34 por Luciane Ribeiro
As intenções de Amanda
Minha tia saiu. Fui até a cozinha, peguei copos, taças e a garrafa de vinho. A casa dela devia ser bem perto, porque logo voltou trazendo exatamente vinte e quatro latas de cerveja - um exagero monumental, considerando que éramos apenas quatro pessoas e que, até então, eu acreditava que Amanda não beberia.
- Você quer contar ou eu conto, querida? - ele perguntou.
- Pode contar. Afinal, foi você quem se apaixonou primeiro.
- Verdade.
Ela respirou fundo antes de começar.
- Conheci sua tia em um retiro da igreja. Quando a vi pela primeira vez, ela estava confrontando o presbítero, que por coincidência era meu marido na época. Ela dizia achar ridícula a regra que proibia mulheres de cortarem o cabelo, defendia que todas deveriam poder usá-lo como quisessem. Foram tantos argumentos que o pobre homem ficou vermelho de raiva. Eu fiquei encantado... e perplexo com a coragem dela. Ninguém ousava contrariar um dos homens mais poderosos da sede.
- Foi extremamente satisfatório deixá-lo quase roxo - Dalila comentou, sorrindo. - Valeu cada reclamação que tive que ouvir do André depois.
- Amor...
- Te interrompi, né? - ela riu. - Continue.
- Depois disso, eu sempre inventava motivos para falar com ela. Não demorou para perceber que gostava dela de um jeito muito "errado". Me afastei e passei a me condenar por sentir aquilo. Eu era uma mulher casada... sentia repulsa de mim mesmo por desejar alguém do mesmo sex*.
- Durante esse afastamento, eu, que já era noiva do André, me casei e me mudei - completou Dalila.
- Sim. Isso partiu meu coração. Entrei em depressão e o desejo por liberdade começou a gritar dentro de mim. Na minha cabeça, se eu tivesse coragem de ser quem realmente era, talvez pudesse tê-la ao meu lado.
Ele fez uma pausa.
- Passei a odiar cada vez mais a pessoa que via no espelho. A doutrina deixou de fazer sentido. Parei de usar maquiagem e, num ato de ódio e desespero, cortei meu cabelo. Quando vi aqueles fios curtos, gostei. Pela primeira vez, me reconheci. Meu marido surtou. Disse que eu teria que usar peruca, porque mulher de verdade não anda com cabelo curto como homem. Quando me recusei, mandou que as irmãs conversassem comigo, me lembrando que esposa deve obediência ao marido.
Ele respirou fundo outra vez.
- Foram muitos cafés e almoços em que me lembravam dos meus "deveres" e da palavra. Aquilo só me deixava mais enfurecido e angustiado. Ninguém entendia o que eu estava vivendo. Começaram a dizer que eu estava possuído. Vieram as orações de libertação.
O silêncio tomou conta da sala.
- Nesse período, meu filho Pedro engravidou a namorada. O pai dele ficou furioso e o expulsou de casa. Meu coração sangrou, mas eu não tive forças para impedir. Pedro foi morar com um amigo.
- Que não era ninguém menos que seu irmão Heitor - completei.
- Exatamente. Heitor o acolheu porque sabia como era. Ele próprio havia saído de casa por não se dar bem com os pais.
Ele sorriu de leve.
- Quando Pedro se estabilizou financeiramente, me ligou e pediu para me encontrar. Nunca vou esquecer quando ele disse, com toda calma do mundo:
"Eu sei, mãe. Sei há muito tempo que essa não é a pessoa que você gostaria de ser. A vovó me contou que você se identificava como menino até a adolescência. Mudou por causa do meu pai. Arrumei um emprego, consegui uma casa. Quero que você e os pequenos venham morar comigo. Vou continuar te amando e respeitando, independentemente do seu gênero."
Ele enxugou os olhos.
- Chorei de orgulho pelo homem que meu filho estava se tornando. Demorei a decidir, tinha medo do que poderia acontecer se eu fosse embora. A gota d'água veio quando descobri que minha filha também estava grávida.
- Seu marido a expulsou também?
- Não. O pai da criança era o mesmo homem que engravidou sua irmã. Mas, como ele era um membro importante da congregação, tudo foi tratado de forma diferente. Admitiram o "pecado", pediram perdão. O pastor deu um tapinha nas costas dele e disse que até bons homens caem nas artimanhas do demônio. Casaram os dois antes que a barriga aparecesse.
Senti um nó se formar no estômago.
- Então... o pai do filho da sua filha é o mesmo da minha irmã. E, considerando o Nicolas aqui, a mãe do filho do seu filho é a Michele, melhor amiga da Letícia e ex-namorada do meu irmão.
- Sim.
- São coincidências demais...
- Aquele mundinho era pequeno demais. Todos faziam parte do grupo de jovens.
Ele sorriu.
- Se eu te mostrar uma foto dos meus filhos, você vai se lembrar. Minha filha se chama Sara, cantava no coral.
- Eu lembro dela... - murmurei. - E como vocês acabaram juntas?
