Capitulo 4
O sol ainda brilhava forte no céu azul da fazenda, majestoso e absoluto, e uma brisa leve carregava o cheiro da terra úmida misturado ao café da tarde recém-passado, criando uma atmosfera morna e viva ao redor da casa, como se o próprio dia respirasse.
Alice, ainda um pouco fraca, decidiu que precisava sair do quarto de Soraia. Queria sentir o sol, respirar ar puro, lembrar ao próprio corpo que ainda estava viva, viva de verdade, não apenas existindo dentro de um intervalo entre medo e silêncio.
— Dona Soraia…
Falou baixo, quase tímida, como se temesse quebrar a tranquilidade suspensa no ar.
Soraia arqueou uma sobrancelha lentamente, com aquela elegância natural que sempre parecia carregar autoridade.
— Dona quem?
— Quer dizer… Soraia.
Alice se corrigiu depressa, corando levemente.
— Humm…
A morena murmurou, observando-a com atenção, analisando cada gesto, cada respiração, cada mínima oscilação de equilíbrio.
— Você… tem certeza de que… ELE… não está pela fazenda?
A pergunta saiu hesitante, carregada de receio, medo ainda vivo, ainda latejante.
— Tenho, Alice. Por que eu mentiria pra você?
O tom era calmo, quase didático, firme o suficiente para sustentar quem precisava se apoiar.
— Só tenho medo.
Ela sussurrou, encolhendo-se discretamente, como se o próprio corpo quisesse se proteger.
Soraia suavizou a expressão. E isso por si só já era um acontecimento raro.
— Eu entendo o seu medo. Mas te garanto que ele não está aqui. E te garanto também que, mesmo quando voltar, se ele voltar, aquele traste nunca mais vai encostar em você.
Aproximou-se e fez um leve carinho no rosto dela com a ponta dos dedos. O toque foi rápido, mas suficiente para fazer Alice corar e prender a respiração. Soraia se afastou logo em seguida, como se o gesto tivesse durado mais do que pretendia, mais do que deveria.
— Eu… eu…
— Você?
— Eu queria tomar um pouco de sol.
Disse por fim, reunindo coragem como quem reúne fragmentos de si.
Soraia cruzou os braços, analisando-a com aquele olhar clínico que Alice já começava a reconhecer, um olhar que parecia enxergar além da pele, além da postura, além das palavras.
— Não acho uma boa ideia. Você ainda está fragilizada. Mas eu te ajudo. Vou descer com você.
— Não precisa. Eu consigo sozinha. Não quero lhe dar trabalho.
Respondeu, tentando se levantar da poltrona com uma determinação frágil, quase teimosa.
Soraia arqueou uma sobrancelha.
— Sei. E quando você cair de cara no chão, vai fingir que estava pegando alguma coisa?
Alice bufou, contrariada, mas não discutiu. No fundo, sabia que ela estava certa e isso a irritava um pouco mais do que gostaria de admitir.
Desceram as escadas lentamente, degrau por degrau, como se o tempo tivesse diminuído o próprio ritmo para acompanhar Alice. Soraia permanecia sempre um passo atrás, atenta a cada movimento, pronta para agir ao menor sinal de falha.
Quando chegaram à varanda, Alice se aproximou do parapeito de madeira e fechou os olhos ao sentir o calor do sol na pele, absorvendo aquela sensação como quem bebe água depois de atravessar um deserto inteiro.
— Está confortável?
Soraia perguntou, encostando-se ao batente.
— Sim… só preciso de um minuto.
Mas antes que terminasse a frase, uma tontura violenta a atingiu.
O mundo girou.
Alice se agarrou à madeira, tentando se firmar, tentando manter o chão onde deveria estar.
— Alice?
Soraia percebeu imediatamente.
Alice piscou algumas vezes, mas a fraqueza era intensa demais.
— Ah, meu Deus…
Soraia bufou, aproximando-se rápido.
— Vem cá.
Sem dar espaço para protestos, Soraia a segurou com firmeza e a ergueu nos braços.
— So-Soraia… me põe no chão!
— Cala a boca e fica quieta.
Sem forças para discutir, Alice passou os braços em torno do pescoço dela. O rosto estava pálido, o coração disparado. Não sabia dizer se era pela tontura ou pela proximidade esmagadora, quente, inevitável.
Soraia atravessou a varanda com facilidade e a levou até o sofá da sala.
Dona Ana, que terminava de passar café na cozinha, arregalou os olhos ao ver a cena.
— Minha Nossa Senhora!
Inácio, ao lado dela, parou abruptamente.
