34 por Luciane Ribeiro
O retorno de Eve
EVE
Amanda era um fantasma que emergia sempre que minha mente fraquejava. Quando ela assumia o controle, eu me sentia como o médico e o monstro: apesar de habitarmos o mesmo corpo, eu não conhecia seus desejos nem suas ambições. Tudo o que eu sabia era o quanto ela era caótica - e isso me aterrorizava.
Eu tinha Helena.
Minha doce, intensa e frágil esposa.
Como eu poderia protegê-la de Amanda?
Amanda não me deixava ver, mas eu podia ouvir e sentir tudo. Cada palavra, cada gesto, cada intenção. Foi assim que soube do retorno da tia Dalila. Foi assim que percebi, com um nó se formando dentro de mim, que Amanda desejava Helena.
Eu senti quando as bocas se tocaram.
O desejo e a excitação de Amanda cresceram pouco a pouco, como uma maré inevitável. Uma parte de mim queria matá-la por tocar aquilo que me pertencia. Outra parte - a mais perigosa - era feita de saudade, carência e desejo. Essa parte se fortalecia quanto mais Amanda a tocava, quanto mais sentia o corpo de Helena reagir.
Então ouvi Amanda dizer:
"Só uma vez."
Naquele instante, algo mudou.
Pela primeira vez consegui acessar sua mente com clareza. O consentimento não foi pedido a Helena, muito menos a mim - foi pedido a si mesma. E então eu entendi: Amanda travava a própria batalha. Não era apenas desejo. Ela estava se apaixonando pela minha esposa.
Ouvi Helena hesitar.
"Não posso."
Senti alívio. Apesar de tudo, ela ainda era só minha.
Eu precisava voltar. Helena precisava de mim - não apenas como um eco distante em seus pensamentos, mas ali, presente, real. Forcei meu caminho de volta. Amanda não resistiu. Parecia cansada... ou talvez ferida de um jeito que eu ainda não sabia nomear.
Tentei sair da cama, ir atrás de Helena, mas minhas pernas estavam fracas demais. O corpo não respondia.
Eu teria que aguardar.
E aguardar era angustiante.
Peguei o telefone e liguei para minha avó. Precisava de conselhos. Precisava entender como lidar com Amanda antes que fosse tarde demais.
- Bom dia, vovó.
- Bom dia, Eve. Aconteceu alguma coisa? Por que está me ligando a essa hora?
- Desculpa o horário... Eu precisava conversar com alguém. E a senhora é a melhor escolha.
- Conte o que te aflige.
- Amanda - respondi, sem rodeios. - Meu maior pesadelo se concretizou.
- Ela emergiu? O que ela fez?
- Não só emergiu... ficou no controle do meu corpo por dias.
Houve um silêncio breve do outro lado da linha.
- Ela fez o que bem entendeu com o meu corpo - continuei. - E, para piorar... ela...
A frase se recusava a sair. Não sabia se era raiva ou vergonha.
- Ela o quê? - insistiu minha avó, com calma.
- Ela tocou a Helena. As duas...
- Entendo - disse ela. - Como você está se sentindo com isso?
- Com raiva. E com medo. Amanda deseja a minha Helena, vovó. O que eu vou fazer?
- Você e Helena já conversaram sobre isso?
- Não! - respondi rápido demais. - Mas ela sabia que não era eu. Como pôde deixar Amanda tocá-la?
Ali estava.
O sentimento que eu fingia não existir.
Ciúmes.
- Deve estar tudo muito confuso para ela - disse minha avó.
- Eu sei... - suspirei. - Eu sei. Mas não consigo controlar o ciúme. Só de lembrar que ela foi beijada por outra, sinto meu corpo tremer.
- Agora sim você está sendo honesta - respondeu. - No fundo, você não quer apenas proteger a Helena. Você tem medo de que ela se apaixone e ame Amanda mais do que a você.
Engoli em seco.
- O que eu vou fazer se isso acontecer? - minha voz saiu quebrada. - Eu não quero perdê-la...
- Helena te ama, Eve. Confie nela e no que ela sente. Só assim vocês conseguirão passar por isso.
Respirei fundo, tentando acreditar.
- E o que eu faço com a Amanda?
