Capítulo 4

Capitulo 4

de Correntes do Destino, por Liladiniz

Tamanho do texto
1.896 palavras293 leituras3 comentários

O sol ainda brilhava forte no céu azul da fazenda, majestoso e absoluto, e uma brisa leve carregava o cheiro da terra úmida misturado ao café da tarde recém-passado, criando uma atmosfera morna e viva ao redor da casa, como se o próprio dia respirasse.

Alice, ainda um pouco fraca, decidiu que precisava sair do quarto de Soraia. Queria sentir o sol, respirar ar puro, lembrar ao próprio corpo que ainda estava viva, viva de verdade, não apenas existindo dentro de um intervalo entre medo e silêncio.

— Dona Soraia…

Falou baixo, quase tímida, como se temesse quebrar a tranquilidade suspensa no ar.

Soraia arqueou uma sobrancelha lentamente, com aquela elegância natural que sempre parecia carregar autoridade.

— Dona quem?

— Quer dizer… Soraia.

Alice se corrigiu depressa, corando levemente.

— Humm…

A morena murmurou, observando-a com atenção, analisando cada gesto, cada respiração, cada mínima oscilação de equilíbrio.

— Você… tem certeza de que… ELE… não está pela fazenda?

A pergunta saiu hesitante, carregada de receio, medo ainda vivo, ainda latejante.

— Tenho, Alice. Por que eu mentiria pra você?

O tom era calmo, quase didático, firme o suficiente para sustentar quem precisava se apoiar.

— Só tenho medo.
Ela sussurrou, encolhendo-se discretamente, como se o próprio corpo quisesse se proteger.

Soraia suavizou a expressão. E isso por si só já era um acontecimento raro.

— Eu entendo o seu medo. Mas te garanto que ele não está aqui. E te garanto também que, mesmo quando voltar, se ele voltar, aquele traste nunca mais vai encostar em você.

Aproximou-se e fez um leve carinho no rosto dela com a ponta dos dedos. O toque foi rápido, mas suficiente para fazer Alice corar e prender a respiração. Soraia se afastou logo em seguida, como se o gesto tivesse durado mais do que pretendia, mais do que deveria.

— Eu… eu…

— Você?

— Eu queria tomar um pouco de sol.

Disse por fim, reunindo coragem como quem reúne fragmentos de si.

Soraia cruzou os braços, analisando-a com aquele olhar clínico que Alice já começava a reconhecer, um olhar que parecia enxergar além da pele, além da postura, além das palavras.

— Não acho uma boa ideia. Você ainda está fragilizada. Mas eu te ajudo. Vou descer com você.

— Não precisa. Eu consigo sozinha. Não quero lhe dar trabalho.

Respondeu, tentando se levantar da poltrona com uma determinação frágil, quase teimosa.

Soraia arqueou uma sobrancelha.

— Sei. E quando você cair de cara no chão, vai fingir que estava pegando alguma coisa?

Alice bufou, contrariada, mas não discutiu. No fundo, sabia que ela estava certa e isso a irritava um pouco mais do que gostaria de admitir.

Desceram as escadas lentamente, degrau por degrau, como se o tempo tivesse diminuído o próprio ritmo para acompanhar Alice. Soraia permanecia sempre um passo atrás, atenta a cada movimento, pronta para agir ao menor sinal de falha.

Quando chegaram à varanda, Alice se aproximou do parapeito de madeira e fechou os olhos ao sentir o calor do sol na pele, absorvendo aquela sensação como quem bebe água depois de atravessar um deserto inteiro.

— Está confortável?

Soraia perguntou, encostando-se ao batente.

— Sim… só preciso de um minuto.

Mas antes que terminasse a frase, uma tontura violenta a atingiu.

O mundo girou.

Alice se agarrou à madeira, tentando se firmar, tentando manter o chão onde deveria estar.

— Alice?
Soraia percebeu imediatamente.

Alice piscou algumas vezes, mas a fraqueza era intensa demais.

— Ah, meu Deus…

Soraia bufou, aproximando-se rápido.

— Vem cá.

Sem dar espaço para protestos, Soraia a segurou com firmeza e a ergueu nos braços.

— So-Soraia… me põe no chão!

— Cala a boca e fica quieta.

Sem forças para discutir, Alice passou os braços em torno do pescoço dela. O rosto estava pálido, o coração disparado. Não sabia dizer se era pela tontura ou pela proximidade esmagadora, quente, inevitável.

Soraia atravessou a varanda com facilidade e a levou até o sofá da sala.

Dona Ana, que terminava de passar café na cozinha, arregalou os olhos ao ver a cena.

— Minha Nossa Senhora!

Inácio, ao lado dela, parou abruptamente.

— Mas o que…

Soraia ignorou os olhares. Acomodou Alice no sofá maior e subiu as escadas correndo. Voltou segundos depois com uma maleta médica e um aparelho de pressão, sentando-se ao lado da jovem, que estava quase desmaiada.

