Capitulo 29 - Desconfianças
Capítulo vinte e oito
JAQUELINE MEDEIROS
Era madrugada quando Esther chegou.
O apartamento estava silencioso demais — não o silêncio tranquilo da noite, mas aquele que antecede algo inevitável. Eu estava sentada no sofá, a televisão ligada quase no mudo, quando ouvi a chave girar na fechadura. Levantei antes mesmo de vê-la entrar.
Ela percebeu na hora. Seus olhos encontraram os meus, e algo no jeito como ela largou a bolsa sobre a bancada denunciou que já esperava por aquela conversa. Tirou os sapatos com calma.
— A gente precisa conversar — eu disse, embora fosse óbvio.
Esther fechou os olhos por um instante.
— Eu sei… — respondeu, cansada. — Eu sinto muito pela situação no restaurante. A gente pode falar disso de manhã? Antes de você sair?
— Não. — Recusei, firme. — Vai ser agora.
Esther suspirou baixo. Caminhou até a cozinha, pegou um copo d’água e bebeu devagar, como se precisasse ganhar tempo. Observei cada movimento seu, sentindo um desconforto crescer no estômago — algo que eu ainda não queria nomear.
— Tudo bem… — disse por fim, apoiando-se na bancada. — Pode falar.
— Você quer me explicar o que foi aquilo?
Esther apoiou as mãos na pia.
— A Carolina apareceu na escola da Lara. Eu não sabia que ela estaria ali. Ela quis levá-la para almoçar e eu concordei.
Assenti lentamente, sentindo a irritação se misturar a outra coisa mais amarga.
— Eu não estou falando da Carolina — respondi. — Ainda.
Dei um passo à frente. — Estou falando de você dizer, na frente dela, que não quer ter uma família comigo.
O ar pareceu escapar de seus pulmões. Não em defesa — mas sim em alívio. E isso, por algum motivo, me incomodou.
— Meu amor… — Esther passou a mão pelos cabelos. — Criar uma criança exige muito. Eu dou tudo de mim pra Lara, e mesmo assim sinto que estou falhando o tempo todo. Eu não consigo nem imaginar ter outro filho.
Olhei nos olhos dela. Havia verdade ali. Mas também havia algo mais.
Culpa?
— E se fosse com a Carolina? — Arrisquei perguntar, quase contra a minha vontade. — Você pensaria da mesma forma?
O olhar que ela me devolveu foi duro, incrédulo.
— É sério que você tá me perguntando isso?
— Você acha que eu queria estar perguntando isso? — rebati. — Essa mulher tá se aproximando cada vez mais, Esther, e—
— Ela está se aproximando da filha dela! — me interrompeu. — Da filha dela. Você entende isso?
— Você acha mesmo que é só isso? — minha voz falhou por um segundo, mas continuei. — Ou você tá sendo ingênua… ou tá gostando dessa aproximação.
— Chega.
O tom foi baixo, mas firme. O rosto dela estava vermelho, os olhos faiscando de irritação — provavelmente era a primeira vez que a via assim.
— Você não quer dizer coisas das quais vai se arrepender depois. -- Ela desviou o olhar.
Sentei novamente no sofá, passando as mãos pelo rosto.
— Me desculpa… — murmurei. — Eu só… não consigo olhar pra ela e não ver uma ameaça.
Esther demorou alguns segundos antes de se sentar ao meu lado. A respiração ainda pesada, mas tentando se acalmar.
— É com você que eu estou — disse, segurando minha mão.
O brilho do anel no dedo dela me lembrou disso. Esther era minha noiva.
— Eu sei, mas…
Ela me beijou de leve, cortando a frase.
— É do seu lado que eu me deito todas as noites.
Aquela frase funcionou. Foi como se, momentaneamente, toda minha frustração tivesse dissipado.
Abracei-a pela cintura e aprofundei o beijo, conduzindo-a até o quarto. Senti uma breve hesitação quando a empurrei contra a cama.
— Jaque…
— O quê? — perguntei, sem soltá-la.
— Você não tem que acordar cedo amanhã?
Ri baixo.
— Eu sobrevivo.
Ela correspondeu ao beijo com mais vontade, e por alguns minutos eu me permiti esquecer tudo. O mundo se reduziu ao peso do corpo dela contra o meu, ao som contido da respiração, à certeza física de que ela estava ali e era minha.
Sim, ela era minha.
Ninguém no mundo tinha acesso a ela daquele jeito.
Empurrei minhas desconfianças para longe. Carolina era apenas a mãe da Lara. Nada além disso.
Nada.
Certo?
— Esther… — chamei mais tarde, em voz baixa.
Nenhuma resposta.
Ela já dormia.
Observei seu rosto relaxado e lembrei da primeira vez que a vi — bonita, centrada, segura. Mas foi a força dela que me fez ficar. A capacidade de manter tudo sob controle.
Talvez fosse isso que me assustasse agora: vê-la em uma situação onde controle não era uma opção.
Na manhã seguinte, acordei decidida a engolir minhas inseguranças.
Esther já estava de pé, organizando o café da manhã de Lara.
— Mas mãe… Se você não vai, eu posso ir com a Jaque? — Lara perguntou, contrariada.
— Ir pra onde? — perguntei, sentando à mesa com um sorriso.
— Amanhã ela vai passar a tarde com a Carolina — Esther respondeu.
Meu sorriso vacilou.
— Sozinha?
— Sim — disse ela, suspirando. — É importante que elas tenham um tempo juntas. Eu não posso ficar mediando tudo.
Abaixei o olhar por um instante, pensando se a discussão da noite anterior tinha pesado naquela decisão. Preferi não trazer a tona.
Olhei para Lara que me encarava com expectativa.
— Eu não posso ir com você visitar sua mãe, Lara — disse, suavemente. — Você precisa passar um tempo com ela, pra vocês se conhecerem melhor.
Ela fez um bico.
— Mas não tem nada pra fazer lá…
— A gente resolve isso — falei, já me levantando. — Hoje eu te trago um presente pra você, tá bom?
— Ei — Esther riu — O que você vai aprontar?
— Nada demais.
Joguei um beijo no ar antes de sair.
Desci as escadas tentando me convencer de que, se eu parasse de ver Carolina como uma ameaça, ela deixaria de ser uma.
Mas eu sabia a verdade.
O presente que eu iria comprar não era só para Lara. Era para que Carolina soubesse que eu estava ali.
E que eu fazia sim parte daquela família.
Fim do capítulo
Volteiii, mil desculpas pela demora, esse começo de ano foi uma loucura.
Obrigada a todas que estão comentando, e as que não estão comentando também haha
Um abraço e até a próxima.
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