Capitulo 30 - Confiança
Capítulo trinta
CAROLINA FONSECA
Fiquei um pouco atônita quando minha secretária disse que Esther havia ligado na empresa perguntando se eu gostaria de passar o sábado com a Lara.
Quero dizer… É claro que eu gostaria, mas eu simplesmente não esperava por aquilo.
Naquela tarde, estava almoçando com Raquel. Ela me analisava silenciosamente, e pelo que eu já conhecia da minha amiga, logo seria questionada do porquê eu estava tão inquieta.
— O que está acontecendo, Carol? — ela disse, largando a bolsa no sofá que ficava no canto do escritório.
Como eu esperava.
Eu ri, precisava aliviar a pressão que estava acumulando no peito.
— Eu vou passar a tarde com a Lara. — Acho que naquele momento, eu parecia uma criança ansiosa por uma viagem de férias. Talvez foi isso que fez Raquel abrir um sorriso bobo.
– Só vocês duas? – Ela se sentou ao meu lado. – Ou… Com fiscalização? – Perguntou cuidadosamente.
Eu havia contado que Esther não parecia confiar em mim. Que todos os momentos que tive com Lara haviam sido sob a supervisão da minha ex.
Eu só nunca contei que parte de mim gostava dela ali.
– Sim, só nós duas. – Eu disse. E me esforcei o máximo que eu podia para esconder aquela faísca de decepção.
– E você já pensou na programação?
Sorri. Sim, eu tinha pensado o suficiente para só conseguir ir dormir de madrugada.
– Vou levá-la pro shopping, tomar um sorvete e fazer compras.
Raquel riu.
– É bem sua cara mesmo, amiga.
– O que? Você acha uma má ideia? – Franzi a testa, sentindo uma pontada de preocupação.
– Não, eu acho que faria igual. – A loira se debruçou sobre a minha mesa. – Quero dizer… Ir ao shopping, provar roupas… Eu sempre amei fazer essas coisas com a minha mãe.
Ela abriu um sorriso nostálgico. Ao contrário de mim, minha amiga havia tido uma mãe amorosa que genuinamente se importava com ela. Mas infelizmente a havia perdido para uma doença quando era apenas uma criança.
Às vezes o universo parecia operar de maneira sádica.
— Eu quero que ela tenha memórias boas sobre mim no futuro. – Baixei o olhar. – Eu ainda me sinto uma estranha… Ela mal fala comigo.
Raquel suspirou. – É porque você é uma estranha. – Disse uma verdade dura e óbvia. – Não se pode recuperar o tempo perdido, Carol. Você precisa se empenhar em conhecer quem sua filha é hoje.
Assenti, concordando e olhei para o movimento lá fora pela janela. Eu faria o possível para que o dia de amanhã fosse perfeito.
—
Meu sábado começou cedo. Embora eu soubesse que Esther só viria trazer Lara depois do almoço, eu estava uma pilha de nervos desde às 6h00 da manhã.
Abri meu notebook para conferir os e-mails. Eu tinha dito pra mim mesma que não mexeria com trabalho hoje, mas ainda eram 9h30 e eu morreria de tédio se ficasse apenas ali sentada no sofá da minha sala de estar.
Passei os olhos pela lista de convidados da festa de amanhã e fechei os olhos, sentindo uma leve pontada na cabeça. Para muitos ali, aquela era realmente uma festa, mas para mim, era uma grande reunião de negócios com música alta e bebida liberada.
O relógio marcou 10h45 da manhã. Peguei o telefone e procurei o contato da minha diretora de arte.
– Raquel? – Chamei quando ela me atendeu com a voz sonolenta. – Sério que eu te acordei? Já são quase onze horas!
– Ei! Hoje é meu dia de folga…
– Desculpa. – Disse esticando os pés e colocando-os em cima da mesinha de centro. – Eu só estava pensando no evento de amanhã, eu vou precisar muito de você pra lidar com aquelas pessoas.