- Fiquei devastado ao ver minha filha casada aos dezesseis anos com aquele homem. No dia seguinte, peguei as crianças e fui para a casa do Pedro. O divórcio foi um inferno. Ele tirou tudo de mim, inclusive a guarda dos meus filhos menores. Eu estava sem emprego, sem chão.
Ele olhou para Dalila com carinho.
- Foi então que ela reapareceu na minha vida. Também havia acabado de se separar, mas, ao contrário de mim, tinha controle da própria vida. Quando soube do que eu estava vivendo, me procurou e disse:
"Vai deixar que sua outra filha termine como a Sara? Se deixar seus filhos com ele, isso vai acontecer de novo."
Dalila completou:
- Ajudei ele a arrumar emprego na mesma empresa em que eu trabalhava. Meses depois, estava financeiramente estável, com casa maior e um novo advogado. Foi uma batalha dura. Tivemos que jogar sujo, ameaçando expor os segredos do pastor e de outros membros. Ele nos amaldiçoou e desistiu da guarda.
Ela sorriu de lado.
- Depois disso, começamos a nos ver com frequência. Quando ele se declarou, eu passei a ignorá-lo. Ele não desistiu e continuou tentando me conquistar. Todos os dias me ligava, mandava mensagens, às vezes aparecia pessoalmente. Eu fingia não gostar, mas gostava. Estava me apaixonando, só não queria admitir - era preconceituosa, preciso reconhecer.
No começo eu dizia que não era como ele, que jamais teria um relacionamento com alguém do mesmo sex*. Ainda assim, ele insistia. Até que, um dia, as ligações e as mensagens pararam. Ele tinha decidido fazer a transição.
Não soube mais nada dele até aparecer na minha porta dois anos depois. Fiquei estarrecida ao vê-lo. A atração foi quase instantânea. Não demorou muito para ficarmos juntas depois disso.
- Conte direito, senhora Dalila - interrompeu ele, sorrindo. - Você ainda me fez sofrer bastante antes de finalmente aceitar meu amor.
- Eu sei bem como é - respondi. - Helena partiu meu coração algumas vezes... mas, no meu caso, ela tinha motivos.
- Está bem, está bem! - Dalila suspirou. - Eu queria ficar com ele, mas sem assumir para ninguém. Tinha medo do que iam pensar e falar. Só quando ele disse que ia desistir de mim foi que decidi tocar o foda-se para todo mundo e começar a namorar sério.
- Olha a boca suja, querida.
- Desculpem, meninas. Esqueci que não estou em casa.
- Eu tenho uma curiosidade... - disse Evelyn, hesitante. - Mas não sei se devo perguntar.
- Pergunte, Evelyn. Já contamos nossos segredos. Somos praticamente família agora.
- A senhora sentiu muita diferença na hora de fazer amor?
- Evelyn!!! - reclamei, horrorizada.
- Gostei de você - Dalila riu. - Parece que temos o mesmo tipo de energia bruta.
- Também achei - respondeu Evelyn. - A mesma aura meio caótica. Ao contrário da Helena, que é uma tempestade silenciosa. A gente nunca sabe o que vem até chegar. É um bom equilíbrio.
Dalila sorriu antes de continuar:
- Respondendo à sua pergunta... Helena, cubra os ouvidos para não ficar ainda mais vermelha. Na nossa primeira vez eu estava nervosa e achei que beber ajudaria. O efeito foi o contrário. Fiquei bêbada e cheia de fogo. Ele, todo fofo, tinha decorado o quarto com flores. Eu já cheguei tirando a roupa, nem deu tempo de reparar em nada. Achei que sentiria muita falta do... você sabe. Ele até comprou um substituto, mas nem chegamos a usar. E, para ser sincera, só usamos depois para variar a rotina.
- Lena, você está da cor da sua blusa, amor - provocou Evelyn.
- Deixe de besteira, querida sobrinha. Sexo faz parte da vida. Quando eu era casada, era tudo uma chatice. Só no escuro, só do jeito "certo". Ele se satisfazia. Eu, não. Era frustrante.
- Daqui a pouco ela vai sair correndo - disse ele, rindo. - Melhor mudar de assunto.
- Até parece que elas não fazem sex* - Dalila arqueou a sobrancelha. - Eu notei o ch*pão na Evelyn. Parece que a doce Helena não é tão doce assim na cama. Estou errada?
- Está certíssima - respondeu Evelyn, sem pudor. - Helena é... surpreendente.
- Evelyn!!!
- Isso aí, Heleninha - Dalila piscou. - Deixa a titia orgulhosa.
_Eu tento ser uma cientista responsável, mas olha pra ela. Minha mulher é linda. Ela me transforma numa grande pervertida.
- Não tem nada de errado em ser tarada na sua própria mulher. Na verdade, isso é ótimo.
- Escuta sua tia, Helena. Ela sabe das coisas!
- E você, Eve? Também quer devorar sua gata sempre que pode?
Ela riu, um riso torto, meio embriagado.
- Eu até queria... mas existem linhas que não devem ser cruzadas.
- O que isso quer dizer?
- Fico muito tentada quando vejo ela nua, mas ela não me pertence. A chata da Eve surtaria se eu encostasse um único dedinho na mulher dela com segundas intenções.
