Capitulo 5
Londres. 12:45 PM.
O Agente Ethan, do MI5, ajustou o colarinho do sobretudo enquanto observava o circo se formar. Manter a imprensa e os curiosos atrás da fita amarela era uma tarefa inglória, especialmente sob a neve que agora caía com mais força, ameaçando ocultar pistas cruciais.
Entretanto, seu maior desafio não eram os repórteres famintos por um título sensacionalista, mas o jovem policial de guarda. O rapaz, claramente em sua primeira cena de crime real, não parava de tagarelar, despejando teorias absurdas sobre o cadáver de Ivan Fiedorov, que jazia de forma grotesca entre dois carros populares. Para o novato, era um assalto que deu errado; para Ethan, era uma execução realizada com a frieza de um mestre, um assassino profissional.
Ethan já havia apresentado suas credenciais falsas - uma identidade de detetive da Scotland Yard - para garantir acesso total. Aquele "quebra-cabeça" estava ganhando contornos espinhosos. Um agente da inteligência russa, de alto escalão, abatido como um amador em um estacionamento de subúrbio, era um incidente internacional em potencial.
As peças não apenas não se encaixavam; elas pareciam pertencer a jogos diferentes. Se os russos estavam sendo caçados em solo britânico, a segurança de Irina Zakirova em Larkhill deixara de ser uma precaução para se tornar uma contagem regressiva.
Com um suspiro que se transformou em uma nuvem de vapor no ar gélido, Ethan afastou-se do burburinho e sacou seu telefone criptografado. Era hora de reportar o desastre aos seus superiores e, mais importante, alertar a fazenda de que a tempestade não era apenas meteorológica. Entretanto, o número para o qual ligou, possuía o prefixo russo.
***
Larkhill. 12:00 PM.
Giovana atravessou o pátio com passos lentos, sentindo o peso da roupa encharcada e o frio da lama que começava a secar contra sua pele. Observou a pesada porta de carvalho engolir a figura de Irina, o som da aldrava de ferro ecoando como um veredito. Ela precisava daqueles segundos extras; precisava que a adrenalina da perseguição desse lugar à clareza da estratégia. O pânico de Irina não era apenas clínico; era o grito de um trauma profundo que a amnésia não conseguira silenciar.
Ao entrar, o calor da cozinha a atingiu junto com o murmúrio de vozes. A Sra. Jones, com as mãos paralisadas no pano de prato, olhava para as duas mulheres como se visse espectros sobreviventes de um naufrágio.
- Santo Cristo! - exclamou a senhora, a voz tingida de choque. - Uma depois da outra, cobertas de barro! O que aconteceu com vocês?
- Nada demais, senhora - Giovana forçou um tom leve, o humor servindo como sua armadura habitual. - Resolvemos testar se a terra de Larkhill era realmente boa para o plantio. - Seus olhos, porém, não acompanhavam o sorriso; eles escaneavam Irina com uma preocupação minuciosa.
- Foi um pequeno acidente - cortou Irina, a voz grave e rouca cortando a atmosfera. - Esta moça apenas tentou me ajudar. Se não for incômodo, preciso trocar estas ataduras e me limpar.
Enquanto a Sra. Jones apressava-se para preparar o banho, Irina sentou-se à mesa com uma rigidez que denunciava a dor física. Giovana aproximou-se, a mão pairando hesitante antes de tocar-lhe o ombro com cautela.
- Está tudo bem com você? - perguntou em voz baixa.
Irina ergueu o rosto, fixando os olhos nos de Giovana. - Estou bem agora. Desculpe por ter batido em você... e por tê-la arrastado para o barro - murmurou, antes de desviar o olhar para a xícara de chá que segurava com as mãos trêmulas.
Giovana sentiu uma vontade avassaladora de envolver aquela mulher em um abraço, de oferecer um refúgio contra os próprios demônios de Irina. Puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dela, o silêncio sendo preenchido apenas pelo som da chuva batendo no vidro.
- Posso lhe fazer uma pergunta? - a voz de Irina quebrou o silêncio, carregada de uma hesitação pesada. - Sobre ontem à noite... eu não sei o que dizer.
Giovana sentiu-se subitamente como uma recruta inexperiente sob o escrutínio daqueles olhos intensos. - Olha... - começou a gaguejar, a confiança da Major Baxter dissolvendo-se. - Sobre o beijo... a culpa foi minha. Eu perdi o controle.