- Você precisa fortalecer sua mente e aprender a se comunicar com ela. Vocês ocupam o mesmo corpo. Queiram ou não, vão precisar de diálogo.
Antes que eu respondesse, ouvi barulho vindo da cozinha. Logo depois, o cheiro do café sendo passado invadiu o quarto. Meu coração apertou.
Helena estava acordada.
- Tenho que desligar, vovó. Vou conversar com a Helena.
- Está bem - disse ela. - Me liga depois. E mande um beijo para ela. Tchau.
Desliguei o telefone e fiquei alguns segundos encarando a tela apagada, reunindo forças. O corpo ainda parecia pesado, como se tivesse atravessado uma guerra silenciosa durante a noite.
Me arrastei até a beirada da cama e puxei a cadeira de rodas. Com esforço, consegui me sentar. As pernas tremiam, mas não era só fraqueza física - era o peso de tudo o que eu sabia que precisava enfrentar.
Fui até a cozinha. Helena estava distraída, olhando o mar pela porta dos fundos enquanto tomava café. Era uma cena bonita, quase pacífica, mas a situação tornava tudo tenso. Ela se virou ao me ouvir me aproximar. Seus olhos estavam vermelhos, carregados de medo e tristeza. Quando me encarou, viu Amanda - e, junto dela, a culpa. Deixou a caneca de lado, encostou-se na pia e suspirou. A voz saiu baixa e entrecortada, mas firme.
- A partir de agora serei apenas a sua cuidadora.Te ajudarei com as necessidades básicas que precisar , mas não terá mais longos dias de diversão na praia e em bares. Também não dormiremos mais na mesma cama, e você nunca mais vai me torturar usando meu desejo pela Eve como arma.
- Amor...
- Eve?
- Sim. Eu voltei...
O primeiro impulso dela foi vir para meus braços, mas, quando já estava perto, recuou. Como se existisse uma força invisível nos afastando. E essa força era Amanda.
- Eve... Amanda e eu...
- Eu sei. Eu senti... eu ouvi tudo. Sei que tentou resistir, mas como resistir se o rosto e o corpo são os mesmos que os meus?
- Não! Tem diferença. E, no fundo, eu sabia que não era ela. Mas fui fraca demais para resistir. Não tem desculpa para isso.
- Helena, sente-se aqui!
_Não ouviu o que eu disse?
- Ouvi. E não importa! Você é minha mulher! Não vou deixar meu alter ego do mal tirar você de mim. Vou fazer ela desaparecer, nem que eu tenha que achar um padre e exorcizá-la.
- Eve, estamos tendo uma conversa séria.
- Já conversamos. Agora quero matar a saudade enorme que estou de você. Vem, meu amor.
Ela se sentou de frente para mim. Passei os braços em sua cintura e deitei sua cabeça em meu ombro. As lágrimas começaram a descer silenciosas enquanto eu acariciava seu rosto.
- Eu te amo. Senti sua falta, Helena.
- Também senti a sua. Não me deixe sozinha com ela de novo.
- Vou me esforçar para que não aconteça. Mas, se acontecer, promete que não vai ver ela ou tocar nela quando estiver nua, ou semi nua...ou melhor. Não toque nela de jeito algum.
- Como ela vai tomar banho? Tenho certeza de que ela dá conta de se virar.
- Devo parar de te ajudar também?
- Claro que não. São alguns dos melhores momentos do meu dia.
- Já que gosta tanto, o banho de hoje à noite vai ser especial.
_Vou aguardar ansiosamente.
- Agora me deixe levantar. Você deve estar com fome, e não temos nada do que você gosta de comer. Preciso ir à padaria.
- Eu aceito você de café da manhã.
- Canibalismo é crime e te deixaria doente.
- Mas você é tão doce... aposto que eu ia gostar.
Ela acabou soltando uma risada, quase sem querer. Depois me olhou daquele jeito que sempre dizia "o que eu faço com você?".
- Vamos, amor. Me deixe levantar. Volto o mais rápido possível.
- Está bem, eu deixo você me abandonar... mas só um pouquinho. Depois vamos continuar nossa lua de mel em hibernação completa, só eu e você.
- Dramática. Te amo.
