Capítulo 5

Capitulo 5 - Os Muitos Porquês

de Cancionitas de Amor - Diários de Um Coração, por Nay Rosario

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Assim que o dia amanheceu, levei a arca para minha casa. Não gostaria de mais uma discussão sem motivo com minha mãe ou irmãos. Lilian e Agnes ainda dormiam, abraçadas e exaustas emocionalmente. Entrar no meu cantinho, era imergir em memórias de um ontem distante e que não mais se repetiria. Deixei a arca em cima da mesa de centro em madeira envernizada com o aspecto envelhecido que completava o conjunto com uma estante lateral, o suporte da televisão, mesa de jantar e armário de louças espanholas dadas por vovó. 

Quase toda a família tem gosto por cores extravagantes que vibrem uma explosão sentimental. Se bem que há sempre granadas por baixo das mesas nas reuniões e eventos, analisando friamente. Quando pensei no meu espaço, queria imprimir um pouco de minha tranquilidade e introspecção. Conversei com Virgínia Santoro, uma arquiteta e designer de interiores com uma percepção surreal daquilo que a gente diz e o que deixa nas entrelinhas. A casa ficou esplêndida. As paredes da sala e cozinha em tons neutros e os quartos com cores distintas. Os móveis deixavam a impressão minimalista, ao mesmo passo em que abraçava quem estivesse no ambiente. Aconchego e segurança eram o resultado final. Sentei no sofá de couro preto e abri o primeiro álbum. 

Recortes de jornais com manchetes sobre La Señora, concertos e apresentações com orquestras. Fotos com políticos e pessoas influentes da época. Atrás de algumas tinham anotações e datas. Flores secas grudadas no verso junto a trechos de poemas. Terminei de folheá-lo e peguei uma carta que estava logo em cima. Ao ler o remetente, surpreendi-me. Era ninguém mais, ninguém menos do que Luis Alberto Del Paraná. Um dos fundadores do grupo Los Três Paraguayos e que se tornou amigo de vovó no breve tempo em que conviveram. Na estante dos discos tem alguns e eu sempre a escutava cantarolar com seu sotaque acentuado. Enquanto desvendava um dos muitos mistérios de Inês, tentava acertar a letra.

 

- “Dios te ha dado la gracia del cielo, Maria Dolores. Y en tus ojos, en vez demirada, hay rayos del sol. Dejame que te cante, morena de mis amores...”

 

O som da campainha adiantou o fim do meu concerto desafinado para uma pequena plateia imóvel, porém atenta. A parte boa era que não haveria julgamentos, ao final. Andei descalça, pelo piso de madeira, em direção a porta. Olhei quem cogitava a ideia de me importunar e vi minha tia com uma travessa coberta por um pano de prato. Meu estômago manifestou-se e levei um susto ao dar-me conta de que já estava próximo do horário que, tínhamos por hábito, almoçar. Abri a porta contente e dei passagem para ela adentrar.

 

- Antes que você se sinta mal, trouxe o almoço. Prato especial.

- Que seria...?

- Assado e puchero.

-Ai! Que saudade do puchero da vovó.

- E quem disse que não é a receita dela?! 

- QUE?! Como?! Nem para mamãe ela passou essa receita.

- Ela me deixou o livro dela de presente. 

- É! Ela soube bem como presentear a todos que estimava.

 

Passeei meus olhos pelo sofá e titia acompanhou até se dar conta de que havia uma arca ali. Voltou seus olhos questionadores para mim e afirmei com a cabeça. Respondi a pergunta silenciosa. Creio que todos que já haviam a visto escrever em seus diários tinham curiosidade de saber as histórias que ela eternizou naquelas linhas e folhas. Depois de alimentar o corpo e ajudar Lilian com a louça, sentamos no sofá. Mostrei todo o conteúdo a ela e vi um vinco de preocupação se formar em sua testa. 

 

- Quando eu tinha uns quatorze anos, a perguntei se ela sabia algo sobre meus verdadeiros pais. Ela me olhou como se quisesse ler o que pensava. Depois de alguns minutos, ela respondeu que o passado deve ser recordado como aprendizado de lições e não como se ele fosse a resposta para as ações presentes. Nunca mais toquei no assunto.

-Abuela tinha uma maneira assertiva de encerrar qualquer assunto. Mas acho que aqui pode ter as respostas que procura. Se quiser...

-Eu quero! Se não se importar. 

 

 

Dei um sorriso singelo para ela. Tia Lilian era investigadora da polícia civil e há anos procurava qualquer pista dos pais sem sucesso. Os diários eram intitulados de acordo com o período e conteúdo interno. Pela ordem cronológica escolhemos “Infância” que estava nas mãos de Lilian e ela iniciou a leitura.

Fim do capítulo

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