Capítulo 32 - A Paciência do Amor
Naquele dia, Ana decidiu dormir no sítio de seus pais. O jantar em família, com seus pais e irmãos, era um evento caloroso e barulhento, mas para Ana, ele não parecia totalmente completo. A ausência de Hinata era um buraco vazio na mesa e em seu peito, uma lembrança constante de que lhe faltava uma parte de si mesma.
As horas foram passando, e aos poucos, todos se recolheram para seus quartos. Dona Maria passou no quarto da filha para lhe desejar uma boa noite de sono, pedindo que ela não ficasse acordada até muito tarde. Mas Ana não podia evitar. Sua mente estava acelerada, fervendo com a decisão que havia tomado: estava decidida a ir para o Japão pedir desculpas para sua amada, mesmo que ela não aceitasse. A simples resolução de ir lhe deu um propósito e a ansiedade se misturou com a esperança.
Então, ela ficou horas e horas bolando um planejamento meticuloso para alcançar seu objetivo. Acendeu a luz de sua escrivaninha e abriu seu notebook, transformando seu desespero em “gráficos e listas”.
"Certo, vou para o Japão, então o que vou precisar primeiro?... hummm. Meu japonês melhorou bastante, mas acho que não o suficiente para me aventurar sozinha lá, então preciso me dedicar aos estudos do idioma."
Ela anotou a tarefa em um pequeno papel adesivo amarelo e colou em seu quadro na parede.
"Mas para isso não vou conseguir pagar um cursinho intensivo, vou precisar dar um jeito de melhorar sozinha. Ok, Ana, você consegue. É só eu tentar incluir o japonês em tudo na minha rotina, assim como eu fiz para aprender inglês. Outro ponto importante é que vou precisar de dinheiro, para a passagem, para a estadia, para a alimentação e o transporte enquanto estiver lá."
Ana anotou em outro papel, em letras maiúsculas: DINHEIRO.
"Esse ponto vai ser mais complicado... Mas dizer que preciso de dinheiro é bem vago. Quanto será que eu gastaria para viajar assim? Vejamos."
A garota começou sua pesquisa online, navegando por sites de passagens e hospedagem.
“Certo, primeiro eu precisaria ir pra Rodoviária em Serra Verde e pegar um ônibus para a BH… Deixa eu ver quanto está saindo a passagem… R$176,99 considerando a inflação posso considerar que devo pagar uns R$180 quando realmente estiver indo. Mas isso me levaria até a rodoviária, vou precisar de transporte para o Aeroporto Internacional que daria R$33,52 com transporte público, posso arredondar para R$35.”
Ela pegou seu celular e acessou o aplicativo do banco. Naquele momento, viu que sua conta bancária possuía pouco mais de R$2.500. Aquele número, embora pequeno, deixou seu coração cheio de esperança. Ela então decidiu pesquisar sobre as passagens de avião.
"Vejamos... A passagem de ida e volta, pelo que estou vendo aqui, ficaria em uns R$10 mil."
Isso era bem mais do que ela possuía no momento, mas a informação não a fez diminuir a esperança. Se ela trabalhasse duro, certamente conseguiria o valor necessário.
“Hospedagem com uma pesquisa mais superficial apareceu aqui que eu conseguiria por uns R$100 por noite naquelas cápsulas, então vou precisar levar o mínimo possível de bagagem. Mas isso me deixaria precisando de uns R$1400 porque afinal de contas se eu vou dar a volta ao mundo, mesmo que seja pra levar um pé na bunda pelo menos eu vou conhecer o país. Agora sobre alimentação devo gastar cerca de R$60 por dia o que me demanda mais R$900 aproximadamente. Vou precisar me locomover pela cidade e ainda bem que lá eles tem um passe unificado, uns R$2.200, e além do seguro viagem por uns R$300 e algum imprevisto que eu precise mais uns R$500. Pra conseguir eu vou precisar de uns 15.515, ou seja 16 mil.”
Ana encostou as costas na cadeira para respirar um pouco. O ideal seria que, além de tudo, ela ainda levasse consigo uma reserva de emergência, mas isso atrasaria ainda mais a sua viagem.