— Mas o que…
Soraia ignorou os olhares. Acomodou Alice no sofá maior e subiu as escadas correndo. Voltou segundos depois com uma maleta médica e um aparelho de pressão, sentando-se ao lado da jovem, que estava quase desmaiada.
— O que houve com a menina Alice, Soraia?
Dona Ana perguntou, aflita.
— Além de fraqueza e teimosia? Deixa eu pensar… fraqueza e teimosia!
O tom irônico escondia a preocupação.
— Não apaga, Alice. Fica comigo.
Colocou o aparelho no braço dela.
Alice estava lívida enquanto Soraia analisava o visor.
— Está baixa.
Franziu a testa.
— Me dá esse dedo aqui.
Apesar da frase autoritária, pegou a mão esquerda de Alice delicadamente e furou com cuidado.
— Ai! O que você…
Ao ver o pontinho de sangue, Alice desmaiou completamente.
— Eita, meu Senhor…
Soraia murmurou, verificando a glicemia.
— Está baixa também.
— Inácio, levanta as pernas dela pra dar retorno venoso.
Retirou a almofada da cabeça de Alice e olhou para Dona Ana.
— Donana, prepara um leite com canela e traz aqueles biscoitos bem salgados que você sempre faz.
— Já estou indo, minha filha.
Dona Ana correu para a cozinha.
Aos poucos, Alice começou a recobrar a consciência.
— Alice? Está se sentindo melhor?
A morena franzia a testa preocupada.
— Soraia...
A loira sorriu, mesmo fraca, ao ver os olhos cor de avelã tão próximos aos seus.
— Você ta sentindo o que agora?
— Tonta, ainda tô tonta... o sangue...
Fez menção de olhar o dedo, mas foi suavemente impedida por Soraia
— Esquece o dedo, já parou de sangrar.
Alice abriu a boca para dizer algo, mas Soraia inclinou a cabeça, analisando-a.
— Seu curativo está soltando. Espera, vou refazer.
Abriu a maleta, pegou gaze, esparadrapo e antisséptico. Com mãos firmes e habilidosas, removeu o curativo antigo e limpou o ferimento.
Alice tentou desviar o olhar, mas era impossível ignorar a concentração de Soraia. Os dedos eram seguros e, ao mesmo tempo, surpreendentemente delicados.
— Você sempre foi tão mandona assim?
Alice murmurou, tentando disfarçar o frio na barriga.
— Hunrum. Sempre.
Soraia respondeu sem desviar os olhos.
Mas por um instante, os olhares se cruzaram.
Um arrepio percorreu a espinha de Alice.
Soraia demorou a desviar, e havia algo naquela intensidade que a deixou sem palavras, como se o ar tivesse ficado mais denso, mais lento, mais consciente de si.
O momento foi interrompido quando Dona Ana voltou com o leite fumegante e os biscoitos.
— Aqui está, querida. Bebe tudo, vai te fazer bem.
Alice olhou para a xícara como se fosse veneno. Fez uma careta ao sentir o cheiro de canela.
— Eu não gosto de canela... Argh… eu realmente não quero.
— Ninguém perguntou se você gosta.
Soraia respondeu cruzando os braços sem paciência, embora os olhos permanecessem atentos.
— Se você tomar tudo, te dou um chocolate.
Alice arregalou os olhos.
— Chocolate?
— Donana sempre tem. Mas só se tomar e comer tudo.
Alice hesitou.
Dona Ana segurou um sorriso, trocando olhares com Inácio.
— Eu não acredito que estou vendo isso.
— Nem eu.
Alice tomou um gole hesitante.
— Isso é horrível.
— Toma e come tudo sem frescura. Senão, nada de chocolate.
Alice bufou, resmungou, mas obedeceu. Quando terminou, estendeu a mão.
— Pronto. Agora me dá meu chocolate.
Soraia foi até a bomboniere.
— Branco ou ao leite?
— Os dois.
Soraia revirou os olhos, mas pegou um de cada e entregou.
Dona Ana e Inácio observavam, boquiabertos.
— Isso está estranho. Soraia está muito esquisita. Nunca vi ela querendo agradar ninguém.
Inácio cochichou.
— O amor muda as pessoas, Inácio.
Dona Ana respondeu baixinho.
— Será que a menina Soraia finalmente está deixando alguém entrar naquele coraçãozinho de gelo?
— Acho que ela nem percebeu que um certo alguém já está morando lá dentro.
Dona Ana apontou discretamente para o próprio peito.
Alice parecia uma criança feliz saboreando o chocolate. Soraia apenas a observava da poltrona, ignorando os cochichos.
O aroma da canela ainda pairava no ar quando Dona Ana decidiu preparar algo mais substancial.
— Vou fazer uma canja bem nutritiva pra você, minha filha. Vai restaurar suas forças.
