VINTE E CINCO BAHT
O ar não vinha. Ela abriu os olhos de repente e sentou-se no colchão. Confusa, observou sua volta, porque tinha a impressão de estar sendo observada. O coração acelerado fazia seu peito doer. Esfregou os olhos alarmada, notando que os cabelos estavam colados na nuca e o suor pingava de sua testa.
Arrastou-se para fora da cama, ouvindo o farfalhar das cobertas.
Cambaleante, entrou no banheiro apoiando-se no batente da porta. Abriu o registro do chuveiro, arrancou as roupas suadas do corpo e atirou no chão. Quando entrou de cabeça embaixo da água, os respingos gelados arrepiavam sua pele. Cruzou os braços na frente do corpo, como se acolhesse a si mesma. Fechou os olhos e respirou longamente, tentando retomar o controle. Mesmo assim, a mente sobrecarregada ainda relembrava o horror da noite passada. Aquela silhueta e o cheiro das vestes sujas de sangue tinham uma realidade perturbadora.
Momentos mais tarde, já vestida com o uniforme, a garota procurava por algo para comer. Desanimada, observou que havia apenas macarrão instantâneo em seu armário. Preparou o alimento depressa e o devorou como se fosse um banquete.
Enquanto guardava os livros e anotações na mochila, recordou-se daquele rosto enigmático que parecia colado em sua mente. A doutora tinha uma beleza exuberante. Aqueles lábios cheios com um arco do cupido bem feito não condiziam com a personalidade ranzinza, decretou. Com esse pensamento, os olhos amendoados procuraram pelo jaleco da doutora.
Havia lavado com sabão de coco e fez sumir todas as manchas escuras. O tecido estava seco, finalmente. O calor implacável de Bangkok havia feito o trabalho pesado por ela. A garota aproximou-se do cabide onde estava pendurado e o pegou com delicadeza, avaliando mais de perto o estado do tecido. Sorriu. A peça estava tão impecável quanto antes.
Temendo um odor desagradável na peça, a levou ao nariz. Experimentou. Exalava frescor suave e limpeza. Segurou a gola com os dedos e inspirou novamente. O cheiro doce e frutado fez com que fechasse os olhos e suspirasse de contentamento. Um vazio leve e nervoso chegou ao seu estômago. Sem entender, decidiu chutar que vivenciava aquela sensação por conta do estresse da investigação. Dobrou o traje com cuidado e o guardou na mochila.
A universidade ficava a uma distância curta de Nirunthai. Pensando nisso, decidiu que iria visitar a doutora Malisorn antes de ir para as aulas. Saindo de seu apartamento, caminhou pelas ruas em direção ao ponto de ônibus. Embora fosse cedo, o sol já estava ardendo em sua pele. Prestes a chegar no ponto de ônibus, uma ideia lhe ocorreu.
Entrou em um mercadinho de esquina que sempre costumava ir. Desejou um bom dia educado para o comerciante e observou alguns doces distribuídos nas prateleiras.
- Lung*, quanto custa este? - Ergueu a mão, indicando uma barra de chocolate premium. O senhor rechonchudo de óculos redondos ergueu os olhos da revista de palavras cruzadas e respondeu.
- São quarenta baht, menina!
No bolso da saia, a garota segurava firmemente uma única cédula entre os dedos.Temeu precisar do dinheiro depois, então continuou observando os produtos. No balcão, havia um saco com algumas embalagens douradas que chamou sua atenção. Eram moedinhas de chocolate.
- E esse, lung?
- Três por 25 baht.
Perfeito. Yoko pagou pelos chocolates, inclinou levemente a cabeça com as mãos unidas num wai e saiu logo em seguida.
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De volta ao reino de mármore, caminhava com passos confiantes em direção à recepção. Embora a doutora tenha afirmado que não gostaria de vê-la novamente, a garota tentaria a sorte. Sorrindo mecanicamente, encostou-se levemente no balcão.
- Bom dia. Estou aqui para ver a doutora Malisorn. - Disse em tom gentil e decidido. A recepcionista a encarou como se olhasse o fundo de sua alma e conferiu
- Você tem hora marcada para vê-la? - As bochechas da estudante ardiam e um tanto sem jeito, mexeu nos cabelos
- Não. Preciso entregar uma coisa para ela. - Desviou o olhar, fingindo observar a decoração local.
- Certo, irei avisá-la. Qual seu nome, querida?
Yoko ponderou. Talvez fosse melhor que Faye não soubesse seu nome verdadeiro. Entretanto, descartou essa hipótese na mesma hora.
- Yoko. Yoko Apasra. - Seus lábios se puxaram para cima levemente quando observou que a mulher já tirava o telefone no gancho.
A conversa entre as duas foi breve e logo em seguida, devolvendo o telefone com calma para seu lugar, proferiu para a menina.
- A doutora Malisorn pediu para que você esperasse por ela ali no saguão. Ela virá para vê-la daqui a pouco.
- Obrigada!
A garota deu as costas e sentou-se numa poltrona vermelha. Era um pouco afastado da recepção, então poderia respirar tranquila por mais alguns minutos. O leve ruído do ar condicionado zumbia em seus ouvidos e sua pele estava arrepiada. Talvez porque ali dentro estivesse frio em relação ao calor que fazia naquela estação do ano, pensou. Os passos das pessoas em sua volta e a luz fria a deixava em estado de alerta. Passaram-se quinze minutos, depois mais vinte e não havia sinal da doutora. Será que ela havia esquecido? Ou talvez estivesse demorando de propósito para puni-la pelo esbarrão do dia anterior. Mexeu os pés inquietos, querendo ir embora dali.