"Isso nos leva a mais uma questão... Vou precisar de um emprego. E para isso, vou precisar do meu currículo novamente. Agora eu deveria colocar meu curto período como estagiária? Ou meu ainda mais curto período como Gerente?"
Ela anotou em outro papel para pensar depois: Currículo >> Emprego.
No display, em seu celular, o relógio mostrava a hora, quase uma da madrugada, e sua energia estava totalmente esgotada. Ela estava há praticamente dois dias sem dormir de forma adequada. Sua última noite bem dormida foi nos braços da sua amada namorada. E, ainda que Ana estivesse assim, ela demorou para conseguir pegar no sono.
No dia seguinte, já com um planejamento mais estruturado, ela cuidou em organizar seu currículo. Decidiu registrar todas as suas experiências profissionais, incluindo sua breve passagem pelo Grupo Kodama, afinal, mesmo que tenha sido breve, só o fato de ela ter conseguido entrar já era um grande feito.
Então, alguns dias se passaram até que Ana fosse chamada para sua primeira entrevista. Durante a conversa com o responsável, ela foi questionada sobre os motivos que a levaram a ficar tão pouco tempo no emprego. Ela não soube o que responder. O entrevistador então agradeceu pelo tempo da jovem e, no dia seguinte, a rejeitou por e-mail. A justificativa era que procuravam alguém com mais experiência efetiva na área.
Mais dois dias se passaram, e outra empresa de uma fábrica de tecidos também a rejeitou. Uma semana mais tarde, mais uma empresa havia rejeitado. A frustração de Ana começou a se manifestar com uma pontada de desespero.
Durante esse período, Ana precisou pagar o aluguel de seu pequenino apartamento em Serra Verde, o que a fez pensar em entregar o lugar, pois sua conta bancária estava ainda mais vazia do que antes. Ela precisava resolver sua vida, caso contrário, seu objetivo de ir para o Japão jamais seria alcançado.
Ela decidiu então mudar de estratégia. Mudou seu currículo e começou a buscar emprego no comércio local. Conseguiu no restaurante da cidade, mesmo que não soubesse o ofício. A proprietária foi bastante gentil e a contratou. Não seria o salário dos sonhos, afinal a mulher oferecia um salário mínimo, porém os benefícios compensavam o esforço. Ela poderia fazer suas refeições todas no restaurante economizando com sua alimentação, e ela morava apenas a três quarteirões de distância o que eliminava a necessidade de transporte.
Então, Ana começou a trabalhar no restaurante. Como ela era garçonete, seu serviço era basicamente organizar o salão antes de abrirem, atender os clientes com um sorriso no rosto, ser simpática e educada para anotar os pedidos. O salário como bem definido era mínimo e, considerando que o compadre de seu pai havia deixado o aluguel pela metade do preço e juntando com a água e a luz, ela teria uma chance. Ela também iria gastar um pouco com o transporte para visitar seus pais nos fins de semana e pretendia não gastar com nada mais.
"Poxa, só consegui guardar R$700. O que já é bastante considerando o tanto que eu economizo. Mas só conseguirei viajar daqui a quase dois anos. Preciso encontrar algo a mais."
Ana pediu para sua mãe a ensinar a fazer seus famosos doces de mamão verde, doce de banana e doce de leite. Conversou com a proprietária do restaurante para que ela pudesse deixá-los a exposição no balcão do restaurante. Já que Ana era a garçonete, oferecia seus doces discretamente para todos os clientes, e aos poucos, conquistou alguns compradores fiéis.
Durante suas noites, ela começou a pegar alguns trabalhos paralelos, como pesquisas e projetos da faculdade. Muitos alunos de universidades de outros lugares viam seus anúncios e começaram a contratar Ana para pesquisar, elaborar artigos e até ensinar alguns conteúdos nos fins de semana.
Seis meses haviam se passado e em um sábado à tarde Pietro entrou no restaurante e foi cumprimentado com um sorriso genuíno de Ana.
— Oi Pietro, tudo bem?
— Uai, Ana tá trabalhando aqui agora?
— Tô sim. Mas e aí como andam as coisas?
— Ah o de sempre, trabalhando hoje sabe lá Deus até que horas pra finalmente fazermos a migração do servidor principal prá nossa nova sala. Ai sabe como é né?
