Capitulo 18 O QUE ACONTECE QUANDO MUNDO DORME
Capítulo — O que Acontece Enquanto o Mundo Dorme
Sofia foi buscar Melinda para levá-la até o quarto de Otávio.
Era isso.
Apenas isso.
O corredor estava silencioso demais para um hospital que ainda sangrava histórias. A luz fria não alcançava totalmente o quarto semiaberto onde Melinda dormia — vencida pelo cansaço, pelo susto, pela vigília que o corpo humano não sustenta por muito tempo.
Sofia parou à porta.
Melinda dormia sentada de lado, parcialmente recostada na cama vazia ao lado, os dedos ainda entrelaçados no lençol como se temesse perder alguém mesmo em sonho. O rosto estava relaxado de um jeito que só quem confia profundamente no silêncio consegue alcançar.
Sofia sentiu o peito apertar.
Ela não dormia assim desde…
Não terminou o pensamento.
Aproximou-se devagar, quase pedindo licença ao ar. Tocou de leve o braço de Melinda para acordá-la — desistiu. Algo naquele abandono calmo era precioso demais para ser interrompido.
Então aconteceu.
Não foi decisão.
Foi gesto.
Sofia inclinou-se, com cuidado quase solene, como quem atravessa um limite invisível. O roçar dos lábios foi breve, suave — um toque que não acorda, mas confessa.
E o mundo respirou.
Não houve eletricidade exagerada, nem sobressalto. Houve outra coisa:
um encaixe silencioso, um reconhecimento antigo demais para ter nome.
Sofia afastou-se de imediato, o coração batendo como se tivesse sido descoberta por si mesma.
— Idiota… — sussurrou, não com culpa, mas com espanto.
Melinda se mexeu. Franziu levemente a testa. Não acordou.
Sofia passou os dedos pelos próprios lábios, como se precisasse confirmar que aquilo tinha acontecido.
Isso muda tudo, pensou.
Ou talvez só revele.
Minutos depois, Melinda acordou com a voz baixa de Sofia chamando seu nome.
— Mel… precisamos ir ver o Otávio.
Ela piscou, confusa, depois assentiu, ainda meio perdida entre sonho e realidade.
— Ele…? — a voz saiu tensa.
— Está estável. Mas acordado. E perguntando por você como se o mundo dependesse disso.
Melinda levantou num pulo, o cansaço esquecido.
No quarto ao lado, Otávio estava pálido, tubos e curativos contando a história que ele ainda não conseguia narrar. Dois tiros. Um corpo jovem desafiando a estatística.
— Ei… — ele sorriu torto quando a viu. — Achei que você tinha desistido de mim.
Melinda atravessou o espaço em dois passos, segurando-lhe a mão com força demais.
— Nunca mais brinca com isso.
— Prometo só quase morrer da próxima vez — respondeu, arrancando dela um riso molhado.
Sofia observava em silêncio.
Viu ali algo que reconhecia:
amor que não pede nada em troca.
presença que sustenta.
E entendeu, com uma clareza que assustava, que o gesto no quarto não fora impulso. Fora consequência.
Quando Melinda se virou para ela, os olhos ainda úmidos, houve um segundo de suspensão. Um quase. Um talvez.
Sofia desviou primeiro.
Ainda não era hora.
Mas agora…
já era verdade.
Fim do capítulo
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