Capítulo 33 - O Labirinto de Tóquio
O momento que Ana havia aguardado por tanto tempo, enfim, havia chegado. Ela estava em frente ao imponente prédio do Grupo Kodama, a matriz da maior potência logística mundial. Não importavam os milhões em jogo, as complexas redes de transporte ou o poder econômico que aquela estrutura representava. A única coisa que Ana buscava era o perdão da mulher que amou e ainda amava tão intensamente, a princesa de todo esse império.
O Sol da tarde refletia forte nos vidros escuros do arranha-céu, quase ofuscando-a, mas Ana se forçou a encará-lo. Respirou fundo, sentindo o ar japonês, que parecia muito mais uma mistura de brisa fria e cheiros urbanos, preencher seus pulmões. Tomou coragem para dar o primeiro passo.
Grandes portas de vidro automático se abriram suavemente, e ao lado, um segurança alto e imóvel, vestido em um uniforme impecável, apenas observava a jovem que entrava. O hall era grandioso, com um pé direito duplo que parecia tocar o céu, revestido por mármore branco polido com elegantes detalhes em preto nas paredes, e o padrão inverso no chão, criando um jogo visual hipnotizante. Ana caminhou até o balcão da recepção, sentindo seus próprios passos ecoarem no silêncio luxuoso.
— Ohayō goz*imasu. (Bom dia.) — Ana cumprimentou, a voz um pouco mais trêmula do que gostaria.
A recepcionista, uma mulher com um sorriso profissional e cabelos presos em um coque perfeito, inclinou-se levemente. — Konnichiwa, nani ka o tetsudai shimashō ka? (Boa tarde, em que posso ajudar hoje?)
— Matsuzaki-san ni o-hanashi ga arimasu. (Eu gostaria de falar com a senhorita Matsuzaki.)
A recepcionista, com um movimento fluido, começou a digitar em seu computador, seus dedos ágeis deslizando pelo teclado.
— Shitsurei desuga, sono namae no kata wa o-ri ni narimasen ga. (Pedrão, mas não temos ninguém com esse nome.) — Ela disse, um leve tom de confusão na voz.
O rosto de Ana corou. O cansaço da viagem a estava traindo. — Ah, gomen nasai, Kodama-san desu. (Ah, perdão, eu quis dizer senhorita Kodama.)
— Hai, kochira wa Kodama kaisha de goz*imasu. (Sim, essa é a empresa Kodama.) Shikashi, Matsuzaki-san wa hataraite imasen. (Mas não temos nenhuma Matsuzaki trabalhando aqui.) — A recepcionista manteve o sorriso, mas os olhos inquisidores fixaram-se em Ana.
— Hai, wakarimasu. Desukara, dozo, Mizuki Kodama-san o yonde kudasai. (Sim, eu entendo. Mas, então, poderia, por gentileza, chamar a senhorita Mizuki Kodama.)
— O-namae wa nan desu ka? (Qual seria o nome da senhorita?)
— Ana Ribeiro desu. (Ana Ribeiro.)
— Kashikoi narimashita. Shōshō omachi kudasai. (Certo, um momento por favor.) — A recepcionista disse, e começou a discar um número no telefone.
Ana sentia como se seu coração estivesse subindo por sua garganta e que fosse sair por sua boca. As palmas das mãos suavam. Enfim, ela estaria frente a frente com Hinata depois de tanto tempo.
"Será que meu cabelo está bom? Será que minha cara está boa? Porque exausta eu com certeza estou. Talvez teria sido melhor se eu tivesse esperado e dormido um pouco antes de vir. Ah, agora não adianta, já estou aqui."
Ela tentou alisar o cabelo, sentindo-o grudento da viagem, e passou a mão pelo rosto, esperando que a maquiagem não tivesse derretido completamente.
— Ribeiro-san. (Senhorita Ribeiro.)
— Hai! (Sim!) — Ana respondeu, com um sobressalto.
— Mōshiwake goz*imasen ga, Kodama-san wa genzai, kono buisho ni wa inai to omoimasu. (Sinto informar, mas a Senhorita Kodama não está atuando nessa unidade no momento.)
O chão pareceu ceder sob os pés de Ana. A respiração falhou. — Kanojo wa hoka no buisho ni imasu ka? (Ela está em outra unidade?) — A voz mal saiu.
— Mōshiwake goz*imasen ga, sore ijō no jōhō o o-shirase suru koto wa dekimasen. (Infelizmente não tenho autorização para informar nada além disso.) — A recepcionista disse, a voz agora mais firme, o sorriso desaparecendo.
— Demo… Watashi wa tōi tokoro kara kimashita… (Mas… Eu vim de muito longe e…) — Ana tentou argumentar, o desespero tomando conta.
A recepcionista não se abalou. Sua expressão endureceu. — Dōzo, shitsuko ni shinaide kudasai. Sayō de nai to, keibi-in o yobu koto ni narimasu. Hoka ni nani ka go-yō desu ka? (Por favor, peço que não insista ou terei que chamar os seguranças. Ajudo em algo mais?)
