Capítulo 20

Capitulo 20 LINHA DE VISAO

de O MAR DE PEDRA, por Alkssa45

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CAPÍTULO 20 — LINHA DE VISÃO

Presente — Grécia

Antônio não andava.

Ele orbitava o próprio pensamento.

— Não se trata de desejo. — disse, enfim, sem elevar a voz. — Desejo é raso demais para explicar isso.

Os homens à sua frente aguardavam. Sabiam quando interromper era erro.

— Melinda nunca percebeu. — continuou. — Nunca houve nada que pudesse ser chamado de… tentativa.

— Então ela não sabe que você… — o advogado parou no meio da frase.

— Que eu a quis? — completou Antônio. — Não. E isso é fundamental.

Apoiou as mãos na mesa.

— Ela sempre me viu como primo distante. Um sobrenome. Um cargo. — o canto da boca se contraiu. — Nunca como alguém central.

— E isso foi um problema? — perguntou o estrategista.

Antônio sorriu. Não havia humor ali.

— Para alguém como Melinda, talvez não. — disse. — Para mim, foi o início de tudo.

Serviu-se de uísque.

— Ela acredita que felicidade é escolha. — continuou. — Que basta seguir o impulso certo.

Levantou o olhar, firme.

— Eu acredito que felicidade é direção. E só ao meu lado ela estaria onde deveria estar.

Silêncio.

— Mesmo sem saber disso? — arriscou o advogado.

— Principalmente por não saber. — respondeu Antônio. — Algumas verdades não se anunciam. Se impõem.

Sete anos antes

Melinda fechou a pasta com calma.

— Eu já decidi, pai.

Damon a observou por alguns segundos antes de responder.

— A decisão não é simples assim.

Ela tinha vinte e três anos.

Formada. Segura demais para a idade.

E cansada de conversas circulares.

— Para mim é. — disse. — Eu não vou para a Stravos.

Damon respirou fundo.

— Você conhece a empresa. Cresceu vendo isso tudo ser construído.

— Justamente por isso. — respondeu ela. — Eu sei o que exige. E sei o que me custaria.

Ele a encarou.

— Magistratura, então?

Melinda assentiu.

— É onde faço sentido.

Houve silêncio. Não ruptura. Mas frustração contida.

— Venha à reunião hoje. — disse Damon, por fim. — Não como herdeira. Como alguém que entende o peso do que está recusando.

Ela aceitou.

Não para reconsiderar.

Mas para encerrar o assunto com dignidade.

A sala da Stravos exalava importância.

Antônio estava ali.

Sabia exatamente onde sentar.

Quem observar.

Quem ignorar.

Quando Melinda entrou, ele a reconheceu de imediato.

Não porque fosse rara — embora fosse bela de um modo que não pedia permissão —

mas porque não carregava o mesmo excesso dos outros.

O vestido era simples.

O olhar, direto.

O corpo, confortável em si.

Ela sabia que ele era seu primo.

Sabia do sobrenome.

E exatamente por isso… não se impressionou.

Antônio percebeu o instante em que ela o identificou.

Um segundo apenas.

Um reconhecimento neutro.

Sem curiosidade.

Sem reverência.

Aquilo o atingiu mais do que uma recusa explícita.

Durante a reunião, Melinda falou pouco. Mas quando falou, todos ouviram.

Antônio observava.

A linha do pescoço quando ela se inclinava para os documentos.

A maneira como prendia o cabelo distraidamente.

A serenidade de quem não disputa espaço — ocupa.

Ela nunca o olhou diretamente.

Para Melinda, ele era parte do cenário.

Ao final, ele se aproximou.

— Antônio. — disse, seguro de que o nome bastaria.

— Eu sei. — respondeu ela, apertando-lhe a mão. — Você é filho de Cleon.

Nada mais.

Nenhuma deferência.

Nenhum interesse.

— Você poderia fazer diferença aqui. — comentou ele.

Melinda sorriu. Educada. Distante.

— Eu já faço diferença onde escolhi estar.

Virou-se para o pai e saiu.

Antônio ficou parado.

Não humilhado.

Desalinhado.

Pela primeira vez, percebeu que havia alguém fora do alcance imediato do que ele representava.

E isso não passou.

Se aprofundou.

Presente

— Desde então, eu observei. — disse Antônio, como quem enumera fatos banais. — A carreira. As escolhas. Os afastamentos.

O estrategista estreitou os olhos.

— Observou como?

Antônio deu de ombros.

— O suficiente.

Caminhou até a janela.

— Melinda sempre acreditou que era invisível para mim. — disse. — E isso foi conveniente.

Virou-se.

— Eu a conheço melhor do que ela imagina. E melhor do que essa mulher jamais conhecerá.

— Você fala como se fosse guardião. — comentou o advogado.

— Eu sou. — respondeu, sem hesitar. — Mesmo que ela ainda não saiba.

Fez uma pausa curta.

— Ela acha que encontrou amor. — disse. — Mas encontrou desvio.

O olhar endureceu.

— E desvios… — concluiu — …eu corrijo.

Enquanto isso, em outro continente, Melinda caminhava tranquila, sem saber que, para Antônio, ela nunca foi ausência.

Foi linha de visão.

E quem vigia demais

aprende a confundir cuidado

com posse.

 

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

1
Z

Zanja45

09/02/2026 às 02:26

Por que Antônio tem essa possessividade toda em relação a Melinda?

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