Capitulo 28 - Fantasias
Capítulo vinte e oito
ESTHER MOTTA
Eu não esperava vê-la ali.
Quando vi Carolina parada perto do portão da escola de Lara, senti como se alguém tivesse deslocado o chão alguns centímetros para o lado.
Ela provavelmente vinha da empresa. Roupa social, acessórios discretos, não parecia tentar chamar atenção. E talvez fosse isso que mais me incomodava. Carolina nunca precisou se esforçar para ocupar espaço — ela simplesmente ocupava.
Por um segundo, pensei em fingir que não tinha visto. Em virar o rosto, e quando Lara aparecesse, puxaria-a pela mão e iria embora. Mas nossos olhares se cruzaram antes que eu pudesse decidir qualquer coisa, e aquele contato silencioso trouxe de volta uma intimidade que eu jurava ter enterrado.
— Carolina — eu disse, controlada demais para alguém que ainda sentia o estômago revirar só de pronunciar aquele nome.
Então ela pediu para almoçar conosco, e meu primeiro impulso foi negar. Tudo em mim gritava que aquilo era uma péssima ideia. Mas Lara estava ali, olhando curiosa, e havia algo nos olhos de Carolina que não era arrogância nem vitória.
Era… vulnerabilidade.
Aceitei antes de pensar demais. E me odiei por isso, porque o mundo parecia conspirar para me testar o tempo todo.
Quando Jaqueline apareceu ao lado da mesa, senti vergonha.
Não por estar ali com Carolina. Mas por não saber explicar uma situação perfeitamente inocente, sem parecer culpada.
Lara correu em direção a minha noiva e meu coração se apertou. Jaqueline era boa. Presente. Estável. Ela amava minha filha — e Lara a amava de volta.
Me senti mal por Carolina. Eu não podia fingir que aquilo não era minha culpa. Chamei Lara de volta discretamente e Jaqueline se aproximou, cuidadosa.
— Você também vai ter um bebê com a minha mãe um dia?
Aquela pergunta de Lara. Pura curiosidade infantil e talvez um pouco de receio de ser deixada de lado, me pegou muito desprevenida. A resposta ficou presa na minha garganta por um motivo que eu não conseguia explicar nem para mim mesma.
Com Carolina, tudo havia sido irracional. Existia uma urgência estranha, como se o tempo não estivesse ao nosso favor. Como se nós precisássemos viver o amor intensamente antes que tudo ruísse.
Meu relacionamento com Jaqueline não era assim. Jaqueline me trazia paz e tranquilidade. Ela era a mulher perfeita para se formar uma família, para construir aquele futuro que foi meu sonho durante anos.
Mas a verdade para a pergunta de Lara, era simples e feia.
Eu não queria. Eu sequer imaginava ter um filho com Jaqueline.
Cortei a resposta antes que Jaqueline pudesse terminar porque eu sabia que qualquer “talvez” seria uma mentira. Vi quando o rosto da minha noiva rachou e me senti mal por isso.
Ela se despediu e se afastou da mesa, magoada, e eu não fui atrás.
Não porque não me importasse — mas porque eu não sabia o que dizer à ela naquele momento.
Olhei para Carolina. Era muito difícil não desconfiar que ela tinha escolhido aquele restaurante de propósito. Ela negou rápido demais. Rápido como quem fala a verdade — ou como quem já ensaiou aquela resposta.
— O que você fez com o anel? -- Ela perguntou, como se não fosse nada. Senti um mal estar súbito no estômago, como se pudesse colocar tudo pra fora a qualquer momento.
O passado que eu enterrei há anos, e que eu só visitava involuntariamente durante as noites mais difíceis, estava bem ali na minha frente agora.
6 anos atrás
Meu reflexo no espelho não era dos melhores. Meus olhos levemente inchados refletiam os dias em que passei chorando até desidratar.
Olhei para a aliança de ouro no meu dedo anelar e senti meu rosto se banhar em lágrimas mais uma vez.
-- Isso aqui é pra não te levar comigo… -- Falei baixinho enquanto tirava o anel e colocava sobre a pia do banheiro da rodoviária.
Era um gesto simbólico. Eu precisava me convencer que deixar aquele pedaço de metal ali, significava que eu também não a levaria no meu pensamento. Eu queria esquecer que um dia nos conhecemos, que um dia eu a amei tanto, mas tanto, a ponto desse amor transbordar e afogar a nós duas.
Saí sem olhar pra trás, com a certeza de que aquela página na minha história havia sido virada definitivamente.
Mas não era o caso.
Carolina estava ali, na minha frente outra vez. O tempo só a deixara mais bonita. Ela estava tão entretida com nossa filha que devorava um pedaço de bolo de chocolate, alheia a todos os conflitos que nos cercava.
Por um minuto, meus pensamentos me traíram. Por um minuto, eu fantasiei que tudo tinha sido apenas um pesadelo. Que Carolina jamais tinha partido meu coração, e que eu nunca tinha ido embora e escondido Lara, e que aquele, era só mais um almoço em família normal.
Os olhos castanhos da minha ex se ergueram pra mim, me lembrando de que eu tinha que colocar os pés no chão. Tudo o que vivemos, por mais doloroso que tenha sido, era a nossa realidade.
Desviei o olhar, desconcertada.
-- Vamos embora? -- Falei para Lara que rapidamente assentiu. Seu olhar repousou em Carolina, como quem não sabia de que forma deveria se despedir.
Minha ex se abaixou e depositou um beijo breve no rosto da nossa filha. Sorriu ao perceber que não recebeu resistência.
-- Tchau Lara… Fiquei muito feliz em te ver hoje. -- Ela falou sorrindo, e depois me encarou por uns segundos. -- Você quer que eu me despeça de você com um beijo também? -- Arqueou as sobrancelhas.
-- Que?! -- A pergunta me pegou de surpresa, até notar o riso zombeteiro no rosto da minha ex. Soltei um suspiro irritado e virei as costas.
-- A gente se vê outro dia, Carolina.
Fim do capítulo
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