Capitulo 5
Trinta e cinco minutos depois, a campainha tocou.
— Eu abro.
Inácio seguiu em direção à porta, solícito.
— Dotô Marcos, boa tarde!
— Boa noite, Inácio. Onde está o Dr. Maxximus?
— Hoje não é pro Maxximus não, dotô.
Inácio falou em tom baixo, aproximando-se ainda mais do médico.
— E se eu fosse o sinhô, não tocava nem no nome desse infeliz aqui hoje.
Mesmo sem entender o que se passava, o médico apenas concordou.
Ao entrar, Dr. Marcos reconheceu a moça de postura imponente que conversava docemente com outra jovem loira, de olhos azuis, deitada no sofá.
— Ora, ora... mas se não é a Dra. Soraia! Quanto tempo!
Ele se aproximou com um sorriso sincero, estendendo a mão para cumprimentar a dona da casa.
— Dr. Marcos!
Soraia levantou-se do sofá e o cumprimentou com um sorriso educado.
— Cinco anos. É uma satisfação revê-lo.
Antes que o médico pudesse responder, Soraia se adiantou:
— Donana, sirva algo para o Dr. Marcos enquanto acomodo Alice lá em cima para que ele possa examiná-la. Inácio, faça companhia aos dois.
— Claro, filha. Quer ajuda pra levar a menina Alice?
— Não precisa, Inácio. Eu mesma a levo.
— Vem, Alice.
Sem dar tempo para objeções, Soraia abaixou-se, segurou Alice com delicadeza, mas firmeza, e a ergueu nos braços mais uma vez.
— Isso vai acabar virando um hábito, hein?
A loira murmurou, com o rosto colado ao pescoço de Soraia.
— Pois trate de melhorar logo, se não quiser que eu continue te carregando por aí.
Alice sorriu contra a pele quente da veterinária, sentindo aquele perfume discreto, mas inebriante.
Soraia a levou até o quarto e a acomodou na poltrona com todo o cuidado.
— Alice...
Soraia agachou-se diante dela, apoiando as mãos nos joelhos da jovem.
— Que tal tomar um banho? Vai te ajudar a relaxar um pouco.
— Tudo bem.
Alice concordou sem retrucar.
— Você prefere comer agora ou depois que o Dr. Marcos te avaliar?
— Depois.
Alice se sentia desconfortável com a situação. Soraia também estava tensa.
— Vou buscar o Dr. Marcos, então.
Ao sair do quarto e fechar a porta atrás de si, soltou um suspiro cansado e desceu as escadas rapidamente.
— Vamos?
Disse Soraia, dirigindo-se ao médico, que tomava café na cozinha, acompanhado dos outros mais velhos.
— Sim, claro!
Ele respondeu prontamente, levantando-se e seguindo-a.
Ao chegar ao pé da escada, Soraia virou-se para ele.
— Donana e Inácio já devem ter lhe explicado o ocorrido...
O médico apenas assentiu, pesaroso.
— Apenas... seja gentil.
Soraia concluiu, angustiada por ter que expor Alice àquela situação.
No quarto, Soraia explicava:
— Alice, ele precisa te examinar para atestar o que aconteceu.
A jovem suplicou, com lágrimas nos olhos.
— Por favor, Soraia... não faz isso comigo. Por favor! Não quero que ele me toque!
Aquele pedido atingiu Soraia como um soco no estômago.
— Meu anjo, olha pra mim...
Ela segurou o rosto da loira entre as mãos.
— Eu não vou sair daqui. Não vou te deixar sozinha.
Falava baixo, bem próxima do rosto dela, enquanto enxugava suas lágrimas.
— Ele não vai me tocar! Eu não quero, por favor!
O pranto voltou com força. Ao ver a relutância e o desespero de Alice, Soraia tomou uma decisão imediata.
— Dr. Marcos, sua esposa pode vir fazer essa avaliação? Dadas as circunstâncias?
— Claro, doutora. Vou pedir para a Márcia vir imediatamente.
— Eu lhe agradeço.
[...]
— Dra. Márcia, como vai?
— Dra. Soraia, quanto tempo! Que bom revê-la.
— Olá, Alice. Eu sou a Márcia e vou te examinar, se você permitir.
— Olá, doutora... só se a Soraia ficar comigo.
— Eu não vou a lugar nenhum, meu anjo.
— Promete?
— Prometo, princesa. Prometo.
Um abraço apertado selou uma promessa que ia muito além daquele momento.
A médica avaliou Alice cuidadosamente. Verificou seus parâmetros vitais, seu estado emocional, seus hematomas e, por fim, no exame ginecológico, constatou o que, infelizmente, era incontestável.
Alice estava dilacerada. No corpo... e ainda mais na alma.
Soraia agradeceu à médica e pediu desculpas por não acompanhá-la até o andar de baixo.
— Não se preocupe, doutora. Entendo perfeitamente a situação. Tenha uma boa noite.
— A senhora também. E obrigada. Agradeça ao Dr. Marcos por mim.
