquela conversa e sem saber o que deveria responder:
— Não… quer dizer, não sei…
Fantina pegou um vestido e deixou sobre a cama:
— Como assim? Ou você fez ou não fez.
Perguntou com os olhos fixos na água:
— Fiz o que exatamente?
Os longos segundos de silêncio que se seguiram fizeram Maia levantar os olhos para encará-la.
Fantina se agachou ao seu lado e perguntou séria:
— Você já se deitou com alguém?
A mente de Maia automaticamente voltou até a noite de núpcias. Havia se deitado com Estefan, mas não haviam feito nada além de dormir:
— Já…
Fantina pareceu aliviada:
— Achei que ainda fosse uma menina.
Sem querer estender aquele assunto, Maia não disse mais nada. Fantina se levantou e buscou um tecido para que ela se enxugasse:
— Aqui… acho que o vestido vai servir, só dobrar as mangas.
Maia levantou e se enrolou no tecido que ela estendeu. Fantina continuou falando:
— Nos primeiros dias, Mirtes não exige nada. Ela só vai exibir você para conseguir o maior preço possível, já que esses homens adoram coisa nova. Depois, quando você não for mais novidade, aí sim vai ter que atender qualquer um que chegar aqui.
Quando terminou de falar, se aproximou de Maia de repente, levantando seu rosto pelo queixo. A analisou por alguns segundos, fazendo com que achasse que tivesse sido reconhecida. Mas ela apenas disse:
— Você é bonita. Só vai precisar comer mais para ter carne nesse corpo.
Maia acabou de se secar e enfiou o vestido pela cabeça. A barra passou dos seus tornozelos, as mangas passaram das suas mãos. Fantina pegou seu braço e começou a dobrar o pano:
— Você é mais delicada do que as mulheres que costumam chegar aqui… Pode ser que dê sorte de achar alguém que te tire dessa vida. Já aconteceu algumas vezes…
Pegou o outro braço de Maia e fez a mesma coisa, mas dessa vez sorriu ao dizer:
— Sabe que da última vez deu o que falar? A desconjuntada deu a maior sorte da vida. Nem mesmo nos sonhos alguém poderia imaginar. Ela saiu daqui pra viver com um rei. Agora mora em um castelo, você acredita?
Maia sentiu um calafrio percorrer seu corpo com aquelas palavras.
— A sortuda da Olga… e como se não bastasse, a pobre rainha morreu… e agora dizem que eles vão se casar. Imagine, de mulher da vida para rainha de Diamantora!
Sentiu o estômago revirar a cada palavra que ela dizia. As pernas ficaram fracas, a boca ficou seca e a única coisa que conseguiu fazer foi virar o corpo de lado, antes de colocar para fora todo o pão que Mirtes havia lhe dado mais cedo.
Fim do capítulo
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Zanja45
Em: 08/02/2026
Aonde Maia foi parar, num bordel?
E agora descobrir que a amante do rei pertencia aquele lugar.
AlphaCancri
Em: 12/02/2026
Autora da história
Maia só tá levando pancada… quando ela acha que vai ter ajuda, vem mais problema…
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HelOliveira
Em: 08/02/2026
Maia continua inocente e sendo enganada mais uma.vez...
Não quero nem imaginar o que vai acontecer....
Ansiosa pelo proximo capítulo
AlphaCancri
Em: 12/02/2026
Autora da história
É só problema na vida de Maia, né?
Imagina só, uma princesa que sempre teve tudo do bom e do melhor, agora perdida no mundo lá fora…
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AlphaCancri Em: 12/02/2026 Autora da história
Luísa percebeu bem rápido, não é? Deve ser o famoso gaydar rsrs