— Ah sei — Ana concordou mesmo sem ter a menor ideia do que ele estava falando.
— Ah! Sabe quem apareceu? A Lucrécia passou lá na empresa esses dias toda bronzeada, ouvi ela falando pra quem quisesse ouvir no refeitório, que passou seis meses no Rio de Janeiro enquanto recebia o seguro desemprego.
— Nossa, queria eu ter umas férias dessas. Mas não é possível que ela tenha tanto tempo livre assim, tá desempregada e ainda arruma tempo pra ir se gabar na antiga empresa?
— Todos nós queriamos férias né, mas cá pra nós acho que ela vai ficar meio enrolada pra pagar um advogado que dê conta de manter ela fora da prisão. Ela só foi na empresa porque ela e o Jorge foram intimados para depor. — Ana ficou boquiaberta.
— O Jorge? Prisão? Como assim? — Ana sabia bem dos podres de Jorge mas não imaginava que a coisa toda estava se desenrolando assim.
— É, logo que você e a antiga diretora foram demitidas, o Jorge ficou cantando de galo por todo canto o mês inteiro, tentando mandar e desmandar, ele queria virar o novo gerente no seu lugar ou então queria o cargo de diretor. Mas o que ele acabou recebendo foi uma “justa causa”.
“Só uma justa causa? Pode ser pouco, mas mesmo uma vitória pequena ainda é uma vitória certo?”
Pietro continuou — Então além do Jorge ser demitido e não receber nenhum centavo, os advogados solicitaram um sequestro de bens, tudo o que o Jorge tem está bloqueado até terminarem as investigações do processo.
— No que você acha que vai dar isso?
— Normalmente eu diria que não ia dar em nada, mas nesse caso do Jorge acho que vai dar pano pra manga.
— Porque?
— No dia do depoimento me chamaram pra preparar a sala para videoconferência e aí eu fiquei de prontidão caso desse algum problema técnico. E acabei ouvindo umas coisas.
— O que você ouviu Pietro? Conta logo vai, eu nem trabalho mais lá. — Ana insistiu curiosa para saber mais daquela história.
— Quem participou da reunião foi o filho do Senhor Kodama. E o homem estava muito irritado. — Bastou a menção do nome Kodama para que o coração de Ana errasse algumas batidas — durante o depoimento o Jorge negou toda a história, disse que eram apenas acusações infundadas. Mas o vice-presidente pediu que solicitassem a prisão preventiva do Jorge e que os advogados do Grupo Kodama iriam providenciar outras duas ações coletivas contra ele. Sem ter o que fazer, ele saiu de lá acompanhado pela polícia direto para a delegacia.
— … — Ana não respondeu, estava espantada demais e digerindo tudo o que havia escutado de Pietro.
— Eu só estou te contando isso porque pra mim, na minha opinião, você estava investigando o Jorge e acabou sendo demitida no processo. Achei uma injustiça o que fizeram com você.
Ana não respondeu, mesmo sabendo que aquilo não era totalmente verdade, achou fofo da parte do Pietro. Ao menos sentia que, de algum modo, não apenas ela mas todos os que já haviam sofrido nas mãos de Jorge poderiam enfim ficar em paz.
—xxx—
Doze longos meses haviam se passado desde que ela decidiu ir para o Japão e Ana se sentia bastante cansada com sua rotina puxada. Em sua conta bancária, ela havia reunido um total de pouco mais de onze mil reais. A meta parecia mais próxima, mas a distância emocional ainda era gigantesca.
"Já tem um ano que Hinata foi embora. Talvez ela nem se lembre mais de mim."
— O que foi, fia? — Dona Maria perguntou, sentando-se ao lado da filha, percebendo o olhar distante dela.
— Nada não, mãe. Só estou pensando alto.
— Tá pensando na Renata, né?
— É, mãe, tô pensando nela. Provavelmente ela nem se lembra mais de mim.
— Fia, o que é da onça o lobo num come. — Dona Maria disse, com um sorriso enigmático.
— O que, mãe? — Ana perguntou, confusa.