Ao fechar a porta do quarto, Soraia recostou a testa na madeira e soltou um suspiro lento. Respirou fundo e caminhou até Alice, que chorava baixinho, abraçada aos próprios joelhos.
— Perdão por te fazer passar por isso.
Soraia falou com os olhos marejados, sentando-se na cama e abraçando forte a frágil loira à sua frente.
Alice nada disse. Apenas se deixou envolver.
Ali permaneceram, sem perceber o tempo passar. Foram tiradas do transe quando Donana surgiu no quarto com uma bandeja grande nas mãos.
— Bati, mas vocês não respon...
Ao ver a cena, Soraia com os olhos vidrados e marejados, envolvendo Alice nos braços, enquanto a jovem repousava contra ela com o rosto marcado pelo choro, Donana sentiu um nó na garganta. Algumas lágrimas silenciosas e teimosas escaparam.
O silêncio era denso, interrompido apenas pelo choro contido de Alice e pela respiração pesada de Soraia. Dona Ana permaneceu à porta por alguns instantes antes de recuperar a compostura. Limpou discretamente o rosto e forçou um sorriso suave.
— Trouxe uma canjinha de galinha bem quentinha pra você, minha filha. Sei que não deve estar com fome, mas precisa se fortalecer.
Alice permaneceu imóvel, o rosto ainda escondido contra o peito de Soraia. A veterinária passou a mão com delicadeza pelos fios dourados da jovem, incentivando-a com voz baixa e terna.
— Você precisa comer um pouquinho, Alice. Só um pouco. Prometo que não vou insistir além disso.
Dona Ana caminhou até a cama e pousou a bandeja na mesa de cabeceira. Com carinho maternal, afagou os cabelos de Alice, que apenas apertou os olhos, tentando conter as lágrimas.
— Tudo bem, minha flor. Sem pressa.
Alice finalmente se afastou um pouco, ainda relutante, e ergueu a cabeça. Os olhos azuis estavam marejados, o rosto delicado marcado pelo sofrimento.
— Eu... eu vou tentar.
Dona Ana assentiu, acariciando levemente sua mão.
— Isso, minha filha. Um passinho de cada vez.
Soraia pegou a tigela e, com paciência, levou a colher à boca de Alice, que aceitou a primeira porção sem protestar. A canja quente desceu suave, trazendo um conforto inesperado.
— Viu? Tá gostoso. A Donana é expert.
Soraia tentou aliviar o peso do momento.
Alice assentiu e tomou mais algumas colheradas antes de se recostar novamente nela. Seus olhos estavam pesados. O cansaço era profundo, do corpo e da mente.
— Que tal dormir um pouco, meu anjo?
Soraia sugeriu, ajeitando o travesseiro para que ela deitasse. Antes que pudesse se afastar, Alice segurou sua mão.
— Fica... fica aqui... por favor.
Soraia hesitou por um instante. Olhou para Dona Ana, que apenas sorriu com ternura enquanto recolhia a bandeja.
— Eu levo isso lá pra baixo. Cuide dela, Soraia.
Soraia sentou-se ao lado da cama, segurando com firmeza a mão trêmula de Alice.
— Não vou a lugar nenhum.
Alice soltou um suspiro longo e fechou os olhos, sentindo-se protegida pela primeira vez em muito tempo.
Horas depois...
A madrugada avançava quando Alice começou a se remexer na cama. Seu rosto, antes sereno, agora se contraía em expressões de angústia. Pequenos murmúrios escapavam de seus lábios, enquanto seu corpo encolhia, refém do pesadelo que a assombrava.
Soraia despertou com os movimentos inquietos da loira. Observou, preocupada, e logo percebeu que Alice estava presa em um sonho ruim.
— Alice!
Chamou baixinho, tocando de leve seu braço.
Alice ofegou. Os olhos se abriram subitamente, ainda tomados pelo medo. Seu olhar vagou por um segundo antes de encontrar o de Soraia.
— Shhh... foi só um sonho ruim, meu anjo. Estou aqui.
Soraia sussurrou, deslizando a mão pelos cabelos da jovem para acalmá-la.
Alice engoliu em seco. Seu coração ainda disparado.
— Era ele... os olhos... ele tava aqui!
Soraia sentiu uma pontada no peito. Sabia que aqueles olhos verdes, tão parecidos com os de Amadeu, pertenciam a um fantasma muito mais cruel.
— Não está mais. Ninguém vai te machucar, Alice. Eu prometo.
Alice se aproximou lentamente, buscando aquele calor protetor. Soraia não hesitou em puxá-la para um abraço firme, permitindo que a loira se aconchegasse contra seu peito.
— Só dorme. Estou aqui.
Alice se apertou contra ela e, aos poucos, o tremor do seu corpo diminuiu. Soraia a abraçou ainda mais, sentindo o perfume suave dos cabelos dourados. Fechou os olhos e se permitiu beijar o topo da cabeça da mais nova.
E, naquele momento, no silêncio da fazenda, percebeu que estava disposta a qualquer coisa para proteger Alice.
Fim do capítulo
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