Ana não respondeu. Ela sabia que não adiantaria discutir ou tentar argumentar com a moça em sua frente. O rosto inexpressivo da recepcionista era uma parede impenetrável. A jovem olhou para o lado e viu que o segurança, antes indiferente, agora estava atento aos acontecimentos, seus olhos fixos nela. Um arrepio percorreu sua espinha. Ana agradeceu com um aceno de cabeça e começou a caminhar para a porta, o mármore frio do chão parecendo gelar seus pés.
Havia muito o que pensar. Ana havia levantado duas hipóteses durante seu período de preparação: a primeira era que Hinata ainda a amava e a perdoaria, e quem sabe elas poderiam continuar de onde pararam; a segunda hipótese era de que Hinata já havia esquecido o sentimento por Ana, ou que talvez ele nem havia existido. Nesse caso, Ana já estava trabalhando a aceitação de que elas não ficariam juntas e que deveriam seguir com suas vidas.
Hinata poderia perdoar Ana ou não, porém talvez por ingenuidade a jovem não cogitou a possibilidade de que ela atravessaria o planeta e não conseguiria nem ao menos conversar com Hinata. Isso a pegou como um soco em seu estômago. E ali, tão longe de casa, em um país estrangeiro onde a língua e os costumes eram tão diferentes, Ana se viu totalmente perdida. Uma onda de solidão e frustração a atingiu com força.
Seguiu caminhando meio que sem rumo pelas ruas movimentadas do centro de Tóquio. Os arranha-céus pareciam se estender até as nuvens, as placas em japonês eram indecifráveis, e a cacofonia de vozes, anúncios e buzinas era avassaladora. Tudo estava confuso, e Ana não estava conseguindo ler as placas ou se orientar. Caminhou por várias quadras, por ruas estreitas e por avenidas vibrantes, com luzes de neon e telões gigantes, até que de longe avistou algumas árvores e, sem saber ao certo o motivo, seguiu por aquela direção, ansiando por um refúgio verde.
Ao se aproximar, viu que se tratava de um extenso parque. A visão linda de árvores cerejeiras, com flores rosas e brancas, formava um mar de cores que parecia flutuar sobre um extenso gramado muito bem cuidado. Avistou alguns visitantes caminhando pela área, tirando fotos. O aroma doce das flores pairava no ar. Ana andou até uma área do parque onde viu que não haviam muitas pessoas ao redor, sentou-se em um banco de madeira sob uma cerejeira. Ali, em um ambiente de paz e tranquilidade, conseguiu aos poucos acalmar sua mente agitada.
Lágrimas brotaram de seu rosto e, mesmo que Ana tentasse desesperadamente contê-las, ela não conseguiu. Elas escorreram quentes por suas bochechas, misturando-se com o suor frio do estresse e do cansaço. Quando ela finalmente se acalmou, percebeu o quanto estava perdida. Horas haviam se passado desde que saiu do prédio; o sol havia desaparecido no horizonte, pintando o céu em tons de laranja e roxo, e o parque mágico de antes havia se tornado um ambiente escuro e perigoso para uma jovem sozinha. As sombras se alongavam, e a beleza diurna deu lugar a uma paisagem misteriosa e um tanto assustadora.
Ana se levantou, sentindo um frio na barriga. Não tinha certeza por qual caminho ela havia vindo e nem por qual caminho deveria retornar. Olhou em seu celular, que estava na mochila, e se lembrou que não havia comprado um chip local para acessar a internet. Sem internet, ela estava também sem GPS, o que a faria ter que escolher ao acaso para qual lado ela deveria caminhar. Uma sensação de vulnerabilidade a invadiu.
Decidiu seguir o caminho pela direita e começou a caminhar, os passos apressados. Não via mais ninguém pelo parque, apenas a escuridão se apossando de cada área verde. Tentou apressar o passo para sair do parque, seguindo os caminhos de pedra e as pequenas iluminações nos postes que lutavam para romper a escuridão. Ana já estava ofegante, o coração batendo forte no peito, quando viu uma pequena lanterna se movendo ao longe. Alguém estava ali: um guarda talvez? Um vigia noturno? Assim ela esperava que fosse.
Ana começou a correr em direção à luz que vinha da lanterna, tropeçando um pouco nos caminhos irregulares.
— Hey, você! — ela gritou, sua voz embargada.
A lanterna se virou abruptamente para o rosto de Ana, que instintivamente colocou a mão no rosto para proteger seus olhos da luz intensa.
— Konbanwa, ojōsan. Konna ni osoku ni kōen de nani o shite iru n desu ka? (Boa noite, moça. O que faz no parque tão tarde da noite?) — perguntou uma voz masculina, grave e calma.
— Michi ni mayotte shimaimashita. (Eu me perdi.) — Ana respondeu, ainda ofegante.
— Kochira no kata dewa arimasen ne? (Não é daqui, estou certo?)