— Uai, fia, se a Renata for a sua pessoa na vida, ela vai tá te esperando. Mas si num fô também, ocê vai ter certeza que feiz tudo que ocê podia pra ocês ficá junta.
— Eu sei, mãe, mas e se ela já estiver com alguém? E se eu nem consegui falar com ela? E se ela estiver casada e feliz? E se...
— Fia, ocê só vai sabê quando chegá lá. E se ela ainda te amá?
— Ah, mãe... — Ana suspirou, as dúvidas ainda a consumindo.
— Uai, aqueles negócio de conta qui ocê fica fazendo num isplica qui as coisa podi acontecê? Ocê num falava pra mim que se tivé um pur centu de chanci ainda podi acontece? Então? Porque num pode sê isso?
— Ta bem, mãe, é só que… às vezes parece que eu não vou conseguir. Já faz um ano que estou nessa e sei lá. Ainda falta muito.
— Intrega nas mãos de Deus, fia, tudo vai se encaixa.
Duas semanas depois seria o aniversário de Ana e, assim como foi o ano anterior, o vazio dentro dela parecia interminável. Ela nunca pôde comemorar seu aniversário com Hinata e nem mesmo sabia qual era a verdadeira data do aniversário da mulher que tanto amava.
A semana que se seguiu passou como um borrão na mente de Ana, talvez por não esperar pelo que viria, talvez por ter sido pega de surpresa, ela não sabia dizer. Mas, dias depois da conversa que teve com sua mãe, Ana recebeu uma notificação em seu telefone sobre um depósito em sua conta. Viu que o nome da conta de origem era o de seu pai.
Imediatamente, Ana ligou para seus pais para perguntar o que estava acontecendo. Sua mãe apenas explicou que aquele era o presente de aniversário de Ana daquele ano. Que, assim como ela se esforçou bastante para juntar dinheiro, seus pais também o fizeram e assim ela poderia fazer a viagem dos seus sonhos.
Ana não pôde conter as lágrimas que brotaram em seus olhos. A emoção havia tomado conta dela, tamanha a alegria por finalmente conseguir alcançar seu tão sonhado objetivo.
Os dias que se passaram foram tão intensos e cheios de adrenalina quanto uma final de Olimpíadas. A compra das passagens, a preparação da bagagem, a despedida de seus pais. Uma hora, ela estava no ônibus. Outra, em um carro de aplicativo. Ficou várias horas aguardando no aeroporto para embarcar e ficar por quase trinta horas até, finalmente, desembarcar em Tóquio.
Em um papel, ela preparou o endereço da matriz do Grupo Kodama na cidade. Mesmo que parecesse muita ansiedade da parte dela ir direto do aeroporto para encontrar Hinata, Ana já havia esperado por esse momento por um ano inteiro e, seja para reencontrar seu amor ou para sofrer uma desilusão, ela queria que acontecesse já em suas primeiras horas no país. Naquele momento, ela viu o grande prédio com vidros escuros e uma fachada cinza, com o nome KODAMA escrito em um grande letreiro simples e branco.
Só o que Ana precisava fazer era descer do carro e falar com a recepcionista. Seu coração parecia estar prestes a sair pela boca, e sua boca estava seca e parecia que nunca havia ingerido qualquer tipo de líquido na vida.
"Essa não é a hora de fraquejar, Ana. Você veio até aqui. Agora precisa firmar as pernas e andar até o saguão, falar com a moça e descobrir o que acontece depois."
Fim do capítulo
Bom dia! Boa Tarde! Boa Noite!
Respirem fundo que amanhã tem mais.
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Dessinha
Em: 15/02/2026
Que linda a Ana se esforçando e pensando no longo prazo para falar com a Hinata, que menina maravilhosa! E os pais então, nem se fala. Tomara que dê tudo certo em Tóquio e que ela consiga trazer a Hinata de volta.
EmiAlfena
Em: 15/02/2026
Autora da história
Tomara mesmo
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Sem cadastro
Em: 15/02/2026
Não é só o coração de Ana que vai sair pela boca...de fato ela conseguiu ir para o Japão...
Vamos torcer por ela agora
EmiAlfena
Em: 15/02/2026
Autora da história
Momentos decisivos
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