Capitulo 3
Larkhill. 07:30 PM.
Giovana permaneceu imóvel junto ao batente, sentindo o impacto magnético daqueles olhos azuis profundo. Nenhuma das duas parecia disposta a romper o contato; era como se um diálogo silencioso e urgente ocorresse naquela fração de segundo, misturando uma estranha familiaridade com um desejo súbito de desvendar a outra.
- Então, aqui está nossa segunda hóspede - anunciou o Sr. Jones, quebrando o transe.
Giovana piscou, sentindo o chão retornar sob seus pés. Ela forçou um sorriso leve, a máscara de civil voltando ao lugar. - Boa noite, Sr. e Sra. Jones. Perdoem-me pelo atraso, mas a água quente daquela banheira foi uma tentação impossível de resistir.
- Não seja por isso, menina. Sente-se, a sopa está no ponto - respondeu a Sra. Jones com um gesto acolhedor.
Giovana acomodou-se na cadeira ao lado de Irina. O Sr. Jones tagarelava sobre o manejo das ovelhas e as dificuldades do clima, mas Giovana mal processava as palavras. Sua atenção estava voltada para a mulher taciturna ao seu lado. Irina emanava uma vibração de alerta máximo; ela não apenas ocupava o espaço, ela o vigiava.
Decidida a testar o terreno e estabelecer o vínculo necessário para a missão, Giovana tentou a abordagem mais simples - e, talvez, a mais perigosa com alguém tão perspicaz. - O tempo por aqui não dá trégua, não é? - perguntou, voltando-se para Irina.
Irina a encarou por um momento que pareceu durar uma eternidade, antes de voltar os olhos para o prato. Giovana preparou-se para o silêncio, mas a russa respondeu com a voz rouca, tingida por uma ironia cortante:
- Imagino que seja o esperado para o inverno inglês, embora eu não saiba exatamente onde estamos no mapa. Mas pretendo descobrir - afirmou ela, e o brilho determinado em seu olhar fez Giovana empertigar-se. - Além do mais, tenho a nítida impressão de que você é inteligente demais para acreditar que o clima é o assunto mais interessante que temos a discutir.
Giovana arqueou as sobrancelhas, surpresa. Não esperava encontrar garras tão afiadas em alguém que acabara de despertar em um vazio de identidade. A tigresa tem dentes e unhas, pensou, sentindo um misto de irritação e uma admiração perigosa. - Eu apenas quis puxar assunto - defendeu-se Giovana, mantendo o sorriso leve. - Você pareceu muito silenciosa desde que cheguei. Mas, se prefere pular os tópicos meteorológicos, estou à disposição para discutir qualquer outro assunto que lhe interesse.
Irina pousou os talheres com uma precisão gélida. - Não estou com disposição para jogos verbais esta noite, Miss Smith. Talvez em outra ocasião eu me sinta inclinada a decifrar seus subtextos. Com licença, vou me recolher.
O silêncio que se seguiu à saída abrupta de Irina foi pesado. Giovana baixou o talher, observando o lugar vazio ao seu lado. O Sr. Jones recostou-se na cadeira, a expressão subitamente séria. - Nossa "hóspede" não está comprando a história, Major. Teremos complicações antes do esperado.
A Sra. Jones começou a retirar a mesa em silêncio, enquanto o marido fixava o olhar em Giovana. - Precisamos alinhar os fatos - disse ele, o tom agora desprovido de qualquer hospitalidade camponesa. - Sou um agente aposentado do MI5. Ainda presto serviços quando o caso exige... como este.
- Eu já suspeitava - admitiu Giovana. - O que o senhor acha deste imbróglio?
- Acho que tanto o meu governo quanto o seu estão olhando para o lado errado - sentenciou Jones. - O modus operandi aqui não tem a assinatura do Serviço Secreto Russo. As ações são coordenadas demais para serem um acidente, mas desorganizadas demais para serem da inteligência oficial. Há lobos entre as ovelhas, Major. E essa mulher é o prêmio que todos querem, mas ninguém parece entender.
- Meu comando me enviou às cegas - confessou Giovana, sentindo o peso da responsabilidade aumentar. - Apostaram que minha falta de experiência em espionagem me tornaria mais "natural" para me aproximar dela. Quebraram todos os protocolos.
- Uma estratégia arriscada - Jones levantou-se. - Mas darei o suporte necessário. Por ora, descanse. Amanhã Larkhill nos mostrará sua verdadeira face.
Após a saída dos Jones, Giovana subiu para o quarto. Trocou o peso do disfarce por uma camiseta confortável e deitou-se, deixando o corpo afundar no colchão. Ela queria acreditar que os problemas seriam resolvidos à luz do dia, mas a imagem de Irina - as garras de fora, o olhar de fogo azul e por isto mais quente e a desconfiança latente - permanecia gravada em sua mente.
Aquela não era apenas uma missão de inteligência. Era um duelo de vontades. E, pela primeira vez na carreira, Giovana não tinha certeza se queria vencer ou ser capturada.
***
Larkhill. 03:00 AM.