– E você ligou pra saber se eu vou estar sóbria amanhã, não é? – Seu tom ficou sério e eu fiquei um pouco desconcertada. Porque era verdade.
– Eu só… – Pensei em dar uma desculpa, mas desisti. – Eu me preocupo.
– Relaxa Carol. – Raquel tentou me tranquilizar. – Eu sei separar trabalho de diversão.
Pensei em rebater, não tinha nada de diversão na forma que Raquel abusava do álcool e outras substâncias que eu tinha medo de saber. Mas não era uma boa ideia discutir sobre aquilo com ela, e além do mais, eu tinha minha parcela de culpa.
Eu a levei para um submundo de celebridades, festas particulares regadas a álcool e a outras coisas que às vezes saíam do meu controle.
Fiquei encarando a tela do celular alguns segundos depois de encerrar a chamada. Sempre que eu deixava meu pensamento falar mais alto, uma verdade incômoda pairava no ar.
Eu precisava me organizar para que Lara jamais tivesse contato com esse pedaço caótico da minha vida. Caso contrário, eu nunca teria a confiança plena da Esther.
Ouvi batidas na porta e saltei ajeitando minha roupa. Dei uma olhada rápida no espelho. Eu usava uma saia preta de couro, que quase chegava aos joelhos, e uma camisa de estampa floral. Prendi o cabelo em um coque desajeitado e corri até a porta.
– Oi meu amor. – Sorri e me abaixei para abraçar uma Lara ainda tímida, mas que não recusava mais minha aproximação. – Vocês chegaram cedo. – Eu disse erguendo o olhar para Esther, que tinha uma expressão curiosa no rosto. – Aconteceu alguma coisa… Esther? – A chamei.
– Não, eu só… – Ela inclinou a cabeça para algum ponto atrás de mim, dentro do apartamento. – Quis chegar mais cedo pra te passar algumas orientações.
Ah, claro que ela acha que eu não tenho capacidade de cuidar de uma criança por algumas horas. Eu pensei, mas não verbalizei aquela constatação. Apenas dei espaço para que ela passasse e fechei a porta atrás de nós duas.
– Mãe, olha! – Lara chamou, obviamente era com Esther, mas eu também a acompanhei. Pousei os olhos no objeto que minha filha segurava. Era uma câmera de revelação instantânea, aparentemente uma versão infantil, colorida. Ela pegou a foto que havia acabado de tirar e entregou a Esther.
– Ficou linda, meu amor.
– Era mais legal se não tivesse a grade. – Lara fez bico, se referindo a rede de proteção que eu pedi para instalar recentemente. Esther riu e pareceu convencê-la de que a grade tinha deixado a foto mais bonita.
– Ei… – Ela se aproximou enquanto Lara parecia entretida com a paisagem lá fora. – Eu tentei convencer ela de deixar a câmera em casa, mas ela ganhou isso ontem, vai demorar um pouco pra passar a empolgação.
– Ah, não tem problema. – Eu disse, olhando-a de longe. – É difícil ver ela tão empolgada assim aqui em casa. – Constatei sentindo uma pontada de ciúmes.
Eu não precisava perguntar, e Esther não precisava me dizer. Eu sabia quem havia dado aquele presente para minha filha. Eu sabia em quem Lara estava se espelhando enquanto segurava aquilo.
Senti o olhar de Esther sobre mim, mas não a encarei de volta.
– Eu… Vou pedir pra ela deixar a câmera comigo. – Ela disse se levantando e eu a segurei pelo braço.
– Esther, eu já disse que não tem problema. – Eu falei, soltando-a em seguida. Era estranho tocá-la, era natural e estranho ao mesmo tempo. Eu não sabia explicar.
– Tá bem… Desculpa. – Ela voltou a se sentar na cadeira de frente ao balcão da cozinha.
– Você está se desculpando pelo quê exatamente? – Falei baixinho, mas alto o suficiente para que ela escutasse e soltasse um longo suspiro.