- Eu estou confusa, senhorita. Nada aqui parece real - desabafou Irina, a respiração ficando curta. - Tudo parece fora de ordem. Ontem... por um momento, pareceu natural, mas eu não me encaixo nesta vida.
- Meu bem, você ainda está se recuperando do acidente...
- Não minta para mim! - O grito de Irina foi contido, mas carregado de uma fúria elétrica absurda. Ela cerrou os punhos, os olhos flamejando sob as pupilas dilatadas. - Posso não lembrar do meu nome, de quem sou realmente, mas não me subestime. Não cometa esse erro. Eu sinto a artificialidade de cada palavra, de cada gesto nesta casa!
Giovana agiu por instinto, segurando a mão de Irina com firmeza. Houve uma resistência inicial, mas logo os dedos se entrelaçaram, e uma corrente de calor percorreu as terminações nervosas de ambas.
- Confie em mim - pediu Giovana, a voz firme como aço. - Eu não quero o seu mal.
- Como confiar? - Irina arfou, o rosto contorcendo-se em uma epifania súbita. Uma pequena veia em sua fronte pulsava desordenadamente. - Eu percebo as coisas... eu percebo a técnica... eu sou... médica!
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Irina parou, estupefata com a própria revelação. - Eu sou médica! - repetiu, o sotaque tornando-se mais agudo, a confusão dando lugar a uma clareza aterrorizante. - Meu nome não é Campbell. Quem sou eu, senhorita? Quem sou eu?!
Antes que Giovana pudesse responder, o retorno da Sra. Jones cortou o fio daquela tensão insuportável. - O banho está pronto, querida. Vá agora, antes que pegue um resfriado.
O contato físico foi rompido bruscamente. Giovana levantou-se, sentindo o frio do barro ressecado em sua própria pele. - Também preciso me trocar - disse, observando Irina levantar-se com dificuldade, a armadura de gelo recompondo-se sobre sua face. - Se precisar de ajuda, é só falar.
- Não será necessário - respondeu Irina, a voz recuperando a frieza cortante enquanto saía da cozinha.
Giovana esperou que os passos dela sumissem na escada antes de se voltar para a anfitriã, o tom de voz caindo para um sussurro estratégico: - Sra. Jones, preciso falar com seu marido. Imediatamente.
Londres
O agente Ethan entrou em contato com o setor de contra inteligência do MI5 e mandou um e-mail criptografado através do ProtonMail para a agente Giovana Baxter, ali mesmo do hotel onde tinha acontecido o crime.
No e-mail, de forma genérica ele alertava para uma possível quebra de segurança e solicitava relatório da situação e os avanços obtidos.
Considerou o fato de que talvez fosse necessário enviar reforços a Larkhill, ideia que fora descartada pelo comando, que não queria muito movimento chamando a atenção para a área, antes que a ameaça pudesse ser identificada e neutralizada.
Por hora, a situação parecia sob controle. Se fosse necessário, ele mesmo iria até a cidadezinha. Agora, era imperativo identificar as circunstâncias em que o agente russo fora morto, quem e o motivo por trás da morte.
A notícia jogada a imprensa era de assalto, seguido de morte. Ele dera um jeito nos objetos pessoais do agente morto.
Ainda pensando sobre o caso, entrou no carro e seguiu pelas ruas estreitas rumo ao centro de Londres, sem perceber o Sedan preto de vidros escuros que o seguia.
***
Larkhill. 01:30 PM.
O vapor do banho quente ainda flutuava no quarto quando o sinal luminoso do celular de Giovana cortou a penumbra. Era um alerta de prioridade máxima. Ela leu a mensagem curta e codificada, que a direcionava imediatamente para o servidor seguro de e-mail.
Ao abrir o notebook, a luz da tela refletiu-se em seus olhos atentos. O conteúdo do e-mail era um soco no estômago: Ivan Fiedorov estava morto. Executado em Londres.
Giovana fechou o laptop com um estalo seco. Uma mistura de preocupação tática e uma raiva latente borbulhou em seu peito. A morte de um agente do calibre de Fiedorov em solo britânico significava que os "lobos" mencionados pelo Sr. Jones já haviam começado a caçar. A fazenda Larkhill, antes um refúgio seguro, agora parecia um alvo pintado de vermelho no mapa.