Depois de finalmente conseguir sair do meu colo, Helena começou a se vestir para ir à padaria, mas foi interrompida pela campainha, que mudou completamente meus planos de ficar grudada nela o máximo possível.
- Bom dia, Hel!
- Bom dia, tia.
- Oi, Eve! Como passaram a noite?
- Bem. E a senhora e o James?
- Quase não dormimos, mas foi uma ótima noite. Espero que não tenham tomado café da manhã, trouxe comida para um batalhão.
- Onde está o tio James?
- Terminando os preparativos para o nosso churrasco. Ele vem daqui a pouco. Ficamos preocupados com vocês.
- Por quê?
- A Eve estava confusa, e vocês pareciam não estar se entendendo.
- Não se preocupe. Agora estamos bem. Foi só efeito da bebida, já nos entendemos.
- Que maravilha!
- A senhora disse que vai fazer um churrasco?
- Se me chamar de senhora de novo, te arranco dessa cadeira e te jogo no mar.
- Entendi. Teremos churrasco, Dalila?
- Melhorou! Com certeza teremos.
James chegou logo depois, trazendo uma convidada inesperada.
- Bom dia, povo! Espero que não se importem, trouxe uma pessoa faminta para o café da manhã.
- Michele!
- Bom dia, Helena. James me disse que vocês estavam aqui, então resolvi passar para dar um oi. Como você está?
- Muito melhor do que da última vez que nos vimos.
- Isso é ótimo.
- Sentem-se e se sirvam.
- Obrigada, Eve. Você está bem?
- Sim. Obrigada por perguntar.
- Então você conhece minha tia? Por que não disse nada? - perguntou Michele.
- Era muita coisa para dizer naquele momento.
- Onde está o Nicolas?
- Quando vem para a casa dos avós, ele esquece os horários. Eles o mimam. Dormiu tarde jogando videogame e agora está dormindo com o pai.
- Vocês e o pai dele estão juntos? - perguntei, sem receio. Algo naquela história de Heitor, Michele e Letícia sempre me parecera estranho.
- Não. Mateus e eu somos bons amigos. Conheço e gosto muito da esposa dele. E ele e minha namorada às vezes me irritam de tanto falar de animes quando saímos todos juntos.
- Namorada?
Helena arregalou os olhos, completamente perplexa. Dalila gargalhou e olhou para mim como quem já sabia qual seria minha próxima pergunta.
- Posso estar errada, mas algo me diz que não. Você era apaixonada pela Letícia?
- Já que todos os segredos estão sendo revelados, não faz mais sentido esconder isso. Letícia foi meu primeiro amor. Eu era completamente apaixonada por ela.
Nós duas nos tornamos amigas e, com o tempo, algo mais surgiu. Heitor percebeu antes de mim e terminou comigo. A partir daí, Leh e eu ficamos mais íntimas, e um dia eu a beijei. Para minha surpresa, ela correspondeu, e começamos a namorar em segredo. Infelizmente, ela escolheu não enfrentar e seguiu o caminho ditado pelos pais. Sofri como uma cadela quando ela terminou comigo e começou a sair com o Davi. Quis matá-lo por engravidá-la e, mais ainda, por ter sido parte de tudo o que a matou. Mateus era meu amigo, gostava de mim. Nos envolvemos, dormimos juntos, e o resultado foi o Nicolas. Ele queria casar, mas eu me dei conta de que não adiantava fugir de quem eu sou.
- Helena?
- Estou chocada! Minha irmã era lésbica?!
- Não. Ela era o que hoje chamam de pansexual. Se apaixonava por pessoas, não por gêneros. E, já que estamos revelando segredos... sua avó, na verdade, era uma sapatão enrustida. Amava outra mulher, mas o pai dela fez com ela o mesmo que ela fez com você. Então ela cedeu e se casou com meu pai. Viveu infeliz - e fez os outros infelizes também.
_Não acredito!Ela sabia então como me sentia ,mesmo assim,fez da minha vida um inferno!!!
_Ela era amarga e ressentida ,esse era o único jeito dela se sentir melhor consigo mesma .