— O que houve com a menina Alice, Soraia?
Dona Ana perguntou, aflita.

— Além de fraqueza e teimosia? Deixa eu pensar… fraqueza e teimosia!
O tom irônico escondia a preocupação.

— Não apaga, Alice. Fica comigo.

Colocou o aparelho no braço dela.

Alice estava lívida enquanto Soraia analisava o visor.

— Está baixa.
Franziu a testa.

— Me dá esse dedo aqui.

Apesar da frase autoritária, pegou a mão esquerda de Alice delicadamente e furou com cuidado.

— Ai! O que você…

Ao ver o pontinho de sangue, Alice desmaiou completamente.

— Eita, meu Senhor…
Soraia murmurou, verificando a glicemia.

— Está baixa também.

— Inácio, levanta as pernas dela pra dar retorno venoso.

Retirou a almofada da cabeça de Alice e olhou para Dona Ana.

— Donana, prepara um leite com canela e traz aqueles biscoitos bem salgados que você sempre faz.

— Já estou indo, minha filha.
Dona Ana correu para a cozinha.

Aos poucos, Alice começou a recobrar a consciência.

— Alice? Está se sentindo melhor?

A morena franzia a testa preocupada.

— Soraia...

A loira sorriu, mesmo fraca, ao ver os olhos cor de avelã tão próximos aos seus.

— Você ta sentindo o que agora?

— Tonta, ainda tô tonta... o sangue...

Fez menção de olhar o dedo, mas foi suavemente impedida por Soraia

— Esquece o dedo, já parou de sangrar.

Alice abriu a boca para dizer algo, mas Soraia inclinou a cabeça, analisando-a.

— Seu curativo está soltando. Espera, vou refazer.

Abriu a maleta, pegou gaze, esparadrapo e antisséptico. Com mãos firmes e habilidosas, removeu o curativo antigo e limpou o ferimento.

Alice tentou desviar o olhar, mas era impossível ignorar a concentração de Soraia. Os dedos eram seguros e, ao mesmo tempo, surpreendentemente delicados.

— Você sempre foi tão mandona assim?
Alice murmurou, tentando disfarçar o frio na barriga.

— Hunrum. Sempre.
Soraia respondeu sem desviar os olhos.

Mas por um instante, os olhares se cruzaram.

Um arrepio percorreu a espinha de Alice.

Soraia demorou a desviar, e havia algo naquela intensidade que a deixou sem palavras, como se o ar tivesse ficado mais denso, mais lento, mais consciente de si.

O momento foi interrompido quando Dona Ana voltou com o leite fumegante e os biscoitos.

— Aqui está, querida. Bebe tudo, vai te fazer bem.

Alice olhou para a xícara como se fosse veneno. Fez uma careta ao sentir o cheiro de canela.

— Eu não gosto de canela... Argh… eu realmente não quero.

— Ninguém perguntou se você gosta.
Soraia respondeu cruzando os braços sem paciência, embora os olhos permanecessem atentos.

— Se você tomar tudo, te dou um chocolate.

Alice arregalou os olhos.

— Chocolate?

— Donana sempre tem. Mas só se tomar e comer tudo.

Alice hesitou.

Dona Ana segurou um sorriso, trocando olhares com Inácio.

— Eu não acredito que estou vendo isso.
— Nem eu.

Alice tomou um gole hesitante.

— Isso é horrível.

— Toma e come tudo sem frescura. Senão, nada de chocolate.

Alice bufou, resmungou, mas obedeceu. Quando terminou, estendeu a mão.

— Pronto. Agora me dá meu chocolate.

Soraia foi até a bomboniere.

— Branco ou ao leite?

— Os dois.

Soraia revirou os olhos, mas pegou um de cada e entregou.

Dona Ana e Inácio observavam, boquiabertos.

— Isso está estranho. Soraia está muito esquisita. Nunca vi ela querendo agradar ninguém.
Inácio cochichou.

— O amor muda as pessoas, Inácio.
Dona Ana respondeu baixinho.

— Será que a menina Soraia finalmente está deixando alguém entrar naquele coraçãozinho de gelo?

— Acho que ela nem percebeu que um certo alguém já está morando lá dentro.

Dona Ana apontou discretamente para o próprio peito.

Alice parecia uma criança feliz saboreando o chocolate. Soraia apenas a observava da poltrona, ignorando os cochichos.

O aroma da canela ainda pairava no ar quando Dona Ana decidiu preparar algo mais substancial.

— Vou fazer uma canja bem nutritiva pra você, minha filha. Vai restaurar suas forças.

— E eu vou voltar para o escritório. Parece que a casa está em boas mãos… mãos muito mandonas, mas boas.
Inácio comentou antes de sair.

O silêncio tranquilo foi quebrado pelo ranger da porta da cozinha.

Amadeu entrou com passos firmes.  Cheiro de terra molhada grudado nas botas.

