Capitulo 19 Manoela e Eiriene
Cap 19
Eiriene e Manuela
Eiriene encostou-se à parede fria do hospital como quem precisa de algo sólido para não cair.
O corredor ainda fervilhava de passos apressados, mas, pela primeira vez desde a notícia do atentado, ela sentiu o corpo pedir silêncio.
Foi quando percebeu a mulher sentada alguns metros adiante.
Não chorava.
Não falava ao telefone.
Não se movia.
Havia em Manuela uma contenção antiga, reconhecível apenas por quem já precisou ser forte cedo demais.
Eiriene aproximou-se devagar.
— Você é a irmã do Otávio, não é? — perguntou, com a voz baixa.
Manuela ergueu o olhar. Os olhos estavam vermelhos, mas secos.
— Sou. — respondeu. — Manuela.
Eiriene sentou-se ao lado dela. Não por educação. Por instinto.
— Sinto muito pelo que aconteceu. — disse. — Ninguém deveria passar por isso.
Manuela respirou fundo antes de responder, como se organizasse algo dentro de si.
— Eu já passei por outros sustos. — falou, sem dureza. — Quando a gente cresce rápido demais, aprende a esperar o pior… mesmo torcendo pelo melhor.
Eiriene virou o rosto para ela.
— Você parece muito calma para alguém que quase perdeu o irmão.
Manuela sorriu de canto. Um sorriso sem alegria, mas honesto.
— Minha mãe morreu no parto do Otávio. — contou. — Eu tinha vinte anos. Ele nasceu… e ela se foi. — fez uma pausa curta. — Desde então, acho que meu corpo aprendeu a ficar de pé enquanto o coração corre por dentro.
A frase atingiu Eiriene como um sopro inesperado.
Ela reconhecia aquele mecanismo.
Sobreviver por fora enquanto tudo sangra por dentro.
— Ele sempre foi só seu? — perguntou.
— Sempre. — respondeu Manuela. — Não por escolha bonita. Por necessidade. — olhou para frente novamente. — Mas ele cresceu bom. Gentil. Isso… isso faz tudo valer a pena.
Eiriene sentiu algo estranho apertar-lhe o peito.
Não era tristeza.
Era respeito.
— Minha filha… — começou, hesitando — …também carrega coisas que não escolheu. Às vezes tenho medo de não ter conseguido protegê-la o suficiente.
Manuela virou-se para ela com atenção plena.
— A senhora está aqui. — disse. — Isso conta mais do que imagina.
O silêncio entre as duas não foi constrangedor.
Foi acolhedor.
Por alguns minutos — poucos, quase roubados do caos — Eiriene não foi a herdeira de um passado brutal, nem a estrategista de uma guerra iminente. Foi apenas uma mãe cansada sentada ao lado de outra mulher que aprendera cedo demais a sustentar o mundo.
E naquele instante, sem perceber, Eiriene admirou Manuela.
Não pela força ostensiva.
Mas pela dignidade silenciosa.
Quando se levantou para voltar ao corredor, Eiriene sabia:
nem todo vínculo nasce do sangue.
Dias depois
A recuperação de Melinda foi mais rápida do que os médicos previram.
O corpo cicatrizava melhor do que o esperado — talvez porque não estivesse sozinho.
Sofia estava ali todos os dias.
Não como quem vigia.
Mas como quem permanece.
Havia horas inteiras em que não diziam nada. Trabalhos abertos, relatórios esquecidos sobre a mesa, café esfriando sem reclamação. Às vezes, Sofia lia enquanto Melinda atualizava provas. Em outras, ficavam lado a lado diante da janela do apartamento, observando a cidade como se aquele silêncio fosse um idioma recém-descoberto.
Era íntimo.
E não exigia nome.
Naquela tarde,Sofia teria reunião com a matriz e Melinda saiu sozinha pela primeira vez. Iria visitar otavio .Poucos metros apos a saida do predio o corpo ainda cauteloso, a mente confiante demais para o próprio bem. O céu estava claro — claro demais para lembrar tragédias — e talvez por isso o susto tenha sido tão violento.
O som veio seco.
Um escapamento estourando na esquina.
Não houve tempo para pensar.
O ar sumiu.
O peito fechou.
As mãos começaram a tremer antes mesmo que Melinda entendesse o que acontecia. As pernas cederam, e ela sentou-se no meio-fio, o coração disparado como se fugisse de algo invisível.
— Ei… ei, respira comigo — disse uma mulher que passava, ajoelhando-se à sua frente.