— Chigaimasu. (Não sou.) — Ela sorriu com vergonha, sentindo-se um pouco pateta pela situação. — O-tasuke itadakemasen ka? (O senhor poderia me ajudar?)
— Mochiron. Dōzo, watashi to issho ni kite kudasai. (Claro. Venha comigo, por favor.)
— Arigatō goz*imasu. (Muito obrigada.)
Ela acompanhou o senhor, que se revelou ser um guarda do parque. Enquanto caminhavam, ele falava em seu rádio, dizendo algo em japonês sobre ter encontrado uma moça perdida. Ana sentiu um alívio, certa de que a situação estava resolvida.
Chegando na guarita dos funcionários do parque, Ana viu que havia uma viatura e dois policiais esperando por ela. Os uniformes escuros e a seriedade dos rostos a fizeram engolir em seco.
— Konbanwa, ojōsan, o-namae o o-shirase kudasai. (Boa noite, moça, poderia nos dizer o seu nome?)
— Ana Ribeiro.
Um dos policiais começou a falar no rádio sobre o nome de Ana, enquanto o outro começou a preencher um formulário em um tablet, fazendo perguntas e pedindo o passaporte dela.
"Só faltava eu me encrencar com a polícia. Essa é a última coisa de que eu preciso."
Ana pensou, sentindo um nó no estômago.
Alguns minutos se passaram até que os policiais confirmaram a identidade de Ana e, em seguida, pediram que ela entrasse na viatura.
— Hoteru ni ikanakya ikenai dake. (Só preciso chegar até um hotel.) — Ana disse, tentando manter a calma.
— Anata o hoteru made o-okuri shimasu. (Iremos acompanhá-la até o hotel para que não se perca novamente.) — Um dos policiais disse com um sorriso mínimo.
Ana agradeceu, sentindo um misto de alívio e estranheza, e entrou na viatura. O carro, silencioso e espaçoso, começou a andar pelas ruas iluminadas da cidade. Era a primeira vez que Ana via Tóquio durante a noite. Havia uma quantidade razoável de carros, mas o que mais chamou a atenção era a quantidade de pessoas andando pela rua, em grupos, sozinhas, com suas roupas elegantes e expressões sérias.
Mais alguns minutos se passaram sem que a viatura parasse. Ana viu que estavam em uma espécie de estrada, as luzes da cidade diminuindo gradualmente.
— Wakamono yo, watashi tachiha doko heikuno desu ka? (Moço, para onde estamos indo mesmo?) — Ana perguntou, a voz tingida de uma nova preocupação.
Não houve resposta. Os dois policiais na frente mantinham os olhos fixos na estrada, seus rostos impassíveis.
"Droga, estou começando a pensar que ter sido presa pela polícia era melhor do que ser sequestrada. Será que esses são policiais de verdade?"
O coração de Ana começou a acelerar novamente. Ela tentou espiar pela janela, procurando por qualquer sinal, qualquer ponto de referência, mas a escuridão do lado de fora era densa.
— Hora, tochū de doko no hoteru demo oroshite moraeru yo. (Olha, vocês podem me deixar em qualquer hotel pelo caminho.) — Ana insistiu, tentando esconder o pavor crescente.
Novamente, os policiais não responderam. No visor do seu celular, Ana viu que já estavam rodando com o carro por mais de quinze minutos. De repente, eles pegaram uma saída e voltaram a andar em uma velocidade mais lenta.
"Eu poderia descer e sair correndo quando pararmos em um semáforo", ela pensou, avaliando suas opções.
Porém, essa parada não aconteceu. Eles seguiram por uma avenida mais estreita e depois pegaram uma saída ainda menor. A quantidade de árvores ao redor estava aumentando, claramente eles estavam saindo de uma zona urbana. A arquitetura dos edifícios começou a mudar, dando lugar a casas mais tradicionais, com telhados em estilo japonês.
O medo crescia exponencialmente a cada segundo que Ana permanecia naquele carro. Depois de tantas horas em um avião, o fuso horário e a exaustão emocional, a jovem começou a chorar silenciosamente. Desejava ter tido a chance de se despedir de seus pais, já esperando pelo pior. O cenário lá fora, que antes era uma aventura, agora se transformava em um pesadelo silencioso.
Fim do capítulo
Bom dia! Boa Tarde! Boa noite!
Gente.. ta tudo mundo bem ai??
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Sem cadastro
Em: 15/02/2026
Os pais de aninha são uns amores. Admiro muito a coragem de aninha . Esse final aí heim tá poaaaaa. Sei não hein. Tem cheiro de kodama no ar heim esse sequestro. Oremos q dee tudo certo
Sem cadastro
Em: 15/02/2026
Os pais de aninha são uns amores. Admiro muito a coragem de aninha . Esse final aí heim tá poaaaaa. Sei não hein. Tem cheiro de kodama no ar heim esse sequestro. Oremos q dee tudo certo
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HelOliveira
Em: 15/02/2026
Autora que matar suas leitoras do coração?
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