No meio das divagações, uma mão tocou seu ombro com suavidade. Um choque elétrico passou por todo seu corpo, a fazendo pular alarmada.
- Desculpe, não percebi que estava distraída. - A mulher muito mais alta a sua frente a observava com feição neutra. Ela me pediu desculpas? Yoko abriu um pouco os lábios enquanto se recuperava
- Claro, não… Se preocupe com isso… - Escolhia as palavras certas. A presença daquela mulher era esmagadora. - Trouxe seu jaleco. Limpinho, como falei.
Desajeitadamente, Yoko levantou-se. Esticou as mãos para alcançar sua bolsa, mas a mão quente a impediu.
- Gostaria de conversar um pouco com você. Me acompanha para um café?
De imediato, sentiu as bochechas arderem novamente. Instintivamente, levou uma das mãos ao bolso, segurando as moedas que havia recebido de troco. O embaraço da situação a havia pego de surpresa.
- Desculpe, não posso, eu… - A voz rouca cortou no mesmo instante
- Apenas vou te pagar um café. Da outra vez, você não pôde tomar porque derrubou em mim, certo? - A mulher se aproximou um pouco. O cheiro frutado era intoxicante demais para a estudante, que por um instante, se pegou dando uma longa inspirada.
Sua pulsação estava acelerada. Assentiu com a cabeça e logo em seguida, foi pega de surpresa. Faye segurou sua mão e a guiou para fora daquelas paredes geladas. Notava como a mão estava tão quente e que a sua parecia tão pequena em comparação.
O ar abafado lhe deu as boas vindas novamente.
Conduzida pelos jardins e caminhando pelas pedrinhas brancas da lateral esquerda, avistou uma cafeteria. Era bem bonita e tinha um aspecto acolhedor, mesmo para quem observava apenas pelo lado de fora. Sua fachada era cor de rosa e na vitrine, havia várias sobremesas em exposição.
Quando cruzaram a entrada, o cheiro de café fresquinho a abraçou. Seus passos pareciam mais leves, como se flutuasse. Deixou os olhos passearem pelas vitrines com encantamento. Havia doces de todos os tipos e ela se imaginou provando todos eles.
Estavam em silêncio desde que saíram de Nirunthai, mas Faye não parecia estar incomodada. Aliás, ela já não tinha mais olheiras como antes. Suavemente, foi conduzida até a mesa. Uma cadeira foi puxada para que sentasse e de uma hora para outra, foi deixada sozinha.
Avistou a mulher no caixa fazendo os pedidos. Ela era bem alta, deveria ter quase um metro e oitenta.
Yoko riu baixinho quando percebeu que talvez, se ela esticasse o braço, poderia tocar o teto, já que o pé direito era baixo. Desviou o olhar quando observou que ela voltava para a mesa.
A doutora acomodou-se na cadeira à frente dela. A postura da mulher era elegante e seus movimentos delicados. Perdida no magnetismo de Faye, notou que era encarada de volta. Desviou o olhar, tímida.
- Sinto muito por ontem, Yoko. Estava num dia difícil e quando você acabou tropeçando em mim, foi o estopim. Sei que não teve culpa e… Eu não queria ser rude. - Por poucos instantes, a garota sentiu o olhar caloroso da mais velha, porém, não se perdurou.
- Eu compreendo. Eu queria te pedir desculpas novamente, não deve ter sido nada agradável ser lavada de café quente. Ter deixado seu jaleco limpo era o mínimo que eu poderia fazer. - Seu estômago doeu ao recordar daquele desastre. Yoko cerrou o punho com força, agarrando um pouco do tecido da saia.
Ficaram em silêncio por algum tempo, até que a atendente trouxe uma bandeja com dois cafés e alguns tipos de doces variados.
- Com licença! - Deixou cada um dos itens com cuidado na mesa e depois proferiu - Espero que aproveitem.
Ambas agradeceram e Yoko levantou os olhos da mesa para a mulher, estava surpresa ao notar que ela havia pedido o mesmo café que havia derrubado, mas não mencionou aquilo. Aproveitaram a companhia uma da outra em silêncio.
Faye limitava-se a petiscar um docinho ou outro de vez em quando, enquanto a garota devorava com vontade. Sentiu a mão quente em sua bochecha. O polegar escovava delicadamente, retirando um farelo de bolo. Fechou os olhos sentindo a quentura daquela palma quase lhe fazendo um carinho.
Envergonhada, a garota endireitou-se na cadeira e sorveu longos goles da bebida quente.
Fazendo o caminho de volta, pararam em um banco de concreto dos jardins. Ali estava mais fresco por conta das árvores que formavam grandes sombras no chão.
Com delicadeza, a menina levantou-se e retirou de dentro da mochila uma sacolinha de papel com o jaleco dentro. Esticou as mãos para entregar à sua dona, que aceitou de bom grado. A expressão da mulher estava relaxada e Yoko notou que um sorriso tímido formava-se no canto daqueles lábios.
Recordou-se do chocolate que havia comprado. Retirou as moedas douradas de um bolsinho e esticou a palma, as oferecendo.
- Quando estava vindo para cá, comprei esses chocolates para você. Gostaria que aceitasse, como pedido de desculpas - Os lábios sorriam contidos.
A doutora, entretanto, a encarou, como se não entendesse. Segundos torturantes depois, as recolheu da mão da menina. Agradeceu de forma polida e sem mais, virou as costas de forma impessoal, deixando Yoko com o calor da mão dela ainda marcado na bochecha e o gosto amargo da dúvida na boca.
Fim do capítulo
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