Ela voltou a secar os cabelos com vigor, os movimentos bruscos refletindo a engrenagem mental que buscava calcular cada variável. Se Irina era médica e não uma espiã, por que os russos - ou quem quer que os estivesse eliminando - a queriam tanto?
O som da porta ao lado se abrindo interrompeu seus pensamentos. Passos leves e hesitantes ecoaram pelo corredor. Irina.
Giovana parou, a toalha suspensa. Decidiu que era hora de encarar a situação com uma nova estratégia. Não podia mais se dar ao luxo de ser apenas a "escritora gentil". Precisava ser a protetora que Irina nem sabia que tinha.
Um ruído baixo vindo de seu próprio corpo a fez soltar um riso irônico. Seu estômago reclamava com insistência. A fome era um lembrete biológico de que, apesar da iminência do perigo, a vida continuava exigindo sustento.
Terminou de se vestir, ajustando a postura de comando sob as roupas civis, e desceu para a cozinha. O cheiro da comida da Sra. Jones era o único elemento de normalidade que restava naquele tabuleiro de sombras.
***
Larkhill. 02:00 PM.
Irina sentia o rasto de estática que Giovana deixava no ar. A memória dos lábios daquela mulher movendo-se sobre os seus - uma mistura de suavidade e urgência - provocava-lhe um braseiro ardente, puro fogo líquido espesso que parecia percorrer cada terminação nervosa do seu corpo. Bebeu um pouco de água, tentando focar-se no presente, mas a sua mente era um labirinto onde todos os caminhos levavam àquela estranha "escritora".
A Sra. Jones, entre o vapor das panelas, observava de soslaio. Irina parecia uma peça de um quebra cabeça que não encaixava naquela cozinha rústica, mas a sua presença era tão magnética que dominava o ambiente.
Os olhos de Irina fixaram-se na porta, como se pressentisse a presença desejada. No momento seguinte, Giovana entrou, e com ela, uma onda de calor. A texana de pele bronzeada trazia um sorriso no rosto, mas os seus olhos, afiados, procuraram imediatamente os de Irina. O olhar foi retribuído com uma firmeza que fez a curiosidade transformar-se em algo mais denso. A fome física, que antes as incomodava, tornou-se secundária perante uma outra fome - voraz, latente, que queimava em silêncio entre as duas.
- Olá - disse Giovana. - Olá - respondeu Irina.
Giovana sentou-se, sentindo o peso do olhar de Irina. Ao voltar-se para ela, surpreendeu-se ao ver um leve sorriso a desenhar-se naqueles lábios que, horas antes, tinha provado. O sorriso de Irina alargou-se, tornando-se algo raro e luminoso.
- O que foi? - perguntou Giovana, sentindo-se subitamente desajeitada. - Nada - respondeu Irina, mas o riso começou a borbulhar, genuíno, até que os seus olhos se inundaram de lágrimas de diversão.
- Como nada? Estás aí a rir sozinha e não é nada? - retrucou Giovana, deixando-se contagiar pela gargalhada franca da outra.
A Sra. Jones, espantada com a mudança radical na postura da mulher habitualmente taciturna, também começou a rir.
- Ai, menina... o seu cabelo! O que é que passou nele? Ficou tão... estranho - disse a senhora, aproximando-se. - O que é que tem o meu cabelo? - Giovana levou a mão à nuca, confusa.
A Sra. Jones contornou a mesa e passou os dedos pelo rabo de cavalo de Giovana. A mão saiu coberta por uma espuma oleosa e bem pegajosa. - Você pôs creme de corpo no cabelo?
- A mer... digo, não sei! - O rosto de Giovana incendiou-se num tom escarlate. - Usei um frasco que estava em cima da cômoda, nem li o rótulo direito.
- É creme de corpo, sim senhora. Deixei-o lá para ti- confirmou a Sra. Jones, entre risos.
Giovana olhou de soslaio para Irina, que agora se deliciava com a cena, ostentando um sorriso divertido e vitorioso. - Vou ter de lavar outra vez - resmungou Giovana, levantando-se apressada sob o som das gargalhadas das duas mulheres. - Ótimo, Baxter. Ficou parecendo uma pateta idiota - murmurou para si mesma enquanto subia as escadas.