Melinda tentou responder, mas não conseguiu. O telefone escorregou de seus dedos. A tela permaneceu acesa.
Contato recente.
Sofia.
— Vou ligar pra ela, tudo bem? — perguntou a mulher.
Melinda não respondeu. Mas assentiu.
Sofia estava em videoconferência com a matriz quando o telefone vibrou.
Um número que já não saía de seus pensamentos.
Ela sorriu, quase sem perceber.
— Oi, está tudo bem? — atendeu.
— Desculpa ligar assim… — a voz era apressada, carregada de choque. — Sua amiga teve um… ataque. Acho que é isso. Ela não consegue respirar direito.
Sofia não pediu detalhes.
— Onde ela está?
Levantou-se antes mesmo de avisar. Saiu do enquadramento da câmera enquanto protestos em grego e inglês se atropelavam no alto-falante.
— Sofia, isso é inaceitável! — a voz de Antônio atravessou a sala virtual. — Você está interrompendo uma deliberação estratégica.
Ela parou.
Olhou direto para a câmera.
— Estratégia não salva vidas, Antônio. Pessoas salvam.
Desligou.
— Gui, leva pra casa da Melinda. Agora.
Quando chegou — cerca de vinte e cinco minutos depois — Melinda estava pálida, os olhos marejados, respirando em soluços curtos. Sofia ajoelhou-se diante dela sem pensar.
— Olha pra mim. — disse, firme e suave ao mesmo tempo. — Só pra mim.
Segurou-lhe o rosto com as duas mãos.
— Inspira comigo. Agora. Isso. De novo.
Aos poucos, o corpo de Melinda obedeceu. O caos interno foi cedendo lugar à presença concreta daquela voz.
Quando conseguiu falar, Melinda sussurrou:
— Eu… eu pensei que estava lá de novo.
Sofia não perguntou onde era “lá”.
Ela sabia.
— Você não está. — respondeu. — E mesmo se estivesse… eu chegaria.
O silêncio que se seguiu não era mais vazio.
Era revelador.
Melinda apoiou a testa no ombro de Sofia.
— Eu não liguei pra você. — disse, quase envergonhada. — Alguém ligou.
Sofia sorriu de leve.
— Ainda assim… eu vim.
Não houve beijo.
Nem promessa.
Mas algo se assentou entre as duas com a solidez de uma decisão.
No hospital, Otávio já não corria risco imediato.
Os médicos falavam em recuperação lenta, porém consistente. O corpo ainda frágil, mas respondendo. O atentado não o vencera — apenas o obrigara a parar.
Manuela estava sentada ao lado da cama quando Eiriene entrou.
Não anunciou a chegada.
Não pediu permissão.
Manuela ergueu o olhar, surpresa contida nos olhos cansados.
— Senhora Eiriene…
— Posso? — perguntou, apontando discretamente para a cadeira.
Manuela assentiu.
Eiriene observou Otávio por alguns segundos. O peito subindo e descendo com esforço, havia ainda fios presos aos monitores, a juventude atravessada cedo demais pela violência.
— Ele é forte. — disse. — Mais do que imagina.
Manuela respirou fundo.
— Ele sempre foi e logo estará em casa.
Houve uma pausa curta. Densa.
— Vim saber como ele está. — continuou Eiriene. — E voce tambem, como esta ? Parou tudo para ficar com ele não aceitando nossa ajuda para deixar um segurança
— Eu não saberia fazer diferente.
Eiriene a olhou com atenção — a mesma atenção silenciosa de dias antes.
— Nem todo mundo permanece. — disse. — Mas quem permanece… muda destinos.
Manuela não respondeu.
Mas algo em seu rosto suavizou.
Grécia
Antônio arremessou um copo contra a parede.
— Ela me desligou. — disse, o sorriso tenso de quem odeia perder controle. — Por causa dela.
O assessor tentou dizer algo, mas Antônio ergueu a mão.
— Não é amor. — continuou. — É distração. E distrações custam caro.
O olhar escureceu.
— Ninguém me coloca em segundo plano. Ninguém.
Do outro lado do oceano, Sofia segurava a mão de Melinda enquanto caminhavam devagar de volta para casa.
No hospital, Manuela ajeitava o cobertor do irmão enquanto Eiriene se levantava para sair.
E, em lugares diferentes, todas sabiam:
aquilo que sentiam já não era silêncio.
Era escolha.
E escolhas — naquela família — sempre tiveram preço.
Fim do capítulo
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