Alto, pele dourada pelo sol e cabelos castanho-claros desalinhados, trazia nos olhos verdes um brilho travesso.

— Mãe?
Chamou, com o tom caloroso de sempre.

Dona Ana abriu um sorriso largo.

— Amadeu, meu filho!

Correu até ele, abraçando-o com força. Ele a ergueu do chão como fazia desde mais novo.

— Que saudade da senhora, mãe.
— Também estava morrendo de saudade.

Enquanto conversavam, Amadeu ouviu um movimento na sala. Curioso, soltou-se do abraço e caminhou até o vão entre os cômodos.

Ao ver Alice deitada no sofá, um sorriso encantado surgiu em seus lábios. Inclinou levemente a cabeça, galanteador.

— Mas quem é essa princesa?

Alice piscou.

 Alice piscou.

Então viu os olhos dele. um arrepio frio lhe subiu a espinha.

O ar faltou.

O rosto perdeu a cor.

Lágrimas surgiram sem controle.

Soraia, que estava ao lado do sofá, endureceu imediatamente. O maxilar travou. O olhar cortante se voltou para Amadeu.

— Ela tem nome. Alice.

O ar pareceu esfriar ao redor.

Amadeu não percebeu a tensão de Soraia, mas o pavor nos olhos de Alice era impossível de ignorar.

Aproximou-se hesitante.

— Ei… tá tudo bem?

Antes que pudesse chegar perto, Alice agarrou a mão de Soraia com força. A pele estava gelada.

— Alice?
Soraia chamou, alarmada.

Segundos depois, ela desmaiou novamente.

— Alice! Tá me ouvindo?

Soraia pegou o aparelho de pressão às pressas.

Amadeu recuou, atordoado.

— O que eu faço?

— Chama a Donana… e suma da minha frente.
A voz saiu baixa, carregada de fúria controlada.

Amadeu correu de volta para a cozinha.

— MÃE! Corre lá na sala! A princesa desmaiou!

Dona Ana apareceu imediatamente.

— Meu Deus, o que houve?

Inácio surgiu do corredor.

— Mas que gritaria é essa?

— Chama o médico, Inácio!

— Tá bem, vou ligar pro doutor Marcos.
Respondeu voltando rapidamente ao escritório.

Soraia já elevava as pernas de Alice.

— Donana…
O tom saiu baixo, raivoso, por entre os dentes.

— Não quero esse moleque rondando a Alice. Estamos entendidas?

Dona Ana apenas assentiu.

...

Quando Alice voltou a si, Soraia acomodou delicadamente suas pernas e sentou-se ao lado dela. Num impulso, Alice a agarrou num abraço desesperado.

— Não deixa ele chegar perto de mim, por favor… não deixa.
Chorava agarrada a morena.

— Calma… está tudo bem. Ele já foi.
Soraia a abraçou com cuidado, protetora.

Dona Ana observava a cena incrédula. Nunca imaginara ver Soraia tão afetuosa.

— Aqueles olhos… os olhos…
Alice balbuciou ao se soltar do abraço.

— Já passou. Calma.
Soraia enxugou as lágrimas restantes com os polegares.

Mas a frase não passou despercebida por Dona Ana nem por Inácio, que trocaram um olhar silencioso.

 

Eles sabiam muito bem o verdadeiro significado daquelas palavras.

Fim do capítulo

Publicidade
Conversa

Comentários

3
H

HelOliveira

17/02/2026 às 11:05

Agora fiquei mais curiosa com essa reação da Alice e a fala sobre os olhos...

Os sentimentos estão crescendo entre as duas...

Foto de Liladiniz

Liladiniz 01/03/2026 às 03:48

Elas estão se gostando, mas nao se deram conta ainda... pena que nem tudo são flores.
Beijo pra você querida. Obrigada por estar sempre por aqui.
S

Sem cadastro 01/03/2026 às 07:01

Elas estão se gostando, mas nao se deram conta ainda... pena que nem tudo são flores.
Beijo pra você querida. Obrigada por estar sempre por aqui.
Z

Zanja45

17/02/2026 às 10:30

Alice está bem fragilizada, todavia apesar dos desmaios ela está sentindo algo por Soraia, pois os toques e a proteção de Soraia tem contribuído para que desponte sentimentos. E isso já está ficando bem evidente para quem está olhando de fora Com a Donana e Inácio que está estranhando o comportamento da menina Soraia.

Foto de Liladiniz

Liladiniz 01/03/2026 às 03:45

Menina Soraia ta diferente....
Obrigada por comentar, beijos
Z

Zanja45

17/02/2026 às 10:24

Amadeu tem algum parentesco com Maximus? Por que ela reagiu assim ao filho de Donana?

Foto de Liladiniz

Liladiniz 01/03/2026 às 03:47

Será? Nao posso dar spoler kkkkkk.
Beijo flor
Informar violação das regras