Após um banho relâmpago, Giovana desceu com os cabelos úmidos presos numa trança simples. No caminho, cruzou-se com o Sr. Jones. Um breve movimento de lábios - "preciso falar contigo" - foi selado com um aceno discreto do homem: "depois". O jogo profissional continuava, mesmo que o coração batesse noutro ritmo.
Ao reentrar na cozinha, Giovana estava preparada para a troça. Fixou os olhos em Irina, sorriu de forma audaz e piscou-lhe um olho, deixando o seu olhar descer deliberadamente para os lábios da russa. Desta vez, foi Irina quem corou e desviou o olhar.
"Ponto para mim", pensou Giovana, recuperando a confiança.
- Muito bem, minha boa senhora, o que temos para comer? - anunciou em voz alta. - Sente-se, minha filha. Tenho algo para forrar o estômago.
- É melhor mesmo - disse Giovana, encarando Irina com uma intensidade despudorada. - Caso contrário, vou ficar com vontade de comer outra coisa que não serve propriamente para "forrar" o estômago.
Irina, compreendendo o subtexto carnal da frase, ficou da cor de um rubi. Giovana deleitou-se ao ver aquela mulher, habitualmente armada de respostas ácidas, perder o equilíbrio emocional.
- Não acha - continuou Giovana, acentuando cada sílaba - que existem coisas... bem melhores? - O seu sorriso era agora abertamente sedutor, o mesmo que usava quando queria desarmar alguém por quem sentia um desejo irreprimível.
- Hum-hum... - Irina pigarreou, tentando recuperar a compostura. - Tenho a certeza que sim, mas a questão é: saberia a senhorita dizer-me quais são?
O desafio estava lançado. O sorriso de Giovana alargou-se ainda mais. - Posso fazer melhor do que dizer, meu bem. Posso mostrar-lhe que existem prazeres que fazem a comida parecer irrelevante - respondeu, num tom de voz baixo e propositadamente rouco.
A Sra. Jones, alheia à eletricidade estática que ameaçava incendiar a mesa, colocou os pratos à frente de ambas. - Pronto, meninas. Comam antes que esfrie.
O contato visual quebrou-se. Giovana concentrou-se na comida, tentando acalmar o estômago e o sangue que ainda fervia. Irina seguiu-lhe o exemplo, mas o silêncio que se seguiu já não era o de duas desconhecidas, era o silêncio carregado de quem acabara de assinar um pacto silencioso de desejo.
***
Londres. 15:30 PM.
O homem baixo e de ombros largos, com a aba do chapéu voltada para baixo, projetando uma sombra densa sobre o rosto, a exemplo do "cara de sparring" - seu fiel escudeiro e assassino - parado a seu lado, observava a cena com um desprezo visceral. A poucos metros, um agente inglês falava ao telefone com a displicência de quem discute o menu do jantar, gesticulando de forma exagerada no meio da calçada movimentada do centro.
Tolos. Incompetentes. Um sorriso amargo e sem dentes surgiu em seus lábios. Se a mulher não tivesse escapado de suas mãos com aquela fúria inesperada, esses amadores do serviço secreto jamais estariam no jogo. Ele a havia subestimado; acreditara que a fragilidade do porte físico dela se traduziria em submissão. Estava enganado.
Ele levou os dedos enluvados ao nariz, sentindo a pontada aguda de dor que ainda persistia. A pancada que ela lhe desferira fora precisa e selvagem - o golpe de alguém que prefere a morte à captura.
Agora, ele não precisava mais caçar no escuro. Bastava esperar. Aqueles "quadrúpedes" da inteligência britânica, com sua burocracia e erros de principiante, seriam seus cães de caça involuntários. Eles abririam o caminho, eliminariam os obstáculos e, eventualmente, o levariam direto ao esconderijo dela.
E quando esse momento chegasse, ele não apenas recuperaria a maleta perdida. Ele saciaria a sede de vingança que queimava sob suas costelas. O próximo encontro não seria uma tentativa de captura; seria o acerto de contas por cada grama de orgulho que ela lhe arrancara ao rejeitá-lo. Seu telefone vibrou no bolso do sobretudo. Verificou a tela e abriu um sorriso maldoso, o prefixo era inglês...
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
[Faça o login para poder comentar]