- Segure o queixo, querida sobrinha. Sei que as revelações foram grandes, mas tudo isso é passado. O importante é que estamos todos aqui, vivos, saudáveis e nos relacionando com as pessoas que amamos.
- E, pelo que vejo aí no seu pescoço, amor não está faltando por aqui.
- E sol também não - completou Michele. - A Helena está toda bronzeada.
Senti aquele arrepio de raiva misturado com ciúme. Aquele bronzeado que a deixava ainda mais linda não tinha sido feito ao meu lado. E o pior: aquele ch*pão definitivamente não tinha sido feito por mim. Amanda deixara sua marca - com certeza, de propósito.
Meu descontentamento devia estar estampado no rosto, pois Dalila logo se apressou em mudar o lugar e o rumo da conversa.
- Já está na hora de partirmos para a cerveja e o churrasco.
Passamos o resto do dia na casa da tia Dalila. Tentei me divertir, acompanhar as conversas, sorrir nos momentos certos, mas os comentários da manhã continuavam ecoando dentro de mim, como pequenas farpas que eu não conseguia arrancar. Mesmo cercada de gente, eu me sentia estranhamente sozinha com meus pensamentos.
Quando finalmente voltamos para casa, o cansaço físico e emocional era tanto que mal tivemos tempo de trocar palavras. Dormimos quase imediatamente, abraçadas apenas pelo hábito, não pela calma.
No dia seguinte, depois do café, voltamos para a cama. Ficamos de dengo, enroladas uma na outra, enquanto assistíamos a uma série que eu reconheci de imediato: tinha sido escolhida pela Amanda. Não era ruim - longe disso - mas definitivamente não era algo que eu escolheria. Helena, por outro lado, parecia envolvida, atenta, confortável demais. Aquilo doeu mais do que eu esperava.
Por um instante absurdo, pensei que talvez Amanda fosse realmente melhor do que eu para fazê-la feliz. A ideia me atravessou como um golpe baixo, e meu peito se apertou com força.
O ciúme começou a me consumir em silêncio. Qualquer coisa mínima que a fizesse lembrar dela - um comentário solto, uma referência banal - era suficiente para me irritar. Eu tentava disfarçar, mas não conseguia esconder completamente. Helena percebeu. Sempre percebeu.
E, naquela noite, decidiu me mostrar - sem grandes discursos, sem cobranças - que Amanda jamais ocuparia o meu lugar. Nem no seu coração, nem na sua cama. Com delicadeza e firmeza, ela tomou posse de mim de um jeito que só quem ama de verdade sabe fazer.
Fim do capítulo
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Mmila
Em: 12/02/2026
E a Helena que tem que contornar essas situações criadas pelos transtornos dissociativos....
Mas o amor dela por Eve será sempre mais forte.
Luciane Ribeiro
Em: 16/02/2026
Autora da história
Amanda veio pra sacudir completamente o relacionamento das duas.
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Joanna
Em: 11/02/2026
Gosto de ficção, esse retorno à vida de Eve, mentes brilhantes envolvidas em pesquisa e o contraditório do conservadorismo, preconceito, a religião presentes e enraizados em Helena.
Já havia visto a respeito de pessoas com inúmeras personalidades, o TDI Transtorno Dissociativo de Identidade, em tua personagem Eve.
Imagine que loucura, a Amanda se apaixonando por Helena! Genial autora.
Abr
Luciane Ribeiro
Em: 16/02/2026
Autora da história
Ola ????.Fico muito feliz que tenha achado interesse.Obrigada por ler e comentar .Grande abraço
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HelOliveira
Em: 09/02/2026
Uffa que Eve está de volta, morrendo de ciúmes,.mas acho que Helena já resolveu esse problema
Luciane Ribeiro
Em: 10/02/2026
Autora da história
Será que Amanda vai se aquietar ou vai provocar ainda mais o ciúme de Eve?Obrigada por ler e sempre comentar.Grande abraço
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Luciane Ribeiro Em: 15/02/2026 Autora da história
Menina ,vc leu tudo muito rapido .kkkkk Fiquei muito feliz com seus comentários.Vamos entrar na reta final e agora só falta um segredo pra ser revelado Depois disso sera que Amanda ainda vai conseguir brechas pra voltar?Ou será que tem algo a mais?