Irina Zakirova - ou Margareth Campbell, como o roteiro alheio ditava - sentia o sangue pulsar com uma irritação febril. Trancada no quarto, ela andava de um lado para o outro antes de se deixar cair na cama. Quem era aquela mulher? E por que sua presença agia como um catalisador, despertando no corpo de Irina desejos que ela se recusava a nomear?
A lembrança do jantar era como uma brasa acesa. Ao fitar os lábios cheios e firmes de Giovana, Irina sentira uma vontade quase incontrolável de silenciar a conversa com um beijo. O rubor que lhe subiu às faces não era apenas de vergonha; era o calor de um reconhecimento sensorial profundo. Irritava-a profundamente que, enquanto seu corpo gritava em silêncio, a outra parecia ignorá-la, mantendo uma civilidade impecável com os Jones.
Ela nunca se imaginara sentindo algo assim por outra mulher. O vazio em sua memória tornava tudo mais assustador: seria esse desejo um pecado antigo ou uma faceta de si mesma que o trauma libertara? O pensamento de que suas reações eram "erradas" martelava em sua mente, mas a pele, úmida e sensível, desmentia qualquer tentativa de repressão moral que sua mente traiçoeira pudesse ter.
Quando o sono finalmente veio, não trouxe descanso, mas fragmentos de um passado estilhaçado.
No sonho, a escuridão era absoluta e fria. - Mamãe... - a voz de um menino, doce e urgente, ecoou pelo vazio.
Irina corria, os pés pesados como se estivessem presos em areia movediça. O desespero de não encontrar a origem daquela voz apertava seu peito até faltar o ar. No auge da agonia, ela despertou com um grito sufocado que morreu em seus lábios secos.
Estava empapada de suor, apesar do frio que entrava pelas frestas da janela. O calor que sentia vinha de dentro, uma febre de adrenalina e medo. Precisava de água. Precisava de realidade.
Lentamente, ela abriu a porta e ganhou o corredor escuro. A casa estava mergulhada em um silêncio sepulcral, interrompido apenas pelo estalo ocasional da madeira sob o vento. Guiada pela luz pálida que subia da sala de estar, Irina desceu as escadas como um fantasma em busca de alívio na cozinha, sem saber que o destino estava prestes a colocá-la novamente frente a frente com o objeto de sua maior perturbação.
***
Larkhill. 02:50 AM.
Algo no silêncio da casa, mais agudo que o uivo do vento, cortou o sono agitado de Giovana. Ela despertou em alerta, segurando a respiração enquanto os rangidos da madeira velha sob a tempestade tentavam mascarar qualquer intruso. Sentou-se, consultou o relógio e, movida por um instinto que misturava a Major Baxter com a curiosidade de Ellen Smith, calçou os chinelos e desceu as escadas em silêncio absoluto.
Na cozinha, a penumbra era espessa. Um ruído baixo vinha de trás da bancada. Giovana avançou com o corpo tenso, pronta para um confronto, mas o que encontrou foi um minúsculo gatinho de pelagem escura, que se enroscou em suas pernas com um ronronar carente.
- Mas o que você faz aqui, pequeno? - murmurou, relaxando os ombros por um segundo.
Antes que pudesse pegá-lo, o som de passos apressados a fez girar. O reflexo militar foi mais rápido que a razão; ela colidiu contra um corpo macio e segurou-o firmemente pelos braços, imobilizando-o.
- Ai! - o grito de Irina cortou o ar. - Me solte, está machucando!
- Meu Deus! - Giovana a soltou, apenas para abraçá-la instintivamente, o coração martelando contra as costelas. - Você quase me mata de susto.
- O meu braço... - sussurrou Irina, a voz trêmula.
- Me perdoe, eu não vi você no escuro.
As duas ficaram paradas, a respiração de uma misturando-se à da outra. Naquele vácuo de luz, a temperatura da cozinha pareceu subir violentamente. O olhar de Giovana desceu, hipnotizado, para os lábios de Irina. Ela não recuou; pelo contrário, buscou o abrigo daqueles braços fortes.
Giovana viu as pupilas de Irina dilatarem, devorando a pouca luz, e não encontrou resistência quando aproximou seu rosto do dela. O primeiro toque foi uma exploração lenta, um reconhecimento de texturas e sabores. Mas a faísca logo se tornou incêndio. Giovana introduziu a língua, aprofundando o beijo com uma fome que ignorava missões, passado ou identidades falsas. O mundo lá fora, com seus espiões e segredos, deixou de existir.
Ela deixou a boca deslizar pelo pescoço de Irina, sentindo a pele arrepiar-se sob seus lábios, enquanto as mãos da russa se enroscavam em seu pescoço com desespero. Foi quando Giovana deu uma leve mordiscada no queixo de Irina que o feitiço se quebrou.
Irina soltou um arquejo, empurrando Giovana com uma força súbita. Afastou-se, a mão sobre a boca, os olhos arregalados de choque e confusão. Ambas estavam ofegantes, o desejo ainda pairando entre elas como uma fumaça densa.
- Irin... Miss... está tudo bem? - tentou Giovana, a voz falha enquanto a razão voltava a assumir o controle. Por muito pouco não entregara o disfarce.