– Olha, eu trouxe algumas coisas. – Esther ignorou minha pergunta e começou a mexer na bolsa tirando alguns itens. – Isso aqui é o remédio dela pra rinite… Faz tempo que ela não tem uma crise, mas achei bom trazer por precaução.
– Ah, eu também uso esse remédio. – Examinei o frasco.
– É, eu lembro. – Esther disse, e logo em seguida fez uma pausa. Provavelmente se repreendendo mentalmente por lembrar.
– Parece que ela herdou mais do que os meus olhos. – Brinquei para amenizar o clima.
– Pode apostar que sim. – Esther riu baixinho e tirou um frasco de protetor solar da bolsa. – Por favor, não deixa ela sair sem… Tá muito quente lá fora.
Franzi a testa, pensei em avisar Esther que eu também costumava comprar protetor solar, mas preferi não implicar com ela.
– Aqui… – Ela me estendeu um papel. – Tem uma lista com os endereços das sorveterias que ela gosta de ir.
A encarei, eu não sabia se tinha vontade de rir ou de brigar.
– Certo…
– Não tô dizendo que você tem que ir nessas… É só, uma dica. – Ela se explicou.
– Obrigada. – Guardei o papel no bolso. – Mais alguma coisa? – Perguntei brincando, mas ela realmente tirou um cartão de crédito da bolsa e me entregou.
– Você disse que vai ao shopping, então se ela quiser alguma coisa, você pode usar esse cartão, eu vou te passar a senha…
Respirei fundo e dessa vez tive que pará-la.
– Esther, chega. – Fiz um sinal para que ela parasse. – Ela também é minha filha. – Completei, vendo o olhar de confusão em seu rosto.
– Eu não disse que não é, eu só…
– Você faz parecer como se eu fosse uma babá. – A interrompi. – Eu posso cuidar bem dela, eu não vou colocá-la em perigo, e se a minha filha quiser algo, eu posso comprar com o meu dinheiro.
Meu tom era baixo, mas firme. Esther pareceu entender, ou pelo menos, preferiu recuar.
– Tudo bem, me desculpe. – Ela disse baixinho. E droga… Eu odiava conhecê-la tão bem ao ponto de dizer o que ela estava sentindo só pelo seu tom de voz.
– Esther… – Me aproximei. – Eu sei que não é por mal… Mas eu preciso que você me deixe ser mãe dela também.
– Eu sei. – Ela respirou fundo, como quem fazia força para controlar a tensão. – Eu vou… Só dar um beijo nela e te deixar no comando. – Sorriu fraco e saiu em direção a nossa filha.
Observei atentamente Esther se despedir da nossa filha com um beijo demorado na testa, e quando ela se virou para ir embora, eu senti uma vontade absurda de dizer alguma coisa que a fizesse ficar.
– Esther! – Chamei-a antes que fechasse a porta. Seus olhos cruzaram com os meus quando ela se virou, devagar.
– Ah… – Engoli em seco. O que eu estava fazendo? – Me passa seu número?
Minha ex permaneceu em silêncio por alguns segundos, que pareceram longos demais para minha ansiedade.
– É só pra caso eu precise perguntar algo sobre a Lara… Pode ser o telefone fixo mesmo… – Tratei de esclarecer. E sinceramente, acho que ter esclarecido soou mais suspeito ainda.
– Eu não vou estar em casa hoje à tarde, é melhor que seja o celular. – Ela disse enquanto anotava o número em um pedaço de papel e meu cerébro não parava de se perguntar onde ela estaria.
Eu sabia que não tinha o direito de perguntar.
E talvez eu não quisesse saber.
Fim do capítulo
Oláa, segue mais um capítulo pra vocês.
Não vai ser fácil Carolina conseguir a confiança plena da Esther, mas ela está tentando.
Um grande abraço a todas que estão acompanhando essa história <3
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