- Eu já disse que sou fiel à Eve...
James franziu a testa.
- Acho que vocês estão bêbadas. Isso não está fazendo nenhum sentido.
Ela passou a mão pelos cabelos, claramente confusa, e falou mais baixo:
- Eu queria te beijar... Não quero ser namorada nem esposa como a Atena. Mas tem vezes que, quando olho pra você, só consigo pensar em beijar e tirar suas roupas...
Ela fez uma pausa, como se aquilo a assustasse.
- Eu não faço isso porque tenho certeza de que não sou eu quem deseja. É ela influenciando minha mente. É tudo culpa da Atena!
- Quem é Atena? - Dalila perguntou, com calma demais para aquela revelação.
- A Eve!
- Mas... a Eve não é você?
- Não! Ela pode beijar a Helena. Eu não!!
James respirou fundo.
- Ih, amor... acho melhor encerrarmos a bebedeira. Nossa anfitriã já nem lembra mais de quem é.
- Tem razão, querido. Já está tarde. Hora de irmos.
Meu peito apertou.
- Não vai embora, tia... Tenho tanta coisa pra contar.
- Amanhã é outro dia, Hel. Agora que nos reencontramos, não vou mais me afastar de você.
- Promete?
- Prometo.
Acompanhei minha tia e James até o portão. Uma chuva leve começou a cair. Perguntei se queriam um guarda-chuva, mas eles disseram que era perto e que a chuva estava refrescante.
Voltei para a sala me sentindo péssima. Amanda já não estava mais ali.
Fui até a varanda à sua procura. Quando cheguei à porta, a vi caída na grama. Corri até ela, assustada.
- O que aconteceu?
- Estou bem, Helena. Só queria sentir a chuva.
Achei aquilo estranho, mas me deitei ao seu lado. A chuva mansa começou a molhar meu rosto. Pensei que me sentiria incomodada, mas acabei gostando. O silêncio entre nós foi quebrado por um soluço. Depois outro. Ela estava chorando.
Sentei-me. Ela tentou disfarçar, mas os soluços vinham um atrás do outro.
- Por que está chorando?
- Nada... devo estar bêbada. Só isso. Me ajuda a levantar.
Ela estendeu os braços. Ajudei-a a se erguer, mas ao tentar caminhar, as pernas simplesmente não obedeceram. Já tinham atingido o limite de esforço daquele dia.
Aproximei-me e a peguei no colo. Ela me olhou por alguns segundos antes de pedir:
- Me coloca no chão.
- Não. Vou te levar para onde você quer ir.
- Então... me leva pra dentro. Preciso de um banho.
- Tá bom.
A expressão dela era uma incógnita. Eu não sabia dizer se estava com raiva, decepcionada ou apenas triste. Dentro de mim, a saudade de Eve crescia a cada minuto. Tudo o que eu queria era estar agarrada à minha esposa, como nos dias antes de Amanda surgir.
No quarto, ajudei-a a tomar banho e depois a coloquei na cama. Em seguida, peguei minhas coisas e fui para o banheiro. O chuveiro foi a única testemunha das minhas lágrimas. Apesar de ela estar a poucos metros de mim, a sensação era de uma distância imensa.
Queria conversar. Queria pedir que Eve voltasse. Mas concluí que seria melhor deixar isso para depois de uma boa noite de sono. Estávamos bêbadas e irritadas uma com a outra.
Quando voltei ao quarto, ela assistia à série que eu tinha começado pela manhã. Deitei ao seu lado e me cobri. Ficamos em silêncio até o fim do episódio. Virei-me para dormir. Ela desligou a TV e se aconchegou em mim.
A respiração lenta em minha nuca me causou uma sensação estranha. Eu devia ter reclamado, mas estava carente... e bêbada.
Amanda colocou uma das mãos em minha barriga e foi descendo, do mesmo jeito que tinha feito no chuveiro.
Virei-me para ela e a beijei.
Ela correspondeu. O beijo foi ficando profundo e quente à medida que suas mãos percorriam meu corpo. Minha mente gritava para que eu parasse. Não era Eve - eu sabia disso -, mas meu corpo a via, a sentia, e reagia como se fosse. Amanda ficou por cima de mim, começou a beijar meu pescoço enquanto suas mãos subiam pela minha blusa até retirá-la. Parou por alguns instantes, apenas me observando, desejando.
- Uma vez - ela murmurou, antes de voltar a me beijar.
Minha pele se arrepiava a cada toque. Aquilo era um erro, e eu precisava ser forte. Não fui. Sem resistência, eu estava me entregando, sentindo, desejando mais. No entanto, quando sua mão entrou na minha calcinha, algo em mim despertou. Recuei bruscamente, retomando a consciência do que estava prestes a fazer.
- Não posso!
Saí do quarto - e da casa - como se aquelas paredes estivessem me sufocando.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
HelOliveira
Em: 27/01/2026
Quase que Amanda conseguiu.....Será que agora a Eve volta, ou vai ficar pior ainda?
Luciane Ribeiro
Em: 27/01/2026
Autora da história
Foi por muito pouco ...até quando ela vai conseguir resistir.
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