A russa não respondeu. Com um olhar carregado de pânico e algo que parecia desejo latente, ela deu meia-volta e fugiu em direção à escada, seus passos claudicantes ecoando no assoalho. Giovana ficou para trás, inerte, sentindo o gatinho voltar a se esfregar em seus tornozelos. Ela o pegou no colo, buscando uma âncora na realidade enquanto tentava organizar o caos em seu peito. O desejo ainda latej*v* em suas veias, no mesmo ritmo furioso da tempestade que castigava o telhado.
***
A manhã chegou envolta em uma névoa de chumbo que parecia enlatar a fazenda em umidade fria. Giovana acordou com a cabeça pesada, fruto de um sono fragmentado por sonhos onde o gosto de Irina era a única coisa real.
Sentia-se corroída pela culpa. Beijar sua protegida - uma mulher vulnerável e sem memória - era um erro tático e ético monumental. Parabéns, Baxter, é a sua consciência cobrando o preço, ironizou mentalmente enquanto buscava um analgésico na mala.
Com as roupas grossas servindo de armadura contra o frio e o próprio arrependimento, ela abriu o notebook. Havia cinco e-mails urgentes de Londres. Respirou fundo, forçando-se a voltar a ser a Major, e começou a digitar as respostas, embora soubesse que, depois daquela noite, nada em Larkhill voltaria a ser simples.
***
Larkhill. 08:30 AM.
A Sra. Jones já havia disposto o café sobre a mesa de madeira quando Giovana desceu. O aroma de pão fresco e café forte tentava, sem sucesso, dissipar a tensão que a Major carregava nos ombros.
- Bom dia - saudou Giovana, a voz ainda marcada pelo cansaço. - Bom dia, querida. Achei que teria de ir buscá-la para que o desjejum não esfriasse - comentou a senhora com um sorriso materno. - Perdi a hora. A noite não foi das melhores - admitiu Giovana, servindo-se. - A propósito, encontrei um gatinho na cozinha durante a madrugada. Acabei dando um pouco de leite a ele.
- Oh, não se preocupe! Deve ser um dos filhotes da gata que se alojou no celeiro. O Jones adora gatos e sempre deixa comida para eles; agora eles acham que a cozinha é território deles - explicou a Sra. Jones, rindo. - Quando meu marido voltar da lida com as ovelhas, pedirei que a leve até lá para ver os outros.
- Eu adoraria - respondeu Giovana, tentando soar casual, antes de lançar a pergunta que realmente importava: - E... a Srta. Campbell? Já desceu?
- Ainda não. Ouvi-a movimentando-se pelo quarto mais cedo, mas pareceu preferir o isolamento. Pobre alma... - a Sra. Jones suspirou, colocando bolinhos com mel diante de Giovana. - Sinto que ela carrega um fardo muito pesado, mesmo sem saber qual é.
- Sim - concordou Giovana, a culpa pelo beijo da madrugada latejando junto com sua enxaqueca. - Mas faremos o necessário para mantê-la a salvo.
A Sra. Jones assentiu e retirou-se, deixando Giovana a sós com seus pensamentos e seus e-mails de Londres.
No andar de cima, Irina Zakirova vivia seu próprio inferno particular. Ela permanecia na cama, o corpo imóvel, mas a mente em chamas. O beijo de Giovana era uma tatuagem em sua memória: o calor, o desejo proibido, a entrega que quase ocorrera. Sentia raiva da própria vulnerabilidade e medo do que aquele magnetismo poderia causar.
Além da confusão erótica, os pesadelos com o menino de cabelos escuros haviam retornado com uma intensidade física. As lágrimas escorriam, traçando caminhos quentes em seu rosto pálido. Ela sabia que aquela criança era a âncora de sua identidade, o pedaço de alma que a amnésia tentava ocultar.
Irina decidiu que passaria a manhã trancada. Precisava de ordem, não de mais caos. No entanto, enquanto divagava, uma imagem rompeu a barreira do esquecimento com a violência de uma explosão: um homem loiro, de porte robusto e sorriso sádico, empunhando um chicote. O brilho maligno em seus olhos era tão real que Irina sentiu o estalo do couro no ar.
O terror foi absoluto. Um grito lancinante rasgou sua garganta antes que ela pudesse contê-lo. Seu corpo reagiu sob o efeito de uma descarga maciça de adrenalina - o instinto de "luta ou fuga" assumindo o controle.
Lavou o rosto freneticamente, tentando apagar a visão, vestiu-se com as mãos trêmulas e disparou em direção à porta. Ela precisava sair daquele quarto. Precisava de ajuda, mesmo que a ajuda viesse da mulher que ela jurara evitar.
Giovana, na cozinha, congelou ao ouvir o grito. Por um segundo, seu cérebro processou a ameaça externa, mas a acústica da casa não deixava dúvidas: vinha de cima.
Derrubou a cadeira no processo, o instinto da Boina Verde suplantando qualquer disfarce. Em dois saltos, ela já estava no pé da escada, subindo os degraus de três em três, pronta para enfrentar qualquer fantasma - real ou imaginário - que estivesse torturando Irina.
Fim do capítulo
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