— E eu vou voltar para o escritório. Parece que a casa está em boas mãos… mãos muito mandonas, mas boas.
Inácio comentou antes de sair.
O silêncio tranquilo foi quebrado pelo ranger da porta da cozinha.
Amadeu entrou com passos firmes. Cheiro de terra molhada grudado nas botas.
Alto, pele dourada pelo sol e cabelos castanho-claros desalinhados, trazia nos olhos verdes um brilho travesso.
— Mãe?
Chamou, com o tom caloroso de sempre.
Dona Ana abriu um sorriso largo.
— Amadeu, meu filho!
Correu até ele, abraçando-o com força. Ele a ergueu do chão como fazia desde mais novo.
— Que saudade da senhora, mãe.
— Também estava morrendo de saudade.
Enquanto conversavam, Amadeu ouviu um movimento na sala. Curioso, soltou-se do abraço e caminhou até o vão entre os cômodos.
Ao ver Alice deitada no sofá, um sorriso encantado surgiu em seus lábios. Inclinou levemente a cabeça, galanteador.
— Mas quem é essa princesa?
Alice piscou.
Alice piscou.
Então viu os olhos dele. um arrepio frio lhe subiu a espinha.
O ar faltou.
O rosto perdeu a cor.
Lágrimas surgiram sem controle.
Soraia, que estava ao lado do sofá, endureceu imediatamente. O maxilar travou. O olhar cortante se voltou para Amadeu.
— Ela tem nome. Alice.
O ar pareceu esfriar ao redor.
Amadeu não percebeu a tensão de Soraia, mas o pavor nos olhos de Alice era impossível de ignorar.
Aproximou-se hesitante.
— Ei… tá tudo bem?
Antes que pudesse chegar perto, Alice agarrou a mão de Soraia com força. A pele estava gelada.
— Alice?
Soraia chamou, alarmada.
Segundos depois, ela desmaiou novamente.
— Alice! Tá me ouvindo?
Soraia pegou o aparelho de pressão às pressas.
Amadeu recuou, atordoado.
— O que eu faço?
— Chama a Donana… e suma da minha frente.
A voz saiu baixa, carregada de fúria controlada.
Amadeu correu de volta para a cozinha.
— MÃE! Corre lá na sala! A princesa desmaiou!
Dona Ana apareceu imediatamente.
— Meu Deus, o que houve?
Inácio surgiu do corredor.
— Mas que gritaria é essa?
— Chama o médico, Inácio!
— Tá bem, vou ligar pro doutor Marcos.
Respondeu voltando rapidamente ao escritório.
Soraia já elevava as pernas de Alice.
— Donana…
O tom saiu baixo, raivoso, por entre os dentes.
— Não quero esse moleque rondando a Alice. Estamos entendidas?
Dona Ana apenas assentiu.
...
Quando Alice voltou a si, Soraia acomodou delicadamente suas pernas e sentou-se ao lado dela. Num impulso, Alice a agarrou num abraço desesperado.
— Não deixa ele chegar perto de mim, por favor… não deixa.
Chorava agarrada a morena.
— Calma… está tudo bem. Ele já foi.
Soraia a abraçou com cuidado, protetora.
Dona Ana observava a cena incrédula. Nunca imaginara ver Soraia tão afetuosa.
— Aqueles olhos… os olhos…
Alice balbuciou ao se soltar do abraço.
— Já passou. Calma.
Soraia enxugou as lágrimas restantes com os polegares.
Mas a frase não passou despercebida por Dona Ana nem por Inácio, que trocaram um olhar silencioso.
Eles sabiam muito bem o verdadeiro significado daquelas palavras.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 17/02/2026
Agora fiquei mais curiosa com essa reação da Alice e a fala sobre os olhos...
Os sentimentos estão crescendo entre as duas...
Sem cadastro
Em: 01/03/2026
Elas estão se gostando, mas nao se deram conta ainda... pena que nem tudo são flores.
Beijo pra você querida. Obrigada por estar sempre por aqui.
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Zanja45
Em: 17/02/2026
Alice está bem fragilizada, todavia apesar dos desmaios ela está sentindo algo por Soraia, pois os toques e a proteção de Soraia tem contribuído para que desponte sentimentos. E isso já está ficando bem evidente para quem está olhando de fora Com a Donana e Inácio que está estranhando o comportamento da menina Soraia.
Liladiniz
Em: 01/03/2026
Autora da história
Menina Soraia ta diferente....
Obrigada por comentar, beijos
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Liladiniz Em: 01/03/2026 Autora da história
Elas estão se gostando, mas nao se deram conta ainda... pena que nem tudo são flores.
Beijo pra você querida. Obrigada